Entrevista: Orlando Senna, Lara Belov e Jamille Fortunato falam sobre “O Amor Dentro da Câmera”

entrevista por João Paulo Barreto

A casa nos convida a entrar e a se sentir à vontade e confortáveis. Aconchegante, a luz do sol toca os cômodos do mesmo modo vagaroso como nossos olhos tocam aquele ambiente anfitrião de boas-vindas. As paredes, com quadros, livros e memórias vivas, nos abraçam. Memórias vivas, aliás, define o caráter tenro como as lembranças afetivas de duas almas gêmeas serão desnudadas e compartilhadas com a audiência. Tempo e memória. Tempo não linear, mas circular, como define Orlando Senna ao falar de sua relação com a passagem dos anos. Passar das décadas que é ilustrado pela lente das diretoras Lara Beck Belov e Jamille Fortunato, que, a partir da rotina de Conceição Senna e seu companheiro de vida, surge em uma colagem de momentos marcantes em fotos antigas. Registros que destacam a cumplicidade de ambos tanto no aspecto pessoal, quanto dentro da identidade de cinema brasileiro que ajudaram a construir. É nesta brecha que revive momentos que adentramos.

Orlando Senna, ao aprofundar essa impressão do transcorrer do tempo como um modo circular de passagem, relembra um momento familiar. “No último almoço que tive com minha mãe, pouco antes dela morrer há alguns anos, quando estávamos todos festejando seu aniversário, ela disse, de repente: ‘A vida é curta.’ E aí, imediatamente, ela repensou e disse: ‘Aliás, não. A vida não é curta. A vida é longa, mas é muito veloz.’ É essa sensação que eu tenho com relação ao tempo. É que ele é de uma velocidade incrível para a gente. Jovens não notam isso, por exemplo. Para os jovens, o tempo é uma coisa que tem uma velocidade, digamos, normal”, explica o cineasta, às vésperas de completar 81 anos de idade, no próximo 25 de abril.

O documentário “O Amor Dentro da Câmera” (2021) permite essa constatação de uma maneira cuja velocidade citada por Orlando se faz perceptível, mas a placidez com que a audiência absorve tal trajetória, nos momentos de revisitas pelo próprio casal, suaviza tal fugacidade dos anos. Orlando e Conceição Senna se conheceram em 1961, quando ele gravava seu primeiro curta-metragem, “Feira”. A paixão imediata os levou a uma vida juntos e nela participaram de movimentos como o Cinema Novo, o Cinema Marginal e o Nuevo Cinema Latino Americano. Cultivaram amizades com nomes como Fernando Birri e Gabriel Garcia Marques, com quem Orlando co-fundou a Escola de Cinema de Cuba, da qual foi diretor. Nos anos 1970, Orlando co-dirigiu, ao lado de Jorge Bodanzky, “Iracema – Uma Transa Amazônica”, além de “Gitirana”, outro marco. Conceição atuou em obras fundamentais do cinema baiano, como “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreira”, de Glauber Rocha, e “Caveira my Friend”, de Álvaro Guimarães. Como diretora, tem três documentários na sua filmografia, além de dois livros, tendo atuado, também, como apresentadora na TV de Cuba, além de lecionado na escola cubana.

Conceição Senna, infelizmente, faleceu em maio do ano passado, aos 83 anos. Com sua partida, o filme de Lara e Jamille passa a carregar ainda mais importância como registro de momentos que se tornaram os últimos da atriz e diretora captados por uma câmera. Em um deles que, por conta dessas coincidências inexplicáveis, se tornou o último registro tanto de todo o processo de produção quanto a última cena na montagem final do longa, o casal se abraça, sentados no sofá de sua casa, pouco depois de Conceição brincar sobre a sensação de, “como peteca”, ser jogada para o passado e para o futuro em sua trajetória de vida.

Para Orlando, revisitar, sem Conceição ao seu lado, “O Amor Dentro da Câmera” foi uma tarefa difícil, mas que ele, após um tempo, conseguiu fazer. “São as artimanhas da vida que constroem isso na gente. No início, logo quando ela se foi, eu não conseguia nem ver o filme, porque me emocionava muito. Mas agora eu já posso vê-lo com tranquilidade. E exatamente essa cena… Não só a cena, mas também essa informação que está no filme. Informação que está lá de uma maneira muito sutil. No momento em que ela aparece, agora que eu já consegui ver o filme sem toda a melancolia em cima de mim, eu acho uma coisa muito bonita que tenha acontecido. Principalmente isso (de ser) a última cena do filme, a última cena gravada, a última cena da vida dela,” salienta Orlando.

“O Amor Dentro da Câmera” passou por um processo de construção delicado até se consolidar como um trabalho que capta com esmero a intimidade e a cumplicidade de seus protagonistas. Contemplado pelo edital Rumos Itaú Cultural, o filme recebeu Menção Honrosa Especial na edição desse ano do BAFICI. Mas quando ainda era apenas um embrião, o projeto representou um desafio para Lara e Jamile em se lançarem no registro da vida de Conceição e Orlando. Amigas de longa data do casal, elas se propuseram a captar aquela trajetória, mas sabiam que a história de ambos (que passou por décadas e diversos países, além de nomes de peso do cinema, literatura e teatro), se seguisse por uma estrutura convencional de documentários, poderia se tornar uma tarefa árdua e quase impossível de captação. Além disso, tal mergulho em uma história de vida tão repleta de profundidade poderia trazer para elas, que já tinham uma amizade com ambos, certa insegurança.

Jamille explica: “Nós nutríamos a vontade de fazer um filme sobre eles. Só que as histórias que ouvíamos dos dois, sabíamos que passavam pela América Latina, por outros países, por diversas pessoas e personalidades. Era muita gente e muitos lugares. Ficávamos nos perguntando como iríamos fazer um filme sobre eles tendo que falar com tantas pessoas e ir para tantos lugares. E até que em 2016, ao invés de ficar pensando em como, decidimos começar a fazer. Falamos: ‘Vamos dar um ponta a pé inicial? Acho que quando a gente começar, vamos entender qual filme temos que fazer'”, relembra a co-diretora e acrescenta: “(Decidimos) fazer do particular para o geral. Fazer um filme só com eles dois dentro da casa deles. E se formos sair dali, saímos através de imagem de arquivo, de memória”.

Lara aborda esse possível sentimento: “A insegurança faz parte da vida. É uma mistura de vontade e medo ao mesmo tempo, mas que, nessa equação, a vontade é muito maior. Então, existe um frio na barriga no fazer. Acho que não só no fazer desse filme, mas é algo do próprio viver, mesmo. Na vontade de realizar, de fazer algo na vida. E, na vida, decidimos contar a história de Conceição e de Orlando. Essa história de amor, essa história do cinema. Para mim, uma coisa que sinto, é que essa insegurança e esses medos possíveis foram resolvidos a partir do afeto. A partir do amor. Sinto que, para mim, este foi o caminho de resolver isso”. Orlando Senna, Lara Beck Belov e Jamille Fortunato conversaram longamente com o Scream & Yell sobre vida, tempo circular e sobre o amor, evidenciado de modo tão cativante em “O Amor Dentro da Câmera”. Confira o papo!

Orlando, o filme de Lara e Jamille abre em um prólogo com um belo momento de intimidade entre você e Conceição, com ela se emocionando ao cantar uma canção que você compôs para ela. Após vermos diversas fotos da vida em conjunto de vocês dois e uma montagem com vários trabalhos no cinema, você fala sobre a não linearidade do tempo. Pensando neste aspecto circular do tempo, qual o peso que você sente ao observar a sua trajetória e a de Conceição através da lente de Lara e Jamille em “O Amor Dentro da Câmera”?
Orlando Senna – No último almoço que tive com a minha mãe, pouco antes dela morrer há alguns anos, quando estávamos todos festejando no aniversário dela, ela disse, de repente: “A vida é curta.” E aí, imediatamente, ela repensou e disse: “Aliás, não. A vida não é curta. A vida é longa, mas é muito veloz.” Então, é essa sensação que tenho com relação ao tempo. É que ele é de uma velocidade incrível para a gente. Jovens não notam isso, por exemplo. Para os jovens, o tempo é uma coisa que tem uma velocidade, digamos, normal. Esta velocidade da vida. E não tem nada na frente que possa fazer com que essa velocidade mude ou que as pessoas possam controlá-la. Isso é uma visão das pessoas mais jovens. Mas a partir dos 40, 45 anos, eu acho, a gente começa a perceber o movimento do tempo. Começa a perceber isso, evidentemente, mais do que em qualquer outro lugar ou qualquer outra circunstância. Começa a perceber isso com o andamento da nossa própria vida. Como, realmente, é de uma velocidade inacreditável. Esse é o meu sentimento com relação ao tempo. E se soma ao que você mencionou, ou seja, que o tempo não é uma linha reta. É uma circularidade. Isso, também, a gente só se dá conta com um pouco mais de idade do que quando chegamos à maturidade. Quer dizer, quando é que se chega à maturidade? Dizem que aos 40, realmente. Antigamente, se dizia que se nasce outra vez aos 40 anos. Essa circularidade é muito fácil de você notar, por exemplo, no que está acontecendo com o Brasil. Se o tempo fosse linear, nós não estaríamos dando essa volta aos tempos horrorosos da ditadura militar. Nós estamos em uma situação, inclusive, psicologicamente, pior. Mais ameaçadora do que quando se instalou a ditadura militar, lá nos anos 1960. Na ditadura militar, a gente sabia quem era o inimigo, digamos assim. Sabia a quem combater. Sabíamos por quem estávamos sendo caçados. Atualmente, quando o tempo deu de novo um dos seus giros, temos outra sensação. Uma sensação de absoluta insegurança. Não sabemos o que vai acontecer amanhã. Não sabemos para onde um governante louco, um governante para quem a vida humana não tem nenhum valor, vai nos levar. Ou seja, mais uma vez, o tempo deu uma de suas voltas, retornando. Mas, claro, esses retornos, essas curvas da vida, a existência de uma maneira geral, elas não se repetem exatamente igual. Cada giro tem a sua característica, digamos assim. Mas são voltas do tempo. Um vai e volta do tempo.

Lara e Jamille, a amizade de vocês duas com Conceição e Orlando vem de longa data. Ao sentar-se com eles para propor a ideia do filme, bateu alguma insegurança na necessidade de separar a amizade do ídolo? De pessoas por quem vocês nutrem uma admiração gigante como artista, mas que, também, são pessoas próximas em termos de intimidade, de amizade. Houve uma separação de vocês ou alguma insegurança nesse sentido e que acabou sendo superada na produção do filme?
Jamille Fortunato – Acho que no começo, principalmente, sim. Nós, tanto eu como Lara, já nutríamos a vontade de fazer um filme sobre eles. Só que era assim… as histórias que ouvíamos e sabíamos dos dois, nós sabíamos que passavam pela América Latina, por outros países, por diversas pessoas e personalidades. Era muita gente e muitos lugares. E ficávamos nos perguntando como iríamos fazer um filme sobre eles tendo que falar com tantas pessoas e ir para tantos lugares. E até que em 2016, resolvemos, ao invés de ficar pensando em como, decidimos começar fazer. Falamos: “Vamos dar um ponta a pé inicial? Acho que quando a gente começar, vamos entender qual filme temos que fazer”. E aí quando fomos conversar com eles, Lara estava morando em Buenos Aires, e eu morava no Pantanal. Ligamos para eles e falamos: “Podemos ir aí? Tipo, semana que vem para começar a filmar vocês?” Eles disseram as datas, nós olhamos as nossas agendas, compramos passagens e fomos para lá. E nesse primeiro momento ficamos uma semana lá, filmando e conversando. Neste primeiro momento, não tínhamos muita coisa definida. O que tínhamos definido era que, para resolver a nossa situação, a nossa questão inicial de como fazer um filme sobre duas pessoas que circularam o mundo e conheceram milhares de pessoas, seria a gente mudar isso. Vamos fazer do particular para o geral. Vamos fazer um filme só com eles dois dentro da casa deles. E se formos sair dali, saímos através de imagem de arquivo, de memória. Então, tínhamos definido isso antes de ir. E quando chegamos lá, a princípio, a gente também tinha essa ideia de que eles que nos ensinaram, de certa maneira, a dar os primeiros passos no cinema. Então, isso tinha que fazer parte desse processo criativo, também. E no começo, as imagens que você vê no filme, em que Conceição está com o cabelo vermelho, são as imagens de 2016. Éramos somente eu e Lara fazendo tudo. Áudio, produção, direção. Então, nesse começo, a gente queria que fosse mais esse processo coletivo. Não que não tenha sido, entendeu? (risos) Não que não tenha sido de certa forma. Mas, no começo, a gente abriu mais essa possibilidade. Até a gente entender melhor qual caminho gostaríamos de seguir. E depois, em 2018, 2019, voltamos lá, e abrimos, também, para eles, óbvio. Porque não tem como não abrirmos o espaço. E eles foram extremamente generosos todas as vezes. Mas eles começaram, também, a empurrar, assim, para a gente. “Não. Façam vocês. Decidam vocês”. (risos). Então, era uma coisa assim, também, a gente tentando dirigir, dando espaço para eles dirigirem, e eles fingindo para nós que a gente estava dirigindo. Tudo certo! (risos gerais).

Lara Beck Belov – Respondendo um pouco a essa pergunta e ouvindo a resposta da Jamille, me vieram, também, algumas coisas à cabeça. Tanto em relação a isso da insegurança, pela admiração, quanto passando pelo clichê e pelo tempo, que foi a pergunta inicial para Orlando. Eu acho que insegurança em fazer algo é… (pausa). Com certeza tivemos também. A insegurança faz parte da vida. É uma mistura de vontade e medo ao mesmo tempo, mas que, nessa equação, a vontade é muito maior. Então, existe um frio na barriga no fazer. Acho que não só no fazer desse filme, mas é algo do próprio viver, mesmo. Na vontade de realizar, de fazer algo na vida. E, na vida, decidimos contar essa história. A história de Conceição e de Orlando. Essa história de amor, essa história do cinema. Para mim, uma coisa que sinto, é que essa insegurança e, também, esses medos possíveis, foram resolvidos a partir do afeto. A partir do amor. Sinto que, para mim, este foi o caminho de resolver isso. E, para mim, Lando e Conceição, e é engraçado falar agora nessa entrevista enquanto olho para Orlando, porque, normalmente, falamos e ele não está. Mas agora estou falando com você e de você e Conceição sobre essa insegurança, eu acho que ela foi resolvida a partir do afeto. Não sei se Orlando e Conceição são ídolos, mas são pessoas que me despertaram profundo afeto não só por eles, mas um profundo afeto pela vida. Então, acho que não relaciono muito com a ideia de ídolos ou ídolas, mas, sim, com pessoas capazes de despertar em mim um profundo amor pelo viver. E que não tem a ver só com cinema. Tem a ver com uma condução da vida. Em alguns momentos, inclusive, os feitos, eles eram menos importantes. Eles estavam mais apaziguados. E o que se admirava e compartilhava era o cotidiano do relacionamento. Você se relacionar com o mundo e com as pessoas. Então, para além do cinema, que aprendi com ambos, existe um aprendizado sobre uma forma de viver. E que é um aprendizado que não acaba nunca. E eu acho que o nosso filme entra nesse aprendizado dessa forma de viver. Sempre digo que essa câmera entra de uma relação que já existia. E essa câmera modifica essa relação, também. E essa relação modifica essa câmera. Então, qual seria essa separação entre o cinema e a vida? Aquela grande pergunta, né? Então, buscamos fazer um cinema, um filme, que é relacional, que é da vida, que é cotidiano. Que é inseguro como a vida, também. E é afetuoso como querermos que a vida seja. Então, tem todo esse jogo, acho, dentro dessas nossas escolhas. E uma coisa que eu penso, também, em relação ao tempo, e que eu sempre agradeço, falando desse tempo circular, desse tempo que podem ser muitos tempos, e que cada pessoa adora o tempo de uma forma, é que é a felicidade de a gente ter se encontrado em uma interseção de tempos. Orlando fazendo 81, eu com 35, Mille na casa dos seus 30. Que bom que a nossa amizade pôde se realizar junto com Conceição e com Orlando em uma interseção de vida. Nós justamente nos encontramos nesse tempo. E isso me emociona muito. E me emociona que, com toda essa insegurança, com todos os carinhos e medos, que temos uma história que queríamos fazer. Uma história que decidimos contar, mesmo. E tratamos muito nesse caminho, com Orlando e Conceição, em um jogo de aprendizado, de provocações, de aprendizes e mestres, mas também de pessoas que se encontraram. Acho que isso é o principal.

Cena de “O Amor Dentro da Câmera”

Orlando, para você, ser dirigido por Lara e Jamille, você que tem uma experiência extensa como diretor, apesar de já ter sido dirigido, colocando-se agora como a pessoa que está sendo orientada na atuação, passou pela sua cabeça pontuar e orientar as diretoras durante o processo de filmagem de “O Amor Dentro da Câmera”, ou você preferiu se resguardar nesse sentido e se deixar levar?
Orlando Senna – Antes de tudo, pela ordem como você perguntou, fui muito pouco dirigido na minha vida como ator. Apesar de ter estudado em uma escola de teatro, uma excelente escola da Universidade Federal da Bahia, não tenho muita experiência como ator que foi dirigido por alguém. Basicamente porque nunca atuei muito. Sempre atuei em uma coisa ou outra, substituindo alguém ou por necessidade de produção, digamos assim. E só. Não tenho uma vasta experiência nisso. E exatamente por essa razão, por não ter sido muito dirigido e também por não me sentir um ator. Enfim, não me sinto um ator. Mesmo quando estou, por acaso, em um palco, não me sinto um ator. Acho que sou sempre eu quem está ali. Sou sempre eu. Ou seja, eu sou super brechtniano. Meu afastamento crítico é total. Inclusive, até quando vou atuar sem ser em uma atuação teatral. Quando vou fazer um discurso, por exemplo. Mesmo fazendo o discurso, faço o distanciamento. Sinto-me muito mal quando estou em um lugar público, diante de uma plateia, e alguém começa a me elogiar. Um dia fiz uma consulta a outra pessoa que sofria disso, o Fernando Birri. Tinham o elogiado tremendamente. Ele sentado no palco e as pessoas tecendo elogios. E ele lá, encolhido, assim. Logo depois lhe perguntei a ele: “Como é que você se sentiu embaixo dessa chuva de elogios, dessa chuva de loas à você?” E ele respondeu: “Eu faço de conta que não é comigo. Que não sou eu que estou ali.” Aprendi isso com ele e uso muito. Não sou eu que está ali. É um personagem. Enfim, tenho que inventar um personagem. E por aí vai. Mas tem outra parte da sua pergunta que me interessou. Sobre compartilhar visões de direção. Não tive nenhuma intenção sobre isso. Nem a Conceição, também, eu acho. E na verdade, conscientemente, a gente não queria se meter na direção das meninas. Porque, claro, cada pessoa tem uma visão diferente. É uma outra pessoa que está fazendo o filme. Se você colocar duas pessoas para fazer a mesma cena, no mesmo lugar, com a mesma câmera, com os mesmos atores, vão sair duas cenas diferentes. Imagine em um filme inteiro, ou em um pedaço do filme. Me deixei levar no tempo. E gostei muito da experiência. Me lembro que pensava, e às vezes até conversava com a Conceição, não durante a gravação, mas ao lado da gravação, enquanto esperávamos que elas decidissem o que a gente ia fazer, eu dizia: “Puxa, se sempre fosse assim o trabalho de um ator, eu até que gostaria de ser ator.” Ou seja, se jogar dessa maneira. As pessoas, ao mesmo tempo que estão dirigindo, não estão. E assim era com Lara e Jamille. Ao mesmo tempo que estavam dirigindo, elas não estavam dirigindo. E suponho porque queriam que fosse assim. Porque essa era uma metodologia delas, mesmo inconsciente. Não sei se era consciente ou inconsciente, mas mesmo inconsciente, era uma metodologia maravilhosa para mim e para Conceição. Conceição tinha um elemento dela mesma. Conceição fez muita coisa na vida. Fez muitas artes. Mas o que ela gostava, e aliás, ela diz isso no filme: o que ela gostava, e eu acho que continua gostando onde esteja, é ser atriz. Era atuar. E eu exatamente o contrário. Eu tenho certo medo da atuação. Tenho certa necessidade do que disse antes: o máximo distanciamento dos personagens. Mas foi uma experiência escandalosamente maravilhosa. Para mim e acho que também para Conceição. De qualquer maneira, ela que é uma atriz, e gosta de ser uma atriz, era uma experiência bastante nova, porque ali ela era e não era atriz. Ela era e não era dirigida. Ela estava e não estava criando o personagem. E isso é uma experiência, como eu disse, escandalosamente maravilhosa.

Lara e Jamille, na aproximação para um documentário que visita a intimidade de duas pessoas com uma relação de décadas, houve alguma preocupação de vocês como diretoras no sentido de orientar Conceição e Orlando a evitar construir personagens de um modo artificial na captação daquela rotina, para que eles pudessem ser eles mesmos? Mesmo que, claro, a construção do personagem possa vir a ser inevitável. Lembro, inclusive, de um momento bem tenro quando Orlando e Conceição brincam com o ritmo vagaroso com que se bebe o café…
Lara – Uma das pessoas que mais me ensinaram, eu posso dizer que primeiro me ensinou ou me mostrou, ou eu ouvi, sobre a mistura entre a realidade e a imaginação, foi Orlando. E acho que para Mille, também, né? Inclusive, isso se transparece nos filmes de doc-fic, como “Iracema”. Mas para além disso, é uma maneira, também, de entender as coisas. De se relacionar com aquilo. E acho que essa mistura entre o encenar e o ser; entre o ser e o encenar, o imaginar, acho que isso esteve presente no filme de uma maneira incorporada. Mas isso não significa que não existiu conflitos. Sim, havia momentos, não é, Mille? Não sei o que Mille sente sobre isso. É até uma pergunta. Em alguns momentos, a gente tinha dúvidas, também, sobre os caminhos. “É isso, mesmo?” Às vezes, Orlando falava: “Isso vai ficar artificial”. Vocês lembram? É até a última cena do filme. Mas, às vezes, era justamente em uma provocação de uma cena que também nascia uma verdade, sabe? No se encenar e no se interpretar a si mesmo, ou no quem se queria ser no momento, é que verdades também escapam. E não verdades. E que não são menores, também. Acho que a gente brincou com isso. E brincamos, também, com essa metalinguagem de deixar os rastros do fazer. Acho que esse filme deixa os rastros do fazer. Seja o nosso fazer na edição e na não direção. Quando a direção surge ou quando ela aparece; seja numa situação totalmente espontânea, ou quase espontânea. Ou numa situação em que a câmera provoca, ou quando câmera se esconde. Acho que o tempo inteiro a gente tinha esse jogo. Do esconder e do revelar. Do imaginar e do espontâneo. E acho que o filme é fruto disso. É fruto desses caminhos que nós também nos deixamos levar, Lando, viu? Vocês se deixaram e a gente, também (risos).

Orlando – Eu sei (risos).

Lara – Eu acho que a gente se deixou muito levar. Por todos nós. Pela casa, pelos humores, também.

Orlando – Sim. E tem um lado nosso, ou seja, de quem estava diante da câmera, Conceição e eu, que eu acho que, também, em alguns momentos, vocês chegaram a esses momentos de brincar. Fazer brincadeiras. Agora há pouco você se lembrou da coisa do tomar o café vagarosamente, que parecia que era em câmera lenta. Aquilo a gente inventou na hora em que estávamos tomando café. Exatamente naquele momento. Este que você me lembrou está bem vivo na memória. E em outros momentos, também, a gente inventava brincadeiras. E podiam gravar alguma coisa ou não podiam. E eu acho que as diretoras, também, abriam seus corações e mentes para isso. Para o brincar.

Lara – Eu acho que é uma palavra fundamental: brincar. É verdade. Na cena da cama, eles estavam lá, e a gente do outro lado, rindo. Inclusive, vazavam as nossas risadas. E a gente ia brincando. “Agora, diga aí: E o diamante que Conceição tem guardado? Diga aí?” Era nessa brincadeira, não era, Mille? Nós riamos tanto às vezes que tivemos que incorporar a gente, também. Até vazávamos os áudios.

Orlando – E até fez falta, porque, em relação à cama, ao cenário cama, por exemplo, nós brincávamos, mas vocês brincavam, mesmo. De verdade. Como se fossem duas crianças. Eu me lembro… Eu nem sei por que vocês não colocaram essa coisa da cama no filme. Deve ser engraçado o resultado disso. Eu me lembro que tem um momento em que nós já estávamos na cama e vocês duas vieram e saltaram, como meninas, pequenas. Sem pensar no próprio peso, inclusive, que já alcançaram. E saltaram. Eu estava bem perto da lateral da cama, e a Lara pulou exatamente nesse espaço da cama que ainda tinha. E eu achei que ela ia cair. Tive que agarrá-la. Eu pensei: “Ela vai cair!” (risos). Ou seja, era quase já que uma possessão de brincadeira.

Jamille – Essa coisa do brincar é um caminho que faz parte da minha vida, particularmente. Apesar de que eu e Lara sempre fizemos coisas assim, brincando. E sobre essa coisa do dirigir e não dirigir, também. E o não dirigir ser um dirigir, de certa maneira. É uma coisa que eu, particularmente, tento seguir. Nos documentários, estar o menos presente possível quando a câmera está ligada. Deixar que a cena aconteça. Tentar chegar ali no momento mais espontâneo da ação. Sempre fico mais tranquila, mais quietinha, deixando o REC ali acionado e “futucando” nas perguntas para ver onde a gente consegue chegar. Porque uma das coisas que nos motivou a fazer esse filme era justamente o que a gente presenciava nos momentos de intimidade com eles. Então, as histórias que surgiam nesses momentos da convivência. Que vinham nesses momentos mais espontâneos. Dentro do documentário, tento sempre seguir esse caminho mais da espontaneidade e da ausência dentro do momento presente. Isso falando de direção, de certa maneira. E o brincar, também, acho que sempre fez parte da nossa vida. Mesmo nos momentos mais complicados, o que não falta é piada. (risos). E por que não nos momentos felizes não teriam uma brincadeira? Com certeza. Sempre tem. Às vezes, a gente tem que se controlar. Mas por que não trabalhar com o brincar? Que, inclusive, naquela época, especificamente, eu estava dentro de um projeto em que eu caçava brincadeiras. Circulei o Mato Grosso do Sul, o Pantanal inteiro, filmando brincadeiras. E, enfim, o brincar é a linguagem universal do ser humano. Brincar existe em todas as línguas, todas as culturas. Brincadeiras que sugiram na mesma época, em eras totalmente distantes, que não havia comunicação, mas que o brincar existia e foi surgindo ali de maneira universal. Então, acho que fazer cinema sem brincar não tem graça nenhuma.

Set de “O Amor Dentro da Câmera”

Orlando, você completa 81 anos agora nesse mês de abril. Aniversários são ocasiões nas quais muitas pessoas se tornam introspectivas e nostálgicas. Pelo menos acontece comigo. Rever o filme, observar sua trajetória e de Conceição a partir da lente de Lara e Jamille, rememorar os encontros com diversas pessoas gigantes das artes mundiais, lhe causa essa introspecção?
Orlando – Tem três momentos da minha relação com o filme. Primeiro é o momento em que a gente está fazendo o filme, onde não existe isso que você acaba de mencionar. Ou seja, repensando a vida, pensando se você errou ou não, se você acertou ou não. Não existe porque a gente estava fazendo uma outra coisa. A gente estava vivendo, e não revivendo. E um outro momento é o filme pronto. E aí, para mim, é um momento muito curto, porque, evidentemente, eu vi o filme umas duas vezes com a Conceição. E logo depois vem um terceiro em que eu tenho que ver o filme e tenho que falar do filme, não me nego a isso, sem a Conceição. Então, é um momento que eu ainda estou vivendo. Um momento muito profundo. Não sei se é essa a palavra. Um momento muito profundo em minha vida. Esse filme faz parte principal, digamos, neste momento. Minha relação com o filme tem toda uma andança neste… (pausa) Há um ano que ele está pronto, mais ou menos. É muito intensa essa relação. E eu acho que a minha relação com esse filme será sempre essa. E será superficial, de falar sobre o filme, discutir o filme, mas também em uma outra camada, que é totalmente existencial, relacionada com a emoção.

Esse contato com tantas personalidades definidoras em termos culturais ajudam nesse sentido de refletir sobre a sua trajetória de vida?
Orlando – Sim, ajudam. Claro! Fazem parte, né? Essa coisa de que a gente viveu uma vida extraordinária. Muita gente nos diz isso. Diziam para nós dois e, agora, continuam dizendo a mim. “Vocês viveram uma vida extraordinária. Conheceram pessoas maravilhosas. Percorreram o mundo inteiro, etc…” Jogo tudo isso dentro da circunstâncias. As circunstâncias aconteceram, ninguém planejou nada. Claro que eu queria conhecer o mundo. A Conceição, também, tinha o mesmo sentimento quando estávamos no interior da Bahia. Ela na cidade dela, sertaneja; eu na minha cidade chapadeira, ou seja, na Chapada Diamantina. Queríamos conhecer o mundo. Sair de nosso pequeno mundo e ver o mundo grande, que a gente sabia que existia, mas não sabíamos como era. Mas esse foi o único impulso das nossas vidas. E aí, sem nenhum planejamento, e ajudados por uma coisa que, na Chapada Diamantina, é considerada uma deusa, uma coisa chamada sorte. Pela sorte, nós podemos conhecer essas pessoas, fazer amizades com pessoas realmente extraordinárias, mas só pela sorte, só pelo fato de termos sido empurrados pela sorte. A sorte é uma deusa da religião sincrética, que existe na Chapada Diamantina, na minha terra. Chama-se Jarê. Aliás, estou lendo um livro maravilhoso agora. Chama-se “Torto Arado” (N.E. do autor Itamar Vieira Júnior, um dos livros mais votados no Melhores de 2021 Scream & Yell). É exatamente sobre essa região onde existe certa profundidade social no livro, mas existe também uma profundidade de caráter além do social, além do viver naturalmente. São as encantarias. Os encantos.

Lembro-me de ter entrevistado Walter Carvalho por ocasião do lançamento do documentário sobre Raul Seixas e de ouvi-lo falar sobre o documentarista contar com a sorte e precisar estar na hora certa e no lugar certo. Ele fazia referência ao momento em que uma mosca pousa em Paulo Coelho. Na montagem final das entrevistas de Conceição e Orlando para “O Amor Dentro da Câmera”, observei diversos momentos únicos, como o das lágrimas durante a canção que abre o filme, ou o olhar de Conceição quando Orlando cria a sinopse. Como foi a expectativa e preparação para captar tais momentos?
Jamille – Sim. Tivemos alguns momentos destes. Que entraram e que não entraram, também. Por exemplo, um momento que é bem marcante e que não foi planejado, é quando Conceição começa a falar do sotaque dela, e Orlando diz que não era para falar sobre isso. E depois ela manda a gente ir embora, que já está na hora. Nós estávamos ali, sentadas no chão, eu e Lara, trocando os cartões e as baterias da câmera. Ou seja, já tinha encerrado, mesmo, a entrevista. E ai, de repente, Conceição começa a falar, e eu, do jeito que estava sentada, comecei filmar. E Lara ligou a dela, também, e conseguimos pegar Orlando e ela. Mas foi uma coisa que surgiu ali, já no fim do dia. Nós já tínhamos encerrado e foi quando resolvemos ligar a câmera. Do jeito que a gente estava. Tanto que essa cena foi só áudio da câmera diretamente. Já a cena da música que você cita, nós sempre a achamos muito forte. A que entrou, inclusive, foi a primeira cena que gravamos com Conceição cantando. Isso foi em 2016. De 2016 a 2020, gravamos Conceição cantando essa música várias vezes. Várias vezes. Mas a que entrou foi a primeira. E o nosso desejo era que essa música, composta por Orlando para Conceição, fosse gravada com um arranjo. Já exista a melodia que eles cantavam, mas nunca tinha sido feito um arranjo com uma banda ou uma orquestra, enfim. E nas nossas agendas, não conseguíamos bater dentro desse período um momento de ir lá no Rio fazer eles gravaram essa música em um estúdio. Porque, por incrível que pareça, foram dois, três anos, mas Orlando e Conceição, nesse meio tempo, rapaz… Eles não paravam de trabalhar! Orlando dirigiu três longas metragens. Conceição finalizou o outro longa dela e estava lançando. Nós tínhamos dificuldades em achar uma agenda para encontrá-los. Ano passado, eu estava na Itália. Passei um ano lá. Voltei há um mês. E alguns dias antes de viajar para lá, me deu um negócio e eu disse a eles: “Estou indo aí no Rio visitar vocês.” Foi uma coisa assim de surpresa. Eu comprei a passagem em um dia e ia voltar no outro. E a gente estava tentando contratar alguém para gravar a música, pois tinha sido feito um arranjo pelo nosso compositor, o Luciano Salvador Bahia, que fez a trilha. E como não tínhamos conseguido ir até eles gravar, estávamos pensando em contratar alguém. Pensamos em vários nomes. Mas não conseguíamos enxergar nem ouvir a música em outra voz que não fosse a de Conceição. E isso estava no consumindo, assim, de certa maneira. E aí eu consegui fazer essa viagem antes para o Rio. Fui em uma sexta e voltei no sábado. Lá, perguntei se poderíamos tentar gravar mais uma vez. Dessa vez, com o arranjo feito naquilo que tinha sido. Eu falei que talvez não daria certo, porque o ideal era que fosse gravado em um estúdio, mas tentamos. Eles toparam e gravamos horas antes de eu ir para o aeroporto. No mesmo dia, eu consegui mandar para Luciano, que encaixou a voz ao arranjo que eles fizeram, e deu certo. Deu muito certo. Eu, particularmente, acho que ficou muito linda a música. Em um dos últimos momentos que eu falei com Conceição, inclusive, em uma ligação, ela me disse da felicidade que estava sentindo por ter gravado aquela música. Por ter uma música gravada na voz dela. Uma letra de Orlando para ela. E eu acho que deu um plus especial para o filme. Foi um desses momentos que não estava mais previsto, que a gente não tinha muita esperança de conseguir, mas que acabou dando certo.

Lara – Completando isso que Mille está contando desses momentos, eu fui lembrando também, João, que entre esses momentos que a gente sentia que precisava filmar, que sentíamos que alguma coisa aconteceria, foram 60 horas de material. Foi uma montagem extensa. Mais de 400 páginas transcritas por mim e por Jamille. E um filme feito muito miudinho, muito enxuto, muito íntimo. E foram mais de 400 páginas escrevendo essas cenas que, claro, a gente, muitas vezes, atentou para a potência delas na montagem. De descobrirmos aquela cena que, às vezes, não lembrávamos. E uma dessas cenas que aconteceu de uma forma espontânea foi a última do filme, em que acontece o abraço dos dois, de Lando e Conce. Ela está vendo fotos, Orlando chega, e isso gera o abraço que é a última cena do filme, sem spoiler. Aquela foi, também, a última cena gravada. Não só a do nosso filme na montagem, como, também, a última cena do dia de gravação. E teve uma coisa nesse dia, pois Orlando estava ocupadíssimo com o filme dele. E lembro que ele havia pedido para não ser interrompido, pois estaria no escritório e não ia participar da gravação naquele dia. Então, sugerimos a Conceição que ela visse um pouco das fotos, que já estavam espalhadas pela casa. Aí começamos a filmá-la vendo as fotos, deixando a câmera lá, apenas ligada. Conceição, realmente, foi se emocionando vendo as fotos. Tinha um monte de fotos que a gente estava procurando, inclusive, para saber se utilizaríamos de uma outra maneira, se iríamos digitalizar. Então, enquanto se buscava as fotos, ela foi vendo e se emocionou. E é quando Orlando resolve sair do escritório e interromper a cena. Então, quando ele aparece, ninguém sabia que ele ia sair do escritório. Ele aparece, interrompe, provoca, fala, vê Conceição chorando e fala (tom de voz grave): “Essas meninas são impiedosas. Às vezes nos faz até sofrer.” E aí Conceição fala uma frase que me marca muito, assim, que é: “Me joga para o passado, me joga para o futuro, me joga para o passado, me joga para o futuro”.

Orlando – “Elas me fazem de peteca.”

Lara – “Fazem de peteca”. Exato! Foi o que ela disse. E tudo isso aconteceu ali, de forma imprevisível. Tanto que a gente ajusta as câmeras para poder filmar. Tem esse movimento. E foi algo que aconteceu que também é uma cena dada de presente, de certa forma. Quando você decide entrar em cena, também se dá de presente uma cena. E isso tem a ver com essa generosidade, também. Porque eu acho que essa cena ficou linda. E o tempo inteiro eu acho que a gente brincava um pouco com isso. “E aí, Mille? Filma? E aí? Filma ou não filma? Olha, vou botar pra gravar aqui, viu? Prepara a câmera. Não fala nada.” Ou, também, a gente propunha uma cena e arrumava a câmera, e os convidava a entrar em cena. Havia dois movimentos, sabe? Aquele do: “olha o que está acontecendo ali. Vai acontecer. Vai acontecer” quanto aquele em que preparávamos algo e fazíamos um convite: “e aí? Vocês topam?” Por exemplo, as cenas da cama foram um convite. Nós tivemos que armar uma câmera no teto, praticamente, para filmar. Tivemos que provocar isso. Mas uma vez provocado, também aconteciam outras coisas. Uma vez provocado, se instalava um outro universo ali. E da mesma forma, também, existiam coincidências, e sorte, e encontros, com os dois movimentos. Tanto em um espontâneo quanto no provocado, acho que a vida pode acontecer.

Orlando, Lara e Jamille

Orlando, você falou sobre o momento profundo que vive e citou que apenas recentemente conseguiu assistir ao filme após a partida de Conceição. Eu queria lhe pedir licença para perguntar a você sobre o aspecto de ver o filme com esse olhar após a partida dela. A obra traz uma cena muito impactante, quando ela fala do diagnóstico que recebeu, inclusive. Sem querer parecer deslocado em uma pergunta, eu queria abordar com você esse sentimento de rever a obra com essa carga de despedida.
Orlando – Eu acho isso lindo, na verdade. Esse filme tem, também, esse outro lado. Essa importância enorme. Essa cena da qual as meninas falavam há pouco, essa cena final do filme, foi a última gravada. E também é a última cena de Conceição. São as artimanhas da vida que constroem isso na gente. No início, ou seja, logo quando ela se foi, eu não conseguia nem ver o filme, porque me emocionava muito. Mas agora eu já posso vê-lo com tranquilidade. E exatamente essa cena… Não só a cena, mas também essa informação que está no filme. Informação que está lá de uma maneira muito sutil. No momento em que ela aparece, agora que eu já consegui ver o filme sem toda a melancolia em cima de mim, eu acho uma coisa muito bonita que tenha acontecido. Principalmente isso da última cena do filme, da última cena gravada, da última cena da vida dela.

Jamille – Curioso que, se a gente for analisar o filme falando sobre isso, a entrevista, também, começou falando sobre isso. Sobre o tempo circular. E o filme funciona assim. A gente abre com a cena gravada no primeiro dia, com ela cantando. E fecha o filme com a cena gravada no último dia de gravação de todos os anos. Então, a gente volta. O tempo circula, o tempo precisa ser circular porque ele ventila. Ele ventila e espalha o pó. “Tempo tem pó”… (risos) Eu estou viajando aqui…

Orlando – Ela está fazendo um dos seus belos poemas. Ela acaba de fazer um. O” tempo tem pó.”

Jamille – E só para esclarecer uma coisa, na verdade. Durante o filme, Conce tinha recentemente superado o primeiro diagnóstico. Por isso, ela fala de uma maneira mais tranquila, talvez. E a gente pergunta de uma maneira mais tranquila. Depois que a gente gravou tudo, no final de 2019, foi que surgiu o novo diagnóstico. E a única coisa que foi feita nesse período foi o áudio quando eu fui lá gravar a canção. Então, a gente não fez isso em um clima, digamos…. Já tinha o filme pronto quando surgiu esse outro diagnóstico.

Orlando – Fizemos em um clima de superação. Na verdade, estávamos saindo disso. Em uma esperança total na superação.

Lara – E também me chamou a atenção, João, que você vê como é que cada pessoa pode interpretar as cenas e os momentos. Para mim, aquela cena, como cronologicamente não correspondia exatamente a um momento de um diagnóstico x, mas eu acho que uma coisa que a gente teve é que entre nós, com Conce e com Lando, entre nós, a gente sempre falou de vida e morte, sabe? Nas nossas conversas, de começos e de fins. Justamente, como Mille também retomou, essa circularidade que você traz. Então, aquele papo já é era um papo que falava sobre isso. Sobre viver e morrer. Nós sempre falamos sobre isso. Sobre juventude e velhice. Sobre ser novo e ser velho. Inclusive, sobre essas misturas dessas idades, uma coisa que a gente sempre conversa. Questões filosóficas. Jodorowsky fala muito sobre isso. Outras pessoas também falam. Sobre ter muitas idades.

Orlando – Ter todas as idades dentro de você.

Lara – Isso. Dentro de nós. E me lembro como há um tempo eu estava falando com Orlando, não me lembro o que foi, e eu falei que estava com um dor aqui e ele disse: “eu, também”. E nós rimos. “Mas, peraê! Eu tenho 35 anos! Você tem 80! Dá um desconto.” E às vezes a gente esquece disso, não é, Lando? Às vezes a gente esquece dessas idades até mesmo entre nós. “Ah, não estou conseguindo fazer isso.” “Nem eu.” “Mas você nasceu cinco gerações depois de mim.” E a gente consegue esquecer e brincar. Novamente, a palavra brincadeira, nestes ciclos, sempre esteve presente. Falar disso. Sobre finitude e nascimentos.

Orlando – Falar sério e, às vezes, falar brincando. As duas coisas.

Jamille – E a memória, também, que está dentro disso tudo. Conceição fala do trabalho dela, que é bem focado na memória, também. Os três filmes dela estão relacionados à memória de momentos que ela passou. E acho que o filme, também, nós conversamos entre a gente sobre vida e morte, momentos de superação, mas fizemos um filme pensando na importância dessa memória viva dos dois.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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