Entrevista – Tom Zé: “Vejo dizer que as redes sociais estão contaminadas pelo ódio”

Texto por Daniel Abreu

Tom Zé continua a todo vapor. Prestes a completar 85 anos, o trabalho do baiano de Irará continua rendendo lançamentos muito interessantes. No segundo semestre do ano passado, a coletânea “Raridades” chegou às lojas compilando 14 faixas. Organizada pelo jornalista e pesquisador musical Renato Vieira, o CD traz registros raros gravados pelo músico durante o seu tempo nas já extintas gravadoras RGE e Continental (da primeira, o acervo pertence a Som Livre e a segunda foi adquirida pela Warner Music em 1993).

Em novembro, Tom Zé ganhou sua primeira biografia autorizada, “Tom Zé: O Último Tropicalista”. Lançado pela Edições Sesc, o livro foi escrito pelo jornalista e pesquisador de música brasileira Pietro Scaramuzz. Porém, talvez o lançamento que mais se encaixe aos tempos atuais seja o EP “Tribunal do Feicebuqui”.

Lançado originalmente em 2013 (e celebrado aqui no Scream & Yell), o disco (que chegou a ser lançado em vinil na época) chegou às plataformas digitais pela primeira vez no final de janeiro deste ano. Para quem não se lembra, o nome de Tom Zé foi alvo de uma polêmica. Por conta da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a Coca-Cola convidou o músico para fazer uma locução para uma propaganda da empresa. A iniciativa gerou nas redes sociais, principalmente o Facebook, respostas indignadas com a participação do tropicalista.

Com bom humor e visão crítica, Tom Zé se aliou a alguns artistas emergentes na época, como Emicida, Tim Bernardes (e sua banda O Terno), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada), Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo) e Tatá Aeroplano, e gravou quatro músicas que falam sobre o episódio. O EP foi composto, gravado e cantado coletivamente no estúdio Vale do Silício, localizado no prédio que o músico vive até hoje, no bairro de Perdizes (SP), e trata-se da estreia na produção do então apenas jornalista Marcus Preto, que depois assinaria a direção de álbuns importantes de Gal Costa, Erasmo Carlos, Nando Reis e outros.

No bate papo que segue abaixo, feito através de e-mail, Tom Zé fala sobre as redes sociais (“Vejo dizer que elas agora estão contaminadas pelo ódio”), sobre as colaborações que rolaram em “Tribunal do Feicebuqui” (“Trouxeram juventude e perspicácia para o contexto do EP”), sobre a música feita nas periferias das grandes cidades do Brasil (“Sou fã de primeira”), sobre fazer lives durante a quarentena (“Me dei muito bem com o gênero”), entre outros pontos. Com vocês, o incansável Tom Zé.

Existiu uma motivação específica para lançar nas plataformas digitais apenas agora um trabalho de 2013? Falando sobre essas plataformas digitais, como você vê essa nova forma de consumir música?
Eu devo creditar a Marcus Preto a ideia desse lançamento agora, providenciado pela Circus de Guto Ruocco. Sobre plataformas, o adjetivo “digital” já inclui algo que a gente não pode deixar de respeitar, que são as tecnologias recentes.

“Tribunal do Feicebuqui” nasceu por conta dos ataques que você sofreu após a sua locução para uma propaganda da Coca-Cola. Desde esse episódio, oito anos já se passaram e as mídias sociais (Twitter, Facebook, Instagram) são uma importante parte do nosso convívio social atual. Na sua opinião, você acha que os tribunais que julgaram você continuam agindo da mesma forma ou a gente conseguiu entender um pouco melhor como funcionam essas ferramentas?
No meu caso, os tribunais protestaram contra a patrocinadora do programa, que era a Coca-Cola. Então, meus próprios amigos viram durante toda a vida a Coca-Coca como representante do capitalismo selvagem. Então, eu não posso brigar com eles. Quanto às ferramentas, vejo dizer que elas agora estão contaminadas pelo ódio.

Na época, um dos principais ataques dirigidos a você foi o de “vendido”. Um dos versos da música que dá nome ao EP é, “Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?” Você acha que o público ainda tem aquela concepção de que o artista para ser considerado “legítimo” tem que passar fome, ou ele entendeu que assim como todo mundo, os artistas também pagam boletos?
“Vendido” foi um nome que meus parceiros deram aos protestos e isso é porque eles tinham bom humor. E eu acho que essa inversão ardilosa da minha turma continua sendo a melhor resposta.

No EP você trabalhou com nomes que naquele momento eram emergentes, como o Tim Bernardes do O Terno e o rapper Emicida. Como foi trabalhar com esses jovens músicos?
É, Tim, com seu O Terno, Emicida, Marcelo Segreto, Tatá Aeroplano, Marcos Ferraz, e toda a turma, trouxeram juventude e perspicácia para o contexto do EP.

O EP é a estreia do Marcus Preto na música. Depois ele viria a trabalhar com outros gigantes da nossa música, como a Gal Costa e o Erasmo Carlos. Como foi trabalhar com ele?
Marcus Preto encarnava uma potencialidade que estava escondida atrás de uma mesa como jornalista.

A música “Taí” tem um arranjo bem legal no batidão do funk carioca. Você acha que os sons que surgem nas nossas periferias, como o funk, sofrem uma carga de preconceito das nossas elites culturais, assim como a sua música sofreu nos anos sessenta?
A música “Taí” foi feita justamente quando eu estava trabalhando na DPZ e essa empresa iria fazer a publicidade do guaraná Fratelli Vita, que iria passar para a empresa da Coca-Cola. No princípio, Zaragoza, um dos diretores, que tinha já a ideia de o nome ser “Taí”, queria fazer algo, na propaganda que fosse o mais possível carregado de brasilidade. Acabei fazendo uma letra tão eficiente:

“são três gritos no meu sangue de guerreiro/
eu sou índio, rei de Angola e marinheiro/
… …

se o rei de França quiser um dia/
virar criança, ter um xodó/
tem que vir aqui ou mandar buscar”.

Lá na DPZ a música foi festejada como perfeita. Mas a própria Coca-Cola fez uma pesquisa popular sobre como deveria ser a música de propaganda de um guaraná. A resposta do público, que nunca conheceu a letra que botei em “Taí” disse que deveria ser um rock. Então, dançaram Joubert de Carvalho, Tom Zé e “Taí”. Quanto à música da periferia, eu sou fã de primeira. Ouço, gosto, me divirto e tenho inveja.

Em “Papa Francisco Perdoa Tom Zé” o Tim Bernardes pede para o Papa Francisco te perdoar, você acha que isso aconteceu? Ele deu algum retorno ao seu pedido?
O Papa Francisco não fez uma declaração pública. Mas o silêncio é uma aceitação.

Na música você diz: “a diferença entre esquerda e direita já foi muito clara, hoje não é mais”. Desde que ela foi composta, e por tudo que o país atravessou recentemente, essa diferença se tornou mais clara ou ainda estamos longe disso acontecer?
A diferença entre esquerda e direita, desde a proclamação da República até hoje, não está esclarecida porque, se a esquerda for o futuro e o bem da humanidade, devemos confessar que nenhum governo que conhecemos aqui tinha o esclarecimento de que a principal moeda do futuro será o conhecimento. Que naturalmente vem com estudo, cultura, e outros vizinhos.

A capa do EP é uma das mais lindas que você já lançou. A ideia da arte foi única e exclusivamente da Mallu Magalhães, ou você deu algum pitaco?
Todo o crédito da capa deve ser dado a Malu Magalhães.

Seu último disco de inéditas é o “Sem Você Não A”, de 2017. Existem planos no horizonte para um novo álbum de inéditas do Tom Zé?
Tenho plano de disco, mas na Bahia se diz que “mulher que fala muito perde logo o seu amor”. No caso de projeto, quando você divulga, ele começa a enfraquecer, se esfacelar e de repente você não tem nada na mão.

Em 2020 o mundo todo foi pego de surpresa pela COVID-19 e, pelo bem comum, medidas para evitar a propagação do vírus foram recomendadas pelos órgãos de saúde, como por exemplo ficar em casa. Como uma pessoa como o Tom Zé conseguiu se adaptar a essa nova realidade? Dicas para enfrentar a quarentena que parece não terminar nunca?
No começo da pandemia eu estava justamente começando a trabalhar com Felipe Hirsch e Fernando Catatau num musical que foi inspirado numa canção chamada “Língua Brasileira”, que saiu no CD “Imprensa Cantada” em 2003. Então, eu tenho trabalhado febrilmente nesse projeto e de vez em quando chego até a esquecer a pandemia. Mas é claro que também sofro os problemas psicológicos de todos. No contrapasso disso tem muita gente que passou a ler mais, ou a fazer ioga, ou tai-chi, ou até, o que eu acho muito adequado, a estudar o conhecimento esotérico. É só procurar no Google.

No ano passado você chegou a participar de algumas lives, como por exemplo para o festival #CulturaEmCasa e para o #EmCasaComSesc. Como foi essa experiência, se apresentar para uma plateia digital, e o quanto você sente falta do público ali presente nos seus shows e interagindo com você?
Fiz e continuo fazendo lives. Me dei muito bem com o gênero. Porque para mim o corpo tem de ajudar a expor os argumentos. Mas a presença do público é, claro, dá muita saudade.

Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2019, o setor cultural foi um dos mais afetados pelo novo governo. Começando pela extinção do Ministério da Cultura e passando pelo esvaziamento da Lei Rouanet, o novo presidente demonstra a cada dia pouco se interessar pelo tema. Como você tem visto essa questão?
O principal problema do governo e do povo neste momento é a vacinação. Vamos botar isso na primeira página de nossa luta. Primeiro salvar para depois dar comida. O que vai ser outra luta mais dura.

– Daniel Abreu é jornalista responsável pelo Geleia Mecânica e colaborador do Whiplash.

Leia também:
– Entrevista: Tom Zé fala sobre “Tropicália Lixo Lógico”, Chico César e “Todos os Olhos” (aqui)

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