Entrevista: Bruna Caram

por Marcos Paulino

Bruna Caram se envolveu com a música muito cedo. Aos 7 anos já estudava piano. Aos nove ingressou nos Trovadores Mirins. Seu primeiro disco, no entanto, só surgiu quando ela tinha 20 anos, e de lá pra cá Bruna vem trabalhando com material novo em intervalos de três anos. “Essa Menina”, o álbum de estreia, saiu em 2006. “Feriado Pessoal”, o segundo, surgiu em 2009. Agora é a vez de “Será Bem-Vindo Qualquer Sorriso” (2012).

A proposta de Bruna para este terceiro disco era “sair da zona de conforto”. Isso incluiu trabalhar com músicos e produtor diferentes dos que ela estava acostumada. Para produzir, optou pelo arranjador Otavio de Moraes, que a ajudou a garimpar as 11 canções que gravou. Duas delas são de sua própria autoria. Aliás, ela vem tomando gosto por compor, como contou na entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell. Confira o bate papo:

O lançamento de um novo disco representa o recomeço de um ciclo. Como você está encarando esta terceira experiência do tipo?
Estou achando muito bom. Este foi o disco mais prazeroso de gravar. Comecei minha carreira muito cedo e desde o início fui apresentada a bons profissionais. Canto desde menina, mas não tinha experiência de estúdio. Fui correndo atrás dela durante minha carreira. Estava com a mesma equipe, banda, produtor desde os 19 anos. A turnê do disco anterior, com direção da Cris Ferri, que é atriz, foi muito intensa. Foram tantas as referências novas, que demorei pra sair do ciclo do “Feriado Pessoal”. Quando tive certeza de que acabou, sabia que tinha que começar do zero, me desafiar de novo, sair da zona de conforto. Foi gostoso pesquisar produtor, redescobrir músicos.

Parte do repertório é composta de canções de artistas consagrados, como Zé Rodrix, Jorge Benjor, Djavan. Como foi a escolha delas?
A grande vantagem de ser intérprete é poder escolher músicas de qualquer compositor, de qualquer época e, no meu caso, de qualquer gênero. Não tenho receio nenhum de misturar todas as minhas referências. A do Benjor (“Minha Teimosia, Uma Arma pra te Conquistar”), apesar de bem conhecida e de ser um samba, na minha cabeça ela sempre teve o arranjo que está no disco. O Zé Rodrix não estava na gaveta de canções da minha vida, mas fui atrás, até porque sou muito amiga da Bárbara, filha dele. Descobri uma pedrinha de ouro (“Não Perca o Final”). A do Djavan (“Flor do Medo”) foi a última a entrar. Lembrei dela depois que o disco já estava mixado e precisei voltar pro estúdio. Por incrível que pareça, é a música de trabalho.

No outro extremo, você traz Mallu Magalhães, que pela primeira vez teve uma música gravada por outra pessoa, e o Paulo Novaes, um compositor bem jovem. Como eles entraram no CD?
Como o disco tem essa atmosfera de frescor, queria esse olhar puro em várias canções. Conforme fui garimpando as músicas, percebi que estava pegando canções de compositores mais novos que eu. Nessa leva, estão o Paulinho Novaes (“Esfera”), que tem 19 anos, a Mallu (“Especialmente Criativa”), o Pedro Viáfora (“Amanhecendo”). O Dani Black fez a canção (“Peito Aberto”) que está no disco quando era adolescente. E tudo isso não é por acaso, mas sim porque eu estava buscando a ingenuidade e a verdade que a criança e o adolescente têm mais claras que a gente.

Dá um certo receio colocar suas próprias composições no meio dessa turma?
(Risos) Não tenho vaidade de compositora. Se mostrar uma música para o produtor e ele achar que não tem nada a ver, não tem problema. No “Feriado Pessoal” tem uma canção minha, e a vendo crescer durante a turnê, me deu nova coragem. Mas hoje me vejo só como letrista. Queria gravar um frevo e mandei um poema meu pro Pedro Luís, que musicou lindamente. Minhas músicas se encaixam no disco, não forcei a barra, (mas) tenho vontade de compor mais.

Como veio a ideia de fazer um dueto com a Marina de la Riva no disco?
Ela é minha amiga e a admiro muito. É exatamente o tipo de cantora que gosto de ouvir, tem um lado dramático interpretativo forte. Fui a um show dela, voz e violão, que não é qualquer cantora que faz, e arrasa, e estava com essa canção do Herivelto Martins (“Segredo”), que aprendi com meus avós, na cabeça. Ela também tem essa referência dos anos 50, das cantoras de rádio, e uma história parecida com a minha, essa relação amorosa com a música desde criança. Eu a chamei e ela disse que tinha coletado essa mesma música para o disco dela, mas tinha desistido no final. Foi um superencontro, muito sincero, que ficou lindo.

Há muitas cantoras talentosas lançando seus trabalhos, mas que não conseguem grande repercussão na mídia. Você acha que falta espaço pra esse estilo que você representa?
O mundo está mudando muito, e pra melhor. A internet, as ferramentas de hoje estão permitindo que o sucesso volte a ser genuíno, como há muitas décadas não era. Vejo muitos artistas que poderiam ser tomados como alternativos fazendo sucesso sem ter um grande espaço nas grandes mídias. Viajei o país inteiro na turnê do disco anterior sem ter clichês como uma música na novela ou ter ido ao Faustão. Acho que essas aparições já não são essenciais pra construir uma carreira. Não sinto falta de oportunidades e não tenho nenhuma grande frustração. Pelo contrário, meu trabalho só cresceu desde o primeiro disco.

A turnê do novo disco também vai contemplar o Brasil todo?
Isso, sempre em frente (risos). Iniciamos em São Paulo e seguimos para Rio de Janeiro, Salvador, Recife, e estamos trabalhando pra rodar o máximo, se possível mais do que o Brasil.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

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