Faixa a faixa: “Vou Tirar Você Desse Lugar”, Tributo a Odair José

por André Luiz Fiori

De tempos em tempos, algum artista tem a obra “revista” ou “reavaliada”. Na década passada, o próprio Roberto Carlos foi redescoberto pelos ouvintes mais jovens, que não conheciam a melhor fase do seu trabalho. O mesmo se passou com Jorge Ben, Tim Maia e Erasmo Carlos. Mais recentemente, as pessoas perceberam que até artistas considerados bizarros, como Reginaldo Rossi e Ronnie Von, já tinham um dia realizado um trabalho interessante.

O livro “Eu Não Sou Cachorro Não”, do pesquisador Paulo César de Araújo, lançado em 2002, defendeu com mais propriedade ainda a qualidade dos chamados artistas “cafonas”, notadamente na década de 70, defendendo a teoria de que os “bregas” afrontaram tanto o regime militar quanto os chamados “medalhões da MPB”. No livro, um dos nomes que surge com mais força é o de Odair José.

Grande sucesso popular, a sua grande sacada era compor letras que retratavam a realidade do “povão”, com grande criatividade e perspicácia. Ele fazia também músicas “normais”, sobre amor, traição e etc., mas que outro doido fazia músicas com temas como prostituição, controle de natalidade, religião, sexo livre, drogas, homossexualismo, exclusão social e o cotidiano das empregadas domésticas?

Apesar de a maioria da crítica dita “séria” lhe render alcunhas pouco auspiciosas, como “Bob Dylan da Central do Brasil” ou “O Terror das Empregadas” (como ele é chamado em “Arrombou a Festa”, de Rita Lee e Paulo Coelho), desde aquela época caras antenados e influentes como Caetano Veloso já apontavam que ali estava mais que um cafona iletrado.

Todo esse preâmbulo está aí só para ilustrar o lançamento de “Eu Vou Tirar Você desse Lugar – Um Tributo a Odair José”, estreia do selo independente goiano Allegro Discos (distribuição da Trama Independente), com produção executiva de Sandro Rogério Lima Belo. Chama a atenção a bela capa, e a também a qualidade do encarte, com várias fotos, ficha técnica e texto do já citado Paulo César Araújo. Quase todo “tributo” é assim: existem aquelas músicas que ficaram excelentes, outras medianas, e algumas bens ruins. Nesse aqui, podemos dizer que os destaques ficam com o Mombojó, Pato Fu e Jumbo Elektro.

Para facilitar o entendimento, seguem algumas cotações:

***** Vai pra Libertadores
**** Vai pra Copa Sulamericana
*** Pelotão intermediário
** Escapou por pouco
* Rebaixamento

Faixa a Faixa:

01. “Vou Tirar Você Desse Lugar”, Paulo Miklos
****
Acompanhado pelo “Midas” Rick Bonadio na guitarra, Miklos faz uma versão bem rock’n’roll do maior clássico de Odair. Na letra, um sujeito se apaixona por mulher que conhece em um prostíbulo, e quer tirá-la de lá para que ela vá morar com ele.


02. “Vida Que Não Pára”, Suzana Flag
****
Alternando vocais masculinos e femininos, o simpático Suzana Flag (de Belém-PA) faz uma versão bem “ensolarada” dessa que é a música mais otimista do CD.


03. “Uma Lágrima”, Pato Fu
*****
Essa poderia ser facilmente um “outtake” do álbum “Toda Cura Para Todo o Mal”, que tem algumas faixas com essa sonoridade setentista, no estilo das baladas de Roberto Carlos. Portando, soa muito pertinente a gravação dessa música, que foi a primeiro compacto de Odair José, no distante 1969.


04. “Eu Queria Ser John Lennon”, Columbia
****
A letra nonsense ganha maçicas (e benvindas) doses de doçura na voz de Fernanda Marques, do grupo carioca Columbia.


05. “Ela Voltou Diferente”, Mombojó
*****
Uma das melhores versões do tributo, é uma música tristíssima e muito sutil, que ganhou uma gravação supimpa, com um solo de órgão Hammond de fazer chorar. Os pernambucanos do Mombojó tem know-how para tanto, já que eles também mantém o projeto Del Rey, só de covers da Jovem Guarda. Tirando as de Lupicínio Rodrigues, essa deve ser a mais pungente “música de corno” já escrita em português.


06. “Eu, Você e a Praça”, Zeca Baleiro
****
Zeca deve ter realizado seu sonho de ser um cantor ‘cafona’, de camisa estampada e medalhão no peito, cantando no Chacrinha.


07. “Deixe Essa Vergonha de Lado”, Mundo Livre S/A
*
Sobre uma base eletrônica, Fred 04 recita a letra, tal qual um Arnaldo Antunes tecnopop, matando toda a beleza da melodia original. Parece uma defesa de tese de sociologia, tal qual a banda protagonizou em outros tributos, como nos para Luiz Gonzagua (“Dezessete e Setecentos”) e Reginaldo Rossi (‘Mon Amour Meu Bem Ma Femme”). Em covers, o Mundo Livre fica devendo. No caso de Odair, é ainda mais frustrante. Para que tanta invencionice logo nessa, que tem alguns dos maiores achados do compositor:

“Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
Não vai modificar o meu amor”


08. “Foi Tudo Culpa do Amor”, Suíte Super Luxo
***
Os brasilienses fazem, talvez sem querer, um dueto masculino/feminino que emula o imaginário de brigas do casal Odair & Diana (esposa do compositor na época). Só não funciona melhor pois o vocal do cantor não combina muito com a canção.


09. “Nunca Mais”, Shakemakers
**
Outra na qual os vocais (e a pegada “grunge”) destoam um pouco. Talvez funcionasse melhor em alguma outra música.


10. “E Ninguém Liga pra Mim”, Leela
***
A letra já é meio “down”, e Bianca Jhordão trata de fazê-la mais “emo” ainda.


11. “Cadê Você?”, Sufrágio
****
Essa seria muito difícil de não ficar boa, e os paulistas do Sufrágio não decepcionam, dando um ar oitentista à canção.


12. “Esta Noite Você Vai Ter Que Ser Minha”, Picassos Falsos
****
Essa foi uma que mudou bastante em relação à original, mas ficou muito boa, com Humberto Effe tratando a melodia com a delicadeza que ela merece.


13. “A Maçã e a Serpente”, Poléxia
***
Correta, mas para a banda curitibana faltou um pouco mais de convicção (e ouvir um pouco mais de rádio AM…)


14. “A Noite Mais Linda do Mundo (A Felicidade)”, Jumbo Elektro
*****
Aquela que contém os sábios versos: “Felicidade não existe, os que existe na vida são momentos felizes…” Essa versão ficou com uma levada empolgante, com cara mesmo de momento feliz. O que ficou legal aqui foram os “cacos” que eles colocaram no final, por conta própria, o que funcionou muito bem.


15. “Uma Vida Só (Pare de tomar a Pílula)”, Arthur de Faria e Seu Conjunto
*
Essa era uma música chave no disco. Não podia errar, e os gaúchos fizeram uma versão um tanto quanto equivocada. Começa baixinho e dedilhada (tributo a João Gilberto?) para no final explodir num constrangedor coro à la Hey Jude…


16. “Que Saudade de Você”, Terminal Guadalupe
****
Os curitibanos levam Odair José para passear no BRock dos anos 80

17. “Vou Contar de Um a Três”, Volver
****
Os brasilienses levam Odair José para passear na Jovem Guarda.


18. “Cotidiano nº 3”, Los Pirata
****
Cantada em portunhol, com o tradicional bom humor do trio paulistano, não tem como não simpatizar.


Depoimentos que saíram na imprensa:

Zeca Baleiro:
“Odair é um lorde da poesia popular”

Paulo Miklos:
“Gravei a canção, a convite dos produtores, que viria a ser a faixa-título do tributo. Imediatamente aceitei o convite que, depois soube, veio diretamente do Odair. Sou fã do seu estilo despojado e precioso. Ele faz parte das boas influências que absorvi como ouvinte de rádio, com seu traço objetivo e seu temperamento sincero. Fiquei bastante feliz com o resultado que alcancei. Nessa versão, eu inclui uns versos no final, com a melodia de ‘Candy’ do Iggy Pop, que trata do mesmo assunto.”

Fernanda Takai (Pato Fu):
“Quando eu era mais nova e morava em Jacobina, ouvia o Odair de tabela porque ele tocava muito nas rádios e com certeza até hoje é um dos maiores representantes daquela geração de artistas considerados ‘populares’ demais. O projeto da Allegro é muito saudável porque, através de vários artistas contemporâneos, mas com características muito diferentes, traz de volta o nome do Odair e faz com que novos ouvintes e até mesmo aquelas pessoas que torciam o nariz pra o tipo de música que ele faz prestem um pouco mais de atenção à sua obra. A gente escolheu uma música dos primeiros anos de carreira dele. Não é conhecida mas, de tudo que eu ouvi, foi com ela que mais me identifiquei. Tem uma timidez, uma letra bem mais contida do que as outras composições dele e achei que uma versão Pato Fu cairia bem. O arranjo original é bem singelo, tem uns pianinhos e tim bres de órgão muito bonitos além de uma orquestração suave comum a algumas coisas da época. Espero que principalmente o Odair tenha gostado!”.

Bianca Jhordão (Leela):
“Fomos convidados pelo Sandro para participar da coletânea e achamos interessante toda a idéia do projeto. Daí começamos a pesquisar as músicas do Odair e quanto escutamos E ninguém liga pra mim, percebemos algo que tinha a ver com nosso universo estético. Trabalhamos uma versão que achamos que ficou com a nossa cara. É sempre divertido participar de coletâneas, pesquisar a obra de outros artistas, gravar, fazer um novo arranjo pra canção… É um desafio e uma boa diversão”.

Reinaldo Andreatta (Sufrágio):
“Fui criado por dona Natalina, uma brilhante cantora do lar, já falecida, que tenho certeza que se orgulha da homenagem dos filhos Reinaldo e Ronaldo a ela. Para minha banda, que é ótima, mas não tem espaço na mídia, também foi uma oportunidade de aparecer um pouco”.

Arthur de Faria:
“São canções de carinho absoluto pelo gênero humano, de uma doçura comovente, de uma singeleza. A chave maior é esta: gentileza. Ele é encantador.”

Tatá Aeroplano (Jumbo Elektro):
“Na banda a gente quer mesmo é deixar a vergonha de lado e se divertir. Acho que hoje essa coisa de gostar escondido está acabando”.

Luc Albano (Suíte Super Luxo):
“A música cafona existe e é parte da cultura. Não gravamos porque é algo excêntrico e sim porque gostamos”.

Pedro Alexandre Sanches (Carta Capital):
“Dentro do grande armário da música popular brasileira, a obra de Odair José quase sempre ficou guardada numa gaveta modesta, de cuja clausura só escapuliam rótulos como “brega”, “cafona”, “popularesco”, “limitado”… A novidade é que cresce uma frente de oposição à compreensão corrente, que tem historicamente mantido em trincheiras inimigas as classes ditas intelectualizadas e o povo”.

Odair José (no livro Eu Não Sou Cachorro Não):
“O que rolava antigamente na música popular brasileira era o namoro no portão sob a luz do luar e eu vim falando de cama, de pílula, de puta, de empregada doméstica, porque essa é a realidade do Brasil. Então foi por isso que eu me tornei um artista polêmico e a censura começou a me proibir”.

Curiosidades:
– O Los Hermanos gravou “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar” para a trilha do Filme “A Taça do Mundo é Nossa” (Casseta e Planeta) em 2003 e a canção não entrou no tributo por disputas entre editoras.

– Quem também ficou de fora na última hora foram Os Abimonistas (que chegaram a gravar uma versão para “Minhas Coisas”), Tom Zé (que interpretaria “Deixa Essa Vergonha de Lado”) e Autoramas.

– Em 1996, Paulo Miklos, Marcelo Fromer e Arnaldo Antunes fizeram uma música para Odair, “Baby”, que a gravou no álbum “As minhas canções”.

– “Cotidiano nº 3” é uma continuação “não-oficial” de “Cotidiano” (Chico Buarque) e “Cotidiano nº 2”, de Toquinho & Vinícius.

– Na música “Eu Quero Mesmo”, de 1977, Raul Seixas cantava: “Eu gosto de ‘Besame Mucho’ e eu gosto de ‘Eu Vou Tirar Você Desse Lugar’, pra quê mentir?”

– André Luiz Fiori (www.facebook.com/andre.fiori.73) é dono da loja Velvet SP

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