Blog do Editor: Rock independente, webjornalisno e Madonna

O Lucas, o Mauricio e a Julianne me enviaram perguntas nas últimas semanas acerca de alguns assuntos bacanas, que tomo a liberdade de reproduzir abaixo:

1) O rock independende brasileiro passa por um momento de grande boom para as bandas, produtores e criação de selos independentes, devido ao surgimento de mídias alternativas. Essas mídias digitais colaboram na divulgação e facilitam o acesso de determinado segmento (que se identifica com determinadas bandas) a terem o acesso as músicas (através de download de CD´s completos, vídeos no You Tube, sites e blog entre outros); além de manter atualizado determinado público quanto à agenda de shows, histórico da banda entre outras informações. A interatividade, que marca a mídia digital e a nova forma de divulgação atinge os objetivos de quem se lança numa diferenciada experiência musical e mercadológica (no intuito de se vender uma música em que se acredita)?

Acredito que sim, mais até que em outros tempos. Primeiro: agora você elimina o atravessador, o lojista, e fala direto com seu público. Segundo: você sabe o preço certo do seu produto que, com certeza, será mais barato do que se fosse vendido por um grande conglomerado de comunicação. O problema é que o alcance ainda é mais restrito. Essas novas mídias digitais, em países como o Brasil, não tem a força de uma rádio e de uma TV, então no quesito divulgação a coisa toda ainda está meio lenta, mas tende a melhorar.

2) Uma das polêmicas após o surgimento do MP3 era a de que com a liberdade do usuário poder “baixar” os CD´s completos prejudicariam a venda dos mesmos. Muitos acreditam que esse era o fim do formato CD. Mas no meio do rock independente o MP3 só veio a colaborar com as bandas para divulgarem seus trabalhos sem precisarem lançar um CD. Comente acerca da relação do artista com as grandes gravadoras e do consumo cada vez menor de CDs devido a facilidade do MP3.

Bem, ainda não há um estudo cientifico que afirme que a baixa das vendas de CDs seja culpa do MP3. A pirataria, por exemplo, pode ser a maior culpada. No caso da web existem muitos casos que provam o contrário, CDs que foram baixados antes do lançamento e que bateram recordes de vendas. O problema, na verdade, é mais no futuro do que no presente. Quem comprou CD e vinil sempre irá comprar. Mas a molecada que cresceu baixando música será que um dia irá pagar por ela? Por outro lado, será que os artistas não estão mal acostumados com um modelo de mercado que existe há mais de 50 anos e que já está ultrapassado? Para mim, o futuro dos artistas será ganhar dinheiro com show, não com CDs. Como disse um jornalista espanhol sabiamente, “na época em que se compra menos CDs, se ouve muito mais músicas”. E é esse o lance. Quem está chorando é quem ganhava muito dinheiro e agora irá deixar de ganhar. Parodiando a frase de um famoso apresentador, quem sabe faz ao vivo. E vai viver disso.

3) Na atualidade existe a possibilidade de que o rock independente cresça a tal ponto que ele se torne mais um produto nas mãos das multinacionais e das majors? As grandes gravadores poderiam demonstrar interesse em transformar isso num grande negócio? As bandas se renderiam?

Não existe isso de se render, é folclore demais. Nirvana se rendeu por que assinou com a Geffen? De maneira alguma. Estamos caminhando cada vez mais para a liberdade artística. O cara grava o CD em casa (ou num estúdio alugado), produz e entrega a máster pronta para a gravadora, que se interessa ou não em lançar o produto (com o Pato Fu e várias medalhões da MPB já vem fazendo). As gravadoras só vão na onda. Se o Vanguart estourar nacionalmente vão pintar dez cópias de Vanguart no mercado, e as gravadoras vão vendê-las e todo mundo vai ganhar dinheiro e ficar feliz. Menos as outras bandas que não soavam como Vanguart e continuam no underground. E esse exemplo pode ser adaptado dezenas de vezes.

4) No começo dos anos 80, no Brasil, começavam a surgir as primeiras bandas independentes, os primeiros produtores e selos voltados para esta produção, principalmente nas grandes cidades, a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro, que encontravam um público maior e “mais aberto” a experimentalidade desses músicos. A maior parte deles, influenciados ainda pela contracultura, procuravam novos caminhos para fazer sua música “acontecer”. Em sua opinião o espaço da internet é correlato a este momento anterior do cenário musical independente? Quais são os prós e os contras das mídias digitais em relação a divulgação e comercialização de novas tendências musicais?

Não daria nem para dizer que eram bandas independentes aquelas nascidas no começo dos 80. Era uma coisa underground por obrigação, não por opção. Tanto que a maioria delas (inclusive os punks) assinaram com grandes gravadoras e tiveram seus discos lançados. É um momento bem diferente agora. Tem muita banda atual que não quer assinar com uma gravadora porque quer ter domínio total sobre sua carreira. Quantos aos prós e os contras, para mim só existem prós: você pode montar um site com custo baixíssimo ou disponibilizar as suas canções em um site que as hospede gratuitamente (tipo My Space e Trama Virtual). Isso já é divulgação. A comercialização é uma outra coisa que precisa ser adaptada e repensada para os novos tempos. Vivemos uma nova idade média com a vantagem que agora os músicos podem gravar CDs e vende-los para seu público, enquanto lá atrás eles tinham que ir de cidade em cidade se apresentando, e ganhavam dinheiro só com o show que faziam, e não com os discos. Agora o cara lança uma música hoje e amanhã já vai ter gente no show cantando. O National, que veio ao Tim Festival, agradeceu à internet, pois ela possibilitou a vinda da banda ao Brasil, um país que nunca teve um disco deles lançado aqui. Eles ganharam dinheiro com os discos? Não. Eles ganharam dinheiro para virem fazer shows aqui. O mundo precisa se adaptar a isso. Enquanto ficar tentando ajeitar um modelo antigo em um novo negócio estará perdendo tempo. E tempo, todos sabem, é dinheiro.

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1) Como você analisaria a experiência do jornalismo cultural na internet? Em relação a outras mídias, o que ela traz de mais interessante e quais os seus problemas?

A internet permite a união de várias mídias, e isso é sensacional. Uma pessoa pode falar de um show, colocar fotos, vídeos e ainda receber comentários rápidos de outras pessoas que também foram neste show. Ou seja, a interatividade e a união das mídias são dois fatores importantes que favorecem o uso da web.

2) A internet mudou muito desde o início do Scream & Yell até hoje. Como isto afetou o conteúdo e o site num todo?

Afetou muito, e pra melhor. A velocidade aumentou de oito anos pra cá e, principalmente, as ferramentas de edição permitiram que eu melhorasse algumas coisas como o transporte do blog que eu fazia em html dentro do site para o wordpress, que permitiu uma atualização mais rápida e maior contato com os leitores.

3) De que modo a interação com o leitor interfere no seu trabalho? Você leva isto em conta para definir pautas e reportagens?

A interação intefere de várias maneiras. As melhores são quando alguém aparece para corrigir alguma informação que eu eventualmente tenha me equivocado, ou mesmo completa-la. Em vários casos, a discussão nos comentários do texto esclarecem pontos que ou ficaram obscuros ou mesmo serve para verificar se aquilo que eu queria propor com o texto funcionou. E acaba, em poucos casos, ajudando na pauta, mas é mais corriqueiro.

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1) Na sua opinião, o que fez a Madonna se manter no topo por tanto tempo?

É muito difícil mensurar isso, mas acredito que tenha sido seu carisma aliado a um alto conhecimento de mercado e indústria, juntando a isso a sua constante adaptação ao que está em voga no momento através de parceiros e produtores.

2) Como você entende essas mil faces da Madonna? Autenticidade, estilo ou alguma espécie de tendência de mercado mesmo, como um produto rentável?

A Madonna é extremamente rentável, quanto a isso não a dúvida. E essas mil faces são um choque dessas coisas que você citou, internas e externas: autencidade e estilo (coisas delas) com o mercado e o momento histórico que vivemos (coisas do mundo). Desse choque nasce o personagem Madonna.

3) Musicalmente, quais são os méritos e os deméritos da Madonna?

Atualmente, seu maior mérito é também um demérito: ao procurar se atualizar sempre buscando o “produdor do momento”, ela se afasta das caracteristicas próprias de compositora que ela tinha nos anos 80 e começo dos 90. Ou seja, ela passa a ceder mais ao mercado ao invés de tentar fazer com que o mercado ceda a ela.

4) Na sua opinião, qual é o melhor e o pior trabalho dela?

Admiro seus trabalhos dos anos 80. Coisas como Into The Groove, Like a Virgin, Lucky Star e Material Girl são eternas. As baladas, que ela abandonou nos anos 00, também eram estilosas. Acho que a sua última grande canção foi Music. Na outra ponta incomoda a repetição de American Life, Confessions on a Dance Floor e Hard Candy, nenhum deles um disco totalmente ruim, mas que pouco evoluem de um trabalho para o outro.

5) O que a Madonna representa hoje pra música pop?

Ela é a principal artista do mundo (já que Michael Jackson se aposentou). Ela ainda consegue chocar, mexer com as pessoas. Como escrevi na resenha sobre o disco “Hard Candy”: “Aos 50 anos, ela viu nascerem dezenas de “filhas”, e até beijou na boca a mais famosa (incesto é tão Madonna), mas continua dando as cartas no mundo pop”. É isso, ela continua dando as cartas.

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