Ao vivo: Com bom humor e clássicos, João Donato e Jards Macalé cativam público n’A Autêntica, em Belo Horizonte

texto por Bruno Lisboa
fotos de Alexandre Biciati

Artisticamente, como e porque se atribui o status de “lenda viva”? Quais são os critérios? Por que temos essa necessidade de categorizar com essa nomenclatura? Por mais que essa resposta seja subjetiva acredita-se que os principais elementos para tal afirmação residam no legado construído por anos (quiçá décadas) e na atemporalidade da obra, dois quesitos fundamentais, independente da área.

Nos dois sentidos, João Donato e Jards Macalé, cada um à sua maneira, são exemplos de como é possível conciliar estas e outras características e souberam construir carreiras de respeito que espelham a própria MPB em si. E, sim, são duas lendas vivas.

Com 87 anos (sendo mais de 70 deles na estrada da música), João Donato é um dos artistas mais respeitados da música popular brasileira. O pianista, cantor, arranjador e compositor tem uma vasta discografia composta por álbuns clássicos (como o essencial “A Bad Donato”, de 1970) que entrecruzaram, como poucos, gêneros diversos, unindo ritmos africanos e latinos com um tempero brasileiro. Sua versatilidade fez com que promovesse diálogo com trabalhos de ícones (e, porque não, outras lendas vivas) como Gal Costa, Gilberto Gil, Caetanos Veloso, Eumir Deodato, entre tantos outros.

Por sua vez, a trajetória de Jards Macalé não difere da de Donato no quesito relevância. Com carreira iniciada em 1965, o músico promoveu diálogo com artistas diversos, de ontem e de hoje, e na mesma medida criou, enquanto compositor, diversos hinos do cancioneiro popular brasileiro gravados por artistas diversos indo de Maria Bethânia ao O Rappa.

Após décadas de bons serviços prestados eis que em 2021 a dupla uniu forças para produzir o delicioso “Síntese do Lance”, álbum que soa como uma miscelânea de ritmos, embalados por letras simples e pegajosas. O disco colecionou elogios e figurou em listas de melhores do ano como a do Scream & Yell e da APCA. Com o lançamento do álbum, os músicos iniciaram ano passado sua turnê de divulgação, que passou por várias cidades e finalmente chegou em Belo Horizonte.

A abertura ficou a cargo do músico mineiro Haroldo Bontempo que acaba de lançar seu segundo disco. O integrante do grupo de indie rock Mineiros da Lua aposta, em sua carreira solo, numa sonoridade mais abrasileirada tendo o choro, o samba e a bossa como referências tendo o cotidiano como elemento crucial de sua verve lírica.

Na sequência foi a hora e a vez da dupla Macalé e Donato. Visivelmente à vontade e em perfeita harmonia, o duo esbanjou simpatia e não hesitava em conversar com o público, trazendo à tona assuntos diversos como futebol e detalhes sobre o processo de composição de algumas faixas de “Síntese do Lance”.

Escudados por um quarteto composto por José Arimatéa e Marlon Sette nos metais, Guto Wirtti no baixo e Renato Massa na bateria, Macalé e Donato dividiram o setlist em quatro blocos, sendo o primeiro e o último privilegiado o repertório do disco lançado ano passado (tocado na íntegra) e o miolo com apresentações individuais no qual pincelaram pérolas de suas respectivas carreiras.

Desde a abertura da apresentação, feita com a canção “Coco Táxi”, o clima de festa foi contínuo, cativando o pequeno, mas cativo, público presente na A Autêntica que esbanjava sorrisos a cada música executada.

De sua parte, Jards optou por resgatar faixas como “Pano pra Manga” (presente no disco “Let’s play That” de 1983), “Meu Amor Meu Cansaço” (do seu disco mais recente “Besta Fera”, de 2019) e o clássico “Vapor Barato”, que ganhou um belo arranjo voltado ao ska e ao jazz. Donato, por sua vez, colocou o público para dançar ao som de “Bananeira”, ponto alto da noite, “A Rã” e “Emoriô”.

“Coco táxi”, voltou no bis e colocou números finais numa apresentação emocionante, que reuniu dois patrimônios da música popular brasileira que souberam construir trajetórias que reverberam até hoje e deve permanecer viva ao longo dos próximos anos.

Aos gritos de “olê olê Lula Lula” a banda saiu do palco ovacionada pelo público e isto rememora um outro Brasil, aquele em que a nossa cultura popular não era deturpada por uma corja de acéfalos, cooptada pelos interesses do agronegócio ou de uma secretária de cultura reacionária. Se almejamos construir uma nova realidade é preciso que os desejos anunciados nos shows, de modo geral, ganhem corações e mentes fora de nossas bolhas. E que assim o seja.

– Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. Alexandre Biciati é fotógrafo: www.alexandrebiciati.com/

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