Cinema: “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, e a luta de um povo por sua existência

texto de João Paulo Barreto

A frase que estampa o topo dessa página vem de um apelo feito pelo líder político e xamã Yanomami, o escritor Davi Kopenawa, por ocasião de sua visita como palestrante convidado na prestigiada universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em maio de 2019. Na sua fala aos acadêmicos, trecho que de maneira pungente encerra “A Última Floresta” (2021), do cineasta Luiz Bolognesi, Davi falou sobre a característica sovina do comportamento do homem branco. “Vocês que vivem aqui na outra margem, não enxergam. Pensam que na floresta tudo é bonito. Mas os brancos que são autoridades liberaram o garimpo em nossas terras”, alertou Davi, naquele distante mês de maio, cinco meses após o genocida e atual governo federal tomar posse.

Davi continuou sua fala pontuando o modo como a autoridade não indígena usa a palavra “importante” no sentido de designar mercadorias. “Apesar de ter muitas mercadorias, o branco não divide. São sovinas. Fazer muita mercadoria faz mal para a floresta. Para nós, importante são os animais da floresta, a fertilidade. Importante é dividir o alimento entre o nosso povo, nossa forma de viver e nossa existência como povo “, explicou o líder Yanomami.

Em todos os seus breves 76 minutos, “A Última Floresta”, filme que estreia nesta quinta, (e que ficará disponível gratuitamente, também, no dia 30/09, no Itaú Cultural Play), traduz em imagens essa mesma consciência: a da básica necessidade de se existir. A de uma básica condição a se pleitear como ser humano: a condição da vida. O filme, logo em seu letreiro inicial, explica que “os Yanomamis vivem em um território no Norte do Brasil e Sul da Venezuela há mais de mil anos, e que 500 anos antes desses dois países existirem, eles já estavam lá”. Hoje, o povo indígena busca por fazer valer o direito de permanecer naquelas terras sem correr riscos de envenenamento por mercúrio, sem correr riscos de serem assassinados por garimpeiros armados, nem de terem suas mulheres estupradas e filhos mortos, como aconteceu em 1986, quando jazidas de ouro foram descobertas. O resultado foi a invasão de 45 mil garimpeiros e o assassinato de 1500 a 1800 indígenas.

O roteiro do filme, assinado por Davi Kopenawa e Luiz Bolognesi, cria uma estrutura documental hibrida, com inserções de uma dramatização da lenda dos irmãos Omama e Yoasi, que deu origem ao povo Yanomami no começo do mundo. O filme se desenvolve no contar de tal história em um aspecto lúdico e fantasioso. Mas, juntamente com esses momentos, a realidade dos riscos que correm aquelas pessoas chega ao espectador de modo direto. São os momentos nos quais vemos a rotina daquelas pessoas com suas crianças, os adultos e idosos em suas atividades comuns às suas realidades e existências. E é pensar em como aquilo tudo é ameaçado por uma ganância destruidora que nos traz ao aspecto denunciatório e impactante da obra.

Junto a tais momentos lúdicos, a realidade áspera se apresenta. Surge nos trechos nos quais Davi esclarece aos companheiros de aldeia os riscos da presença de garimpeiros, com o envenenamento dos rios com mercúrio, bem como com a sedução oriunda dos objetos oferecidos pelo homem branco. Assim, “A Última Floresta” apresenta para sua audiência a importância da causa de defesa dos Yanomamis em dois pilares fundamentais para a compreensão da sua prioridade.

O primeiro pilar surge do aspecto cultural. Quando o filme se propõe a levar ao espectador uma parte da cultura dos povos Yanomamis com a dramatização de suas lendas, ele nos oferece um vislumbre dessa riqueza. E ao utilizar a própria floresta como cenário e integrantes da tribo como atores a representar aqueles personagens, Kopenawa e Bolognesi criam uma linguagem que, apesar de não incomum no cinema, possui um aspecto único naquele hibridismo entre documentário e ficção. E isso é justamente pelo peso de simbolizar um povo que enfrenta um genocídio real de seus integrantes.

É neste ponto de representação que está o segundo pilar da obra: o do aspecto da denúncia. A conscientização para o que acontece desde muito tempo com a ganância cega que mata, queima e destrói um povo para que as riquezas materiais de suas terras sejam extraídas, deixando um rastro de sangue e destruição. Vale frisar que, mesmo após o reconhecimento legal das terras Yanomamis pelo governo brasileiro em 1992, um novo massacre aconteceu no ano seguinte, com garimpeiros matando a golpes de facão e tiros 16 indígenas, entre crianças, mulheres e idosos, em um episódio que ficou conhecido como Massacre de Haximu.

O filme, porém, ao invés de inseri-las em imagens de arquivo, traz essas informações ao final, em letreiros explicativos. E tal opção de Bolognesi em sua montagem não poderia ser mais acertada por conta não somente de seu impacto, mas por manter a obra em um aspecto de, mesmo sendo um filme denúncia, ter em sua estrutura um foco na valorização da vida de quem habita aqueles momentos registrados por uma câmera que nunca é intrusiva.

No filme, a criança pede à mãe um pedaço de beiju, iguaria feita da mandioca assada. O idoso varre o terreno. Um grupo de homens entra em um transe ritualístico ao visitar suas consciências como povos eternos. São pequenas inserções que nos permite penetrar naquele mundo. “A Última Floresta” sai desse ambiente para a universidade de Harvard a partir de um corte sutil entre o céu amazônico e o estadunidense. E lá está Davi caminhando pelo campus e seguindo para o auditório onde apresentará seu discurso de alerta e um pedido de socorro destinado a acadêmicos de diversas partes do mundo do homem branco.

Davi, em seu discurso que abre esse texto, fala da importância da floresta. A imagem que nos vem à mente é a que inicia o filme, quando a grandiosidade daquela natureza nos impressiona e encanta tanto através do que vemos quanto do que ouvimos nos sons que nos guiam por aquele verde. Davi, deslocado em seu quarto de hotel, vai à janela e escuta os sons urbanos. Lembra de toda a sua luta para que seu povo pudesse viver em paz longe daqueles sons que se tornam o que prenuncia o genocídio trazido pelo garimpo de homens brancos.

Brancos bem menos civilizados do que aqueles para os quais falou o xamã Yanomami.

Texto publicado originalmente no jornal A Tarde, de Salvador (BA)

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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