Entrevista — The Black Tones: “Nossa música reflete a época em que vivemos”

entrevista por Leonardo Tissot

Apadrinhado por Jack Endino e Mike McCready (Pearl Jam), o duo The Black Tones é uma das principais novidades do rock de Seattle em anos. Formada pelos gêmeos Eva e Cedric Walker — ela na guitarra e vocais, ele na bateria — a dupla se destaca por um combo de elementos que compõem seu som.

Eva é um talento nato e esbanja potência vocal. Sua voz entrelaçada com a guitarra minimalista e as batidas criativas e precisas do irmão são o grande trunfo dos Black Tones. Apesar da capacidade pulmonar, no entanto, a cantora evita exageros na demonstração de seus talentos — inclusive, diversas canções da dupla contam com prolongados trechos instrumentais, lembrando uma versão mais concisa da banda gaúcha Pata de Elefante, em certos momentos.

Até agora, os Black Tones têm apenas um álbum, “Cobain & Cornbread” (2019) — o título, segundo Eva, é uma descrição resumida do som da banda, citando uma influência musical (o vocalista do Nirvana) e o tradicional pão de milho da família Walker. Produzido por Jack Endino, o disco traz pauladas como “Ghetto Spaceship”, “The Key of Black (They Want Us Dead)” e “Welcome Mr. Pink”.

Os irmãos ainda lançaram uma porção de singles, incluindo um compacto pelo selo do guitarrista do Pearl Jam, com as faixas “Where Do We Go Now” e “The Devil and his Grandmother”.

Neste papo com Scream & Yell, Eva e Cedric falam sobre a origem da dupla, a rotina dividida entre trabalhos “normais” e a música, a cover de U2 gravada com McCready, Black Lives Matter e seus planos para o futuro.

Pessoal, para começar a entrevista, por favor, me contem como vocês têm passado os últimos meses. Completamente vacinados e saudáveis, eu espero. De que forma a pandemia afetou o trabalho de vocês?
Eva: Sim, estamos definitivamente e completamente vacinados e esperamos nos manter saudáveis! Sabe, como muitos outros artistas, eu diria que o cancelamento dos shows foi o maior problema. Eu AMO tocar ao vivo, é o que mais me deixa animada, mais do que as gravações e fazer vídeos. Tocar ao vivo é onde coloco meu coração. Não poder fazer isso foi horrível.

Cedric: Sim, estou totalmente vacinado e fazendo o melhor possível para me manter saudável. Foi realmente difícil ver tantos shows serem cancelados. Estávamos prestes a tocar pela primeira vez no South by Southwest, em Austin (Texas). Era algo que eu queria fazer há muito tempo. A pandemia nos forçou a ser criativos para encontrar maneiras de mostrar nosso trabalho. Fizemos o possível para continuar tocando, muitas lives e vídeos pré-gravados. Tenho certeza de que tem sido um período interessante para todos os artistas.

Vi que vocês lançaram alguns singles em 2020. Essas músicas foram escritas e gravadas durante o período de lockdown ou já estavam prontas antes da pandemia chegar?
Eva: Duas dessas canções, que foram lançadas pelo Mike McCready (Pearl Jam) no selo dele, HockeyTalkter, foram gravadas um pouco antes do lockdown. No dia do lançamento, tivemos um grande show na loja de discos Easy Street Records, aqui em Seattle, e estava lotado. Esse foi nosso último show, porque dois dias depois, o lockdown começou. O single “My Name’s Not Abraham Lincoln” foi a única faixa gravada durante o lockdown, e é nossa música estilo “saloon do velho oeste” sobre a falta de representatividade de pessoas negras, e como isso contribui para estereótipos dos negros até os dias de hoje. Ela foi escrita pouco depois do assassinato de George Floyd.

Vocês têm planos de lançar novas músicas em 2021? Dá para a gente esperar por uma sequência de “Cobain & Cornbread”? Ou vão apenas tocar ao vivo?
Eva: Sabe, eu realmente vou levando um dia após o outro. Se um disco completo sair de mim, então a gente vai fazer um. Se não rolar, não rolou. Nunca forço essas coisas. Posso fazer um disco inteiro em uma semana e depois ficar um ano sem compor nada. Só quero que seja autêntico. Definitivamente vamos voltar a tocar ao vivo assim que a pandemia nos permitir.

Cedric: Concordo totalmente com a Eva nesse ponto. Se sair algo, ótimo. Mas forçar uma situação está totalmente descartado. Estou mais animado com a possibilidade de voltarmos a tocar ao vivo novamente. Espero que os shows possam continuar rolando, contanto que todos nós façamos nossa parte para combater essa pandemia.

Me contem um pouco sobre como a banda começou. Li que, no começo, a Eva estava meio que desenvolvendo sua carreira musical em segredo, e depois que o Cedric a viu tocando pela primeira vez, aprendeu a tocar bateria para formar uma banda. É verdade?
Eva: O Cedric veio me ver tocar depois que eu finalmente decidi convidar a família para uma apresentação. Eu ficava muito nervosa de ter que tocar na frente deles quando eu estava começando, mas quando finalmente me senti confiante o suficiente para deixá-los me ouvir, eu os convidei. Eu e o Cedric somos muito próximos, tão próximos quanto irmãos gêmeos podem ser, e nem mesmo ele sabia que eu podia cantar e tocar guitarra. Ele me falou, depois de uma apresentação, que ele queria me apoiar, me acompanhar tocando um instrumento, e perguntou se eu podia ensiná-lo a tocar bateria, então eu o fiz. A banda não existiria sem o Cedric investir em mim e nas minhas canções. Ele é a principal razão pela qual isso tudo começou.

Cedric: Sim! A Eva andava cantando desde o colegial mas não tinha contado pra ninguém na nossa família ainda. Eu sabia que ela tocava guitarra, mas o que me surpreendeu foi quando eu tive a chance de ouvi-la cantar pela primeira vez. Ela tinha essa voz absolutamente incrível que me comoveu muito. Ela realmente me colocou sob as asas e me moldou para ser seu baterista (ela tem tanto talento que consegue fazer de tudo), o baterista dos Black Tones!

Como começou a relação de vocês com a música? Sempre tiveram gostos musicais parecidos? Ou a dupla é mais uma combinação de estilos diferentes?
Eva: A minha relação com a música começou quando eu era muito jovem. Pelo que me lembro, eu ouvia música em tudo — motores de carro, trens, sopradores de folhas, até nos sistemas de ventilação. Sempre conseguia ouvir alguma coisa musical vindo de sons aleatórios. Minha irmã sempre tocava muitos discos da nossa mãe e dançávamos e cantávamos no quarto de cima, eu, ela e o Cedric. Me lembro especialmente dela nos apresentar o som do 5th Dimension. Ela tinha que fazer um trabalho da escola no qual ela precisava memorizar a declaração da independência, então ela colocava “The Declaration”, do 5th Dimension, para tocar no modo “repeat” e aprendemos com ela. Além disso, éramos crianças dos anos 90, então o que nossos irmãos estavam assistindo na MTV, a gente via junto. Foi assim que descobri minha primeira heroína do rock, Alanis Morrisette (que também é uma gêmea). O “Jagged Little Pill” foi a primeira fita que eu comprei com meu próprio dinheiro. Eu gastei aquela fita de tanto ouvir todos os dias, várias vezes! Minha irmã também foi a primeira pessoa a investir em mim como cantora. Ela sabia que eu queria cantar e me fazia cantar junto com músicas da Selena Quintanilla e da Erykah Badu. No colegial, conheci o rock clássico, tipo Led Zeppelin, The Doors, Rolling Stones, The Who, U2, Pink Floyd (que estou ouvindo agora, enquanto respondo). Minha mãe percebeu meu interesse e comprou CDs de grandes sucessos dessas bandas. A minha mãe era muito boa em nos encorajar a explorar nossos interesses. Ela sempre deu muito apoio a seja lá o que for que estivéssemos a fim de conhecer. Minha maior influência nesse período foi Jimi Hendrix. Por meio do rock clássico, descobri o blues, porque aprendi que todos esses caras do rock foram inspirados pelo blues negro americano. Então me aprofundei no blues, como Muddy Waters, Robert Johnson e Son House. Hoje em dia, posso dizer que amo praticamente tudo. Meus artistas favoritos no momento são Zazou Bikaye, Kraftwerk, Herb Alpert, Sérgio Mendes e Public Enemy, assim como uma descoberta que fiz há alguns anos: afro rock e música psicodélica dos anos 70 nigerianos e rock zambiano. Bandas como The Funkees, Witch e Ify Jerry Krusade, para citar alguns poucos. Amo música country, ragtime piano, ópera, música clássica, jazz, rap, pop, literalmente tudo. Não gosto de todas as canções, mas consigo encontrar algo que goste em praticamente todos os gêneros.

Cedric: A minha relação com a música foi um pouco diferente da Eva no começo. Eu amava ouvir R&B dos anos 80 e 90, também amava rap. Só comecei a curtir rock quando me tornei fã de luta livre (risos). Eu assistia o pay per view de luta livre e sempre rolavam canções-tema que eram clássicos do estilo. Quando chegou a época do colegial, eu e a Eva dividíamos um quarto no apartamento onde morávamos com nossa mãe. Ela colocava rock clássico pra tocar e eu comecei a me interessar. Lembro que todos os dias ela colocava o mesmo CD do U2 pra ouvir antes de dormir. Nos fins de semana eu ouvia um programa de rádio numa estação local chamado Lunch with Led (Zeppelin). Também tinha um programa chamado Think Pink (Floyd)! Quando percebi, meus horizontes musicais haviam se expandido muito. Como a Eva comentou, também tínhamos irmãos mais velhos, nossa mãe e avós que ouviam as músicas que eles gostavam ao nosso redor e tenho certeza que isso nos influenciou de alguma forma.

Vocês conseguem viver apenas da música, com tudo que está rolando no mundo hoje? Ou ainda têm empregos fora da banda?
Eva: Estou totalmente envolvida com música em todas as minhas atividades. Seja me apresentando ou como curadora. Quando não estou tocando nos Black Tones, sou apresentadora na KEXP [lendária rádio de Seattle]. Apresento um dos programas mais longevos do rádio no noroeste, o Audioasis. Às vezes apareço em outros programas da rádio, especialmente o Midday Show, que normalmente é apresentado pela Cheryl Waters [conhecida pelo programa Live on KEXP, cujas gravações são um sucesso no YouTube].

Cedric: Ganhamos uma graninha aqui e ali com os Black Tones, mas também tenho meu trabalho na Amazon. Atualmente trabalho no Amazon Prime Air e é algo que gosto de fazer também. A maior parte das pessoas com quem trabalho diz que se tivessem a chance de transformar sua paixão em seu trabalho em tempo integral, elas o fariam. E eu também. Então, quem sabe? Um dia poderei me tornar músico em tempo integral.

Vocês trabalharam com o Jack Endino no seu primeiro álbum. Por que o escolheram como produtor? Quer dizer, é óbvio que ele é uma lenda, mas há algo específico que vocês estavam buscando — um determinado som ou alguém que entendesse as ideias da banda, quem sabe? Trabalhariam com ele novamente?
Eva: Muitas pessoas nos recomendaram o Jack e é claro que eu conhecia o trabalho dele e adorava. A forma como chegamos a ele foi por meio do meu então namorado, hoje marido, Jake. Ele mandou uma de nossas canções para o Jack sem eu saber, e a resposta foi “porra, o que eu não gravaria com uma banda dessas!”. Quando o Jake me contou o que tinha feito e a resposta do Jack, falei: “Ok! Vamos trabalhar com ele, então!”. É ótimo trabalhar com o Jack. Vê-lo em ação é como ver um químico atrás da mesa de som. Ele é tão humilde, apesar de todo o trabalho incrível que já realizou. Ele realmente se importa com o projeto em que está envolvido no momento. Seja trabalhando com o Soundgarden ou um cantor/compositor local. Ele entrega um trabalho de qualidade e se esforça da mesma forma. Recentemente trabalhamos com outro produtor igualmente incrível, Don Farwell, do Earwig Studios. Também trabalhamos com o Barrett Martin [ex-baterista de Mad Season, Nando Reis e Screaming Trees]. Nosso amigo Mason Lowe produziu duas das canções do “Cobain & Cornbread”, “Chubby & Tubby” e “Welcome Mr. Pink”. Seattle tem muitos produtores incríveis e engenheiros que também são pessoas ótimas. Continuaremos trabalhando com todos eles no futuro e, se conhecermos alguém legal, teremos oportunidade de fazer algo também.

Cedric: Foi uma grande honra trabalhar e conhecer Jack Endino. Como a Eva mencionou, meu cunhado quebrou um galho pra gente e enviou uma de nossas canções pro Jack. Quando a Eva me disse que ele queria gravar a gente, nem tivemos que pensar a respeito. Ele é um mestre no que faz na mesa de som e sempre abre espaço para o artista ser criativo e, ao mesmo tempo, dá ótimos conselhos sobre o que adicionar ou até mesmo retirar das músicas. Sua humildade diante da grandeza do que ele oferece em cada trabalho realizado é admirável e algo em que me espelho.

Sua família é originalmente da Louisiana, mas vocês são nascidos e criados em Seattle, certo? Qual a influência da cidade no som de vocês? Quer dizer, dá pra ouvir um pouquinho de Jimi Hendrix e um pouquinho de grunge nas músicas. Mas também tem um sabor de música sulista, blues e gospel. Todas as influências surgiram naturalmente ou vocês tentam conscientemente incorporar esses estilos?
Eva: Nossa casa era muito musical, sempre tinha algo tocando. Meus avós adoravam jazz, blues e big bands. Minha mãe curtia soul, R&B, pop e jazz dos anos 70. Tudo isso foi parte da jornada para chegarmos ao que criamos hoje. Comecei a curtir música gospel quando estava explorando gravações de blues antigas. Quando aprendi sobre a influência que o blues e o gospel tiveram no rock n’ roll, me aprofundei ainda mais. Havia algo ali que soava nostálgico e fazia eu me sentir em casa. Crescemos indo à igreja duas vezes por semana, mas não igrejas batistas ou aquelas que tinham corais de soul. Éramos católicos, então a música era mais calma. Eu gostava de algumas delas. Mas às vezes íamos a outras igrejas que tinham bandas e corais gospel e lembro de amá-los! Sinto que as influências musicais podem vir de qualquer lugar, até mesmo de fontes não musicais. Já me inspirei até pela estética da casa de meus avós, onde crescemos. O dialeto sulista que meus avós ainda usavam e a culinária sulista que comíamos diariamente. Ser criado por sulistas no noroeste dos Estados Unidos cria uma espécie de híbrido entre alimentar a alma e a vontade de se rebelar. Gosto de pedir para as pessoas imaginarem como é comer feijões vermelhos e arroz, enquanto usa botas e flanela e Cobain está cantando ao fundo. Ou bater cabeça enquanto come gumbo [sopa típica da cultura Cajun da Louisiana]. Tudo isso parecia muito natural e correto. Nossa música é apenas uma reflexão dessas experiências.

Qual é o papel da religião na música de vocês? Foi essa a razão de terem gravado “Rivers of Jordan”, do Jaybird Coleman?
Eva: Eu canto sobre Jesus em mais canções do que pensei que faria. Como falei antes, fomos criados como católicos e, às vezes, gosto de endereçar isso na música. Eu amo, amo, amo música gospel. A paixão, os instrumentos, o trabalho vocal, tudo. Não sou mais uma pessoa religiosa, mas minha canção favorita de todos os tempos por acaso é uma canção religiosa chamada “Judgment”, da Rev. Sister Mary Nelson. Ouvi “Rivers of Jordan” pela primeira vez mais ou menos na mesma época em que ouvi “Judgment”, e me apaixonei pela canção. Eu estava começando a aprender a tocar harmônica e aprender essa canção se tornou um objetivo imediato. Eu adorava o trabalho de harmônica e a mensagem histórica de cruzar o rio da Jordânia, que representa libertar-se da opressão e da escravidão.

Nos últimos anos, Tina Bell tem sido meio que “redescoberta” pelos jornalistas de música. Qual sua visão sobre o trabalho dela como uma influência ou até mesmo como “fundadora” do grunge? E por que você acha que ela foi “apagada” da história da música de Seattle por tantos anos?
Eva: Acho a Tina Bell incrível! Nem acredito que ela tenha sido real, às vezes, mas ela com certeza existiu. É a mesma razão pela qual muitas pessoas negras são apagadas da história como influenciadoras. Racismo. Supremacia branca. Estereótipos. A lista é longa. Tem uma narrativa que os Estados Unidos querem manter a respeito de pessoas negras. Não nos ver como indivíduos e, especialmente, não em um gênero musical que agora é dominado por pessoas brancas. Porra, muitos de nós nem sabiam ou se davam conta que uma mulher negra havia inventado o rock n’ roll, até poucos anos atrás. Historicamente, a narrativa e a missão do país tem sempre sido celebrar e dar crédito a pessoas brancas. É por isso que a recente onda de informações históricas a respeito de quem inventou essas coisas é tão chocante para muita gente. Eles nunca esperavam que tivesse sido a gente, porque essa nunca foi a narrativa e nem uma prioridade no país.

Algumas de suas canções têm longos trechos instrumentais, com poucos vocais ou até mesmo nenhum. De onde vem essa característica?
Eva: Nem sempre tenho o que dizer, vocalmente, em uma canção. Não acredito na ideia de ocupar espaço em uma música com vocais apenas por ter vocais, ou porque se pensa que toda canção precisa ter letra. Às vezes os próprios instrumentos têm mais a dizer. Eu toco o que amo e o que sinto, e às vezes isso não depende de palavras. Eu adoro música instrumental. Acho que os anos 70 foram uma das melhores décadas para a música. Adoro como Kraftwerk, Pink Floyd, Miles Davis, Herb Alpert e muitos outros criaram canções que não dependiam de palavras — fossem apenas algumas ou todas elas. Fela Kuti era o rei de manter um groove consistente por uns bons 10 minutos antes de cantar qualquer coisa. Se é o que você está sentindo, manda ver. Se não está quebrado, não tente consertar. Às vezes uma canção soa melhor e pode te levar a uma jornada completamente diferente se o vocalista simplesmente calar a boca.

Eva, e quanto ao seu medo de aranhas, que inspirou a letra de “Mama! There’s a Spider in my Room”? A canção narra um evento real? O que aconteceu com a pobrezinha da aranha?
Eva: Eu realmente não gosto de aranhas. Tenho medo delas desde que era uma garotinha. Não lembro de uma época em que elas não me assustavam. Escrevo canções sobre temas que me deixam feliz, triste, intrigada, assustada etc. Aranhas me assustam. Embora eu sinta que o meu medo diminuiu ligeiramente (muito ligeiramente) à medida que envelheci. Consigo lidar com aquelas bem pequeninas, se vir uma. Mas, no geral, eca! Não as suporto. Acho que um título mais apropriado teria sido “Cedric! There’s a Spider in my Room”, já que ele matou a maioria das aranhas pra mim.

Me contem um pouco da relação de vocês com o Mike McCready, do Pearl Jam. Como vocês contaram, vocês gravaram um single de 7 polegadas para o selo dele. Como vocês se conheceram?
Eva: Mike é um cara tão legal! Ele é um apoiador dos músicos locais aqui em Seattle e é uma grande honra ter o suporte dele. Recebi um e-mail do empresário dele uns dois anos atrás dizendo que o Mike tinha assistido nossa apresentação em um programa de TV chamado Band in Seattle, e falando sobre como ele havia ficado impressionado e queria lançar nossas músicas pelo seu selo. Fiquei bem surpresa, porque a gente nunca sabe quem assiste, presta atenção ou se importa com o que você está fazendo. Então, é claro que dissemos “pode crer”, e escrevemos e gravamos duas faixas — “The Devil and His Grandmother”, batizada em homenagem a um conto de fadas dos Irmãos Grimm, e “Where Do We Go Now”.

E ele também tocou na cover que vocês fizeram para “Pride (In the Name of Love)”, do U2. Como surgiu a ideia de fazer uma versão dessa música?
Fomos convidados pelo SMASH, uma organização que oferece suporte à saúde de músicos aqui em Seattle. Eles estavam organizando uma ação beneficente e queriam que músicos colaborassem em canções com o tema “esperança”. A música em que pensei imediatamente foi “Pride (In the Name of Love)”, do U2, uma faixa que eles escreveram a respeito do Dr. Martin Luther King Jr. Uns meses antes disso, ficamos hospedados no Lorraine Motel, em Memphis (Tennessee), que é onde ele foi assassinado em 1968, e agora é o Museu dos Direitos Civis. Então, a canção já estava na minha cabeça há algum tempo, e eu sonhava em fazer uma versão dela desde quando ainda estava na escola. Daí, entramos em contato com o Mike, que alegremente aceitou colaborar na gravação. Falamos por telefone e ele é um cara muito legal e pé no chão. O que me deixou com lágrimas nos olhos foi quando ele me disse, “a primeira vez que ouvi a canção de vocês, ‘The Key of Black’, fiquei sem palavras”. Aí está um homem que é parte do Rock N’ Roll Hall of Fame, conquistou tudo que há para se conquistar no mundo da música, querendo trabalhar com a gente, expressando sua admiração pelo que fazemos e nos encorajando. Isso realmente faz a gente se sentir validado, mesmo sendo uma banda menor, local e independente. Faz a gente sentir que é parte do mundo da música e que tem algo a dizer que é tão importante quanto a mensagem de uma mega estrela. Esse será sempre um dos momentos mais memoráveis da minha vida.

Algumas de suas letras têm forte conteúdo político, especialmente no que tange questões como racismo, violência policial e outros temas. Contem um pouco de suas ações como ativistas, quais as principais causas que apoiam e como os fãs podem se envolver.
Eva: Nina Simone costumava dizer que o trabalho de um artista é refletir os tempos atuais. E é isso que fazemos. Não podemos fingir que as questões de hoje não estão nos afetando, ou afetando as pessoas que se parecem com a gente. Nosso ativismo aparece em algumas de nossas músicas. Outra parte dele é financeira. Já doamos dinheiro que ganhamos em shows ou canções para escolas de música, solicitando que o montante fosse diretamente direcionado ao ensino de estudantes negros. No ano passado, pegamos o orçamento da banda e compramos presentes de Natal para famílias negras, algo que gostaríamos de voltar a fazer todos os anos. Também temos um game em que você pode lutar contra grupos de ódio jogando com dois personagens, eu ou Cedric, em www.theywantusdead.com [o game só funciona nos Estados Unidos].

Cedric: Como Eva disse, estamos apenas tentando refletir a época em que vivemos. Desde doar dinheiro e presentes de Natal, até nos tornarmos membros da diretoria do Keep Music Live aqui no estado de Washington, tentamos ajudar onde podemos. Também tive a honra de me unir e atuar em um projeto para o Black Music Collective for the Pacific Northwest Chapter, da associação do Grammy.

No ano passado, quando o Black Lives Matter explodiu nos Estados Unidos, Jeff Tweedy (Wilco) lançou um comunicado com uma proposta para criar um programa que permitiria a compositores compartilharem um percentual de seus lucros com organizações de suporte a comunidades negras. Isso é algo que realmente pode fazer a diferença? O que mais sugeririam a artistas brancos interessados em dar apoio a causas antirracistas?
Eva: Isso é algo muito legal e um passo na direção certa. Acho que apoiar negócios de pessoas negras é ótimo, já que, historicamente, a competição nunca foi justa. Além do dinheiro, a educação é muito importante, assim como o acesso a oportunidades. Acho que algo que as pessoas brancas deveriam fazer é ter conversas difíceis com outras pessoas brancas sobre o que precisa mudar em relação ao condicionamento inerente a muita gente neste país. Dar crédito onde o crédito é devido, para fazer com que o cenário dos trabalhadores em cada empresa e até mesmo o dos líderes dessas empresa seja mais inclusivo. Oferecer suporte à educação de crianças de cor, demandar melhores escolas e acabar com esse túnel “da escola para a prisão”. Investir em comunidades de cor, ensinar sobre investimentos, mudar a forma como o país enxerga e desvaloriza pessoas negras. Somos negros, e é isso o que temos em comum. Somos indivíduos diversos. Não somos todos pobres, não viemos todos de favelas, não gostamos da mesma comida, música e roupas. Queremos ser vistos como indivíduos. Nos unimos quando vemos que estamos sendo assassinados nas ruas, mesmo estando desarmados, por maçãs podres na aplicação da lei, e ninguém acredita em nós. Ou dizem, “bem, eles são todos negros, tenho certeza que tiveram motivo”. É por isso que todos nós, indivíduos negros, nos unimos para dizer parem com isso agora!

Cedric: Concordo com o sentimento da Eva. Dar apoio a negócios de pessoas negras e ajudar as comunidades é muito importante, e é algo admirável de ver quando as pessoas tentam ajudar. Além disso, as conversas difíceis sobre raça e sobre os equívocos cometidos em relação a pessoas de cor precisam ser endereçadas. Podemos doar todo dinheiro do mundo às pessoas, mas é por meio da educação que destravamos a porta do entendimento entre todos. Sem a educação, abrimos muito espaço para a ignorância e é isso que nos impede — como nação e, até mesmo, globalmente — de seguir em frente e de entender as culturas alheias. Empatia e compreensão podem nos levar longe. Precisamos apenas aprender a aceitar essas duas qualidades acima da ganância e da ignorância. Seremos infinitamente ricos com uma sociedade mais empática e compreensiva.

E quanto ao Brasil? Já receberam ofertas para vir tocar aqui? Gostariam de vir depois que nossa situação sanitária melhorar? Adoraríamos recebê-los!
Eva: Não que eu saiba, mas cara, adoraria ir ao Brasil!

Cedric: Acho que não recebemos nenhuma oferta, mas como a Eva disse, seria INCRÍVEL ter a oportunidade de ir ao Brasil e tocar pra vocês!

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

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