Entrevista: AJ Dungo fala sobre “Em Ondas”, sua estreia nos quadrinhos

entrevista por Leonardo Tissot
tradução por Érico Assis

Uma HQ que mistura a história do surfe com as lembranças de seu autor sobre a namorada Kristen, falecida após anos de luta contra o câncer. A premissa pode não ser das mais animadoras, mas de alguma forma, “Em Ondas”, quadrinho de estreia do estadunidense AJ Dungo, funciona. Lançado em 2019 lá fora, o livro chegou ao Brasil pela editora Nemo em junho, após faturar o Alex Award (YALSA) 2020, da American Library Association, o Prêmio FNAC France Inter 2020 e o Prêmio da Associação de Livreiros do Quebec 2020.

Apesar de comovente, essa talvez não seja a principal característica da obra de Dungo, e sim sua capacidade de costurar histórias diferentes que se entrelaçam em harmonia. Sua relação com Kristen está intimamente ligada ao surfe, o que torna os trechos históricos do quadrinho ainda mais interessantes. Não seria correto dizer que “Em Ondas” tem um clímax, mas seus diferentes aspectos atingem um ponto em comum.

Como Dungo explica na entrevista que você vai ler a seguir, inicialmente a ideia do projeto era contar parte da história do surfe, a partir da figura de Tom Blake (o criador da prancha de surfe como conhecemos hoje). Após receber da editora original (a Nobrow Press) a solicitação de uma perspectiva mais pessoal, ele passou a considerar integrar a história de Kristen — a pessoa que o levou a praticar o esporte — ao quadrinho.

O resultado é o que se vê no livro: uma história brilhantemente escrita e desenhada e um dos grandes lançamentos internacionais do ano no país. Confira, a seguir, o papo que rolou entre AJ Dungo e o Scream & Yell, com tradução do responsável pela versão em português de “Em Ondas”, Érico Assis.

Pode nos contar um pouquinho sobre o surgimento de “Em Ondas”? É uma homenagem belíssima a Kristen, mas eu li que você já estava pensando em um projeto sobre o surfe antes de começar a HQ. Se foi assim, como surgiu a ideia de misturar os projetos
Quando eu estava acabando a graduação em artes, fiz uma disciplina chamada “Antigo/Moderno”. Era uma cadeira focada em um projeto só, que tinha que ser desenvolvido naquele semestre. O objetivo do projeto era apresentar um aspecto da cultura da Califórnia a alguém que não fosse da Califórnia. No fim da disciplina, íamos apresentar os projetos em Londres. Passamos duas semanas, eu, meus colegas e meus professores, levando nosso trabalho a vários profissionais: estúdios de animação, agências de publicidade, designers gráficos e editores. No meu projeto, optei por falar de Tom Blake, o ícone do surfe. Foi uma sugestão dos professores. Criei uma caixa cheia de objetos que tinham a ver com a vida de Tom Blake. Passei horas na oficina de gravura forrando a caixa, fazendo serigrafia naqueles livrinhos tipo sanfona, fiz risografia, bottons com a foto do Tom, rodei um zine com vários grafites de fotos famosas do surfe e um cartaz em papel jornal. Enfiei tudo numa caixa de 12 x 17 cm, e trabalhei cada face da caixa com serigrafia. Fiz 15 cópias do projeto, para deixar com cada contato que íamos encontrar em Londres depois da formatura. Foi uma caixa feita especialmente para atiçar o interesse de um dos nossos contatos na Inglaterra, o que eu mais estava a fim de conhecer: a editora Nobrow Press.

Depois da nossa apresentação à Nobrow, meu professor puxou de lado eu e um colega para dizer que nossas apresentações tinham dado muito resultado e que a editora entraria em contato. Dois meses depois, recebi um e-mail do Sam [Arthur] marcando uma discussão por Skype para combinarmos um projeto de livro com a Nobrow. Ele tinha interesse em fazer um livro ilustrado sobre os pioneiros do surfe e da surf culture na América do Norte. Passamos umas semanas trocando e-mails e ele me botou a gerar ideias. Sam acabou perdendo o interesse pela ideia inicial, do livro ilustrado só histórico, e quis algo mais íntimo. Então perguntou qual era a minha relação com o surfe e como eu fui parar no esporte. Eu contei que tinha começado a surfar por causa da Kristen. Contei tudo da nossa relação e que ela tinha morrido há pouco tempo. No fim do papo, Sam estava bastante interessado e sugeriu que eu desse um jeito de entrelaçar as duas histórias. Ele me passou uma lista com dois livros sobre luto e tramas que entrelaçam passado e resente: “Uma Pequena História dos Tratores na Ucrânia”, de Marina Lewycka, e “F de Falcão”, de Helen Macdonald. Os dois misturam memórias pessoais com historiografia. Em resumo, foi meu editor que sugeriu que eu mesclasse as duas histórias.

Kristen tem apenas uma fala na HQ (um balão, no caso). Mesmo assim, é uma personagem muito expressiva na postura que tem ao longo da história. Foi opção sua retratá-la assim, para mostrar como ela era em vida — uma pessoa mais quieta, reservada — ou tem outra explicação narrativa?
É uma observação muito perspicaz. Kristen às vezes era na dela, fechada, mas nem sempre. Ela era vivaz. Era engraçada, espirituosa, inteligente, querida. A HQ no geral tem poucas falas. O que eu queria retratar ou captar eram os momentos de silêncio, sensações bem específicas. Se diz muito a partir do que o personagem faz. Além disso, a história está incompleta. Ela nunca vai ter a versão de Kristen. É a lembrança imperfeita que eu tenho de momentos que eu considero preciosos. Se ela estivesse aqui, comigo, a HQ seria muito mais nítida, a voz dela daria mais profundidade e o número de páginas provavelmente
seria maior.

Quanto à paleta de cores de “Em Ondas”: as cores são lindas, mas simples. E fica evidente que existem palhetas à parte para cada história que você conta. Mas eu queria saber um pouco mais sobre como você chegou aos tons mais quentes e aos mais frios, e se você queria expressar algo mais a partir deles, fora ajudar o leitor a se guiar na história.
Os motivos são bem simples e bem objetivos. O tom de sépia lembra jornal velho, película de filme antiga, remete ao passado e já é padrão no nosso consciente coletivo. O azul tem outros motivos. Era a cor que Kristen mais gostava e é a cor do oceano, mas está ali sobretudo porque eu estava muito blue [triste] quando escrevi. Fiz a correlação entre o tom de azul com meu estado mental e emocional durante a escrita.

Qual é o seu envolvimento na versão animada de “Em Ondas”, que está em produção? Você sabe em que fase está? Tem previsão de lançamento?
Não estou totalmente envolvido no processo. Sou como um consultor. Os roteiristas que vieram falar comigo para pegar mais do pano de fundo da vida de Kristen e da minha. Disseram que talvez precisem de mim mais para a frente, para desenhar um trecho do filme. A Silex Films, a produtora, apresentou o projeto ainda em desenvolvimento no Festival de Annecy. A expectativa é que entre em produção em fins de 2022 e que saia em fins de 2024. É muito empolgante que vá acontecer, mas é uma história que meio que tem vida própria daqui em diante.

“Em Ondas” foi sua primeira graphic novel. Já começou a pensar na próxima? Tem outros projetos em mente? Se tiver, pode dar alguns detalhes, como trama, personagens, temática, quem sabe o título?
Sim, eu ando testando umas ideias. É a pergunta que todo mundo tem feito. Escrever “Em Ondas” foi exaustivo, tanto em termos físicos quanto emocionais. Acho que já tomei distância da experiência e posso começar outra coisa. Tenho pensado em fazer contos, ou bolar algum projeto mais curto. Também pensei em outra HQ de memórias, mas com outros temas que são mais culturais, de família. No geral, tenho tentado achar um tempo para surfar, andar de skate e curtir o tempo que não estou trabalhando.

A “graphic novel de doença” é um gênero em si. Você leu alguma antes de começar a sua? Você teve que superar alguma barreira para se convencer — ou convencer seus editores — de que valia a pena contar sua história entre tantas biografias e autobiografias sobre tragédias? Como foi?
Quando eu estava na faculdade de artes, uma das leituras obrigatórias foi “Fun Home”, de Alison Bechdel. A meu ver, essa é a “graphic novel de doença”, como você disse, fundamental. Eu fui a fundo nesse tipo de gênero antes de escrever “Em Ondas”, mas não diria que embarquei pensando em uma graphic novel de doença. Eu queria escrever a história da minha melhor amiga. Eu acho que a única barreira fui eu mesmo. No início do projeto, tive algum tempo para produzir versões preliminares para a Nobrow, mas eu me sentia bastante pressionado para começar de uma vez. A pressão era maior porque eu ainda estava absorvendo o que tinha acontecido com Kristen e tinha um emprego que não me deixava muito tempo para trabalhar na HQ. Eu não sabia nem se era a hora certa de contar a história da Kristen. Tinha medo de que fosse muito cedo. Esse nervosismo me travava. Cheguei a escrever o e-mail em que agradecia à Nobrow pela oportunidade, mas que eu não ia dar conta. Mas aí pensei na Kristen. Na esperança que ela depositava em mim, no sonho que ela tinha de que eu ia produzir livros, quadrinhos e arte para inspirar outros. Ela dizia, só para me provocar, que um dia eu ia escrever um livro sobre ela mesma. Aceitei a sugestão, peguei o lápis e deletei aquele e-mail.


– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo
– Érico Assis (https://ericoassis.com.br/) é jornalista, tradutor e autor do livro “Balões de Pensamento” 

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