Entrevista: Dom La Nena lança “Tempo”, seu terceiro disco solo

entrevista por Ananda Zambi

Tempo” finalmente veio ao mundo. O terceiro álbum solo da cantora franco-brasileira Dom La Nena, que estava previsto para sair no primeiro semestre do ano passado, só acabou sendo divulgado no último dia 26 de fevereiro, devido à situação pandêmica que estamos vivendo. Esse é um disco especial na carreira da artista, pois além de falar sobre um tema denso e complexo, como a vida e o valor de nosso tempo, foi o primeiro que Dom produziu sozinha.

A violoncelista, cantora e compositora que é comparada pela imprensa especializada a Agnes Obel e Juana Molina e que já trabalhou com Marcelo Camelo, Jane Birkin e Jeanne Moreau, compôs “Tempo” baseada nas várias reflexões que a maternidade lhe trouxe – o nascimento, a vida, o envelhecimento e, por fim, a morte –, como ela nos contou em entrevista em 2019, quando lançou o primeiro single do álbum, “Oiseau Sauvage”. Combinando pop, world music e música de câmara, Dom fez todos os arranjos apenas com piano e violoncelo, explorando ao máximo todas as possibilidades de seu instrumento de formação. As letras são cantadas em português, espanhol e francês, línguas em que a artista é fluente, já que foi criada entre as cidades de Porto Alegre, Buenos Aires e Paris.

O disco tem 13 faixas, todas de autoria de Dom, sendo três instrumentais, o que também é novidade na carreira da musicista. Além de “Oiseau Sauvage”, a artista também lançou os singles “Todo Tiene Su Fin” e, recentemente, “Quien Podrá Saberlo”, esta com participação especial da cantora, compositora e instrumentista mexicana Julieta Venegas. “Tempo” foi mixado por Noah Georgeson, produtor de artistas como Devendra Banhart, Rodrigo Amarante e Natalia Lafourcade, e é um lançamento do selo norte-americano Six Degree Records. Em entrevista por e-mail Dom La Nena falou sobre as diferenças entre os processos de fazer shows e de gravação, a experiência de produzir um álbum sozinha, compor música instrumental, trabalhar com Julieta Venegas e mais. Confira:

Como você está nessa pandemia? O álbum foi afetado por ela?
O álbum foi feito bem antes da pandemia, mas, é claro, o lançamento acabou sendo um pouco atrasado por conta da situação atual. Acho que estamos vivendo um momento tão particular que as músicas necessariamente ecoam diferente – e muitas pessoas acham que foram escritas durante este período! Aí está uma das magias da música: de poder acompanhar-nos em todas as situações como se fossem especialmente feitas para aquela!

Como foi produzir um disco praticamente sozinha?
Meu jeito de trabalhar em estúdio sempre foi bastante solitário. No meu disco anterior, “Soyo” (2015), dividi a produção com o Marcelo Camelo – foi uma sorte enorme e uma experiência maravilhosa. Mas a minha parte do trabalho também tinha feito sozinha: quando cheguei ao estúdio com o Marcelo, eu já havia gravado a estrutura das músicas, boa parte dos meus instrumentos, os meus arranjos. Esta parte já estava pronta, ele acrescentou o universo dele, o lado mais tropical, mais ritmado, mais solar. O processo de gravação é muito diferente do que o de um show: no show você já ensaiou muito e sabe o que fazer. Estar em estúdio é construir do zero, é experimentar, é explorar… e eu acho que talvez consiga me soltar melhor, me permitir mais coisas estando sem um olhar externo.

De onde veio a ideia de gravar com pouquíssimos instrumentos, só com cello e piano?
Neste novo trabalho eu queria centrar os arranjos ao máximo em torno do violoncelo. Retirar o instrumento de sua “zona de conforto”, explorar ao máximo as possibilidades sonoras do instrumento. Já fiz muitos trabalhos só com cello e voz, mas a maneira de abordar o som do instrumento até então quase sempre foi de uma maneira bem acústica e pura. Desta vez queria uma estética pop, moderna, ver até onde isto seria possível com o cello. Por fim, acho que foi natural produzir sozinha este disco porque era totalmente feito em torno do meu instrumento principal.

Como foi trabalhar com Julieta Venegas em “Quién Podrá Saberlo”?
Foi uma sorte e uma honra muito grande. Eu passei minha adolescência na Argentina e cheguei lá bem no momento em que a Julieta “explodiu” na América Latina. As músicas dela estavam por tudo: na padaria, no supermercado, na televisão. Foi um pouco com elas que fui aprendendo espanhol também. Muito tempo depois, quando estava lançando meu segundo disco, ela me mandou uma mensagem no Twitter, conversamos um pouco e nos conhecemos pouco depois quando eu tinha um show em Buenos Aires no qual ela veio me ver de surpresa. Ficamos em contato, uns meses depois fizemos uma turnê na Espanha juntas, e a vontade de fazer uma canção juntas foi crescendo. Quando fiz “Quien Podrá Saberlo” eu já tinha a voz da Julieta em mente, já me parecia uma canção feita para ser cantada juntas. A Julieta é uma referência para a minha geração de cantoras, é uma mulher muito forte, uma cantora extraordinária, com um talento e uma generosidade gigante. Então é claro que é muito emocionante e especial para mim poder contar com sua amizade e compartilhar música juntas.

No release, você diz que foi a primeira vez que compôs música instrumental. Como foi essa experiência?
Compor música instrumental sempre foi algo que me impressionou muito, ou que me dava certo medo. Talvez porque eu venha de uma formação de música clássica, que é essencialmente de música instrumental, isso me inibisse bastante. Mas neste disco, do mesmo jeito que queria de alguma maneira “reinventar” minha maneira de abordar o violoncelo, também queria explorar novas linguagens e acabei mergulhando na música instrumental.

Fala um pouco sobre o clipe de “Todo Tiene su Fin”, e da ideia de colocar um trecho de uma entrevista com a Marguerite Duras.
São trechos de uma entrevista com a Marguerite Duras em 1985 onde ela imagina os anos 2000, o futuro. O impactante nesta entrevista é que ela descreve de maneira bastante fiel um modo de vida que é o modo de vida atual: a relação completamente aditiva às telas, a preocupação constante com a nossa imagem, com nosso corpo, sobre o medo de estar só. A canção é uma reflexão sobre nosso futuro, sobre o medo desse futuro, sobre o fato de sermos somente um acidente neste planeta – e que se algum dia desaparecermos o planeta e o universo continuarão, e nós teremos sido um pequeno acontecimento, um detalhe.

Quais os próximos planos?
Por enquanto o lançamento do “Tempo” já tem me ocupado bastante! Tenho também um projeto paralelo chamado “Birds on a Wire”, no qual formo um duo com a cantora Rosemary Standley. Lançamos um disco no ano passado, e infelizmente tivemos uma turnê muito intensa que foi inteiramente reagendada para o final deste ano. Estou compondo a trilha sonora de um filme, que vai ser um processo bem longo, e durante os próximos meses tenho também dois projetos para crianças.

– Ananda Zambi (@anandazambi) é jornalista e editora do Nonada – jornalismo travessia. Nas horas vagas, também brinca de fazer música.”

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