Três perguntas: Marina Melo fala do EP “o mundo acabou mas continua girando”

por Marcelo Costa

Neste pobre país em que vivemos um ano inteiro lutando contra dois vírus, encontrar um motivo para acordar e seguir em frente (da sala para a cozinha, isolados em casa) tem se tornado um grande desafio para cada brasileiro que acredita na Educação, na Ciência, na Cultura e que a terra não é plana. Cada um se vira como consegue, e Marina Melo, que começou janeiro com grandes planos, depositou suas energias na música, o que fez nascer o EP “o mundo acabou mas continua girando“, um belo registro de um período tão feio que, mais uma vez, nos mostra como a Arte é capaz de nos acalantar nos momentos difíceis.

Após dois discos elogiados, “Soft Apocalipse” (2016) e “Estamos Aqui” (2019), Marina Melo planejava para 2020, entre outras coisas, um EP de músicas remixadas pela produtora musical Naná Rizinni, mas “Quarentena? Covid? Cemitérios lotados? Gripezinha? Lavar banana com detergente? Pois é, tudo isso aconteceu”, ela resume. O plano do EP, porém, permaneceu, “mas com músicas que tratassem desse momento”, conta. Nascia o EP “o mundo acabou mas continua girando”, com três canções, duas delas frutos diretos destes tempos pandêmicos, uma perfeita síntese dos sentimentos compartilhados à distância em 2020.

Dos panelaços – sob uma ótica afetiva – às lives de Teresa Cristina, Marina Melo canta um 2020 que merece sim ser lembrado. “cara vizinha,”, por exemplo, nasceu “como presente para uma vizinha desconhecida que, no início da quarentena, todas as noites presenteava a vizinhança” colocando uma canção especial para tocar em alto e bom som após os panelaços: “Essa música foi meu jeito de dizer a ela que as músicas escolhidas nos banhavam e faziam o medo desaparecer por alguns instantes”, explica Marina, que aprofunda cada canção no papo abaixo e ainda fala de futuro, afinal o mundo acabou, mas continua girando.

No Scream & Yell, temos sempre aberto as entrevistas querendo saber como a pandemia mexeu com cada artista. E seu novo EP é um resultado da pandemia, um disco que não existiria dessa forma se não estivéssemos vivendo essa loucura toda. Dai eu queria saber como você está se sentindo nesse 2020 que nunca imaginamos estar vivendo, como eram seus planos lá em janeiro e como você se virou para se adaptar e chegar até aqui.
No dia 4 de janeiro de 2020, fui na casa da produtora musical Naná Rizinni para começar a criar um novo show, que havia sido encomendado pelo SESC Belenzinho. Era a apresentação do meu disco “Estamos Aqui” feita com banda, e não em formato solo, como eu tinha feito até ali. Então o ano de 2020 começou assim: com o entusiasmo por um novo projeto, com ensaios infinitos e deliciosos e com o nascimento de um show que me mostrou facetas das minhas canções que eu ainda não conhecia. O show foi no dia 29 de fevereiro de 2020, dia bissexto de um ano bizarro. Adoramos o resultado e começamos a planejar muitas coisas: fazer novos shows e gravar um EP de músicas minhas remixadas pela Naná. Duas semanas depois, já sabemos o que aconteceu… A partir daí, se inaugurou um novo ano, com características que jamais poderíamos ter imaginado. Quarentena? Covid? Cemitérios lotados? Gripezinha? Lavar banana com detergente? Pois é, tudo isso aconteceu. Dos planos, sobrou a vontade de fazer um EP com a Naná Rizinni, mas com músicas que tratassem desse momento. Todas as outras que havíamos imaginado perderam o sentido perante uma pandemia. E foi assim que nasceu o EP “o mundo acabou mas continua girando”. Pois é, sempre tem coisa pra nascer. E poder colocar esse trabalho no mundo foi muito importante para atravessar este ano de 2020.

Eu gostaria que você falasse um pouco sobre cada uma das três canções do EP, como elas foram surgindo pra você e como foi produzi-las em confinamento tendo o auxílio da Nana.
Fiz a música “cara vizinha,” como presente para uma vizinha desconhecida que, no início da quarentena, todas as noites presenteava a vizinhança. Ela vivia no prédio ao lado da vila onde eu morava na época, e, diariamente, depois do panelaço, escolhia a dedo uma música para tocar em alto e bom som. Era um ritual bonito realizado entre desconhecidos: cada qual na sua janela dançava segurando a lanterna do celular e no fim dava um jeito de aplaudir o mais alto que conseguisse e gritar um “muito-obrigado” para ela. Essa música foi meu jeito de dizer a ela que as músicas escolhidas nos banhavam e faziam o medo desaparecer por alguns instantes. A fala no início da canção foi gravada no dia em que coloquei o amplificador na porta de casa e cantei para que ela me ouvisse lá da janela dela. Parece que ela ouviu. E também se banhou!

Já a música “segura firme na live da tt” nasceu da vontade de não deixar a tristeza e o desânimo se instaurarem em mim. É uma missão que não é simples quando se atravessa uma pandemia no Brasil governado por Bolsonaro, e quando essa pandemia além de forçar mudanças (e mortes) mundiais também te obriga a abrir mão de coisas que são muito importantes na sua vida particular. Fiz essa música, então, para me dar força nesse intuito de não me deixar desabar, por mais que a vontade tenha sido essa. E é por isso que a música, por mais que enumere tantas coisas que estão em queda, também busca pontos de apoio (as lives da Teresa Cristina, por exemplo) e canta: “eu olho pra imensidão da vida, quero inventar alegria / eu olho pra imensidão, quero inventar…” Naná Rizinni, a produtora do EP, entrou com contribuições harmônicas que mudaram bastante a música, e essa é nossa primeira parceria.

“o mundo acabou mas continua girando” eu fiz em 2018, a partir de uma harmonia proposta pelo Sérgio Molina na pós-graduação em Canção Popular da Santa Marcelina. A música ficou adormecida, e mexendo nas minhas gravações antigas a reencontrei. Achei essa frase tão pertinente ao momento que vivemos que resolvi colocar a música no EP, dizendo apenas isso: “o mundo acabou, mas continua girando / o mundo acabou, mas continua”. O que fazer com esse mundo que continua, apesar de tudo?

Sobre as gravações: gravei as guias das músicas em casa e mandei para a Naná com as referências que eu imaginava. A Naná Rizinni ouviu tudo e criou um caminho que eu não poderia ter imaginado, mas AMEI. Ela gravou tudo na casa dela, com exceção dos baixos gravados pelo Magno Vito e pelas vozes que eu gravei na minha casa.

Estamos todos pensando nisso agora, e eu gostaria de saber como você vê o futuro da cena musical no Brasil pós-pandemia, e do próprio país (afinal “O mundo acabou mas continua girando” é influenciado não só pela pandemia, mas pela pandemia no Brasil, que é diferente pois aqui lutamos contra dois vírus) e como você está se preparando para esse futuro. Você já tem um vislumbre de como será o seu terceiro disco?
Confesso que para mim o futuro é uma grande incógnita. Depois da rasteira que foi 2020, nem ouso fazer apostas. Só torço muito, mas muito mesmo, para que essa vacina seja encontrada logo, e para que possamos voltar a nos reunir para criar e para fazer shows. A troca entre artistas é fundamental para que a cena se fortaleça e para que a gente aprenda entre si. Isso tem acontecido online de uma forma muito interessante, com muitas colaborações surgindo à distância, mas compartilhar ideias e músicas ao vivo tem outro gosto. Sobre o terceiro disco, tenho planos de aprofundar a pesquisa estética iniciada no EP “o mundo acabou mas continua girando” :).

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne

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