Plebe Rude narra a evolução humana em novo disco duplo

por Guilherme Lage

O que é o punk rock, afinal? O estilo musical importado dos Estados Unidos e da Europa em meados dos anos 1970 era muito claro em sua concepção antidogmática de “faça você mesmo” e “faça o que quiser”. Se não existem dogmas, a liberdade é a força motriz que impulsiona a criação. Tendo isso em mente, uma das bandas mais clássicas do gênero no Brasil, a Plebe Rude, lançou em dezembro passado a primeira parte de um disco duplo, “Evolução – Volume 1” (2019), uma espécie de ópera rock que narra a evolução humana a partir do surgimento do homo sapiens – o volume 2 será lançado em 2020.

Para um trabalho tão extenso, em tempos de música portátil, o grupo brasiliense ousou no formato do lançamento do material. Um disco duplo, com 28 faixas, em pleno século XXI, dividido em dois volumes. “O volume 1 começa com o homem se tornando um bípede, explorando seu habitat e descobrindo a arte da convivência e da sobrevivência. Ele começa a se fixar ao redor do planeta e passa por todos os marcos da história até o início do século XX”, explica o baixista André X. “Deixamos o século XX para o volume 2”, avisa.

“Acho que não faz muito sentido lançar um EP”, arrisca o guitarrista, vocalista e fundador da banda Philippe Seabra. “Estou terminando meu livro, e só porque as pessoas não têm mais tanta paciência em ler, eu deveria lançar um conto? Acho que não. O disco tem um conceito, conta toda uma história e a obra precisa ser contada de uma forma completa”, conta.

A faixa que abre o disco, e que tem o mesmo nome do álbum, é uma composição que data de 1989, sendo redescoberta durante o período em que Philippe trabalhava em sua autobiografia (o título ainda é uma surpresa e o livro não tem data de lançamento).

A ideia inicial era que a canção servisse como trilha sonora para uma peça infantil na qual a banda estava se empenhando, após uma malfadada tentativa de passar a faixa para frente. “Como a música era bem humorada, eu mostrei para o Evandro Mesquita, mas ele não se interessou muito. Pensamos ‘Se nem a Blitz curtiu, o que a Plebe vai fazer?’ (risos). Pensamos na questão da peça, mas quanto mais trabalhávamos, mais músicas iam surgindo e percebemos que dava pra fazer algo bastante diferente com aquilo”.

“Ficamos um ano compondo e gravando essas músicas”, relembra André X. “Tinham sessões de ensaio em que nasciam duas ou três no mesmo dia! Desde que ensaiávamos no Radio Center, em Brasília, dividindo uma sala com a Legião Urbana, que não passávamos por um período tão fértil”, rememora.

A exploração com outros formatos de composição não é nenhuma novidade na carreira dos brasilienses. Desde os anos 1990, a Plebe é dada a experimentações. Nesse disco, que narra desde os primeiros passos do ser humano, até intervenções alienígenas num futuro distante, a banda passeia por diversos estilos musicais, trabalhando lado a lado, inclusive com uma orquestra. Pois realmente, na música e, também no punk, não existem limitações.

“O que eu sempre gostei muito do punk quando conheci é que ele era muito inclusivo. Você não precisava ser um exímio músico ou instrumentista para fazer música. Isso me chamou atenção desde o começo, pois o rock clássico e progressivo, que eu também gosto bastante, era mais complicado, menos acessível. Mas sempre gostamos de mesclar gêneros, tentar novas coisas. Trabalhamos com uma orquestra, com músicos pop, arranjos com viola caipira. Sempre seguimos direções não óbvias”, conta Seabra.

Desde 2004 a Plebe conta com um membro paulista no cartel. Nada mais, nada menos que Clemente Nascimento, guitarrista e vocalista da lendária banda paulista Inocentes. A entrada de Clemente reacendeu uma velha fagulha do cenário punk brasileiro: Afinal, onde começou tudo? São Paulo ou Brasília?

Para Philippe, um brasiliense convicto, a capital federal ocupa a segunda posição no ranking da chegada dos moicanos, jaquetas de couro e alfinetes no país. “Foram concomitantes, mas acho que São Paulo leva a primeira posição”, opina. Ele ainda relata que a amizade com Clemente se estende desde o início dos anos 1980.

“O Clemente, na verdade, foi o primeiro punk que nós conhecemos. Quando fomos pra São Paulo nas primeiras vezes e íamos nas casas noturnas, como o Napalm, ficamos extremamente surpresos com a cena que existia por lá. Falo isso com o maior respeito e a maior humildade, porque não esperávamos. O próprio Renato (Russo), quando foi lá a primeira vez, voltou de boca aberta e nos dizendo “Philippe, eles conhecem tudo. É surreal”.

Há 38 anos ajudando a capitanear a Plebe (junto dele, da formação original apenas o baixista André X se mantém da formação original – Jander “Ameba” Bilaphra, outro nome lendário da formação clássica da Plebe, conversou com o Scream & Yell anos atrás), o que não falta para Philippe são histórias para repartir sobre o período de ebulição e descoberta musical naquela longínqua Brasília dos anos 1970 e 1980. Por isso, o livro entrou nos planos.

“Eu conversava com amigos daquela época e percebia que a maioria deles não se lembrava de nada do que tinha acontecido, só eu. Acho que pelo fato de eu ter sido um dos únicos a não fumar maconha naquela época (risos). Decidi então começar a botar isso no papel, como uma forma de resgate dessas histórias. O livro fala não só sobre o punk, mas sobre Brasília e sobre mim, histórias de festas, da minha família. É um livro de sexo, drogas e rock n’ roll, mas falando sobre as drogas dos outros, porque eu nunca usei drogas (risos)”, confessa Philippe.

Por enquanto, os fãs da Plebe Rude podem ter acesso as primeiras 14 músicas que compõem o “Evolução, Volume I” (2019), mas logo logo “Evolução, Volume II” estará disponível atualizando uma discografia aberta com o clássico EP “O Concreto Já Rachou” (1985) e seguida, ainda nos anos 80, pelos álbuns “Nunca Fomos Tão Brasileiros” (1987) e “Plebe Rude” (1988), o último com a formação clássica da banda. Depois, Philippe e André lançaram “Mais Raiva do Que Medo” (1993). A nova fase da Plebe traz três discos: “R ao Contrário” (2006), “Nação Daltônica” (2014) e, agora, “Evolução” (2019/2020).

“Nesse momento esdrúxulo que estamos vivendo, mais do que nunca as letras da Plebe parecem assustadoramente atuais”, analisa Philippe Seabra. “Como artistas, ficamos felizes com a relevância da obra, mas como cidadãos ficamos aflitos. Mas continuamos nossa missão de conscientizar através da música, e com ‘Evolução’ não é diferente”, afirma. “Vivemos tempos estranhos”, observa André. “Uma onda de intolerância e de incompreensão paira no ar. Isso veio de algum lugar, nada dessa magnitude brota sozinho. A resposta está no comportamento histórico do ser humano”, acredita. É bom prestar atenção em “Evolução”.

– Guilherme Lage (www.facebook.com/breadandkat) é jornalista e mora em Vila Velha, ES.

Leia também
–  Ao vivo: “Sem ser hype do momento, a Plebe concentra-se no que tem de melhor: grandes canções
– Crítica: Plebe Rude mantém o pique em “Rachando o Concreto – Ao vivo em Brasilia”

One thought on “Plebe Rude narra a evolução humana em novo disco duplo

  1. Excelente! Não sei como eu ainda não havia ouvido esse álbum.
    Vontade de enaltecer muito essa banda que não “se vendeu” como tantas outras dos anos 80 e não envelheceu mal como alguns artistas que passam muito mais tempo no twitter do que criando novas músicas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.