Entrevista: As trilhas do sol de Joe Silhueta

por Leonardo Vinhas 

Em 2016, um projeto musical brasiliense dava o ar de sua graça com absoluta imodéstia. “Dylanescas” era o nome de seu EP de estreia, deixando claro que as ambições não eram pequenas. O termo fazia referência à estrutura mais folk das canções – Guilherme Cobelo (violonista, compositor e vocalista) conta que “eu tinha uma divisão na minha cabeça entre as composições, que eram as ‘dylanescas’ e as ‘sertânicas’”. Seja como for, o nome era uma aposta alta, não inicialmente cumprida. Mas os shows que acompanharam esse lançamento (como o do Porão do Rock 2016) mostravam que havia uma musicalidade mais particular ali prestes a florescer.

Trilhas do Sol”, primeiro álbum da banda, é o fruto mais notável dessa maturação. Lançado em 2018, o disco traz a identidade da banda apoiada em suas referências, o som mais agreste do cerrado brasileiro e o caráter mais psicodélico do rock nacional setentista. Antes dele, “Ritos do Leito” (2017) já mostrava mais Zé Ramalho e menos Bob Dylan, com resultados muito bons. Mas é o álbum que apresenta o septeto (ou octeto, já que a produtora Tâmara Habka é considerada integrante) mais coeso, transitando com segurança entre os extremos de claro e escuro que aparecem tanto no som quanto nas letras.

Embora não exista uma “cena” propriamente dita nesse sentido, é possível associar o trabalho da Joe Silhueta ao de contemporâneos como o capixaba André Prando e o pernambucano Tagore. Sua linha psicodélica não é a do ruído que beira a inaudibilidade, nem das longas digressões instrumentais. Pelo contrário, estão mais perto daquilo que Belchior definia como “a alucinação de suportar o dia a dia”, com a expansão da consciência manifestada mais na poética delirante que em relatos de sonhos e devaneios.

Também é difícil dissociar a Joe Silhueta da “cena” do Distrito Federal, já que muitos de seus integrantes fazem parte de outras bandas, como Almirante Shiva, Judas e Rios Voadores. Mas também é preciso dizer que nenhuma delas é tão ativa quanto a própria Joe, que é das poucas da região a se arriscar fora do circuito local, tendo inclusive realizado uma longa turnê no fim do ano passado.

“Trilhas do Sol” foi gestado na estrada, e nela está tendo uma vida ampliada, graças aos bons shows da banda. Além do disco e da estrada, o grupo também participou do tributo a Walter Franco, “Um Grito Que Se Espalha”, lançado pelo Selo Scream & Yell em 2018, encontrando conexão entre “Cena Maravilhosa/ Eternamente”, duas faixas de “Revolver” (1975). No bate papo abaixo, Guilherme Cobelo conta o que está por trás do álbum, fala sobre a perda do baixista Pedro Souto (vitimado por um aneurisma em 2017) e peculiaridades da cena autoral brasiliense.

“Trilhas do Sol” é um álbum que parece ter uma ligação forte com o cerrado – nas letras, nas ambientações das canções. A Joe é uma banda que procura intencionalmente retratar seu meio?
Não que seja intencional, mas por ter nascido, crescido e vivido aqui desde sempre, acaba que eu absorvo muito desse meio, que vai virando uma referência entre tantas outras. E o cerrado tem uma presença muito intensa, muito marcante, seja rachando nossos lábios, esturricando nossos olhos, colorindo o céu na seca, seja pela natureza selvática, retorcida, cheia de oásis. A experiência horizontal é algo muito forte por aqui, e pra imaginação isso é algo fabuloso, nos leva longe, beira o mítico. Mas não tem exatamente essa intenção de retratar, essa coisa naturalista;

No começo, Joe Silhueta parecia quase um alter ego de Guilherme Cobelo. Mas “Trilhas do Sol” não só o primeiro álbum, mas parece o primeiro trabalho feito pela banda como um todo. Procede essa impressão?
Realmente, com esse disco a gente conseguiu expressar sonoramente o que vivemos ao longo desses dois anos de banda. Ele é fruto de uma convivência, de uma coletividade. Tanto é que a gente decidiu gravar depois de uma turnê, pra captar essa experiência de palco. Grande parte do disco foi gravada ao vivo: sete pessoas tocando junto, sonhando junto os arranjos.

Essa longa turnê no final do ano passado não é algo comum às bandas de Brasília, que parecem ficar mais limitadas ao circuito DF/Goiânia. Como foi essa experiência? Foi uma ideia de criar público, investir mesmo, ou já havia uma demanda por ver vocês ao vivo nessas cidades?
Foi maravilhoso! A gente lançou o disco em Brasília e na sequência se jogou na estrada passando por cidades de Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo, fazendo o que a gente gosta, conhecendo pessoas e lugares incríveis; é uma experiência muito foda que a gente quer repetir de novo e sempre. A música tem que ir até às pessoas. Tudo bem que a internet tornou acessível milhares de conteúdos e tal, mas o lance ao vivo é onde a mágica acontece. E nessas viagens a gente percebe o quanto conseguimos nos comunicar com o público, e que aos poucos estamos formando uma rede viva de pessoas interessadas na nossa música. Formação de público é o grande investimento neste caso. Quanto a esse lance da demanda, acaba acontecendo também; Não em grande escala, porque afinal de contas quem-somos-nós-nessa-terra, não é mesmo? Mas vira e mexe tem gente que manda mensagem perguntando quando iremos tocar em tal ou tal cidade, marcando a gente nas chamadas de festivais, então a gente se alimenta disso também, dessa certeza de que tem uns gatos pingados pelo Brasil que gostam da gente e querem nos ver tocar ao vivo e aos vivos. E essa é nossa viagem, tocar bastante em nosso país, e fora dele, e tocar, tocar, tocar.

Morei alguns meses em Brasília e gostei muito da cidade, mas percebi uma “bolha” forte no Plano Piloto. É um local bastante dissociado da realidade do brasileiro médio. Você chega a sentir isso? E se sente, isso tem impacto na música da Joe?
Rapaz, o Plano Piloto tá mais pra plástico bolha, pelo tanto de bolha que tem aqui. Mas nem sempre foi assim. Antigamente, havia mais coexistência, mas de uns anos pra cá, infelizmente a cidade foi se tornando o El Dorado dos concurseiros, e sua fisionomia foi se tornando muito mais elitista, vide as padarias carérrimas, os restaurantes finos, as quadras caladas. Isso impacta muito com certeza, porque a experiência urbana é travada, beira a ilegalidade – o lance da lei do silêncio, por exemplo, etc… –, então constantemente rola uma sensação de frustração com a cidade, uma ânsia de fugas. (Nota: a Lei do Silêncio à qual Cobelo se refere é a PL 445, cujo texto vago deixa margem a muitas arbitrariedades e pode inviabilizar até que uma pessoa toque violão na calçada).

As letras do álbum são mais densas, em especial “Cateretê”. “Ritos do Leito” abria espaço para leveza e humor. Os tempos atuais não dão esse espaço?
As trilhas do sol, ao mesmo tempo que acenam para uma aurora redentora, têm muito a ver com a sensação de que algo muito ruim vai acontecer, como se a noite fosse feita de uma substância tão pesada que ninguém poderia evitá-la. E a gente está habitando essa noite, não é mesmo? Está nas conversas, nos jornais, nos posts, nos tweets, de algum modo essa é a tônica e o disco acabou sendo contaminado por essa densidade, pelas madrugadas angustiadas, pelo aperto no peito de ver nossos amigos e amigas em perigo. Não que os tempos atuais não deem espaço pra leveza e pro humor, porque talvez seja isso justamente o que estes tempos precisem. Tem aquele poema (“Aos que Vierem Depois de Nós”) do Brecht: “que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes?“ Então tem um pouco disso, de não conseguir evitar cantar a densidade. Mas por outro lado, o deboche é a grande arma quente contra toda essa frieza que ameaça nos congelar, seja de medo ou de ódio. E que a leveza seja compensada pelas ventanias!

É óbvio que a perda do Pedro Souto foi um baque que teve grande impacto para a cena de Brasília. Para além da sua relação pessoal, qual foi o maior legado que ele deixou, musicalmente?
O Pedrinho era uma pessoa vulcânica, foi uma chama viva que passou por nós. Um ser que não erguia muros em torno de si, pelo contrário, construía pontes atrás de pontes, se conectava com todo mundo, fazia seus corres com total entrega e devoção, não cultivava picuinhas. Uma pessoa generosíssima, talentosérrima, que estava no mundo pra somar, pra sonhar junto. Tinha uma ambição saudável e inspiradora em relação à música, isso é um grande legado. Tinha um ouvido sem recalques, aberto, uma mente curiosa, interessada, não acomodada, isso é um grande legado. Amava o que fazia e fazia porque amava.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell. A foto que abre o texto é de Mariana Costa / Divulgação

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