Show: Courtney Barnett no Brasil, 2019

Courtney Barnett em São Paulo (21/02)
Texto e fotos: Marcelo Costa

“The Future Is Female”, diz a frase na camiseta criada em 1975 – para divulgar a Labyris Books, primeira livraria feminista de Nova York – e recuperada com afinco nos últimos anos. Na música, porém, o futuro é agora. Nomes como St. Vincent, Angel Olsen, Lucy Dacus, Lorde, Sharon Van Etten e Courtney Barnett (a lista só aumenta) injetaram no rock (e no pop) uma energia como há muito não se via no cenário, e o resultado prolifera a força feminista por todos os cantos do planeta (inclusive na indústria de guitarras e de festivais).

Em 2016, Courtney Barnett chegou ao Brasil no final de uma extensa turnê que começou no embalo dos primeiros EPs, em 2013/2014, juntou na estrada o repertório do elogiado álbum de estreia, “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit” (2015), e quando baixou por aqui, já nos últimos esforços da turnê em novembro (para dois shows poderosos, um na Áudio, em São Paulo, e outro no Circo Voador, no Rio), já contava com quase 300 shows nas costas. Era preciso parar, respirar e ganhar folego para começar tudo de novo.

Barnett tirou folga em 2017 (mas arranjou tempo para gravar “Lotta Sea Lice”, um disco em conjunto com Kurt Vile) para mergulhar na construção de “Tell Me How You Really Feel” (2018), seu segundo álbum, que dava um passo à frente de “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, preparando-a para voltar à estrada. A Courtney que chegou ao Brasil para estes dois shows em 2019 (novamente com selo Popload Gig) trazia consigo toda a inspiração e devoção daquela garota que encantou meio mundo indie em 2016, acrescida de ainda mais punch, maturidade e entrega.

A noite sold out no Fabrique, em São Paulo, foi aberta pela goiana Brvnks, projeto indie lo-fi da jovem Bruna Guimarães, que simboliza esse “futuro agora” feminino. Com apenas 10 faixas disponíveis em plataformas de streaming, Bruna (acompanhada de Edimar Filho, Rodrigo Gianesi, Ian Alves e Helô Cleaver) fez um show fofo guitarreiro, revelou ansiedade e cagaço em tocar numa noite tão importante e ainda mostrou uma faixa completamente inédita (“Your Mom Goes To College”), que pede atenção para o disco que a Sony Music irá lançar logo mais (fique de olho neles, fique de olho!).

De camiseta branca levemente amarrotada, calça preta e guitarra em punho, Courtney Barnett subiu ao palco do Fabrique com um enorme sorriso no rosto mostrando que a boa música não necessita de adereços e muito menos uniforme de rock star. Bastaram alguns acordes e a dobradinha que abre “Tell Me How You Really Feel” (“Hopefulessness” e “City Looks Pretty”) para que o público se jogasse no colo de Courtney, que não precisou mais do que três canções para devolver o amor numa declaração apaixonada: “Vocês são a melhor plateia do mundo!”.

Dai em diante, a conexão “palco / plateia” não deixou a peteca cair um segundo sequer num daqueles shows que não tem equivoco, devaneio ou deslize, apenas entrega, emoção e amor ao rock ‘n’ roll, esse estilo musical datado e constantemente saqueado por funcionários de terno, gravata e guitarra, mas que quando apresentado com honestidade funciona como um poderoso estimulante para a vida. Alguém poderia dizer que “é apenas rock ‘n’ roll, e nós gostamos”, mas, na verdade, é muito mais do que isso: é uma revolução comportamental social movida a solos de guitarra.

Num set de 16 canções (incluindo os hits “Nameless, Faceless”, “Pedestrian at Best” e uma versão voz e guitarra de “Let it Go”, gravada com Kurt Vile, já na volta do bis), Courtney Barnett mostrou porque o “agora é female”, pois num poderoso power trio que ainda conta com os competentes Dave Mudie (bateria) e Bones Solane (baixista), ela é a grande estrela não apenas porque compôs, toca guitarra pra caralho e canta suas próprias canções, mas principalmente porque faz isso ao vivo de uma maneira tão apaixonada e intensa que inebria, encanta e faz acreditar que, sim, o rock ainda pode ser instigante. Que show, que noite!

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Courtney Barnett em Porto Alegre (22/02)
Texto: Leonardo Tissot
Fotos: Karla Nazareth

Eram precisamente 21h01 do dia 22 de fevereiro de 2019 quando o power trio composto pela cantora e guitarrista Courtney Barnett, acompanhada pelos fiéis escudeiros Bones Sloane (baixo) e Dave Mudie (bateria), subiu ao lendário palco do Opinião, em Porto Alegre, para sua primeira apresentação em terras gaúchas.

A pontualidade da banda é elogiável — o show estava marcado para as nove da noite —, mas tornou-se apenas mais um de tantos destaques em 83 minutos de uma apresentação que eletrizou a capital gaúcha. O show provocou uma conexão imediata entre artista e público — e as centenas de felizardos que saíram de casa em uma sexta-feira de intenso calor em Porto Alegre para ver de perto a ganhadora de prêmios de melhor álbum de rock do ano passado (e 3º lugar na votação do Scream & Yell) não têm do que reclamar.

Desde o início do show, com “Hopefulessness” — faixa de abertura de “Tell Me How You Really Feel” (2018) — até o encerramento, com “History Eraser” — do primeiro EP da cantora, lançado em 2013 — o que se viu foi um espetáculo de competência de uma das artistas fundamentais desta geração. Abençoados aqueles que puderam ver Courtney Barnett destilando seu talento a poucos metros de distância, arrebatando o público com sua simpatia e qualidade de suas canções.

Seja pegando leve (como nas recentes “Need A Little Time” e “Sunday Roast”, ou ainda na bela “Let It Go”, do disco em parceria com Kurt Vile, “Lotta Sea Lice”, de 2017), seja na pauleira feminista “Nameless, Faceless” ou na nirvanesca “Pedestrian At Best”, a artista australiana comprova, ao vivo, como ainda é possível ser relevante em um gênero tão desgastado como o rock.

Courtney mantém o público na palma da mão durante todo o show. “Charity”, uma das canções mais bem recebidas pelo público, foi anunciada por Courtney como uma música sobre “ansiedade e depressão”, antes de dedicá-la a todas as pessoas que sofrem com essas doenças. O tema, que também aparece em faixas mais antigas da guitarrista, como “Depreston” — que em qualquer outra época já seria considerada um clássico do rock —, é recorrente nas letras descoladas e repletas de sacadas de Courtney.

Falando nelas, outro ponto que chamou a atenção foi a forma como a cantora reagia aos fãs que cantavam as letras de cabo a rabo. Courtney — que em geral permanece concentrada ao microfone, de olhos fechados enquanto canta — de tempos em tempos levantava a sobrancelha e abria um dos olhos para ver quem é que estava castigando os próprios pulmões, gastando todo seu fôlego para cantar juntinho com ela.

Quem é fã sabe que Courtney toca guitarra de um jeito muito particular, sem o tradicional uso da palheta — recurso habitual de músicos de rock, que em geral querem ter uma pegada mais pesada. Ainda assim, é incrível observá-la tocando ao vivo. Como é possível fazer tanto barulho sem cortar os dedos nas cordas de aço de suas guitarras Fender?

O único “porém” do show foi, realmente, a falta dos hits “Elevator Operator” e “Nobody Really Cares If You Don’t Go to the Party”, do primeiro disco, “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, de 2015. Mas, como de boba, Courtney não tem nada, só nos resta pensar que, com essa estratégia, ela conseguiu o que queria: deixar a gente implorando por mais. Como se precisasse…

De Porto Alegre, a guitarrista segue em turnê pela América do Sul, México e Japão. Em maio, ela pega a estrada novamente em uma tour europeia e, em junho, toca no festival bianual do Wilco, Solid Sound, que ocorre em North Adams (EUA), próximo a Boston. Em setembro, Courtney toca no Lollapalooza Berlin.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista especializado em comunicação corporativa e produção de conteúdo. As duas fotos do show em Porto Alegre são de Karla Nazareth.
– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. As duas fotos que abrem o texto são de Marcelo Costa.

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