Ao vivo: Edgard Scandurra no Sesc Pompeia

Texto e fotos por Marcelo Costa

No século passado, pensar como seriam os anos 2000 era motivo de puro delírio. A mente viajava e imaginava-se carros voadores trafegando em avenidas no céu, robôs com inteligência própria, comidas exóticas, objetos que poderiam teletransportar pessoas de um cada a outro do planeta e até máquinas do tempo. O tempo passou, os anos 2000 chegaram e, tirando a popularização da internet e os avanços da medicina, a sensação é de que ao invés de vivermos o século XXI estamos regredindo ao século XV. Os carros continuam firmes no chão, as comidas são mais naturais e teletransporte e máquina do tempo continuam um sonho louco. Porém, com um pouquinho de imaginação é possível sim viajar no tempo através da… música.

E foi mais ou menos isso que o guitarrista, vocalista e compositor Edgard Scandurra ofereceu para um ótimo público na choperia do Sesc Pompeia, em São Paulo, numa noite amena de sexta-feira: uma viagem ao tempo de “Amigos Invisíveis”, seu primeiro disco solo, lançado em 1989 logo após a tríade inicial matadora de álbuns de sua banda, o Ira!. Enfurnado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, ao lado do produtor Paulo Junqueiro, Edgard tocou guitarra, violão, baixo, bateria, sintetizador, órgão, percussão, violino e metalofone contando com a participação da então esposa, Taciana Barros (Gang 90), tocando piano em apenas uma canção. Lançando numa pausa do Ira! (sem que Edgard saísse da banda!), “Amigos Invisíveis” se tornou um álbum cult.

Às vésperas do disco completar 30 anos (em 2019), Edgard anunciou uma série de shows especiais com o repertório deste álbum cult (que merece ser revisto) acompanhado de Rodrigo Saldanha (bateria) e Fábio Golfetti (guitarra) além de Taciana Barros (órgão, vocais e teclados) e do filho dos dois, Daniel Scandurra, que aparece recém-nascido na contra-capa do álbum original de 1989, é homenageado em uma bela canção (“Bem Vindo, Daniel”) e agora assume o contrabaixo. Junto ao repertório do disco, apresentado na integra, Edgard selecionou algumas canções do Ira! e de seu projeto Benzina, abriu espaço para Fabio Golfetti tocar uma canção do Violeta de Outono e ainda incluiu o tema do filme “Laranja Mecânica” no set.

Amigos Invisíveis” sempre foi um disco particular na carreira de Edgard. Quando foi lançado em 1989, muitos temiam que seria o fim do Ira!. Quando finalmente ganhou reedição em CD, apenas em 2001, Edgard achou o som datado. “Tem muitas coisas que eu fiz ali que hoje não faria mais. Mas é importante esse resgate do rock brasileiro”, contou em entrevista ao Scream & Yell às vésperas do Rock in Rio. Em 2009, porém, com o gancho de festejar os 20 anos do disco, reuniu um time de convidados de luxo (Fernanda Takai, Guilherme Arantes, Zélia Duncan, Jorge du Peixe e Barbara Eugênia) para recriar canções de “Amigos Invisíveis” ao vivo num projeto da TV Cultura (que rendeu o CD e o DVD “Edgard Scandurra ao Vivo“). Ás vésperas dos 30 anos, Scandurra retorna ao álbum num formato família e o resultado transporta o espectador para outros tempos, outras batidas, outras pulsações.

A viagem no tempo começa com a instrumental carregada de efeitos “Estamos Nesse Trem”, e mergulha na sequencia no riff mágico de “Amor em BD”, empolgante declaração de amor de Edgard às revistas de histórias em quadrinhos. Logo depois surge “Minha Mente Ainda é a Mesma”, canção que talvez seja a mais saudosa do repertório, por trazer uma narrativa de rebeldia adolescente frente ao amadurecimento, e cuja letra motiva o público presente aos primeiros gritos de #EleNão (em referencia ao candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro) da noite. Edgard aproveita o embalo espontâneo dos presentes e adapta o refrão transformando “Eu não nasci pra isso não” para “Por isso eu digo #EleNão”.

Esse foi um dos raros momentos em que um triste fato dos dias atuais transportou o público para o tempo presente, para esses dias cinzas em que a democracia (e todos nós) respira(mos) com dificuldade. Na maior parte da noite, a sensação é de que estávamos no final dos anos 80, energizados com uma democracia e uma liberdade recém-conquistada após duas décadas de ditadura, com um futuro inteiro pela frente, mas a possibilidade de se construir um país novo, e bom para todos. “Abraços e Brigas”, a faixa seguinte, se transforma num dos grandes momentos da noite, e traz consigo Taciana ao violão na poderosa regravação de Edgard para “Gritos na Multidão”, do Ira!.

Outro grande momento é a cover que abre o lado B do vinil “Amigos Invisíveis” (neste show, um belo momento de guitarras com Fabio e Edgard). Antes de anunciar “Our Love Was” (presente no clássico “Sell Out”, de 1967), Edgard declara seu amor ao The Who contando que o show deles em São Paulo, no ano passado, foi um dos melhores shows que ele viu em toda sua vida. Seguem-se números instrumentais (“1978” surge em grande versão), a bonita “Culto de Amor” e outro momento bonito: “Essa música eu fiz para o meu filho, Daniel”, conta Edgard, no que Taciana completa: “Meu também!”. O número acústico é tão delicado e sublime quanto no álbum. Para fechar o show e o disco, “Vou Me Entregar Como Nunca”, uma das três parcerias de Edgard com Taciana no álbum.

Para a volta do bis, Edgard surpreende com uma bela versão de “The Falso, O Fake”, do álbum “Amor Incondicional” (2006) de seu projeto Benzina, e, principalmente, de “Você Não Sabe Quem Eu Sou”, faixa título do oitavo álbum do Ira!, lançado em 1998. O guitarrista Fabio Golfetti é chamado ao microfone e apresenta uma versão pungente de “Outono”, de sua banda, e a noite termina com “Flores em Você”, do Ira!. Antes de deixar o palco, Edgard se despede recomendando: #EleNão. Gritos (na multidão) ecoam novamente: #EleNão! E a viagem no tempo é encerrada trazendo o público presente na marra para 2018, com muitos desejando que esse ano não termine enclausurando todos em um novo 1968. Afinal, se é para viajar no tempo, que seja por um motivo feliz.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

Leia também:
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– Edgard Scandurra, 2007: “Foi superimportante a minha experiência com trabalho solo
– Edgard Scandurra ao vivo, 2002: “Por 50 minutos, Edgard emocionou a platéia
– “Ao Vivo”, Edgard Scandurra: “Vale espiar o DVD com três grandes canções do Ira! extras

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