Cinema: “Projeto Flórida”, de Sean Baker

Texto por Renan Guerra

Nos anos 1950, quando da construção do complexo de parques da Disney World, Walt Disney chamava esse empreendimento de “Projeto Flórida” (“The Florida Project” no original). Esse é o título deste filme de Sean Baker, que já coleta mais de 40 prêmios, incluindo uma dobradinha no Alliance of Women Film Journalists (Atriz Revelação para Brooklyn Prince e Melhor Ator Coadjuvante para Willem Dafoe, indicado na mesma categoria no Oscar – a dupla faturou diversos outros prêmios na temporada).

“Projeto Flórida” lança seu olhar a quem está de fora do parque, nas margens daquele espaço de sonho e consumo. Numa das avenidas que leva a um dos espaços de entretenimento, diferentes hotéis servem de morada para pessoas pobres, famílias disfuncionais e pessoas que perderam sua residência após a crise imobiliária dos Estados Unidos. Esse cenário real é o ponto de partida de Sean Baker num filme que acompanha as férias de verão da pequena Moonie, que vive com sua mãe no hotel Kissimmee.

A trama acompanha as desventuras e as malandragens de Moonie (Brooklyn Prince) e seus amigos, enquanto apresenta a vida errática de Halley (Bria Vinaite), sua mãe, e o cotidiano do gerente do hotel, Bobby (Willem Dafoe). Apesar do olhar infantil que o filme assume, colocando a câmera na maioria das vezes na altura das crianças, o que se vê é um filme bastante calcado no real, num universo de violência e falta de perspectivas. Sem grandes opções nas férias, as crianças cospem em carros, mendigam para comprar sorvete e falam palavrões a qualquer um que tente controlá-las.

A grande maioria dos personagens de “Projeto Flórida” são extremamente mal-educados: eles gritam, falam palavrões e fazem grandes barracos e, claro, isso é repetido pelas crianças, que também agem com violência e agressividade perante a tudo. Nesse sentido, a figura de Halley irrita o espectador e, em certos momentos, o mesmo acontece com Moonie, mas é preciso relembrar que ela é tão-somente a repetição do ambiente em que ela está inserida, com uma mãe que não tem quase nenhuma capacidade de ser mãe.

Nesse sentido, o personagem de Willem Dafoe é um alento nessas quase duas horas: paciente, educado, ele tenta, a sua maneira, ser essa figura paterna para Halley, Moonie e as outras crianças do hotel. Ele aparece dia e noite tentando resolver os problemas do local e sempre acha um jeito de burlar os sistemas para não deixar ninguém sem moradia. Ele é um personagem triste, que dedica a sua vida àquele hotel, sem nenhum retorno, levando nas costas a complexidade de lidar com pessoas e com a violência daquele espaço.

As cores do filme, por outro lado, criam uma aura meio mágica e ao mesmo tempo melancólica. Os hotéis e as lojas de beira de estrada são todos muito coloridos, para chamar atenção dos turistas, nesse mundo de sonhos da Disney. De cor roxa, o hotel do filme é quase uma personagem, já que é cenário para crianças correndo por corredores, subindo e descendo escadas e avisando: “Quase ninguém usa o elevador, pois ele fede a mijo”. O roxo das paredes vira e mexe reverbera um tom rosa sobre tudo, dando esse ar meio millenial Pink ao filme, cor que reaparece no céu e em inúmeros figurinos.

Willem Dafoe é o único ator de longa carreira presente em cena, já que a maioria do elenco é formada por não-atores ou iniciantes. A pequena Brooklyn Prince foi escolhida para o filme após responder um anúncio do diretor, já Bria Vinaite foi descoberta através do Instagram: Sean achou criativa a forma que ela se comunicava pela rede e acabou a convidando para o papel (o resultado foi positivo, além de indicada a prêmios, Bria já está no elenco do próximo filme de Harmony Korine, “The Beach Bum”).

Distribuído pela A24, o filme conseguiu fazer uma boa caminhada na época de premiações, marcando presença no Oscar com Willem Dafoe concorrendo na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (única indicação do filme). O diretor Sean, aliás, já tem um histórico com o Oscar: em 2015 ele fez campanha para que as atrizes Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor fossem indicadas pelo longa “Tangerine”. Elas não conseguiram a indicação, mas são as primeiras atrizes transgêneras a oficialmente fazerem campanha para o prêmio.

“Tangerine”, aliás, também trazia esse olhar sobre figuras marginalizadas, acompanhando um dia na vida de duas mulheres trans pelas ruas de Los Angeles, sem o charme um tanto quanto falso da Hollywood vendido nos filmes de grandes estúdios. O longa chamou a atenção na época pelo fato de ter sido todo filmado com um iPhone; nesse “Projeto Flórida”, Baker reutiliza essa ‘técnica’ e grava a última cena do filme também com um iPhone 6s, numa locação não autorizada dentro da Disney World.

“Projeto Flórida” reafirma Sean Baker como um grande cineasta e, mais que isso, afirma-se como um filme que conversa de forma bastante sólida com o nosso tempo, de maneira forte e verdadeira. Este é um filme belo, pela sinceridade e força de seus personagens, que mesmo com defeitos e erros, nos cativam e nos apaixonam em pequenos momentos de alegria. Inúmeras cenas engraçadas humanizam o longa e não deixam em nenhum momento que a tese do filme – a pobreza ignorada pelos americanos – seja mais importante do que a história daqueles personagens.

“Projeto Flórida” tem estreia no Brasil agendada para 01 de março, mas o filme já está disponível digitalmente no iTunes e na Amazon com parte do valor da venda repassado ao Community Hope Center, que ajuda famílias necessitadas nos Estados Unidos.

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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