Entrevista: Plutão Já Foi Planeta

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por Daniel Tavares

O programa Superstar 2016, da Rede Globo, acabou no último domingo de junho tendo como vencedora a banda Fulô de Mandacaru cantando um autêntico forró nordestino, mas optando por canções de nomes já consagrados em quase todos os episódios da atração dominical. Quem também se destacou, mas apostando num conteúdo quase sempre autoral, foi a banda potiguar Plutão Já Foi Planeta. Formada em Natal em 2013, a banda hoje é composta pela vocalista Natália Noronha, pelos guitarristas Sapulha Campos e Gustavo Arruda, pela baixista Vitória de Santi e pelo guitarrista Gustavo Oliveira. Já com projeto do segundo álbum garantido no Kickante (o primeiro, “Daqui Pra Lá”, pode ser baixado gratuitamente aqui) e colhendo os resultados da exposição nacional todos os domingos na maior emissora do país, os integrantes da banda ainda estão tentando entender o que vai mudar daqui pra frente em suas vidas e carreiras. Logo após o resultado, o guitarrista Sapulha Campos postou em sua conta pessoal no Facebook:

“Foram meses de Superstar e quero resumir um pouco do sentimento aqui. O programa começou pra gente nas 18 horas que passamos dentro de um carro pra ir pra Salvador fazer a audição, e não nos primeiros tiques daquele relógio da tela que me dão arrepio até agora. Desse tempo pra cá, foi uma prova emocional o tempo todo, e coisas e pessoas (conheci muita gente incrível) que nunca vou esquecer. Desde o primeiro choro no avião pra primeira apresentação (e quando olhei pro lado vi que não chorava só, né, Gustavo?). Ao alívio ao fim da última apresentação, da sensação de dever cumprido.

Não consigo descrever a felicidade de ver tanta gente se mobilizando pra ajudar o Plutão. Tanta mensagem bonita de apoio, tanta coisa, que eu já tinha certeza que esse era o grande prêmio que levaríamos dessa experiência. Queria ganhar? Claro! Mas foi essa força e esse amor que senti em cada demonstração de apoio que me faz sair daqui animado, feliz, orgulhoso por tudo que aconteceu e um sentimento de gratidão que não cabe nessa vida e muito menos nesse post. E é isso. Muito obrigado, de todo coração, a todo mundo que participou disso tudo junto com a gente. Foi lindo, foi emocionante e vamos continuar juntos, né? Mil vezes obrigado!

O mundo começa agora. Apenas começamos!”

Para saber um pouco mais sobre esta experiência, Joanilson Campos (o verdadeiro nome de Sapulha – o apelido foi herdado de um dos personagens dos Ursinhos Gummy, o ogrinho) conversou com o Scream & Yell e falou sobre a competição, sobre a opção por usar autoral (obrigatória na visão deste jornalista, mas relegada a segundo plano pela maioria das outras bandas competidoras), sobre o cenário musical no Rio Grande do Norte e no Nordeste, entre outros assuntos. Sempre respeitoso com os colegas de outras bandas, Sapulha evitou tecer grandes comentários sobre os concorrentes ou qualquer outro assunto mais polêmico, mas garantiu: “Dividimos um sonho”. Confira a conversa.

Em primeiro lugar, vocês já conseguiram verificar/contabilizar/raciocinar o que mudou nas vidas de vocês desde que começaram a aparecer no programa?
A verdade é que ainda estamos absorvendo tudo, tentando entender. O que já dá pra perceber é que os convites aumentaram bastante e estamos recebendo mensagens de todo o Brasil.

Existe uma crítica profunda à maioria de outras bandas. Embora elas estejam fazendo algum sucesso (o que se reflete nas votações), tenham bons músicos e até consigam, às vezes, fazer boas versões, há o que parece ser um medo generalizado de apresentar material autoral. Como exemplo, uma banda de reggae, conhecida em seu meio, com um séquito de fãs, que tinha até outras bandas tocando covers de canções suas em shows, simplesmente resolve tocar uma canção de Bob Marley exatamente como Bob faria, sem tirar ou por muito. Vocês tem se destacado por ser uma das poucas a apostar em si mesmos. O músico cearense Caique Falcão chegou a comentar: “Uma puta vitrine, e a galera se acovarda”. O que vocês acham disso tudo?
Escolhemos esse caminho de música autoral porque sempre foi a conversa que tivemos na banda. Esse sempre foi o nosso objetivo principal. Respeitamos a decisão das outras bandas, que devem ter os motivos deles.

E porque vocês resolveram mudar a aposta e ir de Kid Abelha no programa do dia 05/06? Não consideraram arriscado uma vez que, de certa forma, até ali tinham ganho fãs por causa do material que era de autoria de vocês?
Foi uma escolha estratégica, coisa do momento da competição. Sabemos que existe uma diferença entre a banda dentro e fora do programa, de modo que isso não fere os nossos objetivos iniciais nem o nosso plano de divulgar nossas músicas.

Como são os bastidores do Superstar? Como é o relacionamento com as outras bandas? E com o pessoal do programa, os jurados, Daniela, Sandy, Paulo Ricardo?
O clima lá dentro é de muita amizade. Fizemos vários amigos. Dividimos um sonho por meses, ficamos longe de nossas famílias, enfrentamos a rotina todo mundo junto o tempo todo. O clima sempre foi o melhor possível.

E esse nome. Vocês já enfrentaram alguma dificuldade por ter uma frase como nome?
Pelo contrário, esse nome sempre nos ajudou bastante por criar uma curiosidade nas pessoas e, apesar de ser um nome gigante, marcar a memória das pessoas. Temos vários exemplos de bandas com nomes grandes. Sem contar que existem versões diferentes. No nosso caso, somos muitas vezes chamados de Plutão. O nome foi dado por mim. Surgiu de uma reportagem que vi sobre o fato, algo de 2006. Na época falamos em vários nomes diferentes, mas só me recordo de um: Mariposa Tecknicolor, que era em homenagem a uma música de Fito Paez, mas a banda toda odiou. Com razão, né?

O Rio Grande do Norte é um grande celeiro de bons músicos e boas bandas no rock alternativo. Daí vem a Camarones Orquestra Guitarrística, a Talma & Gadelha, Khrystal, vocês… mas só com uma intensa circulação em festivais ou a participação em reality shows a maioria fica conhecida no resto do país ou a mudança para São Paulo ou Rio. O que vocês acham que é necessário para mudar esta situação?
Acho que essa situação já tá mudando. A parte das bandas está sendo feita, há um esforço danado dos músicos e o público já mudou bastante, mas ainda falta apoio em um sentido mais massivo da palavra. Precisamos de apoio dos políticos e órgãos (quando se trata de eventos na cidade), precisamos ser tratados como bandas de fora são, precisamos que as pessoas consumam a arte do nosso estado. Isso tudo começa de um trabalho interno. Precisamos ser vistos na nossa cidade para que o resto do país nos veja. Se o público e as bandas estão fazendo o que é necessário, onde será que precisamos de mudança?

Qual tem sido a participação do pessoal do DoSol neste processo?
O DoSol é ponto essencial para o Plutão. Desde shows até a gravação dos nossos discos. Não dá pra imaginar nosso estado sem as produções do DoSol.

E que outras bandas do Rio Grande do Norte vocês apostam que poderiam merecer o sucesso e o reconhecimento do público?
Todas as bandas que estão na batalha. Mahmed, Camarones Orquestra Guitarrística e o Far From Alaska tem um reconhecimento incrível dentro e fora do RN. Temos Luiz Gadelha e Os Suculentos, Androide Sem Par, Toca-Fita de Corcel, Seu Ninguém, Forasteiro Só, Mad Grinder, Black Witch, Luísa e os Alquimistas, Talude, Rosa de Pedra, etc. Tem muita gente e vai muito além dos nomes que citei.

E do sucesso que alguns artistas nordestinos como Wesley Safadão e Aviões do Forró, que, prestam uma espécie de desserviço à nossa música, o que vocês acham?
Não ouvimos, mas temos respeito ao trabalho de todo mundo.

Vocês acham que dá pra viver de música no Brasil sem recorrer a esse tipo de som, digamos, mais fácil?
Pergunta difícil. Já especulamos mil coisas sobre isso. A verdade é que essa é a grande batalha, algo que queremos arriscar pra descobrir.

Não dá pra perceber a influência de ritmos nordestinos no som de vocês, mas, como nordestinos que somos, preciso perguntar o que é a música nordestina de verdade pra vocês? Qual a relação de vocês com a música de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba, Fagner..
As influências podem ser diretas ou indiretas. A música nordestina é presente nas nossas vidas, pois somos filhos de nordestinos, muitas vezes do interior. Crescemos ouvindo e gostamos bastante. Não é uma influência direta, mas como somos síntese de tudo que ouvimos, deve estar presente de alguma forma.

E que outros artistas no mundo inspiram vocês?
São vários. De Beyonce a Tame Impala, de Bombay Bicycle Club a Novos Baianos.

Ah, e Plutão ainda é Planeta. É anão, mas é planeta, não é?
Na verdade a configuração de 2006 nunca mudou. Plutão continua não sendo planeta, mas está nos nossos corações independente de título.

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista e mora em Fortaleza

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One thought on “Entrevista: Plutão Já Foi Planeta

  1. Uma pena essa visão pobre da critica deles,ou melhor,da falta dessa critica,mas olha a cara deles,não precisa dizer que não são muito criticos de nada,né?Mas ainda assim é uma boa banda e mereciam ter ganho o programa.

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