A nova cena portuguesa: Rita Braga

por Pedro Salgado, de Lisboa

A aparente fragilidade e timidez que Rita Braga revela durante a conversa numa esplanada do centro de Lisboa esconde o imenso talento de uma artista que já realizou turnês na Alemanha, França, Itália e Estados Unidos (onde se apresenta frequentemente). Rita descobriu o instrumento musical da sua eleição aos 15 anos e agradou-lhe o fato de ser minimal e adequado às atuações a solo. “Aquilo que o ukelele mudou mais na minha visão da música foi a mobilidade, facilidade de transporte e a sua adaptabilidade a espaços diferentes”, conta.

Em Portugal, a cantora lisboeta foi um dos Novos Talentos FNAC de 2007, e colaborou no disco “Femina”, do Legendary Tigerman, entre outras parcerias. Mas seria o inspirado álbum de estreia, “Cherries That Went To The Police” (2011), onde versionou criativamente canções antigas de vários países (das quais se destacam “Ramblin’ Man”, de Hank Williams, ou a rebetika grega de “Mes’tou Manthou Ton Teke”), que lhe possibilitou uma visibilidade maior e o reconhecimento do trabalho que desenvolveu em EPs e shows anteriores.

Muitas vezes, a sua música é definida como vaudeville, o que Rita Braga valida. “No vaudeville proporcionam-se momentos de circo, animação ou magia, não é algo estanque. Para além da música, tenho uma componente visual e de entertainer, por isso existe uma ligação entre o que eu faço e essa forma de arte”, explica. Seu mais recente trabalho, o EP “Gringo in São Paulo” (2015), resulta do período de cinco meses que a cantora viveu na capital paulista, em 2013, e foi gravado no estúdio Casa do Mancha com a participação de Bernard Simon Barbosa (guitarra elétrica e baixo), Mancha Leonel (bateria) e o músico norte-americano Chris Carlone (uma presença regular nos trabalhos da cantora lisboeta), entre outros.

Nas cinco composições deste EP paulista, que incluem referências brasileiras, a sonoridade peculiar do ukelele dá cor a uma marchinha irônica dos anos 30, na faixa-título, mistura o formato acústico com o dramatismo do violoncelo em “Erosão” enquanto o épico “Poetas do Fim do Mar” desenvolve um inesperado final roqueiro. O bom pop contempla “Helicóptero” e “Tralala”. Numa fase de promoção do disco, que incluirá shows na Galeria Zé dos Bois (Lisboa) e no Cinema Passos Manuel (Porto), os seus projetos futuros são apresentados de uma forma original, “Não sei qual será a próxima colaboração que farei, mas poderia ser com Elvis Presley e ele até poderá estar vivo (risos). Com o rei do rock teria que improvisar sempre”, conclui. De Lisboa para o Brasil, Rita Braga conversou com o Scream & Yell. Confira:

Em que medida a estadia em São Paulo influenciou o seu novo trabalho?
Influenciou totalmente, porque o propósito era fazer um disco em São Paulo, utilizando músicos locais e escrever as canções na cidade. E a ideia surgiu porque na primeira vez que fui ao Brasil, em 2012, tive uma banda, que resultou da empatia que criei com outros músicos, e foi um motivo para voltar e fazer um álbum com eles. Na primeira visita ao Brasil toquei material do álbum “Cherries That Went To The Police”, fiz arranjos com eles e os temas ficaram com uma pegada mais roqueira (duas guitarras elétricas, baixo e bateria). Quando regressei, isolei-me durante dois meses para compor e no final estivemos a compor arranjos para esses instrumentos, mas também adicionamos piano, cuíca e violoncelo. No fundo, foi uma adaptação em função dos músicos e, se pretendia uma sonoridade mais rock, solicitava a bateria do Mancha Leonel ou a guitarra do Bernard Simon para obter esse efeito. No piano convidei o José Vieira. Peri Pane, que é um compositor muito interessante de São Paulo, cantou e tocou violoncelo.

Como correram as gravações na Casa do Mancha e a interação com os músicos brasileiros?
Foi muito fácil trabalhar com eles. Depois de voltar para Portugal o que demorou mais foi fazer a mixagem e a masterização (risos). O momento da gravação e de fazer os arranjos correu muito bem. Eles são músicos muito intuitivos, acompanharam-me facilmente e têm muita musicalidade.

No EP “Gringo in São Paulo”, as suas canções evocam músicos como Tom Zé e Carmen Miranda, mas também Bob Dylan e Black Sabbath. Como você conciliou referências tão diferentes?
O EP “Gringo in São Paulo” tem influências da Carmen Miranda (que eu andava escutando num sotaque errado em inglês), mas também de Tom Zé, porque ele tem várias músicas dedicadas a São Paulo e acabei por fazer uma música sobre a cidade. De um modo geral, procurei referências brasileiras, mas não só. Estando no Brasil fica difícil que o país não influencie a composição. Para além disso, evoco figuras e cantores diferentes em vários momentos. No disco, quando a personagem se adapta à cidade assume a voz de Bob Dylan, mas é apenas uma brincadeira.

A faixa “Poetas do Fim do Mar”, revela um dramatismo assaltado por uma pegada roqueira no final, assemelhando-se a um acidente de estúdio. Porque você escolheu esse final para a música?
Na realidade, não foi um acidente de estúdio, mas sim algo planeado (risos). Na época, eu escutava a versão dos Mutantes para “Chão de Estrelas” – o original era de um cantor dos anos 30, Silvio Caldas. Tomei conhecimento sobre o trabalho desses músicos, da era da rádio, que tinham canções muito tristes e pesadas, algo próximas do fado e diferentes do estereótipo musical brasileiro. Procurei compor um tema dramático, no mesmo estilo, mas também cômico. O sotaque brasileiro em que cantei foi uma tentativa de fazer uma pronúncia entre Portugal e Brasil. Depois, a ideia era prolongar o solo com a entrada da guitarra elétrica e ter um momento de prog rock. O objetivo era mudar um pouco o contexto tal como os Mutantes fizeram.

O fato de já ter trabalhado nas áreas da ilustração, cinema de animação e composição de trilhas sonoras correspondeu a uma tentativa sua de se tornar uma artista mais completa?
Trabalhei e tive formação nessas áreas, mas hoje em dia estou mais dedicada à minha música. O que eu ganhei com isso foi que ela recebe esse aglomerado de influências. Isso transporta-se para as composições e os clipes. Esse lado visual está sempre presente e continuo a colaborar com muitas pessoas que fazem ilustração e animação. O próprio clipe de “Gringo in São Paulo” é uma animação e as capas dos discos são desenhos. Por isso, continuo a ter essa ligação forte.

Estão previstas atuações suas em São Paulo proximamente?
Estou em contato com os músicos de São Paulo, conheci algumas produtoras e a minha vontade é voltar lá nos próximos meses, no final do ano ou no princípio de 2016. Nada está decidido, mas a ideia é regressar e apresentar o EP “Gringo in São Paulo”, incluindo os músicos com quem trabalhei.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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