Boteco: Cinco cervejas da Walking Cat Brew Co.

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por Marcelo Costa

A Walking Cat Brew Co., de São Paulo, é comandada pelo cervejeiro caseiro Marcio Kovacs, que resume sua inspiração: “Sempre que tomo uma breja boa penso em criar minha interpretação pessoal do estilo e boto na minha lista de ‘cervejas a serem feitas’. Organizar essa lista e decidir qual delas vai sair do papel é mais complicado”. Marcio já produziu um bom número de cervejas em sua casa – um delas, a Wee Heavy, já passou por este blog –, e agora chega com novos rótulos mostrando personalidade (com uma queda pelo jeitão norte-americano de produzir cervejas cuja estrela são os lúpulos) e, principalmente, evolução de um rótulo para o outro. Vale acompanhar as novidades da Walking Cat Brew Co. no facebook da cervejaria caseira. Abaixo você poderá conhecer cinco rótulos do Marcio: Amber Ale, Joey Obama Imperial Stout, Turbo Vienna, R.I.P.A. e Marley Winehouse. Vamos a elas.

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A Amber Ale da Walking Cat Brew Co. devia estar na minha geladeira desde setembro do ano passado. O tempo de guarda aumentou a carbonatação, criando muita espuma no momento de abertura, mas não prejudicou as qualidades da receita (ainda que os lúpulos tenham aumentado a adstringência), que une os maltes Pale Ale e Cristal com os lúpulos Columbus, Amarillo e Cascade mais dry hopping de Ahtanum e Cascade. De coloração âmbar caramelada que honra o estilo, a Amber Ale exibe um creme levemente bege de boa formação, mas baixa permanência. No nariz, o cítrico da lupulagem disputa atenção com o malte. O conjunto se divide entre caramelo e melaço de um lado e maracujá e laranja do outro. Na boca, o conjunto não repete a dualidade percebida pelo nariz. Há um rápido aceno de dulçor, que logo é atropelado pelo amargor cítrico, que chama a atenção pra si, o que segue até o final. Porém, no retrogosto surge terra e um leve toque maltado com resquícios cítricos.

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Já a Joey Obama Imperial Stout foi a segunda cerveja do Birrinhas (a primeira foi a Voadeira Charlipa), com o primeiro lote produzido em maio e o segundo em novembro de 2013. A receita junta os maltes Pale Ale, Special B, Carafa Special II, Biscuit e cevada torrada com os lúpulos Willameue e Target, e recebe adição de cacau em pó. De coloração preta com feixes marrons, a Joey Obama exibe um creme bege de ótima formação e permanência. Na taça, o nariz volta a ser surpreendido com notas intensas puxando para chocolate. Em segundo plano surge o esperado café (que se torna mais presente conforme a cerveja aquece) mais baunilha, caramelo, tabaco (principalmente no final) e sugestão de amadeirado. No paladar, a junção de cacau com malte torraoa e cevada esconde os 7% de álcool resultando em algo que se aproxima de um delicioso cappuccino alcoólico incluindo chocolate, café, baunilha e melaço. O final é seco e achocolatado enquanto o retrogosto traz mais chocolate e cevada. Delícia.

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A Turbo Vienna é uma recriação do Marcio que tem por base a inspiração do tradicional estilo alemão, representado pelo uso de maltes europeus (Munich, Vienna e Caramunich), com um toque norte-americano através do uso do lúpulo Amarillo. De coloração acobreada e creme bege de boa formação e longa permanência, a Turbo Vienna valoriza o uso do lúpulo de Washington com leve sugestão floral e herbal (feno) mais um toque cítrico que surge amaciado pelo malte, sugestionando presença de aveia. As notas carameladas esperadas pelo estilo ficam em segundo plano. Na boca, o caramelo se torna mais presente embora o amargor cítrico do lúpulo mantenha sua posição de destaque no conjunto até quase próximo do trecho final, momento em que o dulçor toma a frente e surpreende o bebedor, finalizando maltada. No retrogosto, reforço de dulçor com leve baunilha e um toque cítrico agradável.

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A R.I.P.A. é a American India Pale Ale da The Walking Cat Brew Co., que une os maltes Maris Otter e Crystal com os lúpulos (australiano) Topaz e (norte-americano) Amarillo. De coloração alaranjada com leve turbidez, a R.I.P.A. exibe um creme de excelente formação e longa permanência. No nariz, tudo que se espera do estilo: notas cítricas frutadas intensas (maracujá, um pouco de acerola e tangerina), floral presente, caramelo maltado perceptível, leve resina, adocicado (calda de pêssego) e sugestão de condimentação além dos 6,8% de álcool, que não se escondem. Na boca, o amargor cítrico é caprichado (no chute, uns 50 de IBU), mas não acumulativo. A paleta de sabores não replica a elogiável variedade do aroma concentrando-se no amargor cítrico (um misto de maracujá e laranja) e no dulçor do malte. O final é amargo (não intenso) e cítrico enquanto o retrogosto traz resina e maracujá.

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Fechando o quinteto de caseiras do Marcio Kovacs com a Marley Winehouse, a English Barley Wine da The Walking Cat Brew Co., que junta os maltes Maris Otter, Crystal e Whisky com o lúpulo Northern Brewer mais chips de carvalho que ficaram de molho em vinho do Porto durante o envelhecimento. De coloração âmbar e creme bege de boa formação e permanência para o estilo, a Marley Winehouse destaca um aroma sensacional que mistura uísque com madeira, defumado com álcool, caramelo com condimentação (algo entre canela e pimenta vermelha, ambas inexistentes na receita, mas “presentes” pela elevada graduação alcoólica, 8,9%, e sua provavelmente combinação com o carvalho). Na boca, o álcool é surpreendentemente comportado, com o malte distribuindo notas adocicadas e frutas que remetem a caramelo, ameixa e leve defumado. O final traz algo de vinho de porto com madeira enquanto o retrogosto, delicioso, junta caramelo, álcool, uísque, ameixa e vinho do porto. Viciante!

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Balanço
Antes da Amber Ale eu já havia provado uma ótima Wee Heavy e algumas das primeiras versões da Joey Obama Imperial Stout, todas produzidas pelo Marcio Kovacs. Essa Amber, por algum motivo, ficou tempo demais na minha geladeira, mas, ainda assim, soou agradável ao final da garrafa. A sensação geral é que ela ficou muito americana e pouco europeia (ou seja, muito lupulada e pouco maltada), mas segue uma proposta interessante, que precisa ser retrabalhada. Já a Joey Obama Imperial Stout foi um passo arriscado, já que é um estilo que exige muito mais cuidado, mas o o cervejeiro caseiro está de parabéns, porque o resultado ficou excelente. O período de guarda valorizou muito o cacau (lembro que no primeiro lote, Marcio colocou em pedaço de canela embebido em cachaça, e isso se destacou bastante naquela versão) deixando a cerveja bastante adocicada sem soar enjoativa. Desce que é uma beleza, e pode enganar descuidados (que passaram batido pelos 7% de álcool). Ainda assim, essa segunda brasagem parece se encaixar melhor no estilo Chocolate Stout do que no Imperial. A próxima é do estilo Vienna Lager, normalmente caracterizado por domínio absoluto de maltes europeus no conjunto, com álcool moderado (no máximo 5.4%) e lúpulo apenas pontual. Marcio tentou ser diferente, e embora aroma e primeiro toque na boca valorizem o lúpulo (de forma deliciosa) mais do que o malte, o final maltado (como se fosse proibido ao lúpulo participar do encerramento) é uma deliciosa surpresa em uma cerveja agradabilíssima. Os 6% de álcool da receita (por isso o Turbo no nome) não aparecem e há tanto sugestão de aveia (não presente na receita) como de cítrico herbal e floral, estes últimos derivados do lúpulo de Washington, Amarillo. Desceu muito bem. Já a R.I.P.A., ótima recriação de um dos estilos mais amados pelos norte-americanos, ponta de lança de uma revolução cervejeira que começou lá nos anos 80, exibe um aroma sensacional, mas o álcool (dentro das especificações da Brewers Association) aparece um pouco mais do que deveria, e incomoda, principalmente quando a cerveja aquece na taça. Fechando o quinteto, a English Barley Wine da The Walking Cat Brew Co. é daquelas cervejas que deveriam ganhar produção em fábrica e ir logo para as prateleiras de todo o país. Simplesmente apaixonante, a Marley Winehouse consegue domar o dulçor do estilo não o deixando enjoativo, e colocando em seu lugar uma paleta aromática e de sabores viciante. Pode separar outra garrafa, cumpadi.

Amber Ale
– Produto: American Amber Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 2,35/5

Joey Obama Imperial Stout
– Produto: Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,06/5

Turbo Vienna
– Produto: Vienna Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,01/5

R.I.P.A.
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,8%
– Nota: 2,65/5

Marley Winehouse
– Produto: English Barley Wine
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8,6%
– Nota: 3,50/5

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