Marisa Monte ao vivo em Lisboa

Texto, fotos e vídeos por Bruno Capelas

Uma das experiências de vida mais típicas do mundo ocidental diz respeito àquela velha ideia de que, ao escolher um caminho em uma bifurcação na estrada, uma pessoa nunca mais será a mesma – algo que o filósofo grego Heráclito definiu como “nunca poder entrar duas vezes no mesmo rio” e o filósofo canadense Neil Young resumiu no verso “once you’re gone, you can’t come back”. Assistir à apresentação de um artista com muitos anos de carreira é, em boa parte das vezes, perceber as marcas que o tempo deixou em sua obra. Realizada no dia 28 de abril, a segunda de duas apresentações com ingressos esgotados de Marisa Monte no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, não conseguiu escapar dessa noção.

Apesar de pertencer à perna europeia da turnê “Verdade Uma Ilusão”, o show em Lisboa não fugiu em nada ao repertório das apresentações brasileiras da excursão que estreou no ano passado no Brasil, desenvolvida a partir do álbum “O Que Você Quer Saber de Verdade”. Se em estúdio Marisa Monte age em uma zona de conforto, ao vivo ela demonstra, ao menos superficialmente, porque se tornou um dos nomes mais conhecidos da música brasileira do último quarto de século. Sua presença no palco, ainda que envolta por uma aura de timidez, e as projeções que acompanham suas músicas (todas elas realizadas a partir de artistas contemporâneos como Tunga, Rivane Neuenschwander e Marilá Dardot) impressionam: é fácil perceber ali que há muito esmero em conceber um espetáculo, e não apenas uma sequência aleatória de canções.

Outro trunfo do show de Marisa é sua banda de apoio. Não é todo dia que se pode ver Dadi (A Cor do Som, Novos Baianos), Carlos Trilha (produtor dos últimos discos da Legião Urbana) e o trio da Nação Zumbi Dengue, Pupillo e Lúcio Maia, ainda que seja um desperdício utilizá-los para canções suaves e um bocado repetitivas, como o tango chacrilongo “Ainda Bem”, single do último disco da cantora, ou o hit pentelho “Velha Infância”, do repertório dos Tribalistas. Felizmente, na maior parte do show os arranjos se encaixam de maneira bela, especialmente revisitando lados-B (o minimalismo de “Arrepio”, a contundência da intervenção das cordas em “Diariamente”) ou deixando a banda se entregar da maneira que é capaz – em pontos alto como o lirismo do bandolim de Dadi na introdução de “Beija Eu” ou no suingue explosivo da guitarra de Lúcio Maia em “Não Vá Embora”.

Alguns atropelos acontecem pelo caminho, é verdade, seja na releitura deslocada de “Sono Come Tu Mi Vuoi”, homenagem à cantora italiana Mina Mazzini, ou na recuperação de “ECT”, canção que Monte escreveu junto com Nando Reis e Carlinhos Brown, mas da qual Cássia Eller tomou posse por usucapião assim que a gravou em seu terceiro disco em 1994. Depois de uma interpretação bonita, calcada em um arranjo à espanhola (que agradou os lisboetas, deve-se dizer), mas anos-luz distante da força de Cássia, é difícil não estabelecer comparações entre as duas e lamentar a ausência da brasiliense – algo que a própria Marisa Monte fez no show, dizendo que “ficou muito mais difícil cantar sem a referência dela por perto”.

Para a maior parte do público lisboeta, a apresentação virou jogo ganho quando Marisa foi se aproximando do final de seu show e enfileirando hits e mais hits cantados a plenos pulmões, como “Amor I Love You” (essa, inclusive, com participação de um angolano da plateia recitando as frases de “O Primo Basílio”, do escritor local Eça de Queiroz), “Para Ver As Meninas” ou “Eu Sei (Na Mira)”. Porém, ao executá-los, é perceptível que falta algo a tais músicas para que elas se tornem momentos inesquecíveis, como se a cantora tivesse perdido alguma coisa nos últimos anos, ao mudar de rota na virada da década de 1990 para a de 2000.

Em seus primeiros discos, era nítido que o projeto artístico da cantora e compositora carioca era brincar com repertórios diferentes e uni-los em um mesmo contexto, um pós-tropicalismo sem intenções didáticas, mas facilmente assimilável. Discos como “Mais” (1991) e “Verde, Amarelo, Anil, Cor de Rosa e Carvão” (1994) são provas claras desse ideal que coloca Lou Reed, Jorge Ben, Ryuichi Sakamoto e Pixinguinha em um mesmo patamar sem soar indigesto ou fora de propósito.

Todavia, após o mezzo ao vivo mezzo estúdio “Barulhinho Bom”, a cantora parece ter escolhido para si uma nova tarefa, fácil de executar, mas pouco proveitosa para o público. Tal como um Roberto Carlos pós-San Remo, Marisa Monte resolveu se tornar a maior cantora romântica do Brasil, envolta em uma embalagem hippie-chic-contemporânea (ouça “Gentileza” e entenda), sem especial da Globo e repleta de pretensões artísticas.

O primeiro trabalho dessa safra, “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, lançado em 2000, ainda era bastante bem sucedido ao juntar boas composições próprias (as já citadas “Amor I Love You” e “Não Vá Embora”) com releituras espertas de Tim Maia (“O Que Me Importa”, de Cury, tornou-se sucesso ao ser inclusa no terceiro álbum de Tim, de 1973), Caetano Veloso (“Sou Seu Sabiá”) e Jorge Ben (“Cinco Minutos”). Os discos seguintes (incluindo aqui a parceria de Marisa com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes no projeto Tribalistas), porém, parecem variações sobre um mesmo tema: a ideia de que é preciso “Amar Alguém”, de maneira livre e sem preconceito, sem receio de se perder a pessoa amada, mas sem deixar de explicitar a beleza do amor e a necessidade do próximo (“Ainda Bem”).

Ao final de duas horas, não se pode dizer que o que foi visto no palco do Coliseu dos Recreios foi um mau espetáculo. Os aplausos dados pelos portugueses após “Já Sei Namorar” (a última música do bis) duraram pelo menos cinco minutos, e seriam capazes de trazer a cantora de volta ao palco se o entusiasmo conseguisse prevalecer a produção cuidadosa que desceu a cortina com os créditos do show antes de qualquer possibilidade de reação por parte da artista. O problema é que, no fundo da boca, após o doce gosto de um hit para fazer a plateia se enternecer e balançar os braços, ficou o gosto amargo de perceber que Marisa poderia estar fazendo muito mais que canções prontas para embalar os pares românticos das novelas das 8. Afinal, a gente ainda lembra o que passou.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde 2010 e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– Marisa Monte abraça o comodismo em “O Que Você Quer Saber de Verdade”, por Mac (aqui)
– Dez perguntas para Marisa Monte, por Marcelo Costa (aqui)

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