Boa Parte de Mim Vai Embora, Vanguart

por Bruno Capelas

Cinco anos passam rápido. Se essa frase de efeito costuma valer bem para uma pessoa, que dirá para uma banda, ainda mais nos dias de hoje? “Boa Parte de Mim Vai Embora”, o segundo trabalho da Vanguart, chega aos ouvintes exatamente cinco anos depois da banda causar frisson no cenário independente, através de hits como “Semáforo” e “Cachaça”, destaques de um grande disco, autointitulado, lançado pelos mato-grossenses em 2007. Eles obviamente não foram os primeiros a usar o idioma folk no rock nacional, nem mesmo trouxeram o gênero de volta à tona na última década – como fizeram lá fora, só para citar alguns nomes, Wilco, Ryan Adams e Iron & Wine. Mas, de alguma maneira, acabaram se tornando responsáveis por uma mexida na cena brasileira, fazendo que, de uma hora outra, parecesse plausível e possível fazer música calcada em voz e violão – Mallu Magalhães e sua “Vanguart” que o digam.

Entretanto, no lugar de partir direto para o esperado segundo disco, a banda preferiu registrar suas canções em um álbum ao vivo e passou os últimos tempos tocando um projeto paralelo baseado emcanções dos Beatles, o VangBeats. Nesse meio tempo, o vocalista Hélio Flanders concedeu entrevistas polêmicas (ao próprio Scream & Yell), falando que tinha “dez ‘Semáforos’ guardadas em casa” e que buscava um caminho mais experimental para o trabalho de sua banda. A sensação que muitos tinham, durante esses anos todos, era de que o grupo de Cuiabá teria perdido seu rumo. “Boa Parte de Mim Vai Embora”, o segundo disco de estúdio do Vanguart, acaba não tomando nenhuma das duas direções: não desaponta os fãs da banda, mas também passa longe do experimentalismo apregoado por Hélio.

A primeira coisa que deve ficar clara para o ouvinte é que há aqui uma visão de mundo diferente. Muitos dos melhores momentos da estreia traziam personagens que ainda tentavam encontrar seu lugar no mundo – incluindo aqui as relações com amigos (“Para Abrir os Olhos”), bebida (“Cachaça”), relacionamentos (“Enquanto Isso na Lanchonete”) e mulheres misteriosas (“The Last Time I Saw You”). “Boa Parte de Mim Vai Embora”, por sua vez, é amargo, sem a inocência passada, falando muitas vezes sobre decepções, desilusões e despedidas sem o menor pudor – até mesmo as declarações de amor que existem no disco têm seu lado distorcido e sujo.

A jovem-guardiana “Mi Vida Eres Tu” abre o álbum, funcionando como um retrato do jovem de outrora, ainda perdido em relação ao passado (“Canto a mesma canção / Vivo uma velha ilusão / ando pelas ruas esperando / que apareça alguma louca / ainda mais louca que eu”). Com um refrão em espanhol, a música é a única do disco a passear por outros idiomas – uma diferença salutar para “Vanguart”, que também incluía faixas em inglês. “Mi Vida Eres Tu” ganha força quando abre espaço para um arranjo beirando o brega, com o teclado de Luiz Lazzaroto feito órgão de churrascaria à la Lafayette fazendo a cama por trás.

É só o ponto de partida. O que se ouve na sequencia é um apanhado de canções tristes, das quais merecem destaque “Se Tiver Que Ser Na Bala Vai”, com suas imagens fortes e seu amor incondicional e violento, e “Nessa Cidade”, com seu arranjo peculiar ao mesclar o violino da nova integrante Fernanda Kostchak com o piano que conduz e a bateria apocalíptica de Douglas Godoy no final da canção. Entretanto, apesar de interessante, o clima pesado pode cansar o ouvinte. Uma das razões para isso é a voz de Hélio Flanders: apesar de personalíssima e especial, ela se torna repetitiva quando insiste no tom depressivo à la Thom Yorke no decorrer da primeira metade do novo disco.

E é em grande parte por causa dessa atmosfera tensa que o álbum atinge seus melhores momentos quando a banda encontra ares mais alegres, seja na matrimonial “Eu Vou Lá”, ou nas duas canções que o baixista Reginaldo Lincoln exibe seus dotes ao microfone. Reginaldo é um cantor de voz comum, mas que traz um colorido especial a “Boa Parte de Mim Vai Embora”, na pop ao melhor estilo Clube da Esquina “Onde Você Parou” e também no dueto com Hélio na country “…Das Lágrimas”.

Ao longo das treze faixas não é possível sentir a guinada musical prometida por Flanders: a maioria das canções ainda é calcada em uma base de violão, fazendo o ritmo, e com os outros instrumentos – a guitarra de David Dafré e o teclado de Lazzaroto – completando os arranjos, no melhor padrão Vanguart de composição, se é que isso existe. Às vezes, se opta por um andamento galopante, como acontece no primeiro single “Depressa”, enquanto em outros momentos há uma dinâmica mais cadenciada, como em “Amigo”. Entretanto, nem tudo é igual como antes: o violino de Fernanda Kostchak reforça – em quatro canções – o clima pungente e dolorido que permeia o repertório de “Boa Parte de Mim Vai Embora” – as já citadas “Nessa Cidade”, “Amigo” e “…Das Lágrimas” e também “O Que A Gente Podia Ser”, outra com sabor mineiro à moda do clube de Milton & Lô.

Ao final de sua audição, “Boa Parte de Mim Vai Embora” deixa uma sensação estranha: apesar de ser um bonito disco, com pelo menos quatro ou cinco grandes canções, fica faltando alguma coisa. O Vanguart não perdeu o trem da história, como muitos pensavam ou temiam, mas teve de ficar de pé no vagão porque muita gente boa encontrou melhores lugares para se sentar. Acabaram presos em um lugar incômodo, entre o indie e o mainstream, perdendo talvez uma chance de ouro de tornar ainda mais real a profecia feita aqui nesse site, há exatos cinco anos: “E no meio desse caos todo, o Vanguart pode ser a banda a fazer a ponte do independente com o mainstream, mostrando que além deles existem um punhado de bandas bacanas escondidas nesse imenso Brasil. Dentro desse panorama, ‘Semáforo’ tem jeito sim de clássico da nova geração. Uma canção forte, emblemática, inspirada. 2006 pode ser o ano do novo rock nacional”. 2006 ficou para trás e, embora a sensação de caos continue presente, o Vanguart não parece mais o primeiro nome da fila. Talvez nem quisessem. Talvez.

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– Bruno Capelas é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop

Leia também:
– Vanguart ao vivo em São José do Rio Preto, 2010, por Eduardo Martinez (aqui)
– Vanguart ao vivo no Itaú Cultural, São Paulo, 2008, por Tiago Agostini (aqui)
– “Multishow Ao Vivo”, Vanguart, por Marcelo Costa (aqui)
– “Vanguart”, o disco, é um trabalho classudo e atemporal, por Marcelo Costa (aqui)
– Prêmio Scream & Yell 2007: Disco do Ano, “Vanguart”, Vanguart (aqui)
– Prêmio Scream & Yell 2006: Música do ano, “Semáforo”, Vanguart (aqui)

21 thoughts on “Boa Parte de Mim Vai Embora, Vanguart

  1. Não consigo parar de ouvir as duas primeiras músicas do disco: “Mi Vida Eres Tu” e “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai”…

  2. Véio, uma das bandas mais insurpotáveis desde de sempre… Aliás, combina com a Mallu. O duro é ouvir esse popzinho água com açucar, folkzinho de meia tigela pra indie, rockinho sem graça, e ter que ler nas entrevistas (aliás, na entrevista, pois a única que li foi a daqui do screamyell) o moço aí pagando de artista torturado, procurando um novo som, altos experimentalismo KKKKKKKKK. Piada… só pode ser. Semáforo hino de geração? Putz, ainda bem que nasci tempos atrás.

  3. Respeito o trampo dos caras, mas o som fica bem aquém ao discurso do Hélio. Ouço-o falando sobre as músicas, influências, etc, e, quando escuto as músicas não encontro muito do que ele diz.

  4. À Vanguart: cuidado para que o próximo álbum não se chame “Boa Parte do Público Vai Embora”.

    Não poderia deixar de fazer esse chiste! Perder o amigo, mas não a piada, isso é comigo. Com um detalhe: não se tratam de amigos meus, aí fica mais fácil fazer pirraça.

    Falando sério, depois do texto acima, só me resta ouvir o novo disco. Quem sabe eu não me retrate depois dessa graça?

  5. Acho que o Hélio confia na música que faz, talvez um pouco demais. Eu gostei do disco, achei muito bonito. Os papos de experimentalismo dele são um pouco exagerados, acho que era só muito medo de fazer um disco ruim. O disco é bonito, música honesta, e pessoalmente gosto do jeito Thom Yorke de cantar. Parece que o Vanguart tem medo de soar demais com uma de suas influências e quer criar um som próprio, como se fosse vergonhoso demais não conseguir isso.

    Enfim, independente das viagens do Hélio, é um grande disco.

  6. acho o vanguart muito fraquinho.muito discurso e pouco talento de verdade.O probelma é q o pop rock brasileiro é uma merda tão grande que qq disquinho é comemorado.Pelo menos tem o Violins pra salvar a gente.

  7. Pelo menos no entanto o Helio não soa mais bob dylan nem o Vanguart é ele somente,já que o Reginaldo Lincoln é um compositor de mão cheia,gostei da presença dele,canta muito.Eu gostei do disco,não o achei arrastado,muito pelo contrário.Ele é pesado de triste isso sim,e também meio que duvidaria que durante esse tempo que ficaram sem lançar disco com um monte de duvidas que fariam um disco alegrissimo.A banda não faz muito esse tipo.Agora que eles estão em gravadora grande acredito que pode dar um bom empurrão na carreira,talvez até nem seja a tal ponte entre o mainstream e o pop,e também não vou achar ruim se a banda estiver em programas de auditório,por exemplo,ao contrário dos chatos por ai.O disco é muito bom,isso que importa.Poderia ter saido uma bela porcaria,mas me surpreendeu.

  8. Esses vocalistas de bandas semi-desconhecidas que se acham a salvação da Arte…
    CHATOS!!
    Odeio pseudo-intelectuais…

  9. Tom Yorke? Ele me lembra cantando é o Jorge Ben, com o “voxê” rs

    Concordo com a opinião do autor. Mas dou um desconto ao Helio pois ele devia estar brisado na entrevista. Perfeitamente normal visualizar experimentalismos, horizontes e coisas além do alcance. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

    Apesar da atmosfera tensa das letras, as melodias deram um bom salto de evolução. É elegante. Gostei muito da melodia e o “crescendo” de Depressa. Vejo um time mais encorpado, sinal de que tocar Beatles faz bem pra qualquer banda. Acho que alguns timbres ainda podem ser melhorados, mas estão no caminho certo.

    Como segundo disco (de estúdio), não compromete. Apenas mantém. Que venha o terceiro.

  10. Independente do vocalista ser chato ou não o primeiro é um bom disco, não tem como negar. Já esse segundo é bem fraco, não mudou muito a sonoridade e as composições são mediocres.

  11. O Flandres é muito prepotente. Ele deu umas declarações assim em BH também, quando cobrado por um novo disco. Na minha humilde opinião, perderam o bonde da história sim!

  12. Acho ele um cara engraçado, falando sobre suas letras e Walt Whitman. Pena q ele não saiba o quão engraçado é…

  13. “Cinco anos passam rápido…” Não acho que passou rápido não, hshuahsuahush. Foi uma espera LONGA, LONGA, LONGA. Já tava até achando que não ia sair mais álbum. Mas pelo que eu já ouvi, parece que valeu a pena… 🙂

  14. Ah, eu quero omitir uma opinião sobre o primeiro disco. Tendo conhecido a banda antes do lançamento dele, eu posso dizer que ele me decepcionou um pouco. O Vanguart tinha repertório pra lançar um disco só com faixas muito boas. Botasse Into the Ice, Rainy Day Song, My Last Days of Romance, e tirasse Christmas Crack, Dream About Your Love, e umas outras… Ia ficar bem melhor.

  15. Eis uma puta banda nesse país. 5 anos passaram muito devagar, e a espera foi longa.

    Hélio não é pretencioso de forma alguma, muito boa e nescessária sua forma em que pensa a música e a arte. O problema é que os comentaristas de blogs e sites sempre esperam um bom mocismo dos artistas que estão “começando”, como se estes tivessem que falar menos, expor opiniões que não expressam nada, e fazer uma música que seja incrivelmente impressionante. De músicos lá fora se espera muito, muito menos, só tem que fazer um disco bacana, enquanto aqui tem que se fazer o disco.

  16. poxa, é triste ver tanta mensagem raivosa, rancorosa e mal educada aqui. Tomara mesmo que o Helinho não leia tais palavras, pois ele é uma pessoa muito especial, muito doce, muito talentoso, além de um grande poeta, compositor e músico. O CD novo é sensacional como os outros. A trajetória da banda é emocionante e cheia de muito trabalho, evolução, humildade e carisma. Pra mim é uma das melhores bandas do cenário musical brasileiro atual. Me desculpem as opiniões desrespeitosas acima, respeito o direito de vcs a terem, mas sinceramente, vcs não devem ter a sensibilidade apurada para sentirem a música dos caras. Parabéns Vanguart!!! Parabéns Helio, Reginaldo, David, Douglas, Luiz e Fernanda. Vcs são raros nesse mundo de lixo cultural e violência verbal!

  17. O Hélio não é pretensioso, nem é pseudo intelectual… O cara é um iluminado, é demais, é um poeta, é um gênio!!! Ele é super humilde, mas é reservado, não confundam as coisas. E não é brisado não, é super bem humorado e doce. Párem. Como vcs podem julgar uma pessoa assim por uma entrevista??? nem conhecem o Helio pra falar… Parecem um bando de vikings rancorosos, vcs sim perderam o bonde da história. Como pessoas podem dizer que o Hélio não é humilde e a mesma pessoa pensar que é a dona da verdade!!!!! Comentaristas que sabem de tudo, que sabem de arte vcs??? Porque não são vcs que estão dando a entrevista então em vez do Hélio. Ele não está aqui a toa… E que lance é esse de banda psudo-famosa? Rídículo! Como disse Nelson Robrigues “a unanimodade é burra”… Melhor eles continuarem a sim do que serem super famosos como Michel Teló… Vão escutar os famosos então.
    Vanguart, vcs são mesmo uma parte da salvação da música nacional!!!
    Hélio Flanders, vc é TUDO!!!
    (Tem gente metendo o pau e nem o nome do Helinho sabe… Escreve FLANDRES, vixi!!!)

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