Amor sem Escalas, Jason Reitman

por Marcel Plasse

“Amor sem Escalas” é cinema de primeira classe. Leva o público a uma viagem por personagens complexos, crises e maus tempos, mostrando um controle técnico impecável durante toda a duração do vôo, até pousar delicadamente no fundo do poço.

Escrito e dirigido por Jason Reitman, o filho do diretor de “Ghostbusters”, que já provou seu talento para encontrar a graça em situações desconfortáveis nos filmes “Obrigado por Fumar” e “Juno”, não é, como a equivocada “tradução” de seu título (“Up in the Air”) induz, uma comédia romântica. Seu tema é tão hilário quanto supõe outras traduções históricas, como “A Primeira Noite de um Homem” (“The Graduate”, 1967) e “Cada um Vive como Quer” (“Five Easy Pieces”, 1970).

De fato, “Amor sem Escalas” segue o espírito desencantado do cinema do final dos anos 60, explorando crises existenciais e a angústia. A crise está presente desde o pano de fundo, estendido com humor negro: a economia em frangalhos alimenta uma indústria perversa, que lucra com as demissões em massa. George Clooney vive Ryan Bingham, um profissional em eterna conexão aérea, que atravessa os EUA apenas para dar más notícias. Sua empresa oferece serviços terceirizados, enviando especialistas em “aconselhamento de transição de carreiras” para lidar com os funcionários de firmas sem coragem para o serviço sujo.

Bingham ama seu estilo de vida, a ponto de dar palestras encorajando-o. Não tem amigos, amores ou perecíveis na geladeira. Seu apartamento espartano é praticamente uma sala de espera. Sua verdadeira casa são quartos de hotéis luxuosos, seu carro muda de placa a cada locação disponível, seu cotidiano é a rotina tediosa dos aeroportos e os vôos intermináveis o fazem acumular milhas, que ele não troca por nada, com o objetivo único de acumulá-las. Tudo isso o torna um cliente preferencial, cheio de cartões de fidelidade, que ele preza como se fossem carteiras de identidade.

Este status, porém, será posto em cheque por três mulheres. A primeira, interpretada por Vera Farmiga, ele conhece entre conexões, uma desconhecida com cartão de visitas e muita milhagem, que compartilha o mesmo estilo de vida. Uma alma gêmea que não busca compromisso, onde, paradoxalmente, ele enxergará estabilidade.

Comparando relacionamentos a bagagens pesadas, que prejudicam a mobilidade, Bingham sempre acreditou que estabilizar é afundar e morrer como os tubarões, que jamais podem parar de nadar. E é exatamente este receio que a chegada da segunda mulher da trama lhe forçará a encarar.

Anna Kendrick, uma das vampirinhas da “Saga Crepúsculo”, aparece em cena como a nova estrela da companhia de Bingham. Jovem e cheia de idéias, ela convenceu o chefe (Jason Bateman) que as viagens dos profissionais em demissão eram um desperdício de dinheiro. Elas poderiam ser substituídas, com grandes vantagens econômicas, por demissões via webcam de computador.

No mundo frio dos negócios, um trabalho que já era cruel por natureza logo se tornará ainda pior. Mas Bingham se rebela. Para impedir o fim de seu estilo de vida, tentará demonstrar os perigos que a demissão literalmente desumana pode causar. E agarra sua chance, ao ser encarregado de levar a menina em uma última viagem para que ela supervisione seu desempenho e aprenda a arte de demitir.

É nas cenas entre os dois que Clooney estabelece a humanidade de seu personagem, abrindo as portas para um mundo até então privado. O homem que procura se distanciar dos outros é também o mesmo capaz de encontrar palavras de conforto para dar ânimo a um demitido ou consolar uma garota que se percebe no lugar errado, fazendo um trabalho que jamais desejaria a um inimigo.

A viagem a dois leva a um novo Bingham, que se descobre formando laços afetivos. A próxima parada conduz a uma inevitável busca por relacionamentos mais fortes e duradouros. Um encontro com a família. O ato seguinte é o casamento da irmã do protagonista (Melanie Lynskey, da série “Two and Half Men”), que inspira uma nova reflexão. Acompanhado pela estranha do aeroporto (Vera Farmiga), Bingham surge sem expectativas, o filho pródigo que deu as costas à família, mas reencontra valores da infância e sai com uma perspectiva completamente mudada.

O amadurecimento do personagem é notável – e prova do talento de Clooney. Mas Reitman não escreveu uma fábula moralista. As reviravoltas que o final guarda não conduzem ao “felizes para sempre”.

A trama viaja por vários estados para terminar de volta a seu ponto de partida, mas a falsa sensação de inércia conduz a uma perspectiva distante da inicial. Bingham não era, afinal, o homem que o público pensava no começo do filme. Nem que ele pensava. Sua angústia é visível, ao ler os letreiros dos próximos vôos, observando sua própria vida.

Não há romance em “Amor sem Escalas” nem sequer uma visão romântica sobre o isolamento e a alienação. O que há de mais ressonante na obra são as muitas faces dos figurantes, algumas famosas (como Zach Galifianakis, de “Se Beber, Não Case”, e JK Simmons, de “Queime Depois de Ler”), outras desconhecidas, que aparecem em cena apenas para serem mandadas embora, expressando o choque, o atordoamento de quem, de uma hora para outra, percebe que seus planos não tinham mais sentido.

É o olhar de Dustin Hoffman no final de “A Primeira Noite de um Homem”. É o cinismo de Jack Nicholson diante do futuro em “Cada um Vive como Quer”. É cinema para adolescentes entenderem errado e adultos fingirem não ter entendido.

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Marcel Plasse é jornalista, criador da revista Set e editor do site Pipoca Moderna

6 thoughts on “Amor sem Escalas, Jason Reitman

  1. Realmente parece que o cinema moderno tem criado seus novos clássicos e, paradoxalmente, através de um esquecimento de tudo o que já foi feito. Mesmo com comparações de outros filmes na resenha, sinceramente, eu achei Amor Sem Escalas um grande fiasco: falta narrativa no roteiro, os personagens são extremamente mal explorados, etc. No máximo, é uma caricatura de mau gosto dos filmes citados acima.

  2. Espetacular! Esse filme é muito bom. Desde Pequena Miss Sunshine não gostava tanto de um filme (vale lembrar que Juno estava nesse meio tempo). Há sacadas excepcionais nos diálogos.
    A cena de abertura também é ótima. Ah, e tem a referência explicita a Amelie Poulan bem bacana, haha

    Muito bom!

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