Katyn, de Andrzej Wajda

Por Marcelo Costa

1939. O caos invade a Polônia. Em uma ponte, o retrato da derrocada de um país: um grupo imenso de pessoas vindas do oeste foge do exército nazista alemão. Do leste, outro grupo foge dos soviéticos. Uma mulher, acompanhada de sua pequena filha, procura o marido, tenente do exército polonês, e é avisada que ele está em um campo ali perto com outros militares, aguardando a decisão dos soviéticos sobre o que fazer com os prisioneiros de guerra.

A mulher parte ao encontro do marido, e tenta em vão fazê-lo deixar o exército. Ele diz: “Eu fiz uma promessa para o meu país”. Ela não se conforma: “Você também fez uma promessa para mim… perante Deus”. O homem permanece impassível. Um amigo a afasta e em questão de minutos todos os militares poloneses são embarcados em trens para um destino desconhecido. Anna, a mulher, permanece recebendo cartas dele alguns meses, até que elas cessam. Com o fim da guerra em 1945, a vida volta ao normal. Normal?

O cineasta Andrzej Wajda, o maior nome da história do cinema polonês, não dá um minuto de esperança em “Katyn”, longa que representou a Polônia na categoria melhor filme estrangeiro, em 2008. Se uma pessoa sorri aqui, ela terá um destino trágico na próxima esquina. “Katyn” não é apenas um filme que retrata um período de guerra, mas sim uma ferida aberta no peito do povo polonês. O pai do cineasta era um dos militares poloneses aprisionados pelos soviéticos. Aos 83 anos, Wajda fez uma dolorosa sonata que bate forte, muito forte, no âmago do espectador.

As invasões nazistas e soviéticas deixaram o país destroçado. O pacto de não agressão entre Adolf Hitler e Josef Stalin fez a Polônia, um país entrincheirado entre a Rússia e a Alemanha, cair aos pés dos dois exércitos mais violentos da Segunda Guerra Mundial. Assim, mais de 20 mil militares poloneses (da ativa e da reserva) foram assinados pelos soviéticos numa tentativa de Stalin de dificultar ao máximo que a Polônia se reerguesse. Hitler tinha outra frente: já havia exterminado os intelectuais poloneses.

Andrzej Wajda pega a história em 1939 e a leva até o fim da guerra. A mulher do oficial, Anna, sugere ser a personagem principal da trama, mas na verdade não há personagens principais em “Katyn”. O cineasta preenche a tela com pequenas tramas secundárias que casualmente se interligam tentando mostrar como era a vida no país naquele período, procurando dar imagens à desesperança que tomou a nação, forçada a se calar por décadas.

Com o fim da guerra, a Polônia foi anexada ao bloco comunista e começa assim uma das prováveis maiores mentiras de guerra da História. Cerca de 12 mil militares poloneses foram levados pelos russos, e são raros os que voltaram da Floresta de Katyn, em Smolensk, na Rússia, local em que foram encontrados os corpos da grande maioria dos prisioneiros de guerra poloneses, todos eles mortos da mesma forma: um tiro na nuca cuja bala atravessava o cérebro e saia pela testa, num ritual cruel e macabro.

Assim que a guerra terminou, soviéticos culparam os alemães pelo crime. Mais: todos os poloneses foram obrigados a aceitar que o crime foi cometido pelos nazistas, e quem ousou levantar a voz ao domínio soviético acabou, por fim, tendo o mesmo destino daqueles que foram enterrados na vala comum em Katyn. Durante o período de cordialidade ocidental-soviética do pós-guerra, a versão russa foi aceita como autêntica, mas em 1951, um inquérito no Congresso norte-americano pós fim à fraude.

Para a Polônia, o Massacre de Katyn foi uma catástrofe nacional. Cerca de um terço da oficialidade do Exército Polonês de antes da guerra, tanto da ativa como da reserva, desapareceu naquela floresta. “Katyn”, o filme, é exemplar ao passar a dor e a falta de esperança do povo polonês. É extremamente perturbador, violento e necessário. Uma dolorosa missa solene que faz a alma sangrar. Uma porrada tão forte e tão violenta que é difícil respirar.

“Katyn”, de Andrzej Wajda – Cotação 4,5/5

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