Nevermind é, ainda hoje, um disco sensacional

por Marcelo Costa

A minha primeira vez foi assim: em março de 1991 eu havia deixado o quartel, após 400 dias de serviço militar obrigatório (um ano, um mês e quatro dias). No segundo semestre de 91 eu já estava no mercado de trabalho, batalhando no novíssimo Taubaté Shopping Center. Era um trabalho sossegado e bem remunerado cujo expediente ditava que eu deveria ficar andando pelos corredores do shopping visando coordenar uma equipe de auditores de lojas. Aconteceu numa destas caminhadas. Um amigo – que trabalhava em uma loja de discos – identificou o riff seco e a bateria galopante pelas caixinhas de som ambiente do shopping, e disse: “Essa é a banda nova que eu tinha comentado com você: Nirvana”. Após alguns segundos de tentativa de entender o que saia pelos minúsculos e quase inaudíveis alto-falantes, minha deixa foi a seguinte: “Putz, mais uma banda saqueando o túmulo punk”. Amigos (as), essa foi a primeira vez que ouvi “Smells Like a Teen Spirit”.

O episódio acima explica muito da minha personalidade na época (e que ainda mantenho um pouco hoje), um cara que detestava Queen (e hoje não detesta mais), bandas farofa e todos aqueles que saqueavam o passado em busca de alguns trocados. No entanto, o Nirvana era diferente, mas não tinha como descobrir isso com alguns segundos de “Smells Like a Teen Spirit” na rádio Metropolitana, certo? Naquela época não havia Internet em larga escala como existe hoje, os lançamentos ainda eram priorizados em vinil com uma pequena tiragem em CD e só quem tinha boa memória poderia lembrar das resenhas curtas e bem sacadas de “Bleach” e “Nevermind” na seção Zona Franca, da revista Bizz, uma página após os lançamentos que tentava destacar material importado que raramente chegava às prateleiras brasileiras.

Apesar de “Bleach” ser de 1989, o Nirvana era uma tremenda novidade em 1991. Todo mundo aguardava o disco novo do Faith No More, que após o sensacional “The Real Thing”, saiu em turnê, entrou em colapso, lançou um disco ao vivo no Brixton Academy e deu um tempo da mídia. Na virada da década todo mundo apitava: o Faith No More é o som dos anos 90. Mas Mike Patton perdeu o bonde, ou melhor, foi atropelado por “Nevermind” (e, zuzu bem, por “Blood Sugar Sex Magik”, do Red Hot Chili Peppers, que foi lançado no mesmo dia de “Nevermind”, e tinha um saborzinho Faith No More no som).

“Nevermind” foi lançado no dia 24 de setembro de 1991, ou seja, quinze anos atrás. Não parece tanto tempo, sabe. Ainda me lembro de André Barcinski retratando o fenômeno em seu livro Barulho, que teve trechos publicados em três edições da revista Bizz na época. “Cheguei nos Estados Unidos no dia 24 de setembro, dia do lançamento de Nevermind. O LP começou a vender como água. A cada dia que passava, o Nirvana ficava 35 mil discos mais famoso. Um mês depois (…) eles tinham se tornado pop stars, prestes a tirar Michael Jackson do topo da parada da Billboard”. Em sua resenha na Bizz, André Forastieri respondia a questão se valia a pena investir uma grana no álbum. “Vale, vale, vale. Compre três, dê um para o seu amor e outro para o seu melhor amigo”.

Tudo que aconteceu após “Nevermind” estourar virou patrimônio público. Kurt Cobain pirou com a fama, manchou um dos tetos de sua casa com seus miolos e o rock perdeu um de seus últimos mártires. Livros dissecaram a história da banda. Filmes contaram a trajetória do trio. Na esteira, Eddie Vedder jogou o Pearl Jam de lado visando desviar a banda do trono de herdeiros do grunge, e a coroa de capital da música pop saiu de Seattle para voltar a Londres, com Blur e Oasis se estapeando no topo das paradas e no caderno de fofocas das revistas de música. Dave Grohl trocou as baquetas pelas palhetas e formou o Foo Fighters. O trem da música seguiu seu rumo, mas quem pensa que “Nevermind” ficou para trás está muito enganado. “Nevermind” é, ainda hoje, um disco atual e sensacional.

Do riff seco do hino “Smells Like a Teen Spirit” (que mesmo tendo tocado muito ainda arrepia), passando pela bronca pop guitarreira de “In Bloom” (cuja letra escancarava: “Ele é o cara que canta todas as nossas músicas / E ele gosta de cantar junto / Mas ele não sabe o que significa”), da mentirosa “Come As You Are” (sim, ele tinha uma arma), da sensacional “Breed”, da tensa e densa “Lithium”, da pervertida “Polly”, da demolidora “Territorial Pissings”, da romântica (e preferida pessoal) “Drain You”, até chegar ao trio final de patadas formado por “Lounge Act”, “Stay Away” e “On a Plain” (outra das preferidas da casa). Para baixar os panos, uma canção quase sussurada (e bastante lírica): “Something In The Way”. Na virada dos 90 para o 00 questionei amigos zineiros, jornalistas famosos e alguns músicos sobre qual seria o melhor disco da década de 90. A resposta foi quase unânime, com “Nevermind” vencendo a votação com 163 pontos (“Ok Computer”, do Radiohead, ficou em segundo, com 105,5).

Ok, então você vira e me pergunta: “Mas Mac, você está querendo dizer o que com tudo isso? Que ‘Nevermind’ é um disco sensacional? Pô, eu já sabia”. Perae, perae, perae: sabia mesmo? Comecei a matutar a idéia de escrever sobre o Nirvana uns dois meses atrás, quando uma amiga – após conferir via Last.FM o que eu andava ouvindo no meu computador – comentou com ironia: “Puxa, eu não sabia que você gostava de Nirvana. Foi mal aê”. Até então, eu achava que Nirvana era quase uma unanimidade na história da música pop. Que desde os velhinhos (como eu) que odiaram o show deles no Hollywood Rock, mas receberam como uma tijolada o anúncio da morte de Kurt, passando pela molecada que veste camisetas do Nirvana (…e gosta de cantar junto / mas não sabe o que significa…), por personagens de livros de Nick Hornby e por todo mundo que adora rock sujo, tosco e barulhento, eu achava que todos entendiam, gostavam e valorizavam a importância do Nirvana. Não é bem assim, e essa coluna se fez necessária. “Nevermind”, 15 anos. Parece que foi ontem…

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Promoção
Fábio Shiraga e Affonso Uchoa são os donos dos kits sorteados na semana passada. Ou seja, eles vão receber em casa o clipe independente de 2006 segundo o VMB, “Doce Ilusão”, do Banzé, em uma versão single que ainda traz a faixa “Eu Sou Melhor Que Você” com participação especial do Nasi. O Affonso ainda fica com o EP “Before Vallegrand” do Vanguart e o Fábio ganha um exemplar da Rock Life número 8.

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Ps1: O especial Melhores Discos dos Anos 90 contou com votos dos músicos Wander Wildner e Fernanda Takai (Pato Fu), dos jornalistas Lúcio Ribeiro, José Flávio Júnior, Thales de Menezes, Marcelo Orozco e Carlos Eduardo Lima, do escritor André Takeda, do produtor Carlos Eduardo Miranda e muitos outros amigos. Se o Nirvana ganhou em disco internacional, qual o melhor disco nacional da década de 90? Confere tudo aqui.

Ps2: Ecoa por estes lados “Objeto Direto”, primeiro disco do Trissônicos. Formado em Goiânia, o trio não inventa: faz rock simples, pesado e… poético. Lançado pela Monstro Discos, o álbum traz uma belíssimo trabalho gráfico, e vale a visita no site oficial, cujo convite não deve ser recusado: “Por que não divulgar o que é nosso? Baixe ‘Objeto Direto’ completo”.

Ps3: “As Flechas”, faixa título do single dos sergipanos da Rockassetes, grudou por aqui. Lançado selo virtual Senhor F, a música peca apenas por ultrapassar um tiquinho o limite de tempo do bom pop. Mesmo assim, é uma bela amostra do som do trio, que faz um rock retrô que transpira inocência (a faixa título) e inconformismo juvenil (na divertida “Sogra Boa é Aquela Com a Boca de Aranha”).

Ps4: “The Information”, novo do Beck, surpreendeu. Discaço. Não traz nada de novo, muito pelo contrário, algumas músicas até me lembraram melodias antigas. Mas gostei, viu.

Ps5: Mexendo nas minhas coisas percebi que tenho dois vinis “Nevermind”. Alguém quer um? É uma das capas mais bonitas do rock.

Ps6: “Marcelo Costa é uma lenda entre blogueiros e zineiros. Editor do site Scream & Yell, um dos fenômenos da história dos zines no Brasil, ele concedeu uma divertida entrevista a Revista Bula. Com respostas telegráficas e certeiras, falou sobre música, cinema e internet com uma auto-estima que parece ser inquebrantável”. :o) Leia a entrevista.

Palinha
Bula: Pagode pode ser considerado uma distribuição de renda, como o futebol?
Mac: Claro, assim como o senado e a câmara federal

Bula: Artesanato é arte?
Mac: Qualquer coisa hoje em dia é arte, menos Woody Allen.

Bula: Funk Quebra Barraco é música?
Mac: Nem funk quebra barraco nem rolê de bonde. São a mesma coisa: nada. Mas o mundo precisa do nada para ocupar o tempo na falta de algo melhor.

Ps7:Hoje em dia eu gosto de Queen. E acho os discos do Foo Fighters fraquinhos…

25 thoughts on “Nevermind é, ainda hoje, um disco sensacional

  1. Me lembro mais ou menos assim, eu estava em casa escutando uma fita nova que minha irma gravara, de um lado o maravilhoso “New York” do Lou Reed do outro “esse tal de Nirvana” quando perguntei para minha irmã, sem gostar muito do som…depois “Nevermind” virou básico e vez ao outra ainda volta ao cd player…

    Quanto aos nacionais, de uma escutada no Superguidis, banda gaucha muito legal, o novo e excelente album do Cascadura e o album do Telesonic…

    Abraços :))

  2. O CD do Zefirina é ótimo. Tem também o do Romulo Fróes, que é muito bom. Arriscaria também incluir o solo do Nasi entre os legais de 2006.

  3. Confesso que também não curti Smells Like na primeira vez que ouvi. Minhas sobrancelhas franziram, e esse era o primeiro sinal de que o Nirvana mudaria minha vida. Resultado: coleção de camisetas, CDs, CDs piratas (que na época custavam uma fortuna) e muita tristeza no dia do fim…

  4. Não sabia que o magnífico Blood Sugar Sex Magic tinha sido lançado no mesmo dia do Nevermind.
    Na minha modesta opinião o disco dos Chili Peppers é o melhor da década de 90 e anos luz melhor que o do Nirvana..
    O Nirvana e particulamente esse disco são muito superestimados.
    Acho que tô ficando velho(33 aninhos) não gosto mais de grito, gosto mais de balanço, de ritmo. Enfim, de música.

  5. poh saqueam o tumulo do punk a todo segundo, o pobre nem direito de desacansar, mas quem no mundo pop tem direito??

    e poh nao sou louco de nao querer uma copia em vinil do nervmind…

  6. insisto em que você ouça o Monodia. Ah, e tem o disco do Igor Ribeiro (ex-OAEOZ/Íris) – o Insomnica – que o Leo Vinhas já resenhou para o Scream Yell. E vou te mandar o do Folhetim Urbano, que a De Inverno tá divulgando. abs.

  7. Ô, marcelo, o fato da figura ironizar o nirvana, acaba sendo, de uma forma ou de outra, o reflexo do que te escrevi sobre a crítica paulista. há uma geração nova que é muito fútil musicalmente. idolatra hoje o que daqui a duas semanas vai detestar.
    lembro de uma ‘crítica’ da folha de são paulo sobre um disco do travis: se fosse três anos atrás seria sensacional…?? como assim??
    teve uma outra no folhateen da repórter se espantando da garotada gostar de pink floyd e black sabbath e querendo impor apenas o novo. e cara, pra quem tem 40 anos como eu, o rock é bem mais que corrida pela última novidade. novo é o que a gente não conhece. Os titãs foram exemplares naquela música da maior banda de todos os tempos da última semana.

  8. não sou louco de não reconhecer a importância do Nirvana e do Nevermind para tudo que veio depois, mas não dá… respeito por conta dessa importância, mas GOSTAR… DELES mesmo, não consigo… nunca consegui.

    exceto por Lithium! rs
    abs

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