Três CDs: QOTSA, The Vines e Sepultura

por Marcelo Costa

“Under a Pale Grey Sky” – Sepultura (Sum)
O Sepultura acabou na saída de Max, ok. O Sepulnation que surgiu após é outra coisa e é inferior, principalmente porque Derrick urra mais do que canta. E mais: Max Cavalera tinha o que dizer. A tragédia é que a química da banda eram os quatro juntos, o que também sepulta o Soulfly (com direito a trocadilho infame). Assim, “Under a Pale Grey Sky”, registro do último show da formação original do grupo, é obrigatório e impecável. Ao vivo no Brixton Academy em Londres, no fim de dezembro de 1996, a banda vasculha todo o repertório em 28 tijoladas, com todo o set list da apresentação preenchendo dois CDs, num repertório bastante parecido com a apresentação que o grupo realizou na tour Brasil no mesmo ano. De “Necromancer”, do primeiro álbum, “Bestial Devastation” (1985), passando por “Troops Of Doom” (“Schizophrenia”, de 1987) até clássicos com “Inner Self”, “Terrytory”, “Roots Bloody Roots” e “Arise”, os irmãos Cavalera, mais Paulo Jr e Andreas Kisser mostram ao vivo o entrosamento que os fez uma das bandas mais inovadoras do metal em todos os tempos (não a toa, “Roots Blood Roots” foi eleito na gringa, meses atrás, um dos 10 álbuns mais influentes da história do heavy metal). No setor covers temos Chico Science sendo lembrado com “Monólogo ao Pé do Ouvido”, a básica “Policia”, dos Titãs, “We Gotta Know”, do Cro-Mags, e “Orgasmatron” do Motorhead, fechando. Tem um q de caça-niqueis, mas vale a pena cada centavo.

Nota: 9

“Highly Evolved”, The Vines
Prepare a bebida. Junte três doses do melhor que o rock produziu na década de 90 (o grunge) com mais duas doses de britpop. O resultado: canções barulhentas com vocais gritados a lá Nirvana de um lado e rocks simples, quase tendendo a baladas, a lá Oasis do outro. Um vocalista que tem surtos psicóticos tanto quanto escreve letras para a sua amada, a maconha (“Mary Jane”). Uma das melhores estreias em muuuuiiiiito tempo, “Highly Evolved”, o álbum, é empolgante do inicio ao fim. Alternando porradas com baladas, o The Vines deixa bêbado e não induz a ressaca. “Highly Evolved”, a música, abre o álbum no esquema verso/chorus/verso e é matadora. Apenas 1m34s de rock dos bons e letra bacana: “If you feel low / You can buy love / From a payphone / I don’t feel low”. Na sequência, uma balada inspirada (“Autumn Shade”). Na porrada “Outtathaway!” o vocalista Craig Nichools diz não acreditar no tempo para logo na faixa seguinte (a bacana “Sunshinin”) dizer “the weather for me are the birds flyin”. Outra bela balada beatle (“Homesick”) e chegamos a canção mais Nirvana dos últimos sete anos: “Get Free”. Em “Factory”, Nirvana e Oasis se encontram e se alternam. Para o final, um épico de microfonia que bate os seis minutos de duração, “1969”. Um dos prováveis discos do ano.

Nota: 9

“Songs For The Deaf”, Queens On The Stone Age
Trilha sonora do inferno. É a primeira coisa que vem a cabeça após uma audição que castiga os ouvidos e purifica a alma de “Songs For The Deaf”, sucessor do também demolidor “Rated R”. O álbum é QOTSA em estado bruto. Do mesmo quilate que “Rated R”, este “Songs” abriga rocks cadenciados com levadas metal (“No One Knows”), punk songs ensurdecedoras de estourar caixas de som e tímpanos desavisados (“Six Shooter”), baterias de dois bumbos batendo no estômago, cortesia Dave Grohl (“First It Giveth”), vocais insanos de Mark Lanegan (“Song For The Dead” – “Hanging Tree”) e canções que colam no ouvido e não desgrudam de jeito nenhum (“Another Love Song” – “Go with the Flow”). Dave Grohl assume a bateria em todo o álbum, ritmando a porrada com breaks secos e uso constante de pratos. Mark Lanegan canta três sozinho e divide o vocal com Josh Homme em outras duas. Nas letras, análises sem demagogia de assuntos variados, seja o amor (“I never told you it would last forever” canta Pete Stahl na excelente “Another Love Song”, alternando um riff inspirado com teclados setentistas), seja a imagem de Deus propagando a publicidade (“I know that god is in the radio / Just repeating a slogan / You come back another day / And do no wrong”, canta Lanegan em “God In The Radio”), seja o fim do mundo (“Every dog has his day / I paid attention / Cost me so much to today” canta Josh em “Sky Is Falling”), seja a falsidade (“No more pictures, we ain’t friends / It’s raining in my room / There’s blood in my spoon” diz a letra de “I’m Gonna Leave”). Na situação atual do rock mundial, a procura do novo Nirvana (uma bandinha que agrade a MTv, aos punks, aos rockers e aos titios), “Songs For The Deaf” afasta com muito barulho a etiqueta do Queens On The Stone Age que, assim, sobrevive aos hypes da indústria lançando mais um disco matador.

Nota: 9,5

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