Crítica: “Supergirl”, entre o impressionante e o revoltante, é um sinal de alerta para a DC Comics

texto de Davi Caro

Falar de “Supergirl” (2026) não deveria ser tão complicado assim. Afinal, o novo longa do DC Studios, dirigido por Craig Gillespie, escrito por Ana Nogueira, e concebido como a segunda produção do tipo a pertencer ao universo cinematográfico da DC capitaneado por James Gunn, se mostrou, desde sua concepção, uma aposta segura – ao menos na teoria. A nova adaptação da super-heroína, o alterego da kryptoniana Kara-Zor-El, não é a primeira em que a prima do Superman foi transposta para a tela grande; claro, ninguém gosta de se lembrar que o fracasso do filme homônimo, de 1984 (e produzido na esteira da então recente versão de Richard Donner do Homem de Aço), sequer existiu.

Além de naturalmente prometer e almejar (e, verdade seja dita, alcançar) muito mais do que a versão anterior, o novo “Supergirl” se destaca por ser a primeira obra do tal DCU em se basear mais diretamente em uma narrativa pré-existente. Com Milly Alcock no papel principal, o filme adapta, com certa liberdade, a fantástica HQ “Supergirl: Mulher do Amanhã”, escrita por Tom King com um trabalho de arte inacreditável da brasileira Bilquis Evely. Esta última, aliás, recebe uma das mais notáveis homenagens no longa – ou, pelo menos, uma das mais evidentes. No entanto, a produção não tem medo de se aventurar para além da trama que mais a inspirou, tomando liberdades não só para com a caracterização dos personagens já esperados, como também das novas adições ao elenco, como veremos a frente.

Às vésperas de seu vigésimo-terceiro aniversário, Kara (Alcock) embarca em uma verdadeira turnê por bares em planetas banhados por sóis vermelhos, logo na sequência de sua breve aparição ao fim de “Superman” (2025). Isso porque, devido à sua biologia alienígena, seu corpo não consegue metabolizar álcool na Terra, iluminada por luz solar amarela. O que poderia ser apenas uma comemoração bêbada ao lado de seu fiel companheiro, o cachorro igualmente superpoderoso Krypto, acaba se tornando uma inesperada (e desesperada) aventura graças a duas aparições: a de Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley), uma jovem que busca vingança pelo assassinato de sua família, e a de Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts), um mercenário responsável pelo crime, e líder de um grupo de piratas espaciais chamados de Bandoleiros. Quando o caminho dos três se cruza, e Krypto é gravemente ferido pelo vilão, que escapa com a nave de Zor-El, a heroína se lança em uma corrida contra o tempo para encontrar Krem e salvar a vida de seu melhor amigo, ao mesmo tempo que é (relutantemente) acompanhada por Ruthye em uma saga interplanetária que também guarda algumas surpresas – como a do sanguinário caçador de recompensas czarniano Lobo (Jason Momoa), que pode vir a ser um aliado em sua obstinada missão…ou apenas mais um empecilho no caminho.

Empecilhos no caminho, aliás, são o que não falta para “Supergirl”. A começar pela dinâmica entre seus principais personagens. Milly Alcock é, disparado, o grande acerto aqui: Kara transborda cinismo e relutância em se deixar levar apenas pelos próprios traumas passados. O trabalho de atuação de Alcock não apenas se destaca com louvor da interpretação de David Corenswet como Superman (quem, previsivelmente, faz uma participação breve aqui), como também ganha novos tons e nuances nos dramáticos flashbacks distribuídos ao longo da produção. Nestas cenas, a medida que o espectador testemunha a tragédia que se aplacou sobre os sobreviventes do planeta Krypton (principalmente através da pontual atuação de David Krumholtz como Zor-El, pai da heroína), também se presencia o aprofundamento de uma protagonista que poderia passar por totalmente unidimensional em uma produção menos ambiciosa.

Infelizmente, o restante do elenco não tem a mesma sorte (ou privilégio) de Alcock. Eve Ridley acaba sendo o maior sacrifício aqui: toda a multidimensionalidade que Ruthye demonstra no quadrinho de King e Evely é substituída, na adaptação, por um nível quase infantilizado de imaturidade que, em momentos, parece ter sido pensado como uma espécie de alívio cômico que terminou por não alcançar seu potencial, e acabou perdendo um pouco seu propósito. O mesmo pode, aliás, ser dito do principal antagonista. Matthias Schoenaerts faz o que pode sob uma maquiagem ridícula e uma performance carregada de caricaturas – e ainda assim, o resultado de sua performance como Krem fica muito, muito aquém do esperado. Mas a cereja neste decepcionante bolo não poderia ser de outra pessoa: reescalado do papel de Aquaman que desempenhou no finado DCEU de Zack Snyder, Jason Momoa foi alçado ao papel que, segundo alguns, sempre deveria ter sido seu. No entanto, embora cercado desde o início de expectativas, seu Lobo é completamente desnecessário na trama, alternando entre sequências de ação promissoras e passagens cheias de piadotas caricatas. O mercenário imortal, que esperou por anos até ser propriamente representado no audiovisual, ainda está para encontrar uma transposição de sua desbocada natureza quadrinística.

Em relação a valores de produção, “Supergirl” fica entre o impressionante e o revoltante. De modo semelhante ao que ocorre com a boa trilha sonora de Claudia Sarne, algumas montagens são criativas e espertas, e ajudam a criar um sentimento de imersão e descobrimento dos confins mais cósmicos deste novo universo. Outros momentos, entretanto, não poderiam ser mais propensos a desconectar espectadores, principalmente graças a um trabalho de CGI que vai do bom ao assustador em pouquíssimo tempo. O roteiro ajuda quando possível, trazendo para a tela o que funciona de melhor do quadrinho no qual se baseia, e modificando o necessário para uma trama mais coerente. E ainda assim, o ato final de “Supergirl” derrapa terrivelmente. É quase como se, ao se encerrar, pouca ou nenhuma mudança pudesse ser realmente sentida em Kara, que acabou de atravessar um processo doloroso e desesperado, ou em Ruthye, que vê na heroína extraterrestre uma espécie de mestre – mas que não demonstra ter aprendido qualquer lição em particular.

Ao fim, “Supergirl” é justamente sobre lições: aquelas que ainda esperam por ser aprendidas, e aquelas que já deveriam ter sido aprendidas há muito tempo. Com sorte, não deve demorar muito para que a Supergirl retorne aos cinemas: a personagem de Milly Alcock deve retornar para “Homem do Amanhã”, sequência do filme do Superman programada para ser lançada em 2027. Embora não seja o último projeto do DC Studios a ser lançado este ano – uma série live-action do Lanterna Verde, “Lanternas”, e um filme de terror focado no vilão Cara de Barro chegam às telinhas e às telonas muito em breve – o filme de Craig Gillespie deverá ser lembrado, nos meses e anos que virão, como um sinal de alerta para a DC, para James Gunn, e para a crescente base de fãs que estes tentam, com esforço, (re)conquistar. Apenas o tempo há de dizer se “Supergirl” é apenas um tropeço (ou “flop”, como queira) em meio à tentativa de alçar vôos mais altos, ou uma queda retumbante rumo ao limbo no qual também habitou o predecessor de 1984: o do esquecimento.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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