18º In-Edit: “Canto da gente: um filme sobre Os Tápes” lança luz em grupo que expandiu as raízes da música nativista gaúcha

texto de Renan Guerra

A cultura gaúcha existe (e resiste) sob perspectivas complexas: ao mesmo tempo em que há um forte movimento de preservação das tradições, esse movimento acaba por reforçar apagamentos culturais das influências indígenas e afro-diaspóricas na região. Uma parcela da cultura gaúcha ainda remonta a sua formação colonial e reforça sempre os mesmos personagens. Por outro lado, surgem cada vez mais importantes resgates de reconstrução das memórias de personagens que ajudaram a criar outras possibilidades de imagético e sonoridade gaúcha. E é nesse cenário que se encaixa o filme “Canto da gente: um filme sobre Os Tápes”, estreia do cineasta e escritor Matheus Borges (de “Frankito em Chamas” e “Mil Placebos”).

O grupo Os Tápes foi fundado em 1971, na pequena cidade de Tapes, no Rio Grande do Sul. Em 1975, o grupo lançou o clássico “Canto da Gente”, pela gravadora Marcus Pereira. Funcionando como uma cooperativa, a banda construía suas canções a partir das vozes de grupos marginalizados: peões de estância, trabalhadores rurais, povos indígenas e populações negras. Em plena ditadura militar, essa proposta estética carregava também uma forte dimensão política. Durando de 1971 até 1986, Os Tápes tiveram um sem-número de integrantes que passaram pelas diferentes formações da banda – entre os personagens destacados no documentário, estão os integrantes Cláudio e Waldir Garcia, os irmãos Luiz Alberto e Rafael Koller, Acy Terres e Zezé Prestes.

Todas as entrevistas do filme vêm de um material de arquivo inédito para o público e em grande parte captado em 2006 pelos jornalistas Ana Júlia Tiellet, Ângelo Manjabosco e Maitê Mendonça para um trabalho do curso de jornalismo da Universidade de Ijuí. O projeto do filme surge em 2023, com a criação de um acervo digital da banda, em ostapesacervo.com.br, e com recursos da Lei Paulo Gustavo. “O filme é um documentário sobre o grupo, mas também o retrato de um lugar e de uma época. Também é um trabalho sobre a dificuldade de narrar essas histórias, sujeitas aos ciclos da cultura, de esquecimento e rememoração, algo que era central no trabalho dos Tápes, um grupo que se dedicou a recuperar diferentes formas artísticas em vias de apagamento. E agora, quarenta anos depois, eles é que são recuperados na forma deste documentário”, explica o diretor Matheus Borges

E a riqueza do filme está na forma como se traz luz para a história única d’Os Tápes: a maneira como os materiais de arquivo são amarrados e bem alinhavados envolvem mesmo um espectador que nunca tenha escutado os discos da banda. O instigante de “Canto da Gente” (tanto o disco quanto o documentário) é como esse grupo do interior do Rio Grande do Sul consegue tensionar os sons considerados nativistas da região e faz isso com uma musicalidade única. Mesclando referências musicais advindas das frequências das rádios uruguaias e argentinas, Os Tápes mesclavam isso com sons e bases indígenas e negras. A flauta de taquara e as percussões dialogam com o violão e os demais instrumentos, trazendo nuances novas ao que se entende como música gaúcha, e, por consequência, o que se entende como música “folclórica” brasileira.

Junto dessa narrativa de resgate das origens gaúchas, o coletivo cria imagéticos e estéticas únicas, em diálogo direto com a cultura indigena local, especialmente a guarani. E embrenhado nisso tudo ainda há uma tensão política latente que nasce do cenário de ditadura militar – e aqui destaca-se que n’Os Tápes se reuniam desde ex-presos políticos até militantes comunistas declarados. Com todas essas nuances dentro do interior do Rio Grande do Sul, em plenos anos 1970, é natural que o som d’Os Tápes pudesse repelir determinados públicos, mas também possibilitava que a banda estivesse bastante próxima de outras platéias, como do público universitário e do movimento estudantil.

Geograficamente às margens de toda uma cena cultural nacional da época, Os Tápes construíram uma narrativa única e que merece ser resgatada. Para além de sua potente base conceitual, também floresce uma musicalidade rica, envolvente e que demarca o experimentalismo de uma época. Uma banda que se encerrou em 1986; entrevistas captadas em 2006; um filme que ganha outras plateias em 2026; assim é “Canto da gente: um filme sobre Os Tápes”, um documentário que reafirma a importância da memória e da revisitação daqueles que caminharam antes de nós, num trajeto que só reforça a potência das riquezas escondidas pelo Brasil.

“Canto da gente: um filme sobre Os Tápes” faz parte da programação on-line do In-Edit 2026 e fica disponível gratuitamente até dia 1 de julho no Itaú Cultural Play.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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