texto de Renan Guerra
Flora Purim e Airto Moreira revolucionaram o mundo do jazz e da música brasileira nos anos 1970. Com uma ampla carreira internacional, a dupla tem participações fundamentais nas gravações de “Bitches Brew”, clássico de Miles Davis lançado em 1970, e “Welcome” (1973), de Carlos Santana, bem como lançaram as sementes do fusion moderno ao lado de Chick Corea no álbum “Return to Forever” (1972). Airto é reconhecido como o “pai” da percussão contemporânea. Flora foi eleita a melhor cantora de jazz pelos críticos americanos entre 1974 e 1977. Além de todas essas credenciais, a dupla ainda foi fundamental para a expansão da música brasileira pelo mundo, um exemplo claro é a internacionalização da carreira de Hermeto Pascoal, que vai para os Estados Unidos a convite do casal.
A parceria musical e afetiva de Flora e Airto renderia uma porção de documentários: seria possível contar as histórias de suas parcerias musicais, de seus inventivos discos ou ainda de suas aventuras pelo mundo. Jom Tob Azulay, diretor de “Os Doces Bárbaros” (1976), propôs ao casal um filme sobre suas vidas, e eles foram reticentes. Hoje em dia, residentes do Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, a dupla vive uma vida pacata longe de qualquer holofote. Porém, um outro convite mexeu com os dois: Ricardo Bacelar, músico, produtor musical e advogado, fez uma proposta especial para que Flora e Airto gravassem um novo disco, com arranjos novos para clássicos de seu repertório e do cancioneiro brasileiro. Os dois toparam a ideia e foram para Fortaleza, para o estúdio de Bacelar, acompanhados de Jom Tob Azulay, que via nascer ali a possibilidade de um filme.

“Flora & Airto – O Som Revolucionário” nasce do acompanhamento dessas gravações em estúdio. Somos colocados dentro desse pequeno espaço durante mais de 80 minutos, sendo guiados pela câmera de Mariana Duran e Luis Abramo , que assina a delicada fotografia do filme. Durante esse processo de gravação somos apresentados ao modo de trabalho de Flora e Airto e é a partir desse pequeno recorte que vislumbramos a grandiosidade artística de ambos, bem como seu profissionalismo e, de forma sincera, a beleza de seu amor e companheirismo. Na época da gravação, Airto e Flora tinham 82 anos (atualmente, 84), e essa fragilidade do corpo ao envelhecer é um ponto importante de construção do filme. Os dois artistas falam sobre o cansaço, a fadiga, e como o corpo não mais responde na mesma medida em que suas ideias e sua mente. A forma como o filme de Jom Tob capta de maneira tão delicada e íntima o envelhecimento e a ação do tempo sobre a vida dos dois é algo dolorosamente belo.
Beleza é uma palavra fundamental em “Flora & Airto – O Som Revolucionário”: a beleza dos sons propostos pela percussão e liberdade de Airto, pelo ritmo e pela voz de Flora; de se enxergar a música com tanta lucidez, com tanta integridade e com tanta paixão. E a beleza de se escolher dividir a vida, o amor e a criação ao lado de alguém. A possibilidade de assistirmos de forma tão íntima a criação artística de dois gênios do jazz apenas expande o nosso olhar sobre sua obra e nos coloca num espaço privilegiado. Ver Airto apresentando seus instrumentos inesperados de percussão, ver Flora trafegando e tateando versos, tudo isso ajuda a construir uma partitura única sobre legado, inventividade e música. Para além disso, temos belos momentos de conversa, com Airto contando suas experiências metafísicas com a religiosidade ou mesmo Flora relembrando as aventuras que foi participar da construção da trilha sonora do épico “Apocalipse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, no final dos anos setenta.
O arco mais belo do filme se dá na construção da faixa “Carinhoso”, parceria de Pixinguinha e Braguinha (com a música tendo sido composta entre 1916 e 1917, e a letra em 1936): a gravação nos é apresentada com o piano de Egberto Gismonti e acrescida de forma livre com a percussão de Airto. Posteriormente somos apresentados a Flora reagindo a essa primeira gravação. E por último vemos a finalização da faixa com todos os elementos, mais as vocalizações de Flora e Airto – e nesse momento a montagem do filme cria quase como um diálogo musical entre o casal, a fruição plena do amor pela arte e pela vida. Nada disso é spoiler, não se preocupe, pois o filme de Jom Tob Azulay é extremamente sensorial, com um tempo e um ritmo únicos, mesclando imagem e som em algo que nos convida a entrar nesse fluxo especial dos artistas ali retratados.
Entendendo de forma plena a potência da música e do cinema, “Flora & Airto – O Som Revolucionário” é um filme grandioso, um registro poderoso sobre a força da música, sobre a perenidade da criação artística e sobre a inventividade humana. E é, também, um tratado sobre o amor, o companheirismo e a troca. De forma simples e delicada, Jom Tob Azulay parte da história de Flora e Airto para assim ir além e nos lembrar da força da nossa musicalidade, da unicidade dos nossos encontros e da beleza especial que há em se celebrar a vida!
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– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.
