texto de Davi Caro
O termo “terrir”, utilizado na sétima arte para definir longas que transitam entre o terror e a comédia, pode ter caído em uma espécie de limbo ao longo dos anos. Talvez porque, apesar de muito utilizado em referência a filmes hoje considerados clássicos – como os três primeiros volumes da saga “A Morte do Demônio”, de Sam Raimi, ou “Aventureiros do Bairro Proibido”, de John Carpenter – o rótulo parece ter virado sinônimo do tipo de paródia pastelão que a (inexplicavelmente ressuscitada) franquia “Todo Mundo em Pânico” passou a representar. O que poderia ser um excelente recurso para exemplificar o tipo de narrativa que a nova série “O Segredo de Widow’s Bay” (“Widow’s Bay”, 2026) explora com maestria, assim, poderia soar mais como uma ofensa reducionista.
Mas isso pouco importa: o importante é que a nova produção da AppleTV, criada por Kate Dippold e, agora, disponível na íntegra, é, sem dúvidas, uma das grandes surpresas do ano até agora. E não era para menos: empacotando um roteiro envolvente em um elenco apaixonante e com uma fotografia de tirar o fôlego, “O Segredo de Widow’s Bay” incorpora influências cuidadosamente pinçadas das muitas décadas do horror no audiovisual, balanceadas com doses generosas de humor e geniais sacadas cômicas. Sucesso de público e crítica, a produção foi recebida como uma mistura entre os trabalhos mais icônicos de Stephen King, a caracterização de personagens que remontam a “Twin Peaks”, de David Lynch, e tiradas hilárias que poderiam muito bem figurar em “Parks & Recreation”. Longe de sucumbir ao peso das influências que demonstra desde o primeiro segundo, a nova série se vale da expertise de diferentes nomes na direção: com Hiro Murai (de “Atlanta”) assinando metade dos dez episódios – e outros, como Andrew DeYoung (de “Our Flag Means Death”) e Ti West (de “Pearl”, 2022) se revezando nos outros, o resultado é uma produção recheada de identidade, frescor e esperteza.

Tom Loftis (Matthew Rhys) é o prefeito da pacata cidade de Widow’s Bay, situada em uma ilha na costa da Nova Inglaterra. Ele, um forasteiro que se casou com uma local, Lauren (Meredith Casey), que faleceu após dar à luz o filho do casal, Evan (Kingston Rumi Southwick). O trauma da perda, associado tanto ao passado sombrio que o povoado possui quanto aos incidentes misteriosos que ocorrem periodicamente, acabam fazendo com que Loftis mantenha o filho restrito à cidade natal – sob medo de uma dita maldição que remonta ao fundador da cidade e, se diz, não permite que aqueles nascidos no território se retirem da área da cidade sem morrerem dolorosamente. Tudo isso se torna mil vezes mais ridículo quando Tom resolve investir em revitalizar a imagem de sua cidade, convidando um jornalista do The New York Times e dedicando-se à realização de eventos tradicionais.
Mas é claro que Loftis não faz isso sozinho: em sua tentativa de reabilitar a região aos olhos dos forasteiros, o prefeito – visto por alguns na comunidade de Widow’s Bay com desdém, por outros com pena – conta com um time de funcionários tão idiossincráticos quanto disfuncionais: Patricia Moyer (Kate O’Flynn), a excêntrica assistente de Tom, que possui uma reputação conturbada que envolve sua suposta sobrevivência ao ataque de um serial killer; a histriônica Rosemary (Dale Dickey), útil nos momentos menos esperados (ou importantes); Dale (Jeff Hiller), um desajustado em meio a outros desajustados; e Ruth (K Callan), uma cidadã idosa que trabalha como secretária para o prefeito.
Ao mesmo tempo em que conta com aliados em meio à fechada comunidade da ilha, como o chefe de polícia Bechir Clemmons (Kevin Caroll), também são muitos aqueles que se mostram contrários à gestão de Loftis. Entre estes, a voz mais alta é a de Wyck Crawford (Stephen Root), um morador local que crê copiosamente na assustadora mitologia do lugar. A complexa dinâmica interpessoal deste que é, desde o começo, estabelecido como o elenco central da trama é, sem dúvida, a chave para muitos dos momentos mais memoráveis e hilários da série. Os choques geracionais e ideológicos levantados aqui suscitam gargalhadas sinceras, ao mesmo tempo em que levantam o mesmo tipo de reflexão sobre a preservação (e certa “dogmatização”) de lendas provenientes de histórias locais visto, antes, em obras como “It” – que, tal qual “Widow’s Bay”, também se passa na Nova Inglaterra.
O carisma distinto de cada um dos personagens sem dúvida é um assunto à parte. Brincando com a estranheza Lynchiana de caracterizações que extrapolam na estranheza, a trama desenvolve cada um de seus elementos quase como uma caricatura de arquétipos do cinema de horror, apenas para puxar o tapete do espectador e revelar nuances de certo inesperadas. Este é particularmente o caso tanto de Tom quanto de Patricia: o britânico Matthew Rhys (que já havia despontado antes com uma excelente atuação em “The Americans”) funciona como um avatar de uma normalidade forçada, que busca incessantemente ressignificar a cidade que gerencia como algo mais do que um poço de crendices mórbidas, ao mesmo tempo em que anseia por conseguir se comunicar com o filho adolescente – apenas para falhar miseravelmente em ambas tarefas, algo que piora quando estranhos acontecimentos passam a ocorrer na cidade. Tais acontecimentos, além de se provarem um risco real à vida de todos os moradores, também parecem se conectar com o passado do município de forma direta. E é aí que brilha a personagem de Kate O’Flynn: sobretudo em seus vários momentos com o policial Bechir, sua Patricia é igualmente encantadora e enervante, sobretudo nos dois episódios nos quais a funcionária pública cobra mais protagonismo.
Embora tenha nas caracterizações de Rhys e O’Flynn seus protagonistas natos, a grande esperteza do enredo de Kate Dippold está em construir uma boa estrutura de coadjuvantes, de modo a dinamizar a narrativa de maneira mais imersiva. É esta a grande vantagem de poder contar com intérpretes do calibre de Stephen Root em seu elenco de apoio. Seu Wyck Crawford é, sem dúvida, a arma secreta de “Widow’s Bay”, roubando a cena com uma atuação emburrada e ao mesmo tempo ingênua, responsável por várias das melhores piadas da produção. E o estoico Bechir de Kevin Caroll serve como os olhos da audiência na série, estupefato e escandalizado com as situações macabras e estapafúrdias, horripilantes e bestificantes, com as quais se vê forçado a lidar. O restante do time de coadjuvantes, embora agraciados com momentos mais pontuais, também se mostra fundamental dentro da trama, conforme os segredos da ilha começam a ser desvendados e revelam terríveis e ridículas conspirações.
A cinematografia de “Widow’s Bay” é o melhor tipo de carta para se ter na manga. Cody Jacobs e Christian Sprenger são responsáveis por conciliar visões de diretores tão autorais como os que conduziram a realização dos episódios, e, com o acréscimo do fenomenal trabalho de sonorização de David Fleming, o resultado não poderia ser mais surpreendente. Sem economizar na quantidade de vísceras e contando com um enredo que caminha a tênue corda que separa o esfuziantemente divertido do delirantemente perturbador – tudo devidamente arranjado através de performances do nível que fazem as notícias da renovação da série serem motivo de euforia. Em tempos onde produções desta proporção são destinadas exclusivamente a provocar sustos ou risos (por muitas vezes, constrangidos), “O Segredo de Widow’s Bay” prova que é, sim, possível fazer os dois – no processo, criando a série que, “terrir” ou não, os admiradores tanto do horror quanto da comédia não sabiam que precisavam ver, e que muitos (ainda) precisam conhecer.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
