texto de Renan Guerra
Pensar na preservação das mídias físicas é uma questão complexa de um modo geral, seja para revistas, jornais, fanzines, porém esse cenário se complica quando falamos de itens de conteúdo LGBT ou mesmo sexual / pornográfico. Um material que pode ser considerado menor ou inferior por determinadas pessoas, para outras pode ser um meio de reconstruir suas histórias, suas memórias e de repensar como se construíram desejos, afetos e comunidades.
Dentro da comunidade gay, isso é bastante simbólico, uma vez que revistas, periódicos e publicações independentes ajudam a contar a história da pandemia de HIV/AIDS. Uma história pode ser contada pelo ativismo, pelas memórias pessoais ou mesmo pelas mudanças sexuais – é muito claro que há uma mudança na forma que a comunidade se relaciona com o sexo entre o início dos anos 1980 e o final da década, desde as experiências de liberdade sexual até a forma como a camisinha e a prevenção passam a ser um tópico constante.

Um pequeno recorte dessa história ganha voz com o curta-metragem “AutoErotica: We Buy Gay Stuff”, de Jeremy Von Stilb. No filme, visitamos a AutoErotica, uma pequena lojinha escondida no topo de uma escada estreita no bairro Castro, em São Francisco – o famoso endereço LGBT norte-americano. O que à primeira vista parece uma discreta loja gay de conteúdo adulto vintage, na realidade se expande como um arquivo vivo que contém décadas de revistas, filmes, músicas e materiais diversos que ajudaram a moldar a identidade, a conexão e a comunidade queer antes da internet.
Fundada por Patrick Batt nos anos 1990, a loja é resultado de uma trajetória sinuosa: Batt mudou-se para São Francisco em 1980, viveu o sexo livre do Castro, se apaixonou e presenciou o impacto da AIDS na região. Ainda nos anos 80, ele investiu em um negócio de venda de produtos eróticos via caixa postal – dildos, itens de couro, lubrificantes e outros itens de fetiche eram enviados discretamente para os diferentes estados norte-americanos. Nos anos 90, entendendo a mudança da região, ele passou a investir em memorabília gay de diferentes décadas: revistas, discos, filmes, fotografias, obras de arte e arquivos pessoais foram sendo reunidos em um acervo único, funcionando como um arquivo de 50 anos de cultura queer, uma biblioteca que registra como a mídia disseminou o desejo, criou linguagens e permitiu que pessoas queer se encontrassem em uma época em que a visibilidade representava um risco.

Para ir além do filme, vale pontuar relatos dos anos 80 e 90, especialmente de moradores do Castro, que constroem um panorama dessa época. Era comum que após a morte de algum amigo próximo em decorrência do HIV/AIDS, o restante do grupo de amigos fizesse – o quanto antes – uma peregrinação até a casa/apartamento do morto para uma espécie de “limpa”, retirando (e preservando) itens sexuais, objetos fetichistas, livros LGBTs, revistas queer e/ou pornográficas e objetos de arte, tudo isso antes que as famílias entrassem e pudessem simplesmente descartar ou destruir esses itens. Há relatos que reforçam que essas ações de “resgate” ajudaram a preservar diferentes obras de arte, incluindo aí uma boa série de originais de Tom of Finland, um dos nomes mais influentes da arte gay no final do século XX.
Lançado oficialmente no Frameline Film Festival e exibido em 23 festivais nos Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia, “AutoErotica: We Buy Gay Stuff” é mais uma forma de preservar essas histórias. Patrick, o dono da loja, perdeu seu companheiro para a AIDS (e aqui pode parecer curioso o uso de “companheiro”, mas eles não tinham necessariamente uma relação pré-estabelecida nos ditames monogâmicos, por isso optamos por essa palavra).
Nos anos 2020, com a pandemia de COVID, Patrick passou por tempos difíceis na AutoErotica e é isso que traz uma virada para o espaço: com a colaboração de Bradley David Roberge, o espaço entrou em sua era on-line, com uma ampla digitalização dos materiais e a entrada nas redes sociais e na era das newsletters. Atualmente o perfil da AutoErotica no Instagram (@autoerot.ca) possui quase 80 mil seguidores e se tornou um espaço global de memória gay e LGBT. Virtualmente, o acervo de Patrick ganhou um status novo, servindo tanto para pesquisas, investigações e debates, ao mesmo tempo em que ajuda a construir uma nova possibilidade de comunidade, uma comunidade interessada nessas histórias, memórias e vivências, num trabalho para recuperar e proteger o que resta antes que desapareça.
E aí você pode se perguntar: por que um curta-metragem sobre uma pequena loja em São Francisco merece um longo texto por aqui? Por que a história de Patrick é uma dessas pequenas peças de um quebra-cabeça que forma uma cena muito maior. No site do projeto, intitulado “A Very Oral History” (“Uma história essencialmente oral”, em tradução livre), eles resumem da seguinte forma: “a história queer muitas vezes sobreviveu fora das instituições tradicionais. Ela vive em coleções particulares, lojas de discos, revistas, fotografias, panfletos, filmes e nas pessoas que escolheram preservá-los. À medida que a geração mais impactada pela crise da AIDS continua a envelhecer, histórias, artefatos e a memória cultural estão desaparecendo. ‘A Very Oral History’ examina não apenas o que sobrevive, mas como sobrevive — e as pessoas que se dedicam a perpetuá-lo. O filme faz uma pergunta simples: o que herdamos daqueles que vieram antes de nós e qual é a nossa responsabilidade em preservá-lo?”.
O passado construído lá em São Francisco nos anos 70, 80 e 90 às vezes nos ajuda a entender desejos e imaginários atuais – e em mesma medida nos fazem olhar para como nascem estereótipos e preconceitos. Em pouco mais de 15 minutos, “AutoErotica: We Buy Gay Stuff” nos leva para diferentes locais e narrativas, nos lembrando que a história queer é marginal, sexual e, especialmente, resistente!
“AutoErotica: We Buy Gay Stuff” está disponível gratuitamente e na integra acima, e também pode (e deve) ser assistido no site autoeroticadoc.com, porém apenas com áudio e legenda no original, em inglês.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.
