18º In-Edit: “Vou Tirar Você Deste Lugar”, de Dandara Ferreira, revisita a história única de Odair José, mas tropeça em problemas

texto de Renan Guerra

Odair José é uma dessas figuras complexas do imaginário musical brasileiro: fez um sucesso estrondoso nos anos 1970, falou de temas espinhosos em meio a ditadura militar e ainda assim era geralmente mal visto pela elite intelectual da época. Liberdade sexual, prostituição e religião se embolavam nos temas de suas canções, que funcionam como espécies de crônicas de costumes de uma sociedade em mudança. Canções que levaram Odair ao ostracismo após seu disco conceitual “O Filho de José e Maria” (1977) – a nossa primeira ópera-rock brasileira – ser extremamente mal recebido pela crítica e pelo público. Com o tempo, o disco renegado por Odair José se transformou em objeto de culto e a obra do cantor e compositor goiano passou a ser revisitada. Um marco central desse resgate está no disco tributo “Vou Tirar Você Desse Lugar”, lançado em 2006 pelo selo Allegro Discos (e aprofundado nesta reportagem).

“Vou Tirar Você Deste Lugar” é o nome de uma das canções mais emblemáticas de Odair José, a tal canção de amor dedicada a uma prostituta, e que, além de dar título à coletânea de 2006, agora se torna também o título do filme documental dirigido por Dandara Ferreira (“Meu nome é Gal”) e que integra a mostra do 18º In-Edit. Com uma narrativa tão sinuosa, a vida e a carreira de Odair José são recontadas a partir de um roteiro que entrelaça fatos biográficos com as inspirações e desdobramentos poéticos da obra do artista, criando esse casamento entre a trajetória desde a chegada de Odair ao Rio de Janeiro no início dos anos setenta até sua carreira nos dias atuais, passando por seu olhar sobre o mundo, sobre a religião e sobre a liberdade artística em tempos de ditadura militar no Brasil.

Odair José com Otto em cena do documentário

Ouvir Odair José recontar sua história e olhar para o seu passado e seu presente com uma maturidade única é a maior riqueza do filme. A forma como o artista consegue conectar suas memórias e suas histórias únicas com uma percepção afiada sobre as mudanças e transformações sociais do país é algo especial, que apenas reforça as suas qualidades de cronista poético da nossa gente. Odair tem um olhar muito atento ao outro, ao que lhe cerca e conseguiu transformar isso em clássicos populares que levaram temas como a pílula anticoncepcional, a prostitução e o divórcio para as rádios e os ouvidos do povo.

No longa, Odair conta que foi uma das primeiras pessoas a se divorciar no Brasil – por aqui, o divórcio foi legalizado em dezembro de 1977. E nesse ponto está uma das faltas do filme de Dandara: o tal divórcio de Odair José foi realmente um dos primeiros, segundo a revista Trip, o músico foi o quarto brasileiro a se separar e ele se separou de ninguém mais ninguém menos que Diana, cantora fundamental da música popular nos anos 70. O casamento de Odair e Diana foi tumultuado e complexo, se tornou um prato cheio para o jornalismo de fofoca e se transformou quase como um “leitmotiv” para a forma que as pessoas interpretavam e liam as canções que ambos os artistas lançavam nessa época. E no filme, Diana simplesmente não é citada. É compreensível que outras pessoas próximas a Odair de vida privada não tenham sido citadas durante o filme, mas o relacionamento de Diana e Odair José é uma parte fundamental desse imagético do artista nos anos 1970, por isso se torna estranho essa passagem ser ignorada. Além disso, a própria Diana enfrentou os mesmos preconceitos e apagamentos que Odair José, por isso é realmente uma escolha narrativa apagar ela da história do artista.

Para além das escolhas da produção do filme, o principal problema de “Vou Tirar Você Deste Lugar” é sua qualidade técnica: parece que estamos vendo uma obra não-finalizada, a sensação durante a projeção é que estávamos vendo um bruto da edição. E todos esses detalhes técnicos atrapalham a fruição do filme; a todo momento somos tirados da narrativa quando acabamos notando mudanças e falhas que saltam aos olhos. A cor oscila de forma incômoda, há momentos em que não há qualquer brilho ou saturação, Odair José aparece extremamente esbranquiçado, sem viço; e todas as cenas de sua apresentação musical parecem apenas cinzentas e sem força. E ainda temos a questão mais complexa: o áudio do filme. Cenas extremamente altas contrastam com cenas muito mais baixas, como se o som não tivesse sido equalizado. Alguns dos momentos mais complicados rolam quando Odair conta uma história e a trilha sonora de fundo segue extremamente alta, atrapalhando a compreensão de sua fala.

Entre trancos e barrancos, o que fica de “Vou Tirar Você Deste Lugar” é a figura rica de Odair José e sua narrativa tão envolvente. Os percalços técnicos diminuem a força do filme, mas ainda assim não maculam a interessante narrativa que amarra toda a força poética, musical e criativa do artista, o que ainda mantém o longa de Dandara Ferreira como um interessante olhar inicial sobre essa figura tão complexa que é Odair José.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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