texto de Lucas Vieira
* Versão revisada e ampliada de matéria publicada originalmente na edição 10 da Revista 440Hz em junho de 2021
Em janeiro de 2016, Laurie Burrows Grad, colaboradora do Huffpost, publicou um artigo em que investigava o uso da palavra “blue” como metáfora para o sentimento de tristeza e melancolia, para além da correspondência do inglês para a cor azul. Em sua pesquisa, a colunista encontrou diferentes usos do vocábulo ao longo da história da língua inglesa.
Entre as associações, há a relação com o fato de navegadores hastearem bandeiras ou vestirem faixas azuis na ocasião da morte de um oficial de suas embarcações. Na literatura, o registro mais antigo encontrado pela pesquisadora data de 1385, quando o escritor inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400) usou o termo em seu poema “Complaint On Mars”. Em 1807, Washington Irving (1783-1859) abreviou o termo “blue devils”, utilizado como sinônimo de “presença ameaçadora”, para “blues”.
No final do século XIX, o termo também batizou o gênero musical criado pelos negros escravizados que colhiam algodão no Sul dos Estados Unidos. Parte deles vinha do lado ocidental do continente africano, onde era comum pintar as roupas com pigmento azul anil (índigo blue) em momentos de luto e morte, para indicar sofrimento.
A partir de 1971, além do gênero musical, a cor e o sentimento, a palavra tornou-se o título de uma obra-prima da música folk. Lançado por Joni Mitchell, ‘Blue’ é o quarto LP de sua carreira e completa 55 anos em 2026 (mais precisamente no dia 22 de junho de 2026).
Através de dez faixas que somam aproximadamente 36 minutos, a cantora canadense compôs uma das obras mais sinceras e densas produzidas em seu tempo, reverenciada desde seu lançamento como um dos mais transparentes retratos de uma artista e que segue se destacando nas listas da crítica especializada ao longo das décadas.
‘Blue’ é um álbum de histórias, como é característico da música folk, e narra de forma confessional episódios que marcaram um período turbulento da vida de Mitchell, que viajava em uma estrada solitária.
Quero brilhar como o Sol
Em 1964, a canadense Robert Joan Anderson dava os primeiros passos para se tornar uma cantora folk. Aos 21 anos, havia se mudado para Toronto após abandonar a Alberta College Of Art, em Calgary, por não se adaptar ao ensino tradicional. Posteriormente, essa rejeição aos métodos padronizados se tornaria uma característica definidora de sua criação como musicista, artista plástica e poeta.
Ao chegar à nova cidade, uma descoberta a desesperou: estava grávida de Brad McMath, seu ex-namorado. Sem vínculo ou contato com o antigo parceiro, sem trabalho e vivendo na sociedade conservadora canadense, Joni teve que enfrentar a gravidez sob julgamentos. Em 1997, revelou ao Los Angeles Times: “Isso te arruinava no sentido social. Você não tem ideia de como era o estigma. Era como se você tivesse assassinado alguém”.
Mesmo com as dificuldades, a cantora manteve a gravidez escondida. Fazer com que os pais não descobrissem não era difícil, uma vez que viviam em Saskatchewan, uma província há três mil quilômetros de Toronto, em uma época em que a comunicação não era simples. Em 19 de fevereiro de 1965, com complicações no parto, Kelly Dale Anderson, a “Little Green”, nasceu, “com a Lua em Câncer”. Após dez dias internada, Joni saiu do hospital com a intenção de prover uma vida segura à filha, apesar de sua situação financeira e profissional instável.
Joni tentava cantar na noite de Toronto, mas não era fácil. Uma mulher jovem, que não tinha condições financeiras para ingressar no sindicato local, não conseguia trabalho naquele cenário. Com a ajuda do também cantor Vicky Taylor, a musicista conseguiu realizar suas primeiras apresentações em casas pequenas, e foi em uma delas que foi vista por Chuck Mitchell, um artista folk estadunidense que estava fazendo shows pelo pelo Canadá.
Chuck logo se apaixonou por Joni e a pediu em casamento, com a proposta de cuidar dela e da filha recém-nascida. A cantora aceitou, porém, os planos não deram muito certo e, em poucos meses, o casal resolveu entregar o bebê para adoção, acreditando que seria melhor que Kelly vivesse com uma família com melhor estrutura. Fragilizada com toda a sua situação emocional e financeira, a artista mudou-se com o marido para Detroit.
Joni sempre acreditou ter feito a escolha certa pensando na criança. Não teve outros filhos e seguiu a vida sem nunca tirar a “Little Green” – personagem da sua canção gravada em ‘Blue’ – da memória. A artista manteve a história em segredo por muitos anos e, após encontrar estabilidade em sua carreira, passou a procurar a filha. Em 1993, um fato mudou o destino: uma ex-colega de quarto da cantora da época da faculdade vendeu a história sobre o bebê para um jornal. Mitchell considerou a atitude uma traição, porém a notícia abriu portas para o reencontro.
Simultaneamente, em Toronto, Kelly Dale Anderson – que recebeu o nome de Kilauren Gibb após a adoção – procurava por sua mãe biológica após descobrir, aos 27 anos e grávida, que havia sido adotada. O encontro entre as duas aconteceu em 1997, quatro anos após a publicação da matéria, com a ajuda de um fã que criou um site para auxiliar na busca.
Mitchell conheceu Kelly quando a filha tinha 32 anos e o neto, Marlin, 3. A “Little Green” tinha uma carreira como modelo e, durante a década de 1980, ambas haviam morado em Nova York ao mesmo tempo. Ao Los Angeles Times, Mitchell confessou que a beleza do fim da história era um contraste ao tamanho da tristeza de seu começo.

Crosby, Cohen, Nash e Mitchell
“Why do fools fall in love?” (“Por que os idiotas se apaixonam?”) pergunta o título da canção de Frankie Limon and The Teenagers que Joni ouvia quando criança e regravou em seu álbum ao vivo, ‘Shadows And Light’ (1980). Tudo indica que a canadense ainda não tenha encontrado a solução para essa questão. Aos 76 anos, em 2020, a cantora confessou em entrevista a Cameron Crowe: “Eu sou uma idiota em relação ao amor, cometo o mesmo erro várias e várias vezes”.
Durante a segunda metade da década de 1960, a vida e a obra de Joni foram marcadas por relacionamentos – alguns curtos, mas todos intensos – com cantores folk. Algumas dessas histórias serviram de inspiração para as letras cantadas em ‘Blue’, que não falam diretamente sobre esses homens, mas sobre a forma como Joni se relacionou com eles.

Nos anos que se seguiram à adoção de Kilauren, Joni conseguiu efetivamente iniciar sua carreira como cantora folk. Suas primeiras gravações foram feitas entre 1963 e 1967 e, em 2020, foram lançadas em ‘Archives Vol 1: The Early Years (1963-1967)’, um box contendo cinco discos (e 119 músicas). Após quase 50 anos, Mitchell fez as pazes com gravações que ela questionava se eram ou não parte canônica de sua discografia. Conforme revelou também a Crowe, em 2004, a artista considerava as músicas muito ingênuas e “vulneráveis para esses tempos tão duros, como se pertencessem a um mundo antigo”.
O primeiro disco efetivamente lançado por Joni foi ‘Song to A Segull’ (1968), gravado em 1967 após a cantora – já separada de Chuck – ter se mudado para Nova York e começado a ficar conhecida por apresentações realizadas em cafés, festivais e pequenas casas de shows.
O disco teve produção de outro nome que se tornaria icônico no folk norte-americano: David Crosby, com quem Joni havia iniciado um romance. Mas a parceria romântica durou pouco, chegando ao fim logo após o lançamento do LP, com a descoberta de que, com o deterioramento da relação, o cantor havia traído Mitchell com uma ex-namorada.

Em biografia do supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young, o escritor David Browne revelou que o produtor “adorava apresentar a cantora aos amigos como uma posse valiosa e talentosa”. À seu biógrafo, David Yaffe, autor de “Reckless Daughter: A Portrait of Joni Mitchell”, a artista revelou que o ex-namorado agia “de um jeito embaraçoso, uma vez que eu era tratada como a descoberta dele”.
Pouco antes da gravação, ainda em 1967, Joni teve um “desencontro amoroso” com outro membro do quarteto que lançou o lendário LP ‘Deja Vú’ em 1970. Em uma noite em Ottawa, no Canadá, tanto a artista quanto o grupo The Hollies faziam shows na cidade. Depois das apresentações houve uma festa, na qual a artista conheceu Graham Nash, então um dos integrantes da banda. Ambos já haviam ouvido falar um no outro e, naquela noite, ficou no ar uma expressa vontade de se aproximarem.
Por conta de estarem sempre viajando e se apresentando em cidades diferentes, Mitchell e Graham não viam possibilidade de ficarem juntos naquele momento. Um dia, ainda casado, o cantor voou para Nova York para encontrar Joni, porém, chegando lá teve uma decepção: a cantora estava namorando com Leonard Cohen.
Em 1967, Cohen estava entre as atrações do Newport Folk Festival, assim como Joni. Naquele evento, começaram o que daria origem a uma relação batizada pelo cantor como “uma extensão da amizade”. O namoro acabou em poucos meses, porém os artistas foram amigos até o falecimento do autor de “Famous Blue Raincoat”, em 2016.
Muito se especula se a música “A Case Of You”, presente em ‘Blue’, foi feita para Nash ou para Cohen. Porém, ao que tudo indica, o segundo é o verdadeiro homenageado desta “canção de amor e ódio”, embora Joni nunca tenha confirmado esse fato. Apesar de já ter domínio na escrita, a artista não sabia muito sobre literatura na segunda metade da década de 1960. Interessada, pediu a Cohen uma lista de livros para se aprofundar. Segundo revelado no livro “Joni Mitchell In Her Own Words”, de Malka Marom, ao ler “O Estrangeiro”, de Albert Camus, a cantora percebeu que Leonard havia roubado um verso da obra e inserido na música “Hey That’s No Way To Say Goodbye”.
Muito admiradora de Cohen, a quem tem também como influência artística, Mitchell ficou desapontada com a descoberta. Talvez buscando vingança, em “A Case Of You” a artista escreveu uma história de término em que usou um verso dito por Leonard sem creditá-lo. Também no livro de Marom, Joni explicou: “Quando lhe mostrei ‘A Case Of You’ ele disse: ‘Estou feliz por ter escrito isso’. Leonard ficou com raiva de mim, na verdade, porque eu coloquei um verso dele, algo que ele disse, em uma das minhas canções. Para mim, isso não é plágio. Ou você rouba da vida ou dos livros. Com a vida é jogo limpo, com a literatura não. Essa é a minha opinião pessoal. Não roube a arte de outra pessoa, isso é trapaça. Roube da vida – isso está em jogo, certo?”.
Enfim, depois do episódio com Cohen, Joni e Graham namoraram. Diferente de como ocorreu com os dois últimos namorados, com Nash a relação foi duradoura. Mitchell e o músico chegaram a morar juntos por cerca de dois anos, até 1970. É sobre o cotidiano do casal que o cantor escreveu a faixa “Our House”, incluída no já referido LP ‘Deja Vu’. A cantora também fez músicas sobre a vida ao lado de Graham, que foram gravadas em ‘Blue’. As dela, porém, falam sobre o rompimento, e só foram ouvidas pelo ex-companheiro após o término.
Para o ex-parceiro, Mitchell dedicou “My Old Man” e “River”. Na primeira, a inspiração veio de um dos motivos do término. Nas palavras de Nash, a canção foi feita a partir de um pedido de noivado que ele fizera à então namorada: “Eu a pedi em casamento, mas acho que ela entendeu que eu queria uma ‘esposa’ para cozinhar para mim e coisas do tipo, o que nunca foi minha intenção. Eu queria que ela fosse livre, o quão brilhante fosse possível”.
Segundo o livro “CSNY: Crosby, Stills, Nash & Young”, de Peter Dogget, após o término, Nash recebeu um telegrama poético de Mitchell, que viajava pela Europa, que talvez confirme o receio. Dizia a mensagem: “Se você segurar a areia com muita força, ela irá escapar pelos seus dedos”.
A outra música sobre a relação com Nash presente em ‘Blue’ é “River”. Apesar de a canção falar sobre um momento difícil da vida de ambos, Graham revelou ao The Guardian que sente orgulho do fato de a canção ser dedicada a ele: “‘River’ me deixou triste, porque narrava o fim do nosso relacionamento, mas também contente porque era uma música tão linda e ela [Joni] teve coragem de despir sua alma. Nós éramos muito apaixonados. Eu valorizava aquela relação”.
Apesar de retratar a melancolia do rompimento, com o passar dos anos, a canção passou a receber uma curiosa interpretação, como se fosse uma canção de Natal. A gravação, de fato, possui elementos que podem direcionar a essa leitura, uma vez que começa com as notas da tradicional “Jingle Bells” ao piano e diz, já no primeiro verso, que a época natalina está chegando.
Com o passar dos anos, “River” passou a ser incluída no repertório de diversas apresentações e discos natalinos, fato que causa surpresa naqueles que têm conhecimento de que a canção fala sobre o término com Nash. Nas palavras de Mitchell, em entrevista à NPR em 2014, a canção é uma história sobre “assumir responsabilidade pessoal pelo fracasso de um relacionamento”. Na mesma matéria, indagada sobre a nova conotação que sua composição recebeu, a cantora respondeu, com humor: “precisávamos de uma canção triste de Natal, não é mesmo?”.
Detroit, 1968?
O ano de 1968 também ficou marcado na carreira da cantora como “a última vez que ela viu Richard”. Por anos, acreditava-se que a história da canção que encerra ‘Blue’ ocorreu durante um encontro de Joni Mitchell com Chuck, no ano seguinte ao divórcio. Porém, o personagem da canção foi inspirado em Patrick Sky, cantor folk também surgido na década de 1960.
Nascido no estado da Georgia, Patrick Sky teve sua carreira marcada por fazer duras críticas políticas através de sátiras. Entre os anos de 1965 e 1969, teve o período mais constante de sua carreira, gravando discos anualmente. Em 1971, mesmo ano do lançamento de ‘Blue’, gravou seu LP mais radical, ‘Songs That Made America Famous’ que, por seu conteúdo, enfrentou dificuldades para ser lançado e só foi aceito por uma gravadora em 1973.
Joni e o cantor fizeram parte do mesmo circuito de música folk nos Estados Unidos, aparecendo também em programas de rádio e shows em universidades. Segundo a cantora revelou em entrevista a Michelle Mercer para o livro “Will You Take Me As I Am”, em que a autora investiga a história do LP, “The Last Time I Saw Richard” surgiu após uma frase dita pelo colega: “Patrick Sky, um amigo e cantor de folk, me disse uma noite em um bar de Nova York: ‘Joni, você é uma romântica incurável. Só há uma maneira de você seguir na vida: com cinismo incurável’”.
Na canção, Joni uniu realidade e ficção para criar uma de suas letras mais profundas. Há elementos fictícios em “The Last Time I Saw Richard” porque, como a própria cantora revela em seu site, ela e Patrick se encontraram em um show na Syracuse University, em 1969. Logo, a última vez em que se viram até o momento de gravação do disco não foi em 1968. Além disso, a frase foi dita em Nova York, e não em Detroit.
Apesar dessas considerações, há também fatos verossimilhantes na canção, segundo depoimento de Mitchell. No mesmo livro que traz o verso de “California” no título, a cantora afirma que Patrick, assim como Richard, estava naquele momento casado com uma patinadora e que saía pouco, bebendo em casa e vivendo uma vida mais doméstica. Apesar do depoimento da artista, a única mulher citada como cônjuge de Sky em sites como Allmusic e em notícias sobre seu falecimento por câncer em 2017 é Cathy Larson Sky, musicista e escritora, com quem ele se casou em 1981 e gravou, em dueto, o álbum ‘Down To Us’ (2009).
A última faixa do LP também foi o primeiro contato de muitos brasileiros com o disco e com a obra da cantora canadense, através da versão feita pela banda Legião Urbana em 1992 no especial ‘Acústico MTV’ – lançado oficialmente apenas em 1999. Em fala antes de tocar a música, o vocalista Renato Russo diz: “Essa é uma música de um dos maiores poetas do rock’n’roll, e ela se chama Joni Mitchell. É de um disco chamado ‘Blue’, de muito tempo atrás, e é uma letra seríssima” (Renato também regravou “Hey That’s No Way To Say Goodbye” em sua carreira solo).
Viajando em uma estrada solitária
No começo de 1970, o relacionamento entre Nash e Joni estava se encaminhando para o fim. Em fevereiro, a cantora se juntou a uma amiga, a poetisa canadense Penelope Ann Schafer, e resolveu fazer uma viagem pela Europa, com a primeira parada na Grécia. Para a estrada, a artista resolveu não levar o violão, mas sim um instrumento que havia descoberto recentemente: um saltério dos Apalaches.
Tradicionalmente feito com três cordas, o instrumento da família das cítaras foi descoberto por Mitchell durante o festival folk de Big Sur em 1969, onde ela adquiriu o saltério da musicista e luthier Joellen Lapidus, que se tornou também uma referência nesse tipo de tricórdio, conhecido em inglês como “dulcimer”.
A escolha de levar o saltério (e uma flauta) no lugar do violão teve como principal motivo o fato de ambos serem mais leves. A opção mudaria não só a viagem como a sonoridade de ‘Blue’, uma vez que a artista compôs e gravou parte do disco no novo instrumento.
Sem nunca ter ouvido um dulcimer antes, Joni criou sua própria técnica de tocar o tricórdio. Enquanto a forma tradicional utiliza um tipo de pena como palheta, a cantora optou por uma abordagem percussiva nas cordas do instrumento, adaptando sua linguagem de violonista. Foi no saltério que compôs canções definidoras de sua carreira, como “Carey”, “California”, “A Case Of You” e “All I Want”, todas registradas em ‘Blue’.
Canção que abre o álbum, “All I Want” é um resumo de ‘Blue’, de Joni e da própria jornada pela Europa feita em 1970. É uma música que fala sobre uma viagem solitária em busca por algo desconhecido e por liberdade. Versa sobre a vontade de amar e as dificuldades vividas nos relacionamentos ao som inconfundível do saltério.
Joni revelou à revista Mojo em 2019 que, mesmo que acreditem que existam mensagens nas entrelinhas – em versos poéticos como “I want to shampoo you” –, “All I Want” é uma canção sincera: “Eu não sou uma compositora evasiva. Você não tem que cavar os significados nas palavras. Os significados estão todos ali. É muito claro”.
Não muito tempo após chegar à Grécia, Joni decidiu ir de barco para a ilha de Creta, onde fez uma viagem de Fusca por mais de 70 quilômetros até Mátala, um vilarejo de pescadores no qual hippies viviam naquela época, alojando-se em pequenas cavernas próximas ao mar.
Um dia, passeando pelo vilarejo, Joni ouviu um grande barulho e, ao olhar na direção do som, vislumbrou a figura de um homem de barba ruiva vestindo um turbante branco. Não se tratava de uma alucinação: aquele era Cary Raditz, um jovem norte-americano então com 24 anos, que fora arremessado do café onde trabalhava após um forno explodir.
Cary e Joni se envolveram na mesma noite em que Penelope desapareceu, sem dar notícias, para seguir um outro rumo em sua viagem. A partir desse momento, o norte-americano acabou se tornando a nova companhia da artista durante sua estadia na Grécia.
Em uma das noites em Mátala, Joni escreveu “Carey” – que ganhou um “e” por erro ortográfico da cantora –, que narra esse período passado na Grécia. A música foi apresentada ao companheiro na noite de seu aniversário e fala de seu jeito retrógrado (“you’re a mean old daddy”), sobre o café que a cantora frequentava em Mátala (“come on down the Mermaid Cafe”) e diversas outras lembranças, como a bengala de ferro que Cary vivia carregando, as ruas da ilha e o vento vindo da África.
A indecisão do próximo destino também aparece em “Carey” (“maybe I’ll go to Amsterdam, or maybe I’ll go to Rome”), mas, na hora da decisão, Mitchell acabou optando pela França. Lá encontrou a inspiração ilustrada nos primeiros versos de “California”, outra canção em que Cary é um dos personagens, referido como “um caipira em uma ilha grega”. Apesar da citação, o ruivo não é o protagonista da música, que fala sobre um sentimento de tristeza e fim da era hippie de paz e amor (“reading the news and it sure looks bad, they won’t give peace a chance”), cita uma festa ocorrida na casa do editor da revista Rolling Stone, Jann S. Wenner (“a party down a red dirt road”) e revela uma vontade da cantora de voltar para casa.
Joni e James
A volta para os Estados Unidos – após a viagem que também contou com uma passagem pela Espanha – marca o período em que Joni Mitchell iniciou um relacionamento com James Taylor, importante nome da música folk que teve participação decisiva em ‘Blue’. Ainda era 1970 e a cantora estava de volta a Laurel Canyon, bairro californiano onde boa parte dos músicos folk daquela geração moravam.
No período em que Joni trabalhava nas composições de ‘Blue’, Taylor se adaptava a uma nova vida, após um período de internação para tratar de seu vício em heroína. O casal permaneceu junto durante cerca de um ano e, quando não estavam separados pelas turnês, acompanhavam o processo criativo um do outro.
Taylor também preparava as músicas para um novo álbum, ‘Mud Slide Slim and the Blue Horizon’ (1971), o terceiro de sua obra, no qual Joni participou fazendo vocais. Em agosto, a cantora viajou com o parceiro para o Novo México, onde James gravou o filme “Corrida Sem Fim” (“Two-Lane Blacktop”, 1971). Segundo revela o livro “Girls Like Us”, de Sheila Weller, durante a gravação do longa-metragem Mitchell tricotou um suéter que o namorado passou a vestir constantemente. Estaria aí a inspiração ou a realização do verso “I wanna knit you a sweater” de “All I Want”?
Sheila sugere em seu livro que confissões de Mitchell sobre como o parceiro a tratava originaram “This Flight Tonight”, que fala do período em que passaram no set de filmagens: “Joni parece ter escrito ‘This Flight Tonight’ sobre aquela época no Novo México. Seu amante ‘gentil e doce’ a magoa com ‘aquele olhar tão crítico’, mas ela se arrepende de ir embora quase assim que o avião decola. Ela repassa um momento de ternura em que observaram uma estrela no céu entre os trailers do set de filmagem e quer que o piloto ‘vire esse pássaro louco’ para que ela possa voltar para ele”.
Meses depois, em outubro, Joni e Taylor estavam fazendo shows juntos. Um deles foi gravado no dia 16 daquele mês, em um evento beneficente do lançamento da ONG ambiental Greenpeace. A apresentação pode ser ouvida no álbum ‘Amchitka’ (2009), e tem Mitchell mostrando boa parte das canções de ‘Blue’ que já estavam prontas naquele momento.
Doze dias depois, a dupla performou no Royal Albert Hall, em Londres, durante uma breve temporada na Inglaterra em que ficaram instalados em um apartamento com o guitarrista Peter Asher. Segundo depoimento do músico no livro de Sheila Weller, ele estava presente na noite em que a artista compôs a canção que batiza seu álbum lançado em 1971: “Tenho uma memória distinta”, diz Peter, “de ouvir Joni tocar ‘Blue’, que ela acabara de compor no piano.” Asher achou a música extraordinária. As referências às ‘agulhas’ de um viciado em drogas e ao fato de Joni oferecer uma concha para seu amante – John Fischbach se lembra dela dando uma concha para James em uma noite em Los Angeles – deixam bem claro que ‘Blue’ é sobre James”.
Mesmo sendo inspiração de ao menos duas canções de ‘Blue’, James Taylor revelou ao The Guardian, em matéria sobre os 50 anos do álbum, que sua faixa favorita do LP é “California”, que dialoga também com o momento de separação do casal: “Depois de viajar, sua casa ganha um contexto diferente e essa canção capta isso. É encantador, pessoal e genuíno. Quando eu estava levando Joni para encontrar minha família na Carolina do Norte, entre os voos, ela repentinamente disse que precisava voltar para a Califórnia e me deixou no aeroporto – no altar, por assim dizer. Talvez ela tenha sentido os destroços dos meus próximos 15 anos e não quisesse ser amarrada. Ela é totalmente real e é uma das melhores coisas da minha vida que eu a tenha conhecido”.
Enfim, o álbum
Com seu vocabulário poético, Joni contou em entrevistas como estava sua saúde mental quando ‘Blue’ foi gravado. À revista Rolling Stone revelou: “Eu não tinha defesas. Me sentia como a embalagem de celofane de um maço de cigarros. Eu sentia que não tinha segredos para o mundo e que não poderia fingir ser forte ou feliz na minha vida”.
Outra analogia da cantora sobre ‘Blue’ foi publicada em “Joni Mitchell: In Her Own Words”. A artista revelou ter tido um sonho em que estava assistindo “uma banda de mulheres meio gordas tocando tuba. Mulheres enroladas em vestidos de náilon tocando grandes trompas e eu era uma sacola plástica cheia de órgãos expostos, soluçando em uma cadeira no auditório. Foi como me senti, com minhas entranhas expostas. Eu fiz ‘Blue’ nessa condição”.
Em janeiro de 1971, Joni começou a gravar ‘Blue’, ao lado de poucos músicos: James Taylor (violão), Russ Kunkel (percussão), Stephen Stills (baixo e violão) e Sneaky Pete Kleinow (pedal steel). As gravações se estenderam até março, nos estúdios da A&M Records, em Hollywood.
No mesmo estúdio e período, a banda Carpenters estava fazendo gravações para seu terceiro disco e a cantora Carole King, que era amiga do casal, registrava ‘Tapestry’, seu histórico LP de estreia que contou com a participação de James e Joni na produção. No mesmo ano, Taylor gravou “You’ve Got A Friend”, sucesso composto pela pianista e registrado também neste seu primeiro disco.
Enquanto Carole gravava no estúdio B, Joni escolheu a sala ao lado para registrar ‘Blue’. Lá havia um piano Steinway de cauda que seria fundamental para a sonoridade do disco. Em uma manhã antes de Mitchell chegar para as gravações, King aproveitou as horas vagas e gravou com o instrumento o clássico “I Feel The Earth Move”.
Se era possível aproveitar o estúdio C quando Mitchell estava ausente, na presença da cantora tudo era diferente. A artista optou por fazer uma gravação bastante reclusa, na qual apenas ela e os profissionais responsáveis pela gravação transitavam pelo estúdio – “se alguém entrasse pela porta, eu me acabaria em lágrimas”, confessou. Com percussões abafadas, majoritariamente utilizando instrumentos acústicos, a cantora fez registros carregados de emoções profundas, como revela o livro de David Yaffe: “Joni estava traduzindo aquelas emoções que ninguém gostaria de ter em uma música que todos gostariam de ouvir”.
Quando ‘Blue’ chegou às lojas, em 22 de junho de 1971, causou reações diversas. Johnny Cash, por exemplo, sentiu o pesar do disco, como revelou a Joni: “Você está suportando o peso do mundo”. Quando Mitchell mostrou o LP ao cantor country Kris Kristofferson, sua reação foi dizer: “Jesus, Joan, preserve algo sobre si mesma”.

Ao chegar nas lojas, com fotografia feita por Tim Considine de Joni tonalizada de azul na capa, ‘Blue’ foi um grande sucesso internacional, atingindo lugares expressivos em listas das gravações mais ouvidas, e recebeu um certificado de disco de platina duplo (600 mil cópias) pela Britsh Phonography Industry (BPI). Além de consolidar Mitchell como cantora e compositora, tornou-se um parâmetro de qualidade de gravação na época.
O disco também foi bem recebido pela crítica especializada. Com repertório que já vinha sendo celebrado por publicações como NME e Melody Maker, o LP recebeu uma longa análise na edição de agosto de 1971 da Rolling Stone, feita por Timothy Crouse, que encerra o texto com a seguinte declaração: “Ao se retratar de forma tão nítida, ela arriscou o ridículo para alcançar o sublime. Os resultados raramente são ridículos; em ‘Blue’, ela combinou suas habilidades musicais populares com a pureza e a honestidade do que uma vez foi chamada de música folk e, por meio da combinação, ela nos deu alguns dos mais belos momentos da música popular recente”.
Em tom confessional para Cameron Crowe, Joni refletiu sobre sua obra: “Na época do meu quarto álbum eu estava vivendo aquela terrível oportunidade que as pessoas têm em sua vida, quando descobrem que são completamente idiotas e precisam decidir seus valores, quais partes são realmente necessárias. ‘Blue’ foi um ponto de virada em diversos aspectos da minha vida”.
O disco foi precisamente resumido por Rob Hughes, em texto publicado na revista Uncut em 2017: “Mitchell estava tentando reconciliar sua vida com sua arte, comprimindo uma busca indescritível por contentamento pessoal em uma grande declaração artística. ‘Blue’ é triste, engraçado, poético, revelador e, muitas vezes, dolorosamente sincero. É uma experiência tão intensa que parece muito mais longa do que relativamente breves 35 minutos”.

Cinquenta e cinco anos depois
Segundo informa o site oficial de Joni Mitchell, a soma das vezes que as músicas de ‘Blue’ foram regravadas de forma oficial nos 55 anos após seu lançamento ultrapassa 1400 versões. Só “River” recebeu 793 regravações. Com o passar dos anos, o álbum se posicionou entre as obras mais importantes de diversas listas publicadas pela imprensa, com destaque para o ranking publicado pela NPR em 2017, que posicionou o LP como o maior álbum feito por mulheres entre 150 obras.
Em 2021, Joni Mitchell celebrou o cinquentenário de ‘Blue’ em dois lançamentos. O primeiro deles foi o box ‘The Reprise Albums’, que reúne os quatro primeiros álbuns da cantora em edições em vinil e CD. O outro, nas plataformas digitais, foi o EP ‘Blue (Demos & Outtakes)’ que traz versões alternativas de “A Case Of You”, “California” e “River”, além de “Hunter” e “Urge For Going”, canções gravadas nas mesmas sessões, mas que não entraram na edição original da obra. Em 2024, uma reedição especial em LP foi prensada pelo selo norte-americano Mobile Fidelity, voltado para audiófilos, com dois discos de 45 rotações. Já em 2025, foi a vez de um edição em blu-ray audio, contando com som quadrafônico e tecnologia dolby atmos.
Em março de 2026 Joni foi condecorada no Juno Awards pelo conjunto de sua obra. Para celebrar os 55 anos de ‘Blue’, no dia exato do aniversário foram anunciadas novas edições do disco pelo selo Rhyno High Fidelity, em LP numerado com capa dupla exclusiva e também no formato de fitas reel to reel. Ao longo dos meses de junho e julho, a Pitchblack Playback também irá promover comemorações em cidades como Glasgow, Los Angeles, Londres e Manchester, com sessões de audição do álbum em salas com escuro total, proporcionando aos fãs uma experiência completamente imersiva.
‘Aos 27 anos, a cantora criou uma obra que a consolidou no mercado e tornou-de ideal para momentos de sofrimento e “dark cafe days”. Quem já sentiu na pele o peso desse disco entende o que a cantora quis dizer com os versos que abrem a música que o batiza: “Blue, songs are like tattoos”.
– Lucas Vieira (facebook) é jornalista e escreve sobre música desde 2010! Siga no instagram.com/vieirarlucas

Certamente uma das melhores matérias que eu já tive o grato prazer de ler nesse site. Que texto incrível!