entrevista de Maria Caram
Quatro anos após seu primeiro disco, “Hoje Tem” (2021), Angélica Duarte retorna com o lançamento de “Toska” (2025), um álbum que traz arranjos mais eletrônicos e letras despojadas e espontâneas. O tempo (e a pandemia) marcam muito da mudança de estilo entre os dois discos. Em “Toska”, Angélica se afasta dos arranjos instrumentais e se entrega à experimentação de uma produção em home studio que dialoga com a cena contemporânea brasileira.
Com formação em canto lírico, no novo álbum a artista usa a potência de sua voz como uma camada a mais para os fundos eletrônicos, despejando letras diretas para fazer dançar ou ativar o cárdio, como a própria artista comenta. A ironia contida nas canções é, ao mesmo tempo, um ponto de contato e de distanciamento do disco antecessor. Enquanto em “Hoje Tem” a ironia e o humor servem como tempero para a frustração e mágoa, no novo álbum as letras trazem uma narradora que atropela a insatisfação com certas situações e devolve o incômodo a quem o causou.
O single “Barriga de Lanche” (2023), por exemplo, que já traz um diálogo interessante entre os riffs de guitarra e o fundo eletrônico, brinca com a ideia de não encolher os próprios desejos ou quem se é em prol de um padrão de beleza ou de comportamento. A música adiantava a demarcação de limites que apareceria em canções como “Doida” ou “Sua mãe só quer seu bem”.
As parcerias também foram escolhidas com cuidado, para somar ao processo independente e individual que marcou a produção do disco. Além de companheiros de gravações e shows como Gabriel Loddo, Pablo Arruda e Christian Dias, e do apoio de Rômulo Mendes, destaca-se o duo com Billy Crocanty (da banda BILTRE), performando um esquerdomacho que lê Hilda Hilst como forma de paquera em “GOSTUESSO”.
As influências também são muitas. À citação direta de Hilst, somam-se musicistas como Rita Lee, Courtney Love, Letrux e PJ Harvey. Na produção e nos arranjos eletrônicos, a cena do rap tomou os ouvidos de Angélica com a mistura de ritmos e referências com letras diretas e pesadas, com a artista ressaltando o interesse por Ajuliacosta, Mc Luanna e Ebony e declarando sua admiração pelo rapper mineiro FBC.
Ligado ao espírito imediatista desses tempos, “Toska” é um disco que mistura referências, faz um liquidificador com a linguagem e deve ser escutado em movimento, no agora, compartilhando com os amigos via links ou no som do carro, “Day by day chorando pelo capitalismo tardio mas ouvindo uma musiquinha no trajeto”, como bem definiu a artista.
Em um papo por e-mail com o Scream & Yell, ela contou mais sobre o álbum e essa nova fase. Confira abaixo.
Ouça o álbum “Toska”, de Angélica Duarte, na integra abaixo
Foram quatro anos entre seu lançamento anterior, “Hoje Tem”, e “Toska”. Sonoramente, a gente já percebe mudanças, anunciadas com o single “Barriga de Lanche” (2023). Quais as diferenças nos processos de criação dos dois discos e como você vê o papel do tempo nesse processo?
“Hoje Tem” nasceu do desejo de me colocar como compositora e produtora musical. Arranjei as canções para vários instrumentos, fiz um financiamento coletivo que deu super certo e convidei amigos para gravar comigo. Em “Toska” o processo foi bem diferente. Eu, que muitas vezes compunha tocando violão e cantando, investi em composições mais espontâneas. “Amiga” eu compus caminhando no Leblon, o refrão de “Barriga de Lanche” veio à mente enquanto eu esperava um delivery, “Vira Lata Caramelo” foi uma bobagem que cantarolei pro meu namorado, “Ninguém se Importa” veio enquanto eu maratonava a série “Girls”. Nesse momento eu já tinha um home studio pra brincar e também já tinha tido um contato maior com a produção fonográfica contemporânea, que é algo que eu não estava tão interessada quando lancei meu primeiro álbum. Peguei essas melodias que fiz de brincadeira e harmonizei, fui pesquisando sonoridades e batidas e aos poucos o álbum foi nascendo. Sinto que fui fiel a tudo que eu gosto de ouvir e que alcancei uma sonoridade nova.
“Hoje Tem” foi lançado ainda durante a pandemia, e refletia muito em suas letras tanto a frustração com as “pakeras frakas” típicas de apps, quanto relações muito movidas por um desejo intenso. Em “Toska”, as letras parecem trazer uma mulher que não topa qualquer coisa, mais assertiva e ainda assim muito intensa. Como você vê essas mudanças?
“Pakera Fraka” foi um termo que nasceu a partir das interações de Instagram, foguinho na DM, essas coisas. Muitas amigas na mesma situação-de-solteira-no-Rio-de-Janeiro compartilhavam comigo suas frustrações e a gente ficava naquela dinâmica de tentar decifrar mensagem de homem. Um porre e uma perda de tempo. Eu estava em um momento delicado emocionalmente quando compus a maior parte das canções de “Hoje Tem”, esse primeiro disco tem humor mas tem também muita mágoa.
A pandemia foi um marco na vida de todo mundo, né? Tempo de sobra pra refletir. Acho que a mudança de tom veio disso também, e a idade né? Não é qualquer coisa que me tira de casa, não é qualquer som que me faz dançar, não é qualquer boy que me desperta o interesse. Acho que somos muito duros, muito tensos enquanto geração (millenials) e sei que posso exercer certa erudição na música, tanto em letra, quanto em som, mas escolhi não fazer isso em “Toska”. Escolhi rir um pouco da coisa toda, da seriedade.
O nome do disco é “Toska” e a capa é claramente inspirada nos discos de música clássica que meu pai colecionava nos anos 80. Conta pra gente um pouco desse nome e visual e como eles se relacionam com as músicas do disco?
Kkkk pois é. Eu escolhi esse nome há um tempo, acho que tem tudo a ver. Eu comecei a estudar música formalmente fazendo aula de canto lírico, e isso foi algo que me distanciou da composição, larguei o violão e o caderninho de ideias e passei alguns anos tentando me adequar à norma. Nunca era escolhida pra nada, nunca passava nas audições dos corais jovens e isso me deixava bem chateada, pois eu sabia que meu lugar era sim na música, mas depois de alguns anos entendi que naquele meio eu não tinha espaço para exercer a minha criatividade. No entanto, tive contato com muita coisa que hoje em dia faz parte da minha formação de cantora e arranjadora, e quis trazer essa referência pra capa.

Você disse que gostaria de misturar suas referências a artistas mais contemporâneos e também que transportou seu lado arranjadora para meios mais eletrônicos, que se destacam nesse disco. Quem você tem escutado da cena mais atual nacional e como foi esse mergulho no eletrônico?
Cara, eu virei uma grandessíssima fã do FBC. Acho ele um dos melhores letristas da cena atual, no rap também ouço muito o Black Alien e admiro nomes novos como Ajuliacosta, Mc Luanna, Ebony. Sinto que a produção contemporânea aprendeu muito com as raízes da cultura hip hop, e conhecer um pouco mais a cena que se formou a partir disso, me fez aprender mais sobre som, sobre produção. O que eu gosto nesses artistas que citei é que a letra da música é pesada e sinto que essa característica está à frente de todo o resto. Uma das compositoras que mais admiro na cena independente é a Letrux, há uma completude naquele mulherão que é cantora, performer, letrista. Aprendo muito com ela, não só ouvindo as músicas ou assistindo a um show, mas lendo as entrevistas, seus textos no Substack. É uma pessoa que diz as coisas que precisam ser ditas. Já o lance de fazer um som eletrônico veio com a oportunidade de ter um home studio e pensar a produção de maneira mais pragmática, resolvendo a parte musical sozinha praticamente. Isso me deu autonomia criativa, me fez escutar sons que não escutaria, me fez ter contato até com sons que considerei desagradáveis, mas que me levaram para um caminho divertido.
Este é o primeiro álbum que você gravou totalmente em casa. Como foi trabalhar dessa forma? O que esse tipo de gravação trouxe para o som?
Foi bom, foi um processo um pouco lento, de muita pesquisa e aprendizado. Compor é fácil, difícil é deixar a música com a cara que a gente quer. Tive muito apoio do meu companheiro, Rômulo Mendes, que mixou o disco e foi meu principal parceiro nesse trabalho. Enquanto eu me arriscava nas novas ferramentas de criação ele ocupava a posição de suporte técnico e também emocional nessa jornada de quatro anos produzindo “Toska”.
Como foi a escolha das colaborações nesse disco? Como essas parcerias interferem na criação das canções com participação?
Procurei fazer quase tudo sozinha, porque há uma infinidade de possibilidades quando você produz em casa, sem pagar hora de estúdio, mas tiveram momentos em que precisei de ajuda para executar as minhas ideias. Foram colaborações generosas de pessoas muito próximas e queridas que gravaram no l0vynho ou de seus próprios estúdios. Christian, Loddo, Kaneo e Pablo são músicos e amigos que já tocaram e gravaram comigo. Rômulo gravou o solo de guitarra de “Sua mãe só quer seu bem”. Ele, apesar de não ser músico, fez suas aulinhas de guitarra na adolescência, estudou lá as pentatônicas e digitações com mais afinco que eu. Cantarolei a melodia da guitarra pra ele e depois de experimentações com timbres e fraseados, chegamos nesse solo que eu a-mo.
Em “GOSTUESSO” o processo foi um pouco diferente, eu produzi a música deixando espaço para um feat mas sem muita ideia do que eu queria, aí pensei que inserir uma poesia de Hilda Hilst, aquela mente inteligente e desejante, seria uma maneira bonita de manter a autoralidade feminina no disco. Convidei então o Billy Crocanty, artista hilário da banda BILTRE, pra fazer essa participação, lendo o poema numa intenção esquerdomacho literato.

“Toska” é um disco que remete bastante aos encontros e desencontros da vida noturna. Por outro lado, tem rolado esse movimento crescente de uma noite cada vez mais curta nas grandes cidades. Como você vê isso e como esse movimento pós pandêmico tem impactado na sua carreira como artista independente?
Acho que a vida noturna ainda existe, ela só foi deslocada pra um horário mais amigável, mas é um disco super possível pra pista, pro cardio das gata, pra quem curte música viva, tocada, e também pra quem curte eletrônico. Nisso eu arrasei, acho que trouxe essa versatilidade pro disco. A vida como artista independente é sempre cheia de desafios, não sei se a questão da noite será um problema ou uma solução, sempre cantei em shows em teatros e bares, nada muito balada. Vamos aguardar o trabalho reverberar e ver o que acontece.
As suas letras trazem bastante humor e ironia. Como você chega nisso? Além da citação direta à Hilda Hilst existem outras influências da literatura nas letras de “Toska”?
Acho que as maiores influências são as situações cotidianas. E músicas que vieram antes. Rita Lee, Letrux, Courtney Love, Shirley Manson, Cat Power, PJ Harvey. Confesso que também estava um pouco vidrada em rock 80 na época em que eu estava fazendo o disco, então eu acho que Titãs, RPM, Metrô, Fernanda Abreu, Kid Abelha, Marina Lima, Paralamas do Sucesso, essa galera e as canções mais vibrantes dessa época me inspiraram bastante nos arranjos de “Toska”.
Além de lançar o novo álbum, quais os planos para o futuro?
Trabalhar muito esse álbum, tocar, trocar, produzir novas músicas, me conectar mais com as pessoas depois desse tempo enclausurada em casa produzindo “Toska”. É hora de estabelecer novas conexões. Com outros artistas e principalmente com o público.
Tem algo que você gostaria de dizer sobre o disco que eu não perguntei?
É um disco pra ouvir agora, ouvir correndo, no metrô, na rua. Não é um disco pra ouvir com atenção, não é pra degustar, é pra ouvir e mandar pros amigos. Sem essa de “ouvir com calma”, não precisa disso. A música tem que estar inserida no nosso cotidiano pra nos libertar da monotonia do dia a dia. Day by day chorando pelo capitalismo tardio mas ouvindo uma musiquinha no trajeto, por favor. Ouçam “Toska”.
– Maria Caram (@mariacaram) é comunicadora, escritora e pesquisadora musical. Autora do livro próxima estação/next station. Assina a newsletter Uma mulher e uma newsletter