entrevista de Bruno Lisboa
Em 2025, o Mukeka di Rato chega nas três décadas de estrada com um disco novo, “Generais de Fralda”, nono registro da banda formada em 1995 em Vila Velha, ES, por Brek (bateria), Mozine (baixo e vocal) e Paulista (guitarra e vocal) mais Fepas, que entrou no grupo em 2021 assumindo vocais e guitarra. Rápido, direto e pesado (são 13 músicas em pouco mais de 20 minutos), “Generais de Fralda” aprofunda o mergulho da banda em sonoridades cruas, sujas e agressivas, em clara reverência à tradição do crust punk, que vai e volta no som da banda desde o clássico “Acabar com Você” (2002).
Em um país marcado por desigualdades persistentes e retrocessos políticos, o Mukeka di Rato mantém sua função crítica intacta atacando sem concessões temas como injustiça social, opressão institucional e as muitas formas de violência cotidiana — elementos que acompanham o grupo desde sua fundação. “O Mukeka sempre abordou a miséria humana e a gente vive em tempos muito sombrios”, diz Fepas. Produzido por Rafael Ramos, “Generais de Fralda” tem distribuição digital pela gravadora Deck e será lançado também em vinil, CD e fita cassete pela Läjä Records, selo de Mozine.
Em entrevista feita por e-mail, o vocalista Fepas falou sobre a produção de “Generais de Fralda” (“Era uma intenção da banda fazer um disco mais pesado que o anterior”), comentou o legado da banda e refletiu sobre a atual cena hardcore brasileira. O músico também abordou a escolha de Rafael Ramos para a produção (“Ele produziu o Mukeka porque gosta muito”), a relação do quarteto com o palco, o papel do ódio como combustível criativo, a importância dos formatos físicos em um mercado cada vez mais digital e os planos do Mukeka para o futuro. Leia abaixo.
O Mukeka Di Rato é uma das bandas mais representativas do hardcore brasileiro, e em 2025, vocês celebram três décadas de carreira. Como vocês enxergam o legado da banda dentro da cena hardcore?
No início dos anos 2000, eu conheci a banda através de uns amigos e aquilo virou totalmente a minha cabeça. Digo com toda certeza que escutar bandas capixabas como Mukeka e Dead Fish contribuíram bastante na minha formação de caráter e visão de mundo. E eu acho que o legado mais importante é esse. São bandas que cumprem um papel que vai além de ouvir música e entrar num mosh, são agentes cruciais na modelagem do caráter, senso crítico e político duma rapaziada boa.
“Generais de Fralda” apresenta uma sonoridade mais pesada, com uma pegada mais suja e agressiva. Como foi trabalhar essa sonoridade em comparação com o disco anterior, “Boiada Suicida”, de 2022?
Era uma intenção da banda fazer um disco mais pesado que o anterior. São temas que trazem ódio e revolta e o som precisava fazer jus a esse sentimento. A gente procurou fazer riffs mais dissonantes… Na época do “Boiada”, as referências eram meio que Bad Religion, NOFX, FYP… No “Generais” as referências são mais Anti Cimex, Discharge, Disrupt, Los Crudos… A gente estava ouvindo muito as regravações do “Bestial Devastation” e “Morbid Vision” do Cavalera Conspiracy também, então acho que tem um ligeiro crossover com thrash também.
O disco tem uma forte carga social, como já é uma marca da banda, com letras que abordam injustiça social e desigualdade. Como vocês escolheram os temas abordados em “Generais de Fralda”?
O que mais tem hoje em dia é tema pra músicas do Mukeka di Rato, né? Fartura. No “Generais de Fralda”, a gente fala de milico, fala de terrorismo de estado, precarização do trabalho, indústria farmacêutica, indústria bélica, guerras, história do BR, história da nossa terra ES… desgraça pouca é bobagem. O Mukeka sempre abordou a miséria humana e a gente vive em tempos muito sombrios, então não faltou assunto.
Os dois primeiros singles do álbum têm uma carga emocional pesada e uma crítica incisiva. “Engenho de Sangue”, por exemplo, se inspira no livro “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro. Como surgiu a ideia de conectar a obra de Ribeiro à música de vocês? O que essa reflexão sobre a história do Brasil e suas desigualdades representa para a banda hoje?
Nesse livro, Ribeiro explica o Brasil, em toda sua construção como nação, o comparando com um moinho de moer gente. Essa alegoria foi a inspiração inicial dessa música. “Engenho de Sangue” conecta o passado tenebroso do escravismo e monocultura com a atualidade de um país que continua moendo gente, sem cessar. É um salve pra Darcy Ribeiro, Milton Santos, Gilberto Freire…
O álbum foi produzido por Rafael Ramos. Como foi a experiência de trabalhar novamente com ele? O que ele trouxe de novo para o som da banda?
O Rafa é desses caras que curte o Mukeka desde os primórdios. Ele produziu o Mukeka porque gosta muito. E, gostando muito, ele é um produtor que interfere muito pouco, quase nada, no processo criativo, sonoridade e arranjos. A gente compôs, ensaiou e estruturou tudo pra chegar lá no estúdio e meter bronca. De forma coletiva, a gente ajustava os timbres, escolhia os melhores takes e dava forma ao disco.
Ao longo desses 30 anos, o cenário do hardcore brasileiro passou por várias transformações. Como vocês percebem a cena atualmente? O hardcore ainda tem a mesma força de antigamente ou a ideia do que é o hardcore mudou com o tempo?
É natural que os cenários musicais tenham seus altos e baixos. O interessante no meio underground é que o público sempre foi muito fiel, então o meio nunca flopou. Mesmo quem começou a escutar outros estilos depois de ter passado pelo HC, ainda carrega o HC com muito carinho e de vez em quando revisita. E hoje, especificamente, acho que está rolando uma coisa muito massa que é o surgimento de novas bandas de HC e punk rock. Gente muito jovem abraçando o estilo e fazendo a cena se proliferar.
O uso das redes sociais sempre foi um ponto polêmico para várias bandas já que, cada vez mais, artistas tem que dedicar parte de seu tempo na produção de conteúdo. Como vocês lidam com essa exposição? Acham que ela ajuda ou atrapalha na construção de uma imagem e identidade musical?
Todos os membros da banda tem seus trabalhos paralelos e isso por vezes dificulta essa relação de produção intensiva que as plataformas desejam. O mais blogueiro do rolê é Mozine, claro, mas há tempos que o alcance orgânico não acontece mais. Os fãs do Mukeka di Rato têm um papel fundamental na divulgação da banda. Estão sempre marcando e fazendo alusão à banda, interagindo, engajando é isso ajuda muito. Ainda bem.
A abordagem crítica da realidade social está sempre presente na música do Mukeka. No contexto atual, com as crises políticas e sociais que o Brasil atravessa, qual o papel da música e da arte na luta por um mundo mais justo?
Música mexe com os afetos, com as emoções e isso move. Não dá pra acontecer a revolução sem arte e sem estética.
A palavra “ódio” foi escolhida para descrever a intensidade desse novo álbum. Qual a relação de Mukeka Di Rato com esse sentimento tão presente no álbum? Como vocês lidam com o ódio no contexto da arte e da crítica social? Ele é uma força destrutiva ou uma força necessária para transformar as coisas?
A gente tem a sorte de poder canalizar nosso ódio num disco. Acho que é um sentimento que dá força pra mover. Seja pra gritar contra e assim colaborar com a luta por mudanças, seja pra inspirar mentes revolucionárias…
Voltando a falar sobre longevidade após 30 anos de estrada, como vocês se veem daqui a alguns anos? O que ainda falta para Mukeka Di Rato alcançar, ou realizar, dentro da música e da cena hardcore?
Queremos continuar fazendo um som, do jeito que a gente gosta, mas também torcemos para que não tenhamos tantas fontes de inspiração como hoje.
Alguns pilares da banda são a relação próxima com público e a realização de apresentações viscerais. Como vocês veem essa relação de cumplicidade com quem acompanha a banda desde o começo, e também com as novas gerações que estão chegando agora?
Visceral mesmo. As vezes a gente literalmente sangra no palco…. cai do palco… Eu acho lindo poder contar com o auxílio luxuoso do público, com o palco e microfone sempre abertos naquela doidera toda. O show precisa dessa energia caótica pra soar como um show do Mukeka de verdade. Sempre que dá, a gente fica depois do show pra trocar uma ideia e tomar uma.
“Generais de Fralda” será lançado em LP, CD, fita cassete e streaming numa parceria da Deck com a Laja Records. Em tempos nos quais a maioria das bandas apostam no formato digital, o que os motiva o lançamento em formato físico?
Suponhamos a possibilidade de um apagão digital, uma pane em todos os sistemas de dados e internet. Num cenário desses, o teu vinil, K7 ou CD vai estar ali, bonitinho, pra você escutar… Sem contar que essa parte de pensar uma arte gráfica, em mandar um artista fazer uma xilogravura é também uma forma de valorizar artistas reais em tempos de IA, e totaliza o conjunto da obra.
Como vocês observam a cena do Espírito Santo ao longo dos anos? Mudou algo?
Vejo que a cena aqui está melhor do que estava há pouco tempo. Novas bandas aparecendo, como Ödiar, Limbo 7, Busco Esposa e Transada Violenta. Novos coletivos e espaços ocupados como Casa da Gruta, Caramelo Discos, Bar Old Skull… torcemos para que se multiplique!
Por fim, com disco novo na praça, quais são os planos futuros da banda?
Sobreviver diante dos problemas da vida e trabalhar pra dar um rolê bonito com o disco novo!

– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br.