No Bass No Love apresenta seu disco de estreia, “Reativo”, faixa a faixa

introdução de Fabio Machado
faixa a faixa por No Bass No Love

Muita coisa já passou por debaixo da ponte da música pop desde o século passado, mas há um elemento que talvez tenha passado por mais transformações que a própria guitarra: as frequências graves. Dos primórdios no baixo acústico e sua evolução elétrica com muito mais volume à disposição, passando pelos sintetizadores que ajudaram a moldar a música eletrônica até o batidão onipresente dos nossos dias – seja no rock, pop, pós-punk, funk ou dub, o que faz o público dançar e se mexer é o baixo, seja sintetizado ou não.

Que me desculpem as outras frequências, mas o grave é fundamental. A dupla Fernando Anastácio (baixo, sintetizadores, voz e programações) e Grazi Correa (voz, live DJ e sintetizadores) é partidária desse lema, haja visto o nome escolhido para o projeto – No Bass No Love – que acabou de lançar seu primeiro disco completo, “Reativo” (2026). A essência da música criada por Fernando e Grazi se mostra uma grande declaração de amor aos graves que moldaram alguns dos estilos de música citados no parágrafo acima.

Abraçando influências diversas, mas especialmente inspirados pela safra de pós-punk, indie e synthpop das últimas décadas, a dupla une refrãos assumidamente grudentos com baixo elétrico nervoso, synths climáticos e bateria eletrônica. Naturais de Hortolândia (SP), eles já são experientes no circuito independente do interior paulista e capital, tendo tocado recentemente na sexta edição do Circuito Nova Música em Americana com nomes como Máquina e Exclusive os Cabides.

Com letras que se revezam entre encontros cuidadosamente calculados com o contatinho da vez e reflexões mais sérias sobre vulnerabilidade, desconexão e ansiedade, o resultado é uma sonoridade onde o importante não é reinventar a roda, e sim fazer ela girar e quicar da melhor forma possível na pista de dança. Confira abaixo as considerações de Grazi e Fernando sobre cada uma das faixas que compõem o disco.

Ouça o disco na integra abaixo

01) “Fatboy” – Essa foi a última música que a gente compôs pro disco e, no fim das contas, todo o conceito visual foi criado a partir dela. “Fatboy” nasceu da vontade de explorar uma energia mais intensa e visceral. Muito antes de ter letra, ela já fazia parte do repertório, tocada como vinheta instrumental, porque o encaixe no set foi imediato, e a experiência no palco fez toda a diferença pra encontrar a temática. Ela aborda a experiência de lidar com a frustração e a importância de ser a sua própria força, que vai te conduzir e não te deixar desistir, mesmo quando tudo parece te empurrar e te fazer parar. O nome “Fatboy” começou como um apelido interno que acabou ficando, é uma homenagem às influências eletrônicas como Fatboy Slim e The Chemical Brothers, que moldaram a sonoridade e a força da faixa.


02) “Tá Todo Mundo Tentando” – Esta música carrega no título uma homenagem à newsletter da Gaía Passarelli, uma referência muito especial para mim (Fernando), que a acompanho desde os tempos do GOO na MTV. Com uma pegada forte do indie eletrônico, bebemos da fonte de Cut Copy e Hot Chip, sobrepondo camadas de sintetizadores para criar um clima nostálgico à la New Order. Sem dúvida, é a letra mais íntima e sensível que já escrevemos. Ela traduz aqueles períodos de tempestade emocional em que tudo parece não ter fim, mas que, no fundo, a gente sabe que vão passar. É um abraço nas nossas vulnerabilidades: um lembrete de que não há culpa em querer se recolher, ficar sozinho e digerir o mundo lá fora. No fim das contas, é uma música bonita sobre esperar por dias mais leves.


03) Até Você Chegar – Aqui, a gente traz uma história um pouco mais leve e divertida. É sobre aquela pessoa que faz o impossível para ser notada: descobre os lugares que ela frequenta e arma situações só para forjar encontros “espontâneos”. O objetivo final? Conseguir alguma interação e, quem sabe, engatar um envolvimento. Dá pra dizer que é uma mistura de Joy Division com LCD Soundsystem: sombria, mas impossível de ficar parado!


04) Autômato – Esta é uma faixa colorida, guiada por synths vibrantes. Quase um encontro entre o indie eletrônico do The Knife em “Heartbeats” e o synthpop do Depeche Mode em ‘Just Can’t Get Enough’. Liricamente, a inspiração vem dos autômatos: aqueles bonequinhos de madeira movidos a manivela, programados para repetir infinitamente o mesmo movimento. A nossa proposta, no entanto, é o exato oposto. É um convite para abandonar o piloto automático, fugir do caminho óbvio e ditar o seu próprio tempo. A música transmite uma atmosfera lúdica e nostálgica. Ela resgata uma inocência que o amadurecimento muitas vezes tenta proibir, como se fôssemos obrigados a nos anular para caber em um mundo cada vez mais monocromático.


05) Socialmente Um Desastre – A gente sempre teve uma queda por produções minimalistas e bem atmosféricas, e essa faixa é a prova viva disso. Ela já começa com uma intro longa e imersiva, que parece te inserir direto a um filme de ficção científica. Na letra, a gente fala sobre aquela sensação pesada de desconexão com quem convive com a gente. É sobre aceitar que nem todo dia estamos no nosso melhor, e que às vezes a saída mais honesta é dar um passo para trás e se recolher um pouco.


06) ALVO//INIMIGO – O tema aqui bate de frente com aquela sensação amarga de não receber o valor que a gente merece, seja no ciclo de amigos, no trabalho ou nas relações em que a gente acaba se sentindo subestimado. É sobre ter plena consciência de que somos muito mais do que as pessoas estão condicionadas a nos perceber. A gente questiona se ainda vale a pena insistir nesse tipo de relação ou se é hora de mudar de ambiente.


07) Tudo Ao Mesmo Tempo – Um amigo nosso descreveu essa música como um hino da Gen Z ansiosa, e é bem isso mesmo. A gente sempre acreditou muito nessa faixa, e ver a galera cantando junto nos shows pegou a gente muito de surpresa. Acreditamos que essa conexão vem do tema: a pressão absurda de ter que ser hiperprodutivo, criativo, saudável, estar sempre à disposição e ainda performar uma vida perfeita. É claro que essa conta não fecha e o resultado é o colapso, aquele momento em que a gente só precisa parar para respirar. É uma das faixas mais eletrônicas do disco e uma das mais legais de tocar ao vivo. O uso da repetição foi pensado para recriar essa ansiedade de tentar fazer mil coisas de uma só vez. Foi lançada como single em 2023 e ganhou o clipe abaixo.


08) Desequilíbrio – Aqui, o tema é aquele peso que a gente carrega quando percebe que tomou uma decisão errada. A letra é um lembrete de que, nessas horas difíceis, a gente precisa absorver a lição para não tropeçar de novo no mesmo lugar. Afinal, são os nossos erros que acabam moldando quem nós somos de verdade. No instrumental, a gente buscou bastante inspiração em bandas como o CHVRCHES: criamos um indie pop dramático, intenso e com uma vibe super emotiva e confessional.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. A foto que abre o texto é de Franco Torrezan

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