entrevista de Alexandre Lopes
Existem discos que parecem planejados, executados e maturados por meses. Outros simplesmente precisam acontecer, como se fossem um “expurgo”. “Tireoide” (2026), o décimo álbum de Renan Inquérito, é claramente do segundo tipo, como o próprio rapper paulista define. “Ele é assim porque é como uma poesia que você não consegue explicar, mas consegue sentir. Como um gol de bicicleta que não adianta fazer teoria, não adianta ser do time adversário. É bonito, é foda, é tocante e pronto, tá ligado?”
Lançado em abril, o disco nasceu a partir de um diagnóstico de câncer de tireoide no fim de 2024 e carrega uma urgência impossível de simular. Não é um álbum conceitual sobre a doença num sentido clássico, mas um registro feito durante o processo – entre consultas, exames, correrias, cirurgias e sessões de tratamento. Parte dele foi gravada antes dos procedimentos para retirada do tumor, no limite do que ainda podia ser dito; o restante veio depois, já na recuperação. O resultado segue essa cronologia emocional: do choque da diagnose à rotina brutal do tratamento, até um epílogo que não é somente uma cura, mas uma reconfiguração da própria continuidade.
Há momentos em que as letras soam diretas, quase sem filtro, como se a prioridade fosse registrar os sentimentos antes que fosse tarde. O medo maior não era só a morte, mas a possibilidade de perder a voz – instrumento central para um artista que também se enxerga como professor, poeta e comunicador. Isso atravessa o disco inteiro: cada verso carrega não só sentido, mas a urgência de expressar o que está sentindo.
Musicalmente, a produção de Pop Black ancora o trabalho no boombap, como um esqueleto para estabilidade. Beats, samples e batidas secas sustentam o peso das letras enquanto abrem espaço para variações de textura e participações orgânicas de convidados como Vih Mendes, Wesley Camilo, Dow Raíz e Lino Krizz. Esses feats aparecem de forma pontual nos refrões; as estrofes permanecem íntimas, cantadas por Renan. O centro de tudo é a experiência do autor e tudo ao redor orbita isso sem disputar atenção.
E essa lógica se reflete nas faixas. Em “Elis Não Sabe Nada”, dedicada à filha, a vulnerabilidade aparece sem tentativa de suavização. Já no final, “Witória com W” funciona como um fechamento que afirma que ainda há voz, ainda há um caminho. Se o rap de Renan sempre foi marcado por sua leitura social do mundo, aqui o movimento se inverte; o corpo vira o território e a doença vira linguagem para expressar suas frustrações. “Tireoide” não apresenta a experiência em uma narrativa confortável nem oferece redenção fácil, pois o que mais aparece é o medo, o desgaste e a incerteza, mas também a insistência em seguir.
No fim, “Tireoide” funciona menos como um relato genérico de superação e mais como registro de alguém que, diante da possibilidade de desaparecer, escolheu falar tudo o que podia e conseguiu transformar esse impulso em um dos trabalhos mais diretos e honestos de sua trajetória.
Em um papo no início de abril com o Scream & Yell, Renan explicou a história relatada no disco em detalhes e revelou que o álbum ainda deve ganhar desdobramentos: um lançamento em vinil, um livro em fase final de preparação e uma turnê que começa em maio – mês de conscientização sobre doenças da tireoide – com um show de estreia no Sesc Santo Amaro (SP) em 2 de maio. Confira a conversa abaixo.
Renan, parabéns pelo disco, ele está muito massa. Ele tem uma temática e letras pesadas, mas acho que você soube equilibrar isso com um instrumental que ao mesmo tempo é muito rico, mas de fácil assimilação.
Obrigado, meu amigo. Só queria dizer que acho que esse disco é visceral, cirúrgico. Um expurgo, para usar uma palavra meio hospitalar. Ele é tudo isso, mas também é terapêutico. Traz alguma coisa que é meio curativa assim. Então é louco falar isso porque parece um bagulho meio messiânico da minha parte, mas não é, cara. Eu acho que ele tem isso porque ele é verdadeiro, mano. Ele não foi pensado, arquitetado para ser assim. Ele é assim porque é como uma poesia que você não consegue explicar, mas consegue sentir. Como um gol de bicicleta que não adianta fazer teoria, não adianta ser do time adversário. É bonito, é foda, é tocante e pronto, tá ligado?
É bem isso mesmo; é um disco forte, mas também muito bonito, bem produzido…
É louco porque esse disco foi produzido pelo Pop Black, que é o meu parceiro de mais de 20 anos. Só que o Pop Black é MC, back vocal, um mano que cantava na igreja. E por conta da questão da negritude, ele conheceu o hip hop. Não se encaixou na igreja porque grande parte dos evangélicos ignora essa questão dos negros e da sua musicalidade. E o hip hop abraçou ele, e eu abracei também. Eu vi ele enveredar pro lado da produção do zero, cara. Fui eu que ajudei a comprar o primeiro computador, o primeiro teclado. E aí quando chegou nesse momento da minha doença e decidi fazer músicas, eu falei: “Eu não posso dividir isso com uma pessoa que não tenho intimidade”. Desde o início decidi não publicizar a doença, só divulguei depois que eu já estava curado. E tinha que ser com ele, cara. Ele falou: “Renan, mas você quer que eu produza um disco inteiro?” Porque ele produziu coisas esporádicas. E falei: “Chegou a hora, já faz 16 anos que você faz as coisas e a gente tem que encarar essa parada junto, mano. Eu quero que você encare comigo. Irmão, tem que ser você”. E aí ele me ajudou, começou a mandar coisas que jamais achei que daria para falar sobre esse assunto naqueles instrumentais. Ele falou: “Renan, eu tenho que mandar coisas diferentes para você, senão o disco vai ficar todo igual”. E aí quando fui vendo, isso me ajudou a escrever sobre um tema tão pesado de várias perspectivas diferentes.
Como foi que você descobriu que estava com o câncer e começou a escrever as canções?
Olha que doido: eu lancei um disco de hip hop para crianças, que é o “ABRAKBÇA“, em 2023. Só que fiquei trabalhando nele a pandemia toda. Fiquei três anos trabalhando num disco para crianças, depois lancei ele e fiz mais de 60 shows. Então fiquei de 2020 até 2025 só focado num projeto para crianças. Então fazia cinco anos que eu não lançava nada do Inquérito. E aí o Pop estava monstro nos beats, evoluindo e vivia me mandando beat. Um dia peguei um beat dele e falei: “Esse aqui é muito bom, tenho que escrever alguma coisa. E esse beat é pra gente grande, não é para criança não”. Escrevi uma música chamada “Papo de Futuro”. Inclusive falo muito do Pop nessa música: “Salve, meu mano Pop Black, aposto nos seus beats mais que bet”. Eu declaro meu amor aos beats dele nessa música. Mas como descobri o câncer: eu fui fazer a barba e o barbeiro falou: “Cara, você está com um caroço grande aqui”. E aí eu virei o pescoço e vi, porque quando eu olhava de frente não aparecia. Mas quando eu fazia assim, ó, ele saltava. Então, dependendo da posição do meu pescoço, o caroço não era visível. Como eu estava deitado na cadeira do barbeiro, ele estava com a visão voltada para o meu pescoço, com uma vista privilegiada, daí ele viu. Então voltei para casa super encanado, mas no outro dia de manhã eu tinha que gravar um clipe. Já era tarde e não dava para ir no hospital. Daí a gente gravou o clipe embaixo de chuva o dia inteiro em São Paulo, eu cheguei em casa à noite, tomei um banho e fui no hospital. E o cara já falou: “Cara, é um cisto muito grande, vamos fazer um exame”. Aí já deu que era tumor, “vamos fazer biópsia”, “é maligno” e já foi, tá ligado? Tudo muito rápido. E aí nesse período, eu estava fazendo essa música com o Pop, uma música com o [Rodrigo] Ogi e outra música com a Malena [D’Alessio], que é uma rapper da Argentina. No primeiro momento pensei em juntar essas músicas todas, mas depois falei: “Não tem nada a ver”. Então tenho músicas que não entraram nesse disco, que não estão prontas, mas estão em fase de construção e que com certeza vão virar singles futuramente.
Quando você começou o disco, tinha consciência que estava fazendo um álbum conceitual sobre o que passou?
Nada, nada, nada. Porque foi assim, ó: o disco começa a surgir como uma resposta. Por exemplo, quando alguém recebe um diagnóstico de um câncer maligno com metástase, como eu recebi, a perspectiva [de vida] é muito pequena. Eu tive o privilégio de não ser num órgão tão vital como intestino ou estômago. Foi na tireoide. Mas era um câncer raro, maligno, com metástase. Então a minha primeira reação foi: “Minha filha tem 3 anos. Eu não lembro de nada do meu pai, de quando eu tinha 3 anos. Ela não vai lembrar de nada”. Isso para mim foi apavorador. E falei: “preciso escrever algo para ela ouvir um dia e lembrar que, apesar de eu ter vivido só três anos ao lado dela, a gente fez muita coisa”. A gente foi pra praia, ia no parquinho, levava ela na escola, a gente ia tomar sorvete. “Mano, eu tenho que pôr isso no papel”. Nunca ninguém da minha família teve câncer, então eu não sabia nem lidar com isso. A primeira letra que escrevi foi para lidar com isso, certo? Depois as outras duas vieram no sentido dos medos que eu tinha na cirurgia, porque o médico sempre me alertou que tinha o risco de perder a voz, porque o câncer estava numa região do pescoço muito perto das cordas vocais. Então, na hora da remoção dos tumores, poderíamos danificar as cordas vocais. Isso era um risco iminente desde o primeiro dia de consulta. Como eu tinha medo de ficar sem voz, acelerei para gravar o máximo de música antes da cirurgia. Mas consegui gravar só três, porque as outras nem sequer existiam ainda. Falei “eu vou gravar essas três, porque se eu ficar sem voz é o máximo que eu consigo”. Então fui pra cirurgia em junho só com três músicas gravadas. E de junho até dezembro eu fiz o resto das músicas. E aí que começou a tomar forma, porque comecei a olhar e falei: “Bom, já fiz quatro, tá? Já falei sobre isso, isso e isso, como eu posso falar agora?” Aí o Pop me mandou um beat super animado e falei: “Cara, e se eu falar do dia que eu tive alta, como é que vai ser?” Aí ele mandou um outro beat meio sentimental. Falei: “Cara, vou falar aqui de como eu tinha medo de perder a voz”. Aí quando eu vi foi tudo saindo, saca?
Mas quanto tempo foi de maturação desse disco?
Ó, eu descobri o meu câncer em outubro de 2024 e aí fiz a primeira música, que é para a minha filha, “Elis Não Sabe Nada”. Só que eu achava a música muito triste e falei: “Não quero seguir com isso, já que tô optando que não vou contar para ninguém, não vou fazer uma música sobre isso.” O disco foi tomar forma próximo da minha cirurgia, em junho. Porque aí eu tinha uma perspectiva de cura e me animei. E no período de recuperação, como eu tive que ficar de molho, foi quando o disco cresceu, porque fiquei muito tempo parado, muito tempo escrevendo. Então, vamos dizer assim: o disco começa lá quando ganho o diagnóstico, só que decola a partir do período final do tratamento e da cirurgia. Se você for ver, o disco segue a cronologia da doença: ele é mais triste no começo, porque é o período do diagnóstico. É um período sem esperança, triste. Aí vem o período do tratamento, que é de se levantar contra a doença, de luta pela vida, de correria. Vai no médico, faz exame, vai atrás do remédio, briga com convênio, fica na fila do SUS. dorme no hospital de madrugada, briga por um exame. E aí, esse período é o maior, o que mais tem música e depois vem o da cura, que assim como o diagnóstico, é um lance curto que durou só três músicas. Então o miolo do disco é o tratamento, a maior parte. Aí você vai me falar “por que que a cura durou só três músicas?” Porque o que aconteceu foi o seguinte, mano. Eu falei: “eu quero terminar esse disco numa música que fale de cura, porque é essa a imagem que eu quero deixar. Eu não quero terminar o disco na bad. Independente do que for acontecer, o ponto final vai ser na cura”. Quase que numa utopia, como se isso pudesse realmente influenciar na cura, saca? Do ponto de vista, talvez, da fé, da espiritualidade, da intuição, da esperança, eu vou acabar falando de cura para que a doença não volte mais. Tá ligado? Na minha cabeça, quando esse disco finaliza, a doença também se finaliza. Na minha cabeça, foi importante concretizar para fechar o ciclo, para terminar a travessia. Eu não gostaria de fazer um outro disco sobre isso, porque não é algo feito sob encomenda. É um disco de um processo doloroso. Não fiz terapia durante a doença, a não ser a quimioterapia, mas a minha terapia, o meu tratamento foi a produção do disco. Entre sessões de quimioterapia e de estúdio. Pode parecer uma metáfora, algo meio romântico, meio utópico. Eu também sei que é, mas no fim cada um tem uma fé. Não sou um cara religioso hoje, mas me apeguei nisso. Isso foi a minha obsessão. Eu dormi, acordei e eu só lembrava que estava doente quando ia no médico, quando eu tinha que fazer exame. Cara, eu não dei nem bença. Fiquei dando ibope pro disco, pras letras. Me apeguei nisso para tentar esquecer, para tentar ignorar mesmo.
Acho que entendo você abraçar o tema no disco e depois querer se afastar dele, porque é como se você falasse “eu já superei isso, agora vamos falar de outras coisas”, né?
Sim! E também, olha que louco. Quando eu estava fazendo o final do disco, eu estava vivendo. Quando fui gravar o clipe das primeiras músicas, eu não estava mais naquele clima. Foi até difícil entrar no clima, porque era muito fúnebre, muito bad. Um clima que eu já tinha passado. E demorei para entender que era necessário que esse clima estivesse no disco, que eu não podia apagá-lo. Mas também relutei muito em reviver esses climas, porque eu não estava mais naquilo, cara. Tipo, não foi nada de atuação, foi vivenciado na pele. Então hoje eu não tenho como fazer uma música daquele jeito, porque eu não tenho um diagnóstico de um câncer maligno sem perspectiva de cura, que eu vou morrer daqui uns dias, que minha filha vai crescer sem pai. Aquilo naquele momento ecoou na minha cabeça, hoje não. Passei por cirurgias, fiz a quimio, fui acompanhado por um monte de médicos, já entendo muito mais da minha doença, perspectivas do que ela tem, o que ela me traz. Então, a minha mente dificilmente retorna naquela sensação. Por isso foi importante registrar naquele período.
Como você falou, existia o risco de afetar a sua voz e não voltar a cantar. Como você lidou com isso, com a possibilidade de não mais se apresentar ao vivo?
Era o meu maior medo. Eu vou falar que eu tinha mais medo disso do que de morrer. Porque eu pensava assim “morreu, mano, morreu”. Ficar vivo sem poder falar… Não precisava nem cantar, mano, mas sem poder falar… Cara, eu lembro que um médico que eu fui falou: “Ah, Renan, mas aí você ressignifica sua vida” e tal, meio good vibe. E eu estava puto, e falei: “Ressignifica você, mano! Eu não tenho como. Eu sou professor, poeta e cantor, cara. Fodeu, mano. Não sei como vai ser,”. Era o meu maior medo, cara. Tanto que tenho uma música no disco chamada “Relevo da Voz” que só fala sobre isso. Eu falo assim: “Dentro do meu eu, vários nós, mó medo de perder a voz, mas eu me inspirei nas águas do Tapajós e vi que a rima é o rio, o rap é a foz”. Então o lance da voz pegava muito. Toda vez que ficava pensando nisso, eu ficava muito triste, muito bad. E percebia que precisava parar de pensar, porque senão ia prejudicar o meu tratamento, minha recuperação e tudo que eu precisava atravessar. Então tentei não pensar, mas por exemplo, quando acordei das cirurgias, a primeira coisa que eu fazia era tentar usar minha voz. “Oi, alguém está me ouvindo? Tô falando, alô, câmbio, testando”. Tá ligado, mano?
É, é a sua principal ferramenta de expressão também, né?
É isso: é expressão, mano. Nem estou falando de trabalho. Estou falando de um cara que é comunicador, que fala, Para mim seria muito difícil.

Voltando ao disco: o que você acha que o Pop Black trouxe para a sonoridade desse álbum?
Ó, mano, ele é um produtor de rap, né? Tem produtores que produzem vários tipos de música. Não que ele não seja capaz, mas a trajetória dele é produção de rap. Ninguém vai chamar ele para fazer disco de sertanejo ou de pagode. Então quando o chamei, já sabia que ia ser um disco rapzão, boombap raiz. Eu já sabia porque é o estilo dele e tudo bem. Só que aí no meio do caminho, como a gente conhece muita gente e muitos músicos quiseram ajudar, a gente começou a colocar participações. Então a gente fez algo que já havia feito em outros discos, que é misturar as batidas eletrônicas sequenciadas com instrumentos orgânicos e acústicos. Então o disco tem muito sopro, flauta, saxofone, trompete, trombone, percussão, teclado. Isso foi se somando depois àqueles beats do Pop Black, e isso deu uma grandeza. Valorizaram ainda mais os beats. Então aquilo que no começo ia ser quase que artesanal, ficou glorioso. Tanto que nós mixamos o disco em Los Angeles. Quando o João pegou o disco para mixar, ele falou: “Cara, em que estúdio vocês fizeram?” Nós falamos: “Cara, na sala da casa do Pop”. A gente só gravou voz num estúdio profissional, mas tudo foi feito em home studio, que é na sala da casa dele. Até nós ficamos surpresos. Eu acho que essa qualidade tem a ver com a sintonia que eu tenho com ele e com o esmero que eu tenho e que ele foi obrigado a ter pela responsa que joguei no colo dele. E isso é o resultado do disco.
Dá pra sacar que deu muito certo essa química entre vocês. Queria saber também sobre as participações dos músicos. Tem Vih Mendes, Wesley Camilo, Dow Raíz e Lino Krizz. Como surgiram esses feats?
Quando a gente começou a fazer o disco, comecei a perceber que por falar do câncer, não tinha que ter nenhum feat rapeando comigo, rimando, porque todas as letras eram muito pessoais. Você pode ver que todos os feats são nos refrões, porque as estrofes são todas muito pessoais, muito intrínsecas ao meu eu, ao meu problema, ao meu atravessamento. E essas são pessoas que a gente admira, somos fã e algumas delas a gente tem a sorte, o privilégio de ter no nosso hall de amigos em outros projetos. Por exemplo, o Wesley Camilo, ele é o produtor do “ABRAKBÇA”, que é o meu projeto para crianças. Então a gente tem uma proximidade muito grande. Hoje ele é o maior Talk Box do Brasil, eu acho que ele executa como ninguém. E o Talk Box não é um instrumento comum, não é qualquer pessoa que faz, é toda uma técnica e tal. Ele é um tecladista monstro e apaixonado pelo Talk Box. Ele veio para tocar e acabou editando duas músicas porque o Pop estava sobrecarregado. Ele falou: “Dá aqui essas duas que eu vou editar”. É um trampo braçal mecânico e chato, mas ele fez para ajudar. O Lino Krizz eu sou fã há muito tempo. Na carreira solo dele, ele como Os Metralhas com o irmão dele, ele com Racionais, ele com DJ Hum no Motirô, Lino Crizz & Gueto Jam… Enfim, sou fã do Lino e imaginei ele cantando essa música desde o dia que eu fiz. E aí foi todo um processo, porque eu não tinha proximidade com ele. Quem me ajudou foi o Dexter; um dia eu estava com ele, que ligou pro Lino e a gente conversou. Ele foi muito gentil; gravou, fez tudo e mandou para nós porque ele estava na correria. Agora a Vih Mendes, cara, é uma revelação da música preta brasileira. Ela já foi finalista do [reality show] Ídolos, é uma menina de 22 anos que cola aqui no sarau que eu faço, a Parada Poética. E aí, olha que louco, ela veio primeiro participar da turnê do “ABRAKBÇA” e aí agora nesse disco fez todos os backing vocals. Ela participa como feat, mas toda música que tem um back vocal tem ela. Então ela é uma grande parceira e amiga. Sobre o Dow Raíz, a gente queria alguém com uma voz de reggae de rasta, e aí convidamos. Ele também tinha participado do nosso show “Corpo e Alma” no passado, então a gente estava próximo. E tem uma música que é uma batalha [“Batalha de Sangue”] e a gente quis gravar essa música ao vivo. E aí eu chamei o Bob 13 da Batalha da Aldeia e o Ikki019, que é o apresentador da Batalha do Cálice, que foi onde a gente gravou. Eu juntei esses dois mais o público da batalha num dia normal. Levamos o nosso engenheiro de áudio que é o Mário Porto e ele microfonou a batalha. A gente avisou a galera que era uma gravação, mas que a gente queria fazer num take só, porque eu não queria perder a naturalidade.
Se alguém que está passando por um diagnóstico parecido ouvir esse disco, o que você gostaria que essa pessoa sentisse?
Meu mano, eu fiz esse álbum pensando em me curar. Eu nem pensava num terceiro [indivíduo]. Quando olho para trás, nunca fiz nenhuma letra que fosse para alguém que não fosse eu. E já são mais de 130 letras. Quando encontro as pessoas na rua, elas falam: “Cara, você contou a minha história”, “cara, serviu para mim”. E vejo como nós somos singulares, mas também somos plurais; como nós somos particulares, mas universais. Como periferia é periferia em qualquer lugar. Como dificuldade é dificuldade em qualquer lugar. Então já tenho esses feedbacks de pessoas que estão usando as músicas nesse sentido e fico muito feliz. Eu fico lisonjeado, agradecido e com vontade de não parar de fazer música. Porque no fim eu faço música para me curar, mas acabo curando outras pessoas. Acho que o cara que está tocando um saxofone lá no alto de um prédio, ensaiando dentro do seu apartamento, sem saber, ele está sendo trilha sonora na vida de outras pessoas que estão ouvindo de tabela e que precisavam ouvir uma melodia naquele momento. É muito da hora. É a coisa talvez mais maravilhosa da arte, que é ser mensageiro de algo que você não tem ideia de que está lá no telegrama. Essa é a beleza da arte, da música. E o quanto você pode dar força para outra pessoa contando o que passou também, isso é muito foda, cara.
Você pensa em estender essa obra para outros desdobramentos, seja musical ou não?
Sim, cara! Vou te contar: nós mandamos o vinil pra fábrica ontem. O vinil vai sair daqui 60 dias e eu ia lançar junto com o disco o livro “Tireoide”. Só não lancei porque não tive pernas para terminar a diagramação a tempo, mas agora ele está pronto. Basicamente vou fazer o que eu fiz nos meus livros anteriores, que é pegar pontos fortes das letras e reorganizar no papel, tanto do ponto de vista da ordem cronológica, quanto do ponto de vista espacial. Sou um poeta concreto, então vou brincar com a concretude no papel. E outra coisa que me fez recuar também foi poder elaborar um pouco mais o design, a diagramação do livro. E também porque estou na dúvida se o livro chama-se “Tireoide” ou “Metamorfose”, com a palavra “amor” em destaque, “meta-amor-fose”. Que é o lance da das três fases da lagarta, da borboleta. Estou até pensando, porque na cenografia a gente usou essas imagens das fases da borboleta. Estou pensando em criar uma subdivisão dentro do livro, como se a fase lagarta fosse o período em que eu me arrastava, o período do diagnóstico; a fase casulo, quando me tranquei no estúdio no meu quarto, fui escrever, fui criar; e a fase borboleta quando taí o disco, né? Então estou pensando nisso, mas no máximo vai sair junto com o vinil, daqui dois meses.
Saindo um pouco do “Tireoide”, sei que você é formado em Geografia pela Unicamp, mestre pela mesma universidade e doutor pela Unesp. Vou te fazer a mesma pergunta que fiz para a Sophia Chablau, pois ela também se formou em Geografia e deu aulas: você acha que ter estudado Geografia, ter lecionado, tem a ver com a sua arte, com suas letras?
Olha que doido, mano. No começo eu relutava em assumir isso, sabe? Porque achava que não tinha nada a ver e tal, porque entrei velho na universidade, eu tinha 22 anos e eu já fazia rap há 10 quase. Mas, pô, hoje, mais maduro, é inegável. Não tem como não dizer; eu fiquei 12 anos dentro de uma universidade estudando ciências humanas. Eu tive aula com sociólogos, historiadores, antropólogos e cientistas políticos. Cara, isso me deu uma bagagem e com certeza fez eu me apaixonar ainda mais pelo ofício do rap crítico social. Do rap consciente, vamos dizer assim. Eu já vinha dessa linha, mas acho que refinou muito mais. Agora, na questão de dar aula, eu não aprendi na universidade. A gente aprende a dar aula na sala de aula, né? E sobretudo na sala de aula não formal, que é na Fundação Casa, no CRAS [Centro de Referência de Assistência Social], no CREAS [Centro de Referência Especializado de Assistência Social], no CAPS [Centros de Atenção Psicossocial], ou seja, dando aula para pessoas em vulnerabilidade, para uma turma que tem pessoas de diferentes idades, de diferentes níveis de escolaridade, saca? Gente que está ali porque foi obrigado. Aprendi a dar aula “apagando incêndio”. Tem várias coisas que faço que dão certo, que as pessoas até falam que é uma metodologia, mas foi um incêndio que eu consegui apagar, mano. Mas para esse que eu apaguei, teve outros 10 que morreu todo mundo queimado, que não consegui apagar. Metodologia é um nome bonito para algo que dá certo um dia e é replicado por outras pessoas. Mas antes de dar certo, deu ruim para caramba. E várias pessoas ficaram no meio do caminho e não insistiram até dar certo. E algumas insistiram, insistiram e um dia deu certo. E aí chamaram, batizaram, deram uma roupa bonita chamada “metodologia”. Por trás de toda a metodologia, tem muito fracasso, muita frustração, muita derrota, muito tombo.
Sim. E pode ter metodologia, mas cada ser humano tem nuances diferentes. O que pode dar certo para um pessoal numa classe, não necessariamente pode dar certo para outras classes ou escolas, né?
Cara, quando você falou da geografia, eu lembrei de uma parada. Sou da zona norte de São Paulo, do Jardim Peri. A gente andava horas de ônibus para ir até o centro da cidade. E a minha avó, os meus tios, meus pais sempre falaram: “Hoje nós vamos pra cidade”, como se morássemos em um sítio. Morávamos na periferia, mas nem sabia o que era essa palavra, meus familiares nunca usaram. A gente usava palavras mais genéricas, menos técnicas, como “favela”. Morávamos nas bordas, na periferia da cidade, mas eu não sabia de nada disso. Mas é uma coisa que nunca saiu da minha cabeça: “vamos pra cidade”. Depois, mais tarde, estudando geografia e sobretudo Milton Santos, entendi que minha família não se sentia parte da cidade. Não só pela distância que ela estava do centro, mas pela distância que ela estava dos equipamentos e serviços que a cidade oferecia. E não era só distância geográfica, era também distância social. E aí quando o metrô chega no Tucuruvi, a gente fica um pouco mais próximo da cidade. Pega um ônibus, vai até o Tucuruvi e tem acesso ao metrô, que é um grande símbolo da modernidade. E aí o Milton falava que existe uma desigualdade social, mas também uma desigualdade espacial. Se você olhar para São Paulo, por exemplo, você tem uma expectativa de vida que diminui à medida que você vai pra periferia. E a expectativa de vida no [bairro dos] Jardins chega a 86 anos. A expectativa de vida na periferia é 70, 72. À medida que você se afasta do centro também diminui a qualidade e a expectativa de vida. Fui linkando aquilo que aprendi com a geografia, com tudo que cresci vendo. Quando o governo começa a usar a palavra “periferia”, ele usa de forma técnica, começa a aparecer em documentos públicos na década de 70, como um lugar longe, pobre, desassistido, precário e violento. E quando a classe artística, antes do hip hop, no samba, no teatro e outros movimentos culturais populares, começam a usar o termo “periferia”, não é no sentido depreciativo, mas de se apropriar dele de forma orgulhosa. “Eu sou da periferia, somos da periferia. Somos fortes porque temos que vencer duas vezes para estar aqui. Não temos acesso, temos que andar para estudar, temos que andar para se apresentar”. Então, olha que louco; a classe artística se apropria do termo periferia para se empoderar. Então foi a classe artística que fez o termo “periferia” ser sinônimo de potência e de resistência. Hoje em dia é slogan da Globo, né? “Favela não é carência, é potência”. A gente nem usava a palavra potência, mas a gente já pensava o termo como uma potência. A gente usava a camiseta escrito “100% periferia”, tá ligado? A gente tinha orgulho daquilo, não esvaziava o sentido, a gente só preenchia, né? E eu primeiro conheci o termo através do rap, das letras do GOG e do Racionais. Periferia é periferia em qualquer lugar. Quando comecei a andar pelo Brasil, vi que independente da quebrada, do CEP, do DDD, do sotaque ou da gíria, era tudo periferi. Então o rap e a geografia se encontraram nesse meio do caminho aí.
Você ainda dá aulas?
Eu parei de dar aula em 2023, de maneira formal. O último lugar que lecionei foi na UFABC [Universidade Federal do ABC]. Na verdade, eu já tinha parado de dar aula em 2015. E eu só voltei por conta da pandemia. Fiquei sem trampo, aí fui procurar aula. E na pandemia eu fui pai também. Aí voltei dar aula por isso. Quando a pandemia acabou, os bagulho começou a milhão, já não deu mais para dar aula.
E quais são os próximos passos além do lançamento em vinil e do livro? Tem shows, turnê, algum festival?
Próximos passos: vinil, livro e turnê já no forno. Por quê? O show está pronto. Já está pronto o figurino, a cenografia, o repertório, tudo. Mapa de luz, som, banda, tudo ensaiado. Nós já temos alguns shows marcados e estamos tentando aumentar o número de datas, mas por enquanto o que posso confirmar é o lançamento em São Paulo no dia 2 de maio no Sesc Santo Amaro e no dia 16 de maio no Centro de Convivência Campinas. Tem dia 22 de maio no Sesc Santo André e 12 de junho em Piracicaba. E aí tem outros que ainda estão em negociação, mas nossa ideia é ter uma turnê de pelo menos uns 10 shows desse disco. Tem dois clipes prontos: da música “Elis Não Sabe Nada” e depois da música “Batalha de Sangue”, que a gente gravou ao vivo na batalha. E assim, os shows se concentraram em maio por conta de ser o mês da tireoide, porque na verdade a gente ainda não conseguiu fechar nada nesse sentido, mas a gente também quer fazer ações que extrapolem apresentações musicais. A gente quer fazer um bagulho junto com uma galera da faculdade de medicina, com a associação da tireoide. A gente quer ir num congresso de tireoide. A gente quer entrar com a nossa arte nesse meio também e dialogar.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br. A foto que abre o texto é de Rafael Berezinski.
