Os 40 anos do álbum “Piano Bar”: a consolidação de Charly García como lenda

texto de Davi Caro

Imagine só: um músico, do alto de sua popularidade massiva, adentra um estúdio ao lado de uma banda mais do que competente, com o objetivo de registrar, ao vivo e com a menor quantidade de regravações ou adições possíveis, um repertório pré-selecionado, ainda que se mostre disposto a realizar quaisquer mudanças, por mais radicais que sejam, no intuito de preservar a espontaneidade de seu material e, em segundo plano, desafiar sua (já grande) audiência a embarcar numa viagem repleta de surpresas, imprevisibilidade e, claro, muita música. Se tal descrição não guarda qualquer inovação é porque a ideia de um estúdio como local para gravações “orgânicas” parecer ter permanecido no passado: num mundo onde produções musicais se escoram no esmero extremo que beira a artificialidade, mesmo uma figura com tamanho desprendimento não seria capaz de sacudir as estruturas da indústria e do grande público. Prezar por espontaneidade, surpresas e imprevisibilidade se mostra, afinal, tão ultrapassado quanto qualquer outra tendência esquecida.

Nenhuma das três características listadas acima jamais fez falta a Charly García. Em 1984, o cantor, compositor e pianista argentino já era uma figura cercada de mito e capaz de suscitar atenção e aclamação generalizada por todo seu país natal e também na América Latina em geral. Ex-integrante de algumas das mais antológicas bandas já originadas no continente – o duo Sui Generis, do qual fez parte entre 1969 e 1975; o projeto La Máquina de Hacer Pájaros, com o qual permaneceu entre 1976 e 1977; e o supergrupo Serú Giran, que iniciaria suas atividades no mesmo 1977 e que perduraria até 1982 – o portenho nascido Carlos Alberto García Moreno já havia deixado de lado a ideia de integrar mais uma agremiação de músicos, preferindo se lançar em um vôo solo que, então, já reunia dois álbuns, hoje em dia tomados como clássicos: o soturno e (às vezes) apocalíptico “Yendo de La Cama Al Living” (1982) e o revolucionário e dançante (mesmo que reflexivo e resignado) “Clics Modernos” (1983).

Charly Garcia na turnê de “Piano Bar”

Não fazer parte de uma banda, porém, não era proibitivo da ideia de se reunir com outros músicos, a fim de capturar aquele tipo de energia que somente o agrupamento de instrumentistas dispostos é capaz de trazer. Assim, na metade do profético ano de 1984, García adentrou os estúdios ION, em Buenos Aires, visando documentar suas mais novas composições. “Piano Bar”, o álbum resultante, solidificaria seu já conhecido nome junto aos maiores de seu país, e consolidaria uma das carreiras mais míticas do continente sul-americano.

Não deixa de ser irônico, portanto, que o estopim para o que se tornaria seu novo disco tivesse tomado forma bem longe da América Latina. Durante as gravações do álbum anterior, Charly havia se mudado para Nova York, onde gravou as canções com um número relativamente reduzido de músicos – entre os quais o exímio baixista e antigo parceiro de Serú Giran, Pedro Aznar – sob a tutela do produtor estadunidense Joe Blaney. As novas canções, em seu futurismo e polidez sonoras, acabaram por trazer questionamentos sobre um pretenso distanciamento ideológico entre o cantor e seu país, então imerso em euforia coletiva em meio à redemocratização pós-Guerra das Malvinas. Em seu esforço de deixar sua terra natal, ainda que temporariamente, muitos entenderam a atitude de García como alienada, mesmo que a realidade não pudesse ser mais diferente (uma simples audição da belíssima “Los Dinossaurios” é capaz de calar qualquer discordância neste ponto).

Somente após retornar à capital argentina, Charly se pôs em busca de músicos que o acompanhariam em sua iminente turnê. Recrutando os membros da banda G.I.T. (o guitarrista Pablo Guyot, o baterista Willy Iturri e o baixista Alfredo Toth), os experts Gonzalo Palacios e Daniel Melingo para o saxofone, a cantora Fabiana Cantilo e um jovem Fito Páez nos teclados, o músico não só tinha em mãos uma das mais talentosas bandas a acompanharem-no, como também posicionava as principais peças que levariam à “Piano Bar”: à exceção de Palacios, todos seriam participantes ativos no processo de gravação do novo trabalho (trechos dos ensaios foram recriados na série “Amor e Música: Fito Páez”) – o vídeo abaixo (oficial) registra 30 minutos crus de oito faixas do álbum.

Já a alegada “alienação” acusada por alguns seria endereçada logo de cara, na furiosa “Demoliendo Hoteles”. Mirando diretamente nos fascistas que governaram seu país por quase uma década e nomeando o ex-presidente Jorge Rafael Videla, Charly prova o equívoco de todos que o julgavam não ter mais o que dizer. Mais do que uma declaração de guerra contra uma pretensa postura apolítica, a canção funcionava como um realinhamento do artista com sua faceta mais combativa, além de ajudar a re-contextualizar sua trajetória junto ao fervor de novas bandas e artistas que surgiam a seu redor e que, invariavelmente, tinham em García uma figura de liderança e influência inegáveis.

Esta nova geração de músicos a surgir junto com a democracia, inclusive, é inspiração direta para outro dos mais marcantes cortes do disco. “Raros Peinados Nuevos” mostra o compositor como observador admirado, fascinado com as possibilidades que já se mostravam realidade à época – tudo com uma certa dose de ironia, claro. Por falar em ironia, aliás, uma das histórias mais insólitas geradas pelas gravações ao vivo tem a ver com “No Se Va A Llamar Mi Amor”, que, para além de seus empolgantes backing vocals, originalmente se chamaria simplesmente “Mi Amor”, mas precisou ter seu título alterado após descobrir-se que já havia uma canção registrada com este mesmo nome. Em prol da preservação do que de mais orgânico havia nas novas canções, claro que Charly não iria tão longe a ponto de deixar uma de suas mais marcantes composições novas de fora.

No entanto, foi exatamente isto que aconteceria com uma de suas peças mais reverenciadas e imortais. “Piano Bar” originalmente iria conter uma regravação ao vivo de “Canción Para Mi Muerte”, faixa de abertura do célebre primeiro álbum do Sui Generis, “Vida” (1972). No entanto, às vésperas das mixagens, o cantor decidiria pela substituição da faixa por uma nova música, “Rap Del Exilio” – canção na qual divide a autoria com os músicos de sua banda, e uma das duas únicas composições no novo disco a não ter García como autor solo. “Canción Para Mi Muerte” seria, eventualmente, adicionada aos relançamentos do álbum como faixa bônus.

A outra canção feita em parceria é “Total Interferencia”, feita com Luis Alberto Spinetta. É perceptível a influência dos trabalhos então mais recentes do guitarrista na sonoridade esparsa, ainda que cheia de feeling e sutileza, alcançada por Charly aqui, indicação que sinalizava possíveis colaborações que se insinuavam entre os dois lendários músicos. É inegável, entretanto, que García conseguia feitos ainda mais notáveis quando colocava a si próprio como centro de suas reflexões, seja de maneira mais íntima e sentimental (como na pungente “Promesas Sobre El Bidet”) ou de maneira mais idealista e abrangente (na cadenciada e memorável “Cerca de La Revolución”, considerada a melhor canção do rock argentino). Fosse pela excentricidade que o tornava uma figura a cada dia mais lendária, ou fosse por uma necessidade ególatra, o fato é que o artista se mostrava mais e mais confiante como dono de si, e principal guia dos próprios impulsos e ideias.

A banda que gravou “Piano Bar”

A descontração no estúdio é outro elemento indissociável do disco, e permanece uma peça fundamental para a imersão propiciada mesmo depois de numerosas audições. O trabalho de mixagem do disco, para o qual Joe Blaney fora mais uma vez recrutado, foi realizado no lendário estúdio criado por Jimi Hendrix em Nova York, o Electric Lady, e sua riqueza de minúcias foi vital para que a naturalidade com a qual as canções despejaram nos registros argentinos fosse preservada. Ao ponto de a sequência com a qual as canções aparecem no disco ser a mesma com a qual foram gravadas, intuindo transmitir com a maior verossimilhança possível a visão de alguém que testemunha um repertório desta magnitude. Mas é claro que não demoraria muito para que o público, que recebeu o disco de maneira arrebatadora, pudesse testemunhar de perto o impacto das novas canções.

Tal confiança transpareceria nos palcos: a redentora excursão de “Piano Bar” levaria Charly e sua banda (menos Fabiana Cantilo, que já investia em seu primeiro disco individual) pelo Chile, Uruguai e Peru, além, claro, de triunfais apresentações no Luna Park, em Buenos Aires. Mais do que a consolidação de uma carreira em ascensão plena, a turnê do disco representaria um fechamento de ciclo para Charly: uma vez terminada, somente Daniel Melingo permaneceria a seu lado, com os membros do G.I.T. preferindo focar sua própria trajetória e Fito Páez já alçando vôos cada vez mais altos como artista solo – ainda que ocasionalmente figurando em shows de Charly, que futuramente chamaria o rosarino de seu “melhor aluno”. Já os planos de colaboração com Luis Alberto Spinetta transitariam entre o concreto e o improvável, com divergências pessoais e musicais se colocando no caminho de uma amizade que, apesar de tudo, seria bastante longeva, e deixaria pelo menos mais uma excelente canção – a maravilhosa “Rezo Por Vos”, gravada por El Flaco em “Privé” (1986) e pelo próprio Charly em seu disco solo seguinte, “Parte de la Religión” (1987).

Capa oficial de “Piano Bar”

Por outro lado, a naturalidade do processo criativo levado a cabo em “Piano Bar” acabaria ressoando em uma das mais famosas (ou infames) eras da carreira de García: iniciada na metade dos anos 1990 e estendida até a primeira metade da década seguinte, a fase conhecida como “Say No More” trazia uma abordagem diferente, onde o caos controlado e a sobrecarga sensorial tomaram conta dos álbuns lançados pelo artista durante este período. Tendo como objetivo alcançar a genialidade por trás de arranjos pouco, ou nunca, predeterminados, sob o uso constante de entorpecentes e protagonizando uma série de situações polêmicas e controversas, Charly acabou se ressignificando em meio a uma nova geração como uma figura mítica, desafiadora (por parte dos mais devotos), caricata e instável (aos olhos daqueles menos propícios ou pacientes).

Por trás de todas as dissonâncias e microfonias às vezes intransponíveis, porém, é possível escutar boa parte dos mesmos anseios que também deram forma a um dos mais celebrados discos de García. Mais além de conter um repertório antológico, “Piano Bar” concluiu uma trilogia de discos importantíssimos e cujo impacto seria sentido ao longo de todos os trabalhos subsequentes do compositor – que, aliás, deve emergir com um novo álbum ainda neste ano, em seu primeiro disco de inéditas desde “Random”, de 2017. Ao longo das últimas quatro décadas, Charly estrelou reuniões celebradíssimas e turbulentas com suas principais bandas, confundiu, estarreceu, se jogou de cabeça na vida, na experimentação, e (famosamente) em piscinas de hotel partindo do parapeito do nono andar. Mas, fazendo jus ao talento e à personalidade com a qual foi agraciado, nunca se cansou de surpreender, e continua, ainda hoje, sendo tão intenso e vital quanto em um de seus mais incensados momentos.

Ouça o álbum abaixo!

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia outros textos de Davi aqui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.