Ao vivo no Rio, Interpol relembra dois grandes discos de rock num ótimo show

texto de Marco Antonio Barbosa

Por um breve momento em meados da primeira década do século 21, o Interpol foi considerado a Grande Esperança IndieTM em um cenário pós-Strokes. Os caras tinham tudo. Depois de um grande disco de estreia, dobraram a aposta e fizeram um segundo álbum ainda mais assertivo, autoconfiante. Eles tinham uma imagem inegavelmente cool. Eram sérios, vestiam-se de preto, imitavam Joy Division quando ainda não estava na moda. Gravavam pela Matador. Eles eram de Nova York, porra! Quase 20 anos depois, uma sequência de discos irregulares e shows medíocres guilhotinou a ascensão do grupo liderado por Paul Banks – e nesse ínterim, procurar pela Grande Esperança IndieTM tornou-se algo irreversivelmente anacrônico.

Aquele momento foi breve mesmo, mas foi bom enquanto durou. Tanto é que, mesmo depois de toda irregularidade e toda mediocridade, a notícia de que a banda caiu na estrada com um show 100% dedicado a seus dois primeiros LPs causou um certo arrepio. Ainda que fosse necessário relevar a ironia de ver o Interpol recorrendo a uma turnê temática/saudosista – truque desgastado e reservado mais a dinossauros, e não a bandas alternativas. O curioso é que, apesar da previsibilidade do espetáculo, o primeiro show da excursão brasileira do grupo (no Rio de Janeiro, na noite de quarta-feira, 5 de junho) não deixou de apresentar (agradáveis) surpresas.

A primeira surpresa foi encontrar um Vivo Rio bem perto da lotação máxima, com uma saudável mistura de indies velhos e jovens hipsters. Pairavam dúvidas, entre os insiders cariocas, sobre a capacidade do grupo de encher um lugar tão grande. Mas o Interpol, definitivamente, não é o C6 Fest. Toda vestida de preto, a banda formada por Banks, Daniel Kessler (guitarra), Sam Fogarino (bateria), Brad Truax (baixo e aniversariante da noite) e Brandon Curtis (teclados) foi recebida com empolgação desconcertante: até mesmo os rapazes (!) puxavam corinhos de “Lindo! Tesão! Bonito & gostosão” direcionados ao vocalista.

A segunda surpresa foi a arrumação do setlist, aparentemente ortodoxa (“Turn on the Bright Lights” na frente, “Antics” fechando), mas com algumas sutilezas. Abriram com o lado-B “Specialist”, única incursão fora dos dois primeiros discos. E mexeram na sequência original, colocando a trinca “PDA”, “Say Hello to the Angels” e “Obstacle 1” na frente das mais lentas “NYC” e “Untitled” – esta última foi guardada para fechar o show, quase como um post-scriptum. No palco, o grupo segue fiel à postura austera de sempre, com poucas falas, nenhum anúncio, agradecimentos eventuais. Apenas os sorrisos de Banks (que não tirou os óculos escuros) entre uma música e outra traiam a pose. Os truques cenográficos também são esparsos, como a inundação de luz branca no palco em “NYC” acompanhando os versos “It’s up to me now / Turn on the bright lights”.

Em comparação com a performance claudicante vista no último show da banda no Rio, em 2024 o Interpol soa vibrante e ensaiado. “Roland” soa mais joydivisioniana que nunca, e versões fluidas de “Stella Was a Diver and She Was Always Down” e “The New” encerram a primeira parte do espetáculo. Encerram MESMO: Banks avisa que dali pra frente vão tocar as músicas de “Antics” e a banda chega a sair brevemente do palco. Retornam com “Next Exit”; diferentemente do rearranjo feito na parte inicial do show, o repertório do segundo álbum é apresentado na ordem do disco. A escolha proporciona um interessante panorama da evolução da banda naqueles primeiros anos. Se em “Turn on the Bright Lights” o Interpol tinha encontrado seu som, com “Antics” o grupo deu passos largos na potência e na estrutura das composições – riffs, melodias, refrãos. Fica evidente também a sagacidade maior no ordenamento das músicas, na comparação com o LP de estreia.

Com as músicas do segundo disco, a metade final do show ganha uma dinâmica ainda mais empolgante. A pauleira antêmica de “Evil” e “Slow Hands” é contrabalançada pelo passo mais sutil de “Narc” e “Take on a Cruise”; “C’mere” e “Length of Love” ainda retêm a mesma beleza de 2006. No centro do set, “Not Even Jail”, espécie de síntese da estética do grupo: pós-punk + jingle-jangle + melodias ganchudas + clima dark. Soava novo naquela época, e resistiu bem à passagem do tempo.

Um show bem tocado, bem sequenciado, com performances mais que decentes (a voz de Banks só deu umas capengadas no final) relembrando dois grandes discos de rock da década de 2000. Não dá pra exigir mais que isso do Interpol em 2024. É bom ver o grupo em paz com seu próprio legado, tendo superado o fantasma da promessa não cumprida. Eles não se transformaram na grande banda de seu tempo… mas as canções sempre estarão lá.

SET LIST RIO DE JANEIRO 05/06/2024
01- Specialist
02- Say Hello to the Angels
03- Obstacle 1
04- NYC
05- Roland
06- Hands Away
07- Stella Was a Diver and She Was Always Down
08- The New
09- PDA
10- Next Exit
11- Evil
12- Narc
13- Take You on a Cruise
14- Slow Hands
15- Not Even Jail
16- Public Pervert
17- C’mere
18- Length of Love
19- A Time to Be So Small

Bis
20- Untitled

– Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro) e músico (http://borealis.art.br). 

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