Faixa a faixa: “Analógica”, de Marietta

por Herbert Moura

Dez anos depois de sua estreia solo com “Massarock” (2010), a cantora e compositora Marietta chega ao seu segundo álbum, “Analógica” (2020), lançado no finalzinho do ano passado. Produzido por Lucas Martins, com quem Marietta divide a assinatura das 12 composições (três delas com mais alguns parceiros), “Analógica” busca expressar toda a inquietação poética da artista paulistana.

“Esse álbum fala sobre essência, reunindo grande parte dos meus questionamentos em relação ao mundo atual. Trago pro ambiente simbólico-sutil-simplificado uma visão única e irônica onde inconsciente e mistério afloram. O supérfluo e o excesso nos fazem voltar ao que é essencial, onde a busca pela liberdade de ser e de amar extrapola bitmaps, números e convenções robóticas”, declara Marietta.

Lançado pela Ori Records, “Analógica” conta com as participações especiais de Jorge Dubman (Dr. Drumah), Russo Passapusso, MC All Ice, Ualê Figura e Guilherme Arantes, pai da de Marietta. Sonoramente, o álbum encontra inspiração na estética sonora groovada-percussiva dos anos 70 no Brasil, na pegada dos bailes funk 80 e 90 onde bombavam balanço, boogie, charme e funk melody. No mesmo molho, toda a força inegável e sintética do pop eletrônico contemporâneo.

“De forma melódica e dançante, esse disco provoca o ouvinte de que no excesso de virtual, passamos a buscar o oposto: o corporal. Que o corpo sabe viver e tem seu próprio tempo. Que a feminilidade ampla incorpora o afeto com muito balanço e cadência. E que o ser humano ainda não se perdeu totalmente num mundo que dilacera almas e sentimentos. Ainda estamos aqui, fortes, profundos e fluidos. E creio que estamos todos tendo a oportunidade neste momento dramático de questionar nossos modos de vida e de lembrar da nossa essência: o que faz o “beat bater”. Esse disco chegou para fortalecer nossa volta ao que importa. Autenticidade para somar na sobrevivência da alma”, define. Abaixo, Marietta comenta as 12 faixas do disco.

01) “Analógica” (Marietta/ Latzina/ Lucas Martins) – 03:35
Essa música tem em sua sonoridade densa uma base extremamente digital e minimalista, numa concepção de áudio 3D, e traz em sua atmosfera soturna e aérea as mesmas questões presentes na letra: O risco que todos corremos de que nossa comunicação se perca na névoa digital. Que nossas relações fiquem “na nuvem”. A base extremamente digital contrasta com um sentimento totalmente analógico presente na voz. No conteúdo ela é uma observação poética, crítica e sutil sobre e como se dá de maneira confusa nossa comunicação através dos meios digitais. Imagem, projeção, expectativa e realidade. Retrata uma personagem que tem dificuldade em se adaptar ao meio digital que ironiza sobre si mesma: “(..)Analógica, fazer o que?” Na forma, ela é inspirada nas redes sociais e em roteiro de cinema, cenas, fragmentos, recortes e símbolos. Para isso, contou com Latzina na parceria.

02. Bico (Marietta/ Lucas Martins) – 04:27
Com a sonoridade mais orgânica do disco, essa faixa foi concebida a partir da melodia sem nenhuma base harmônica, para que depois Lucas Martins compusesse todo o restante. Traz com sua cadência fluida e elementos que remetem à música brasileira (e influência da música Afrobrasileira como Baden Powell por exemplo, através da presença mais forte das cordas) uma atmosfera de ambientes naturais calmantes e reflexivos, propícios ao entendimento sobre o Amor fraterno-Universal: que enquanto não houver mais justiça e a mínima equanimidade, não tem “bem comum” possível para nós. Em cada beco, em cada escada, em cada injustiça e situação corriqueira do Brasilzão, o individualismo é o contrário da prosperidade e a ganância mata mais do que faz viver. Nosso sangue é rítmico e melódico.

03. Gasto o Dia (Marietta/ Lucas Martins) – 03:17
Esta faixa é um mantra-arrocha-reggae que reforça em sua melodia levemente funk a tradição de pergunta e resposta do coro. A simplicidade como força. Na repetição do amor próprio, fala sobre aceitação da propria poesia, e do empoderamento artístico diário no ofício de cantar.

04. Felina (Marietta/ Lucas Martins) – 04:26
A mais “romântica” do disco, esta faixa partiu de uma base já anteriormente composta por Lucas Martins na MPC, e que invertida sugeriu a mim a melodia cheia de sentimento e com influências de Cassiano e Tim Maia que na coragem buscou expressão a decisão de amar, a feminilidade e a liberdade de ser e amar como se quer, e a força da entrega ao amor romântico como opção consciente. Com muitas camadas detalhadas, sonoridade “cheia” e pegada de canção pop, tomamos fôlego para cantar o fim da guerra, e a beleza simples do afeto real.

05. Na Noite (Marietta/Lucas Martins) – 02:47
Essa faixa curta, quase uma vinheta, partiu de uma base também já pronta de Lucas Martins e que lapidada, transformou-se num quase funk que ressalta e reverencia a noite como o tempo do mistério, dos ecos no silêncio, nas ruas vazias onde a sensualidade de gatos e felinos e a força e poesia do inconsciente se revelam mais intensamente.

06. Chão de Taco (Marietta/ Russo Passapusso/ Lucas Martins)– 03:36
Desse som eu tinha composto especialmente o refrão totalmente influenciada por Antônio Carlos e Jocafi, para que a minha amiga e parceira musical Luciana Oliveira continuasse a compor e incluísse no seu álbum “Deusa do Rio Niger”. A faixa acabou não entrando no disco dela, eu a peguei de volta e desenvolvi com Lucas Martins esse “Funk melody/ Samba Reggae” para que Russo Passapusso a enriquecesse ainda mais com sua participação e a transformasse numa reverência total aos chãos de taco dos salões antigos de baile.

07. Fresh Rub A Dub (Marietta/ All Ice/ Ualê Figura/ Lucas Martins)– 04:51
Totalmente relacionada à cultura do Reggae e de Soundsystem, essa faixa pesadona conta um pouco da história que vivi dentro dessa cultura, e com humor e pegada forte é na verdade, uma grande celebração em si. Atualizando por vozes da rua fortes e reais, artistas agentes que movimentam a cena como Ualê Figura e All Ice, ela legitima e homenageia o Reggae no Brasil, com respeito.

08. Expira (Marietta/ Lucas Martins)– 03:06
Curiosamente essa música foi o casamento de uma base extremamente atual e pesada, com timbres absolutamente contemporâneos de Lucas Martins e um poema quase concreto que eu havia escrito anteriormente, que trata sobre tempo do mundo X tempo natural, sobre o realismo seco dos fatos corriqueiros, e o jogo de cintura gigantesco que temos que ter diante da realidade diária. Fala também sobre envelhecer, e sentir-se inspirada. O tic-tac do relógio não nos acompanha perfeitamente.

09. Suco (Marietta/ Lucas Martins)– 02:22
Essa música também é bem curta, e é esteticamente a mais “anos 80” do disco (inclusive com a presença de instrumentos da época). Trata sobre essência e sutileza e a poesia é toda sobre fluidez, tendo a aliteração de várias palavras com “S” na letra, lembrando do caminho curvo que o “S” faz. Fala da volta ao básico, ao que interessa e da seiva que nos mantêm. Enfim, o “suco”, é o suco da alma.

10. Tijolo por Tijolo (Marietta/ Lucas Martins)– 04:13
Essa foi a primeira melodia e letra do disco que eu fiz. Me veio como algo totalmente autobiográfico e trata de caminhada. Foco, construção pouco a pouco, e a autenticidade de nossos próprios caminhos. A música deu muito trabalho, rs, e foi das últimas a ficarem prontas, é em si um “boogie” repaginado, totalmente voltado à pista de dança e à vontade de transmutação pela dança.

11. Tempestade e calmaria (Marietta/ Lucas Martins) – 04:37
Humm, das minhas preferidas, essa me soa como um “newafrobeat” mas com influencias de Leon Ware, Marina Lima e Fernanda Abreu. A voz foi um grande desafio porém me soa muito natural ao mesmo tempo. Ela fala de envolvência e traz em sua sonoridade uma quentura única no disco.

12. Voz no vento (Marietta/ Lucas Martins) – 01:21
Texto com fundo musical, interpretação com influência de spoken word, mas é simplesmente um discurso antifascista para fechar o disco. A alma não tem preço, não se copia nem morre.

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