44ª Mostra SP: Filme maranhense gravita na órbita do cinema sensorial

por Adolfo Gomes

Os arquétipos estão lá como balizas temporais e dramatúrgicas, mas o movimento de “As Órbitas da Água” (2020), de Frederico Machado, remonta a matéria fluída que lhe orienta o percurso. Trajeto de um filho que retorna à sua aldeia original para concretizar um vaticínio, dos laços sanguíneos fatalmente estagnados no afeto e no horror mútuos, do pai: senhor da vida e senha do fim.

É um gesto quase antinaturalista na paisagem audiovisual brasileira, tão dedicada ao realismo e a suas formas tradicionais de representação. Machado, no entanto, não se vale de trucagens fantasiosas para implodir as leis elementares da organização do mundo diegético a que estamos habituados e nas quais as imagens são coladas umas às outras para servir a uma utopia narrativa.

Ao contrário, o realizador parece criar ali, na dessimetria dos planos, na relação barroca dos atores, nos extensos silêncios e na descarnada construção da atmosfera do filme; um espaço gravitacional da liberdade e da imaginação sem exceder, um só momento, os limites territoriais do real.

Quer dizer: o imaginário através do qual escorre “As Órbitas da Água” é secular, existia e vai continuar a existir depois da projeção, da duração do filme (seu ambiente, a motivação dos personagens e desfecho da trama, nos são, em grande medida, familiares ). A transgressão de Machado está justamente na insição que faz na lógica causal do entrecho cinematográfico: o rio não corre para o mar, as águas conjuradas pelo cineasta têm o seu próprio e sinuoso caminho. É o que podemos chamar, na ausência de um termo mais apropriado (e ainda por ser inventado), de cinema sensorial.

O “filme livre”, de um impulso criativo cuja cumplicidade com nosso olhar resulta menos das evidências materiais (do que vemos) e sim do que sentimos, escutamos e não (en)formamos segundo nossos preceitos mais usuais.

O filme perfaz mar, terra, lodo e sangue, além de outras substâncias etéreas como o desejo, o amor e a repulsa. Porém, nenhuma dessas estações líquidas e espirituais lhe são definidoras, nem nos sinalizam com precisão a nascente de tal poética. É tudo o instante, ora transparente, ora turvo, comum a um encontro das águas. Constelação em que orbita o cinema maranhense, entre sua beleza, solidão e morte. Um cinema que Frederico Machado teima em ressuscitar em cada novo filme, feito e escrito sempre à mão. É a sensação que nos passa.

De 22 de outubro a 4 de novembro de 2020, acontece a tradicional Mostra Internacional de Cinema em São Paulo —em 2020, em versão majoritariamente on-line e disponível para todo Brasil. Durante duas semanas, serão exibidos 198 títulos de 71 países em três plataformas (a Mostra Play, o Sesc Digital e a Spcine Play) e em dois cinemas ao ar livre: o Belas Artes Drive-In e o CineSesc Drive-in. O valor para cada sessão na plataforma será de R$ 6 e a maior parte das produções, porém, tem um limite de público de até 2.000 espectadores. Depois que essa quantidade de ingressos é vendida, o filme não fica mais disponível. 

– Adolfo Gomes é cineclubista e crítico filiado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.