Três Perguntas: Gabriel Bernini fala sobre o livro “Ondas Sísmicas – 90 discos de cantoras brasileiras do século 21”

entrevista por Renan Guerra

Gabriel Bernini tem 23 anos, é publicitário e pesquisador musical. Criador do grupo de Facebook “Amigues do Vinil”, ele ajuda a movimentar trocas e vendas de discos, mas também propicia um espaço seguro para o debate em torno da MPB atual e dos diferentes lançamentos nacionais. Nos últimos anos ele vem se dedicando a garimpar e a catalogar o trabalho de cantoras de todo o Brasil de diferentes décadas. Esse processo de trabalho começa a ganhar vida agora com o livro “Ondas Sísmicas – 90 discos de cantoras brasileiras do século 21”.

O livro está sendo produzido pela Barbante, editora independente sediada em Curitiba que faz livros sobre música e fotografia. Para financiar esse projeto, Bernini está com um financiamento coletivo aberto até o início de setembro: www.catarse.me/ondassismicas. “Ondas Sísmicas” é dedicado exclusivamente à música feita por mulheres no Brasil, com um recorte que vai de 2003 a 2020, num apanhado diverso que passa por nomes como Céu, Tulipa Ruiz, Letrux, Serena Assumpção, entre outras. Para completar, o livro tem ilustrações de Lola Nankin, ilustradora argentina que mora no Brasil há 18 anos. Seu trabalho é focado na diversidade das mulheres, representado-as em tons terrosos e traços bastante marcantes.

Com seu olhar jovem e curioso, Gabriel Bernini é um apaixonado por música, por MPB e por essas múltiplas cantoras que formam o livro “Ondas Sísmicas”, por isso mesmo conversamos com ele para entender como nasceu esse projeto e a importância de se olhar com profundidade para esses trabalhos mais recentes. “Para decidir quais seriam os discos resenhados eu fui ao meu quarto, sentei-me em frente à estante e naveguei pela minha coleção de discos. (…) Em menos de meia hora, eu tinha a lista pronta”, diz Gabriel. Confira abaixo o três perguntas com o autor:

https://www.catarse.me/ondassismicas

Você é um pesquisador apaixonado pelo universo das cantoras, em que momento você sentiu que era hora de transformar isso em livro? E como foi o seu processo de escrita?
Inicialmente eu tinha o desejo de catalogar essa minha pesquisa referente às cantoras brasileiras contemporâneas de alguma forma, pois pensava que assim traria credibilidade para essas artistas perante um público misógino, elitista e/ou que tem preferência por artistas do exterior. Então eu fiz um blog com textos informativos e artigos de opiniões, tentei atacar de criador de conteúdo no Instagram… mas não sirvo muito para essas coisas. A vontade de documentar a minha pesquisa está mais viva do que nunca, mas deixei de achar que eu ou essas artistas devemos algo para aquele público. Hoje, eu quero conversar com as pessoas que gostam do que eu gosto e apreciam o que eu faço – e o que essas artistas fazem –, tendo em mente que a pesquisa sobre arte contemporânea é tão válida quanto as pesquisas históricas. Mas a ideia do livro em si surgiu a partir de um convite do Alessandro Andreola, a pessoa por trás da Editora Barbante, que é a responsável pelo projeto do livro. Eu sempre fui muito ativo em grupos de vinil no Facebook, sempre gostei de aparecer (nesse âmbito apenas) e de expor minhas opiniões sobre música, porque de fato eu não vejo muitas pessoas falando o que eu quero falar – talvez por medo de serem invalidadas ou descreditadas. Ele me chamou no Facebook no começo de setembro de 2020 já com a proposta, falando que me observava nos grupos e que gostava da maneira que eu escrevia. Mas ele queria que eu fizesse um livro de entrevistas; fiz a contraproposta de um livro de resenhas e ele topou. Como o próprio Alessandro diz, eu vomitei o livro. Eu escrevi as cento e tantas resenhas em pouco menos de 15 dias, também em setembro, logo após assinarmos o contrato. Eu, realmente, tinha muita coisa para dizer.

Você tem o apoio de diferentes cantoras nesse projeto, queria saber como é pra você poder trocar com essas artistas e como elas te inspiram?
Costumo dizer que não tem reconhecimento maior do que o próprio reconhecimento – não é dinheiro, nem fama, nem seguidores, é o reconhecimento. A maior apoiadora do livro é a Letrux, por exemplo – uma artista muito repercutida e que não deve nada para um pesquisador novato como eu. Ela é a generosidade em pessoa, muito bondosa e sempre munida de um discurso construtivo. Mas eu sou grato a todas as cantoras que estenderam suas mãos para o projeto, sejam elas comercialmente repercutidas ou não – pois a ideia do livro é justamente essa: trazer luz para discos e artistas que não estão no olho do furacão do senso comum. A validação das cantoras foi muito importante para mim pois, além do livro ter sido construído através da MINHA fala sobre o trabalho DELAS, elas são mulheres e, apesar de eu conhecer um tipo diferente de opressão por ser gay, não há empatia que possa me colocar dentro das vivências delas contra a misoginia no Brasil. Para a divulgação do livro, eu tenho escrito cartas para as artistas no meu Instagram. Ali dá para ver a relação extremamente pessoal e íntima que eu tenho com o trabalho de cada uma. A Alessandra Leão e a Serena Assumpção, por exemplo, limaram o resto de preconceito que eu tinha com religiões de matriz-africana. Eu passei no vestibular por causa de uma música da Tulipa Ruiz. A Céu, por muito tempo, influenciou a maneira com que eu me vestia. A Karol Conká me provou que Curitiba é muito mais do que Sérgio Moro e bolsonarismo; pra mim ela representa a esperança do povo curitibano que não faz parte da bolha da direita. A inspiração é real e eu aprendo muito com o trabalho de cada uma das 90 artistas, sempre.

Em um universo onde tudo parece estar na internet, nós sabemos bem que isso não é realidade e que há diversos discos brasileiros que não estão nas plataformas nem nos streamings. Eu queria que você falasse um pouco mais sobre o seu processo de pesquisa nas mídias físicas e sobre a sua relação com os discos e CDs. Eles são a sua fonte de partida para as pesquisas?
O livro definitivamente é influenciado pela minha vivência como colecionador de vinil, há mais de 10 anos, e como colecionador de CD e fitinhas há pelo menos metade desse tempo. Eu sou da geração do digital, eu cresci na era da pirataria; para as pessoas de fora da bolha, é muito estranho pagar para ouvir música. O meu ouvido foi treinado para MP3, então eu tenho muita dificuldade para perceber as sutilezas dos formatos físicos; eu compro por outras razões, em especial o apreço pela ficha técnica, a valorização do projeto gráfico e o apoio financeiro direto às artistas – três coisas que se perdem totalmente no streaming. O livro “Ondas Sísmicas” é composto por 90 resenhas. Para decidir quais seriam os discos resenhados eu fui ao meu quarto, sentei em frente à estante e naveguei pela minha coleção de discos. Hoje eu tenho aproximadamente 400 discos e 200 CDs – e eu compro/tenho somente o que eu verdadeiramente gosto, eu não me deixo mais me levar por hype alheio. Em menos de meia hora, eu tinha a lista pronta. Aí bastou escrever o que estava entalado há 10 anos e eis que tenho um livro.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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