Entrevista: Helena Hilario fala sobre o curta de animação “Umbrella”

entrevista por João Paulo Barreto

Após exibição em diversos festivais internacionais, como o Tribeca Film Festival, o Cinequest Film Festival e o Foyle Film Festival, todos eventos que dão aos selecionados a qualificação necessária para a corrida por uma indicação os Oscar, “Umbrella”, tocante curta brasileiro de animação dirigido por Helena Hilario e Mario Pence, está disponível on line gratuitamente no canal do YouTube da produtora Stratostorm.

Idealizado a partir de um triste e real encontro da irmã de Helena com um garotinho órfão em um abrigo para crianças localizado em Palmas, interior do Paraná, em 2011, “Umbrella” ilustra, em pouco menos de oito minutos, a perda do afeto paterno, a lembrança desse mesmo amor e a esperança em poder contar com aquele calor humano e familiar novamente. O símbolo desse afeto está em um simples objeto: um guarda-chuva amarelo, última lembrança do pequeno Joseph antes de ser deixado pelo pai no abrigo.

“Minha irmã fazia um trabalho voluntário em um local que se tornou um lar para crianças”, explica Helena. Ao observar que um dos garotinhos que viva no lugar não queria nenhum dos presentes levados por sua irmã, ela, então, se aproximou e lhe perguntou o que ele queria. “Minha irmã me disse que ele não queria brinquedo, mas pediu a ela por um guarda-chuva, porque, quando o pai o deixou lá, estava chovendo. E que ele falou que ia voltar, mas nunca mais voltou”, relembra Helena, comentando a descrição emocionada que teve da irmã sobre o encontro. Para o garoto de, no máximo, seis anos, aquela era sua única lembrança em uma ainda curta vida. Para ele, ter um guarda-chuva significava a esperança de ter o pai de volta.

A partir desse ponto e do doloroso relato que teve da irmã, Helena Hilario visualizou uma história que, simples em sua concepção, denotaria uma carga emocional que um curta metragem sem diálogos, porém marcado por uma trilha sonora eficiente, seria capaz de buscar tanto na reflexão quanto na emoção de sua audiência. E o resultado foi alcançado. “Desde o início, queríamos fazer uma animação. Nunca foi uma opção fazer um filme em live action com atores reais. Eu acho que o tema de ‘Umbrella’ tão delicado. E a mensagem que a gente gostaria de passar ia ser muito mais difícil de transmitir com atores reais. Seria possível? Sim. Mas acho que seria muito mais difícil em um filme live action transmitir isso sem diálogos”, explica Helena ao falar da opção de um curta calcado em expressões, gestos e música. “Queríamos que a música levasse esse sentimento que buscávamos transmitir. A animação e a música juntas conseguem guiar as emoções que queríamos transmitir. A opção foi essa desde o início. E foi muito bonito o processo de trazer o filme à vida desde o começo. Lá em 2015, quando a gente tinha um primeiro storyboard, eu tinha já a música de referência”, relembra a co-diretora.

O processo de criação da trilha sonora passou por inspirações específicas dentro a experiência cinéfila da diretora. “Eu amo a trilha sonora do Hans Zimmer para o filme ‘O Amor Não Tira Férias’. Era uma referência. Nas conversas com a Vivian Aguiar, produtora da trilha do ‘Umbrella’, ela me disse que os temas que me emocionavam na trilha do Zimmer vinham de orquestra. Não era digital”, explica Helena. Assim, a criação da trilha sonora composta por Gabriel Dib para o curta metragem precisou contar com uma orquestra que soube captar e transmitir de modo preciso a emoção trazida pela história daquele jovem em busca de uma lembrança do pai que o deixara.

Após a seleção por diversos festivais e a qualificação para uma indicação ao Oscar, cerimônia que acontece em abril, Helena pontua que a produção de “Umbrella”, em seu modo simples, porém eficiente e profissional de construção, busca esse símbolo para o trabalho como o coroar de uma trajetória de oito anos de criação. Mas não somente por isso. Na história de um órfão que é julgado por pegar para si um guarda-chuva que pertence a outra pessoa na esperança de trazer de volta alguém que ele ama, a mensagem primordial de não julgar apenas pelas aparências acaba por sobressair. E “Umbrella” conforta justamente por nos permitir refletir sobre isso.

“Nós vamos divulgar nosso filme do modo mais singelo, no YouTube. Não temos nada ‘fancy’ por trás. Não temos nenhum streaming apoiando ou que vamos estar na grade (risos). Vamos no modo mais singelo, mesmo, esperando que as pessoas compartilhem e possam, de fato, assistir e levar essa mensagem de que não podemos julgar as pessoas sem conhecer o que os outros estão passando. Principalmente nesse ano tão difícil de pandemia. Nesse ano tão difícil que bagunçou a vida de todo mundo. Tem tanta gente que perdeu entes queridos. Tanta gente que está passando por dificuldades. Temos que ter empatia. Temos que nos colocar no lugar do outro”, finaliza Helena.

Nesta entrevista ao Scream & Yell, Helena aprofunda todas as etapas de produção e a inspiração que a norteou na construção de “Umbrella”, que você pode assistir na integra abaixo.

“Umbrella” é um curta metragem inspirado por evento reais. Como a história chegou a você?
Eu sou muito próxima da minha irmã. Ela é minha melhor amiga, e nós temos uma relação muito próxima. Em 2011, o filho dela, José Luiz, tinha quase três anos. O nome do personagem principal é Joseph por causa dele. Escolhemos esse nome mais internacional porque o título do filme é “Umbrella”. Cada pedaço do filme tem alguma relação pessoal comigo ou com a minha família. Na época, na minha cidade natal, Palmas, interior do Paraná, a minha irmã fazia um trabalho voluntário em um local que era um abrigo, mas se tornou um lar para as crianças. Em 2011, o garotinho lá tinha entre quatro e seis anos. Nós não sabemos ao certo a idade dele. Mas ele era bem pequenininho. Era quase da idade do meu sobrinho. (Nessa visita), minha irmã viu que todas as crianças vinham, pegavam os brinquedos de dentro da caixa e saiam felizes, brincando. Mas ele olhou na caixa e não quis nenhum brinquedo. E aí, eu acho que por essa proximidade e a coisa materna da minha irmã, de ter o José Luiz ainda pequeno na época, ela foi e se aproximou do garoto. Começou a conversar com ele. Queria saber porque ele não queria nenhum brinquedo. E era mais ou menos nessa época, em dezembro de 2011. Estava calor. E o garoto começou a pedir por um guarda-chuva. A minha irmã perguntava a razão dele querer um guarda-chuva, pois estava um dia tão bonito lá fora. E ele mal falava. Era bastante pequenino, assim. Ele só falava que queria um guarda-chuva. A minha irmã passou um tempo conversando com ele e até que finalmente ele falou: “Eu quero um guarda-chuva porque quando o meu pai me deixou aqui, estava chovendo. E ele falou que ia voltar para me buscar, e nunca mais voltou. Se eu tiver um guarda-chuva, acho que meu pai vai me encontrar”. Minha irmã passou um tempo a mais conversando com ele, e acabou saindo de lá muito abalada. Ela me ligou, nós conversamos e choramos ao telefone. Todas as vezes em que ela vai ao abrigo, ela fica sabendo de histórias muito tristes. Histórias de como as crianças chegaram lá, de como os pais as abandonaram. Histórias de crianças que vivem na rua e o abrigo recolhe. Mas essa história em particular, sabe, esmagou nossos corações. Nessa ligação que ela fez para mim, nós choramos por pensar em um menino quase da mesma idade do José, alguém que não sabe nada da vida, que não tem experiência nenhuma. As memórias que ele tem são de um dia chuvoso e do pai o deixando no abrigo. Para a gente, foi algo que doeu o coração. E era uma época de Natal, quando ficamos mais emotivos. Quando eu lembrava, eu chorava. Após isso, resolvi escrever um roteiro junto com meu marido, (N.E. O co-diretor Mario Pece) resolvi colocar isso no papel. Tentar transformar essa dor em arte.

Essa opção de colocar a reflexão da dor do garoto por sentir falta de seu pai e começar a crescer com aquela lembrança concede ao espectador, realmente, uma série de camadas dentro do processo de conhecer o protagonista.
Sim. E, também, tem a reflexão de que, muitas vezes, nós julgamos as pessoas sem saber. Foi um momento tão rápido, tão singular o que aconteceu. Ele falar que queria um guarda-chuva porque, quando foi deixado lá pelo pai, chovia. Para gente, isso foi algo de perceber que a única memória que ele tinha na sua curta vida era um dia chuvoso e o pai o deixando lá. Eu escrevi esse roteiro querendo, realmente, trazer essa inocência e pureza das crianças. Elas não enxergam maldade e têm naquilo algo que representa para elas coisas que a gente nem imagina. E isso acontece na nossa vida adulta, também. Não são apenas as crianças. Nós também somos muitos vulneráveis. Às vezes, temos memórias afetivas com certos objetos e coisas que marcaram nossa vida, nossa trajetória. E muitas vezes escondemos isso, ou deixamos guardado lá no fundo esses nossos sentimentos. Porque, enfim, a gente cresce, temos que trabalhar, temos a nossa rotina, e acabamos por esquecer dessa percepção de que não podemos julgar o outro. Temos que procurar entender e nos colocar no lugar da outra pessoa. Veja, em uma situação dessas, ela poderia ter pensado que o menino estava só fazendo uma birra por não querer nenhum brinquedo. Mas para ele, não. Para ele era algo muito maior do que isso. Para ele, os brinquedos não eram importantes. Para ele, o importante era ter um guarda-chuva.

A inserção do tema dos refugiados que aparece no final do filme surgiu como uma opção de discussão em que momento da escrita do roteiro? Os fatos recentes na crise envolvendo refugiados no mundo teve influência nessa escolha?
Essa sequência das memórias deles foi algo que adicionamos depois. A história não era literal, mas era sobre um menino que havia sido abandonado e que se lembrava do pai. No curta, nós vamos para o futuro daquele menino e vemos que ele colecionou guarda-chuvas a vida inteira. E que ele não tinha uma memória negativa do pai. Ele entendia que aquilo foi uma escolha. A única escolha que o pai teve. Eu verbalizava muito isso. Sobre a história ser sobre esperança. Sobre ele nunca ter deixado de ter esperança de ficar com o pai. Ele sempre quis encontrar o pai. E nós não conseguíamos ver isso. Porque, até então, o pai o abandonava e a gente seguia com a história. E nós criamos a sequência final justamente para ter um motivo do porquê da gente simpatizar com o pai. Do porquê era aquela a única escolha realmente que ele tinha. A escolha de abandonar o filho pelas circunstâncias que o levaram até lá. E a ideia de adicionar o tema dos refugiados… O filme não é sobre refugiados. É mais sobre essa mensagem universal de empatia e de esperança. E a gente colocou a ideia dos refugiados, sim, pelo tema social desses últimos anos. É algo que sempre existiu, mas nesses últimos anos, socialmente, é uma coisa que a gente vê em todos os lugares. É um problema social muito grande. O meu marido, o Mario (N.E. co-diretor do filme), é italiano. E na Itália, nesses últimos anos, a questão dos refugiados foi muito discutida. Posicionamentos diversos surgiram sobre qual tipo de ajuda você daria para os refugiados ou não. Isso é um debate importante. A intenção no filme não é levantar debates sobre refugiados, mas mostrar que as adversidades da vida fizeram com que o pai tivesse que abandonar o garoto no orfanato.

O tipo de cinema de animação permite uma liberdade maior dentro da criação de ritmo e de desenvolvimento da narrativa. Para além de uma escolha visando um alcance muito maior de pessoas no mundo pelo fato de ser um filme sem diálogos, como foi esse planejamento dentro da construção do roteiro para uma história sem falas?
Desde o início a gente queria fazer uma animação. Nunca foi uma opção fazer um filme em live action com atores reais. Eu acho que o tema de “Umbrella” é tão delicado. E a mensagem que a gente gostaria de passar ia ser muito mais difícil de transmitir com atores reais. Seria possível? Sim. Mas acho que seria muito mais difícil em um filme live action transmitir isso sem diálogos. Teria que ter um diálogo. E aí é aquela linha tênue: você vai conseguir, realmente, tocar o coração das pessoas, ou você vai parecer que está forçando uma situação para as pessoas sentirem uma coisa que, talvez, não está lá? E vendo o histórico de curtas metragens, por exemplo, da Pixar e da Disney, que fazem curtas incríveis e sem diálogos… Claro que cito grandes curtas metragens assim porque foram trabalhos que nos inspiraram. E muito pouco desses curtas metragens usam diálogos. A maioria é somente com música, mesmo. Porque você tem que contar uma história ali, em até 10 minutos. Quando você começa a adicionar muitos diálogos, você tem que explicar muito as situações. É preciso ter aquele ping-pong entre os personagens para você entender o contexto de como chegou até ali. Entender o motivo que levou personagens a tomar decisões, ações que eles fazem durante o filme. Então, desde o início, decidimos que seria somente música. Queríamos que a música levasse esse sentimento que buscávamos transmitir. A animação e a música juntas conseguem guiar as emoções que queríamos transmitir. A opção foi essa desde o início. E foi muito bonito o processo de trazer o filme à vida desde o começo. Lá em 2015, quando a gente tinha um primeiro storyboard, eu tinha já a música de referência. E eu sentia que quando eu mostrava para as pessoas próximas, elas se emocionavam muito. E muito dessa emoção vinha da música. A história está lá, mas a música foi um elemento muito essencial no nosso curta.

E como foi o processo de criação da trilha original?
Tem um filme que chama “The Holiday” (N.E. no Brasil, “O Amor Não Tira Férias”, longa de 2006), cuja trilha é do Hans Zimmer, um dos maiores compositores do cinema. Aquele filme é bem importante para mim. Eu amo a trilha daquele filme. E desde o início eu usava algumas músicas do “The Holiday” como referência. E, óbvio, tem muito violino, tem muitas notas que te fazem sentir uma emoção grande. No começo das conversas, a Vivian (Aguiar Buff), que é a produtora da trilha, ia ser a compositora principal. Mas acabou que ela foi para a DreamWorks, além de ter ido fazer uma série na Disney. Ela acabou ficando muito ocupada na época e não pôde participar. Mas ela produziu a trilha junto, e as nossas primeiras conversas sobre a trilha foram com ela. Quando lhe mostrei essas referências, ela me perguntou o que eu mais gostava nessas músicas. Eu falava dos trechos que mais emocionavam. Na época, ela me explicou que aqueles trechos da trilha do Hans Zimmer que me emocionavam vinham de orquestra. Não era digital. Ela explicou que aquelas notas que eu falei que eram as que me davam emoção, nós não conseguiríamos atingir no digital, pois elas vinham de orquestração. Lembro que ela falou ser possível construir a trilha a partir de orquestração, mas que íamos precisar buscar essa orquestra, ver onde iríamos gravar. É uma outra estrutura a partir da composição. Depois que o filme estava pronto, a Vivian não pôde fazer, de fato, a trilha e ela nos indicou o Gabriel (Dib). Ele foi um presente maravilhoso ao projeto. Acho que não teria outra pessoa mais incrível que pudesse fazer a trilha. Ele ouviu as referências, viu o filme, e eu pedi que ele me trouxesse o que ele sentisse. Ele colocou todo amor e alma nesse score. Trabalhou muito minuciosamente para construir as quatro composições que temos no filme. Passamos horas conversando para ele entender o que a gente queria passar, qual era a mensagem do filme. E o Gabriel amou a premissa do curta. Ele, inclusive, tem uma filha pequena. Eu acho que as pessoas que, enfim, tendo ou não tendo filho, se conectam com a história. E ele se conectou muito. Realmente mergulhou no projeto. E aí aquela ideia que eu havia conversado com Vivian anos antes sobre orquestração, acabou acontecendo. Nós acabamos por gravar com orquestra e foi uma das coisas mais emocionantes. Acho que toda etapa da produção foi incrível. Mas a orquestra foi a cereja no bolo. Foi no final, depois que estava tudo pronto. Tivemos uma sessão de quatro a cinco horas com trinta músicos. E eu chorei do começo ao fim (risos). Porque você vendo ali o Gabriel compondo aquela música linda que já tocava o nosso coração. Uma música que eu amava. E nós tivemos poucos ajustes ao longo do tempo em que ele estava produzindo a trilha. Isso porque ele acertou muito em cheio no que queríamos. Teve coisas que a gente sugeria mais piano aqui, ou mais violino ali. E ele trouxe isso muito lindamente para o projeto. Então, acabou que gravamos com a orquestra, de fato. E foi muito emocionante ver o score que ele havia produzido, a partitura. Foi a minha primeira experiência com orquestra. Os músicos chegavam, ninguém tinha ainda visto o filme, nem ensaiado. Ele chegavam, abriam a partitura e tocavam os instrumentos. Eu não sabia se chorava, se assistia, se acompanhava (risos). Foi um momento muito lindo. E certamente a música é muito importante na narrativa do “Umbrella”.

Quando você falou dos curtas da Pixar, o nome que me veio à mente foi o do compositor Randy Newman. Mas é curioso você citar o Hans Zimmer e “The Holiday” justamente por nos fazer pensar em como o trabalho alemão varia em seu estilo.
Esse filme, “The Holiday”, me marcou muito porque, quando eu o assisti, em 2009, eu estava de mudança para os Estados Unidos para estudar inglês. Nessa ocasião, eu não falava inglês muito bem. Era uma época de frio, nevava lá fora. Eu nunca tinha tido uma experiência como aquela. Tinha saído da casa da minha mãe, estava sozinha. Eu escutava muito de amigos que eram fluentes em inglês dizerem para eu rever aos filmes que eu gostava, meus filmes preferidos que eu já conhecia, só que com a legenda em inglês. Assim, eu poderia ir assimilando. Mas eu achava que não ia funcionar, pois eu não ia entender os diálogos e ia ficar mais perdida ainda. Mas eles insistiam, dizendo que ajudava muito. Então, esse filme em questão, “O Amor Não Tira Férias”, era um filme que eu tinha acabado de ver no Brasil. E quando eu me mudei para os Estados Unidos, eu lembrava muito dele. Por isso, eu o assistia muito. Então, a trilha acabou me marcando muito também por eu ainda não entendia o que eles estavam falando em inglês. Era a música do filme que me fazia sentir um monte de coisa. Desde aquela época, eu sempre ouço essa trilha do Hans Zimmer. Foi uma referência grande. O Gabriel (Dib) usou algumas coisas que eu gostava de lá, mas ele mudou e trouxe muito dele. Muito da experiência dele. Teve um instrumento, o oboé, que eu não conhecia, e que o Gabriel quis muito colocar. E ele explicou que, naquela parte do filme, ia trazer uma emoção. E eu admirada, ouvindo. Ele foi me apresentando várias notas, vários instrumentos que eu nem conhecia. O Gabriel colocou muito amor e alma nesse projeto com a música dele. Foi um trabalho que nos trouxe dois prêmios de melhor score com o “Umbrella”. Um em Nova York e um outro no festival no Global Music Awards, como melhor trilha sonora.

Uma das principais dificuldades técnicas na criação de filmes em animação vem da passagem do 2D para o 3D, bem como as questões de softwares com renderizações e construções digitais. Em uma conversa que tive com o veterano Glen Keane, ele me falou sobre esse ser um dos principais desafios, como animar água, ou cabelos ao vento. Você poderia abordar um pouco essa construção técnica, desde os storyboards em 2D feitos pela Laura Guedes, até a versão final que conhecemos agora?
A Laura fez a concepção dos personagens (concept). Os desenhos em 2D dos personagens foram feitos por ela. Na época, em 2015, levamos o roteiro a ela, que foi interpretando, e nós, eu e o Mario, fomos guiando como a gente imaginava ângulos daquilo que aconteceria através dos storyboards. Eram quadros congelados, esboços da mãe dirigindo, da menininha. E a Laura nos ajudou a criar isso visualmente, porque as referências dos personagens, visualmente, eram pessoas da minha família. O Joseph é, visualmente, inspirado no meu sobrinho, que já vai fazer 12 anos agora. O Joseph tem os olhos grandes, meio esverdeados, aquele cabelinho bagunçado. A mãe da menina foi inspirada na minha irmã, que tem aquele cabelo curto e loiro. Visualmente, a Laura foi trazendo isso para a gente. Coisas que estavam escritas no roteiro, como a cor do cachecol, que era amarelo; a roupa gasta do menino; as paletas de cores desses elementos que estavam no papel com esses conceitos 2D. Depois, a Laura trabalhou com a gente por três meses naquele período inicial. Anos depois, quando começamos a produção, trabalhamos com o Victor Hugo, que é um dos artistas 3D mais renomados do mercado e do Brasil. Ele é um menino incrível. Ele trabalhou no filme “Moana”, da Disney. Ele faz bastante coisa para a Marvel. No meio do 3D, o Victor Hugo é muito conhecido. E eu queria muito que ele fizesse o design dos personagens. Nós tínhamos o conceito em 2D, e precisávamos trazê-los para a vida em 3D. E o Victor amou o projeto. Nós conversamos por anos. Ele sabia do projeto desde 2015, mas só veio trabalhar conosco em 2017. Houve uma conexão afetiva. Acho que todo mundo que entrou no projeto teve. Seja porque podem ser pessoas que tenham filhos ou irmãos adotivos, ou que são pais, ou que perderam alguém da família. Todo mundo teve alguma conexão afetiva com o projeto. Isso foi muito lindo. E o Victor Hugo pegou esses conceitos da Laura e criou o design dos personagens em 3D, as texturas de roupas. Depois que ele terminou os seis personagens principais, nós começamos a produção, de fato, no estúdio. Foi quando chegaram todos esses desafios, do que a gente já tinha no storyboard, como elementos de chuva, por exemplo. Foram decisões que fomos tomando, eu, o Mario e o Alan Prado, que foi o nosso supervisor de 3D e que trabalha conosco desde 2015, também. Além dele, o Dhiego Guimarães, que foi nosso diretor de Arte, e o Felipe Pardini, que também fez a modelagem e a otimização dos outros personagens secundários e participou de toda a produção em si. Com essas três pessoas foi que a gente começou a discutir como, de fato, iríamos trazer o “Umbrella” à vida. As discussões de qual técnica iríamos usar, como iríamos trazer esses desafios para os nossos projetos. Você imagina? Era o nosso primeiro projeto e com tantos personagens e tamanha complexidade. Com o cabelo que mexia, o cachecol que teve que ser animado separadamente. A roupa que tinha bastante movimento. Nós começamos a tomar as nossas decisões técnicas e o processo foi de muito aprendizados e de muitos desafios. Porque, primeiro, nós não tínhamos um departamento gigante de desenvolvimento, com equipes apenas para simulação de roupas ou apenas para simulação de cabelo. Não. Eram três pessoas trabalhando full-time no projeto, junto com o Mário, que entende de toda a parte técnica do pipeline, junto com o Alan (Prado). Eles foram estudando e descobrindo como fazer, testando coisas aqui e ali para ver como iria funcionar melhor. E foi um processo de formiguinha, porque foi quando começamos full-time a produção. No total, foram 20 meses de produção. A Laura trabalhou alguns meses, o Victor Hugo outros meses. Mas de full-time, mesmo, foram 13 ou 14 meses das pessoas trabalhando todos os dias, das 8h às 17h. Quebrando a cabeça, tentando encontrar soluções sobre (por exemplo) qual renderizador usar. Tanto que a gente escolheu o Corona, que foi um software que a gente usa para fazer projetos menores, e o “Umbrella” é o primeiro curta de personagens com tanta complexidade que usou esse renderizador chamado Corona. Fomos passando por vários desafios. Durante esses 14 meses de produção, tivemos outras pessoas que entraram. Nossa equipe chegou a ter nove pessoas simultaneamente. Chegamos a ter três fixos o tempo todo, e, às vezes, tínhamos cinco, seis pessoas por um mês ou dois. E a gente ia procurando soluções para todos esses desafios. É muito legal ver o projeto pronto. Quando ele começou a tomar forma é que a gente conseguiu, mesmo sendo uma equipe super pequena, com uma super limitação de orçamento, de cronograma, terminar. Querendo ou não, a gente precisava terminar logo. Não poderíamos ficar como uma introdução do curta por muitos meses. E também tinha todo o planejamento de festivais de filmes. Por isso nós tínhamos um deadline onde precisávamos terminar o projeto. Foram essas coisas que fomos adicionando. Foram desafios na animação dos cabelos, as roupas, a chuva, também. A Direção de Arte juntou todos os mundos, porque tentamos uma paleta de cores no filme onde o amarelo do guarda-chuva e o do cachecol teriam destaque em todas as cenas, pois seriam coisas que a gente veria mais do que o restante. Nós brincamos com as estações do ano, tendo mais outono no final do curta e, no começo, mais inverno. Nós quisemos que fosse esse clima mais frio. Para trazer um pouco mais de tristeza para o filme. Então, nessa construção, tivemos o Diego Guimarães, o Alan Prado e o Felipe Cardini durante esse tempo todo. E por seis meses tivemos o Hannry Pschera, de Curitiba. Um conterrâneo meu do Paraná. O Hannry foi supervisor de animação e animou algumas cenas. Tivemos cinco animadores no projeto, além da parte técnica de 3D e de renderização. O Hannry fez um trabalho incrível no projeto. Colocou todo o carinho e amor no projeto. A cada conquista do “Umbrella”, ele se emociona e fala que quer trabalhar em projetos que tenham algum significado maior do que ser apenas um projeto. Então, ele se envolveu muito na história do “Umbrella”, também. E ele foi incrível. Teve um papel fundamental na construção desse projeto, junto com a musica e junto com os meninos do 3D. Foi um trabalho de colaboração de muitas mãos. A história é importante. A execução é muito importante. E o pós também é muito importante.

Você citou a dificuldade de achar um ritmo de criação dentro de um filme de, no máximo, 10 minutos. Queria lhe perguntar acerca da acertada opção de usar os créditos finais como, também, um modo de acrescentar elementos à narrativa. Como se deu essa escolha?
É um desafio quando você pensa em um curta metragem. Porque você tem que contar uma história com começo, meio e fim em um curto espaço de tempo. Passar a mensagem que você gostaria que as pessoas entendessem do filme em um espaço muito curto. Nós nos preocupamos em ter um desfecho na história, também. Muitos curtas não têm um desfecho. Assistimos, mas nos perguntamos o que aconteceu. “Ah, mas é da sua interpretação”. Eu entendo algumas coisas serem mais artísticas, mas eu acho que, para ser um projeto voltado para a família, algo mais voltado para todas as idades, você tem que ter um começo, meio e fim. Um desfecho. Muitas pessoas até me perguntaram se eu pensava em fazer um longa do filme. Mas o “Umbrella” foi pensado como um curta. A concepção era a de um curta-metragem. Achamos legal mostrar que a menininha se tornou a companheira de vida dele. Ela tem essas mudanças da perspectiva de menina. Ao chegar no orfanato, ela quer ir embora, pois aquele não é o mundo dela. E quando ela se depara com uma realidade que não é a própria, aquilo dói no coração. Pois ela acaba julgando que o menino roubou o guarda-chuva porque ele é uma pessoa ruim. E na verdade, não. Para ele não foi roubo. Para ele, foi a memória que ele tinha do pai. Nós nos preocupamos em mostrar isso. Mostrar que ela se torna uma pessoa mais gentil, quando decide dar o guarda-chuva dela para ele. É quando ela percebe que aquilo é tão importante para ele. Quando, para ela, é só um guarda-chuva. Mas, para ele, é muito mais do isso. Nós quisemos mostrar que, no final, eles ficaram juntos. E a maneira que encontramos foi nesse crédito final. Colocar a inspiração em fatos reais, e aí colocamos todas essas ilustrações dessa vida que eles tiveram juntos. Mas acho que o desafio maior mesmo é contar uma história em oito minutos.

O filme passou por diversos festivais que o qualificam para uma indicação ao Oscar de Melhor Curta Metragem de Animação. Como está sendo para você e para o co-diretor, Mario Pece, essa questão de levar o filme ao máximo de pessoas possível nessa busca pela indicação e pela divulgação da obra nos festivais?
O Mario é super lowprofile (risos). Ele sempre fica atrás das câmeras. Ele é super tímido. Fala bem português, mas não gosta muito de aparecer. E eu acabo sendo a porta-voz do projeto. Porque o “Umbrella”, realmente, foi um projeto da minha vida. É um projeto muito importante para mim. É um filho. Quando o “Umbrella” ficou pronto, eu tinha essa urgência porque pesquisei durante muito tempo sobre festivais de cinema, para quais festivais enviar. E é aquela coisa, você como curador de um festival… Eu tenho um respeito imenso por todos os festivais de cinema. Antes, eu nunca tinha participado do circuito dos festivais. E aí (risos), eu ouvia teorias mirabolantes de como ser aceito em um festival de cinema. Eu assistia a vídeos no YouTube, pesquisava, falava com pessoas que haviam sido selecionadas com os trabalhos. E cada uma tem uma história diferente. E eu ali me perguntando como eu ia conseguir entrar nos festivais. Eu tinha um calendário com os deadlines de inscrição, de quando aconteciam os festivais. Festivais que tinham que receber os filmes seis meses antes. Foi um aprendizado e um planejamento imensos. E eu seguia muito minha intuição. Tudo que é feito com verdade vai encontrar seu caminho. E eu pensei: “se alguém, em algum lugar, assistir ao ‘Umbrella’ e tocar o coração de alguém, isso já é o maior reconhecimento que eu poderia ter. Não preciso chegar ao maior festival”. E eu brincava, dizendo que íamos chegar ao Oscar. Mas qualquer festival que nos aceitar, já é um prêmio e um reconhecimento muito grande do trabalho. Porque é muito difícil ser selecionado. Programadores de festivais têm uma missão muito importante. Meu respeito por esses profissionais de festivais de cinema é incrível. Eu trabalho mais com publicidade, mais com outro mundo que é diferente do mundo de cinema independente e de festivais. E me deparei com uma das coisas mais lindas do mundo. Me emociono de falar, porque é uma comunidade de pessoas que são apaixonadas por cinema. O “Umbrella” levou oito anos para ficar pronto. Tem outros filmes que levaram mais tempo para ficar prontos. Ou o mesmo tempo. Conheci tanta gente, mesmo que virtualmente, nesses meses de festivais que é incrível. Me arrepio de falar. É incrível a paixão que as pessoas falam dos filmes e a conexão pessoal que elas têm pelos seus filmes. E você acha que é o melhor filme do mundo. Então, quando comecei a enviar, enviei mesmo sem conhecer ninguém, sem nunca ter participado de festivais. E cada vez que eu apertava o botão de inscrição, eu chorava. O Mario tem um monte de vídeos, tipo, vergonhosos (risos), eu de pijama, chorando. Porque ele falava: “O que aconteceu?” E eu, chorando, falava que havia mandado a inscrição do ‘Umbrella’ para o festival. E ele dizia: “Helena, uma hora isso vai ter que parar. Você vai ter que parar de se emocionar” (risos). E eu mandava, assim, com todo amor e carinho. O primeiro festival que eu mandei foi no final de setembro de 2019. E nós recebemos a resposta em outubro. Era um festival da Irlanda. Foi o primeiro que eu mandei e a primeira resposta que recebi. Foi o Foyle Film Festival, que é qualificado para a Academia. E eles nos aceitaram. Foi uma alegria imensa. Em seguida, fomos para a Irlanda. Não ganhamos, mas foi uma experiência incrível, pois participamos de quatro eventos onde o ‘Umbrella’ foi exibido. Para mim, naquele momento, era a coisa mais incrível do mundo. Um super big deal! Aí você chega lá e tem pessoas que já estão no circuito há muito tempo. Que esteve com um filme lá nos anos anteriores. E eu impressionada com tudo. Nós fomos para lá e, em seguida, fomos para o Rio de Janeiro, e apresentamos no VFX Rio, que é um evento que o Matteo (Moriconi) e a Jazmin (Kuan Veng) fazem. Nós participamos antes em 2016. Mas, dessa vez, foi a primeira exibição do ‘Umbrella’ no Brasil. Antes disso, lá na Irlanda, no dia que o ‘Umbrella’ foi exibido, eu fique lá atrás na sala de cinema. Porque fiquei muito nervosa. E fiz isso em todas as vezes que o ‘Umbrella’ passou. Eu ia lá para trás. E via as pessoas chorando, emocionadas. Elas, depois, vinham falar comigo. Falavam: “Obrigada, que filme lindo! A gente sai com uma mensagem tão bonita”. E aquilo para mim era tudo. No Rio, na exibição, foi a mesma coisa. Muita gente chorando. Tinham muitos estudantes de cinema. E eu lá falando: “Acreditem nos seus sonhos. Não desistam. Vão atrás. Pesquisem. Aprendam”. Muitas coisas no nosso meio de cinema são feitas só com experiência, com tempo, mesmo. Nada acontece de um dia para o outro. A gente tem que ter paciência e persistência. Falei bastante sobre isso no Rio. A gente apresentou no Unlock, na Comic Con. O Gustavo (Giglio, curador do evento) nos deu esse espaço lá, também. Fizemos a apresentação e foi a mesma coisa. As pessoas se emocionavam, choravam, e vinham falar conosco sobre como o filme havia tocado o coração delas. Então, nós tivemos essa possibilidade de participar desses quatro eventos, e aí, em dezembro, começamos a receber respostas dos outros festivais. Recebemos do Cinequest Festival. Foi quando começamos a receber respostas de festivais que são qualificados para o Oscar. Engraçado que nos e-mails eles perguntavam se nós aceitávamos participar do festival (risos). E a gente dizia: “óbvio que a gente participa.” (risos).

Em que momento você soube da seleção para o Tribeca?
O Tribeca foi uma surpresa muito grande. Porque quando você ouve falar de festivais de cinema, têm aqueles cinco maiores do mundo. Aqueles que as pessoas focam, como o Sundance, Toronto, Cannes, Veneza e Tribeca. As pessoas sempre falam: “Ah, meu filme vai estar lá um dia”. E mandei para todos esses festivais, também. E mandei para o Tribeca. Mas nunca imaginava. Mandei porque era algo que eu precisava tirar da consciência. Tipo: “Mandei. Fiz a minha parte”. Em janeiro, recebi o e-mail perguntando qual era o status do “Umbrella” e tinha que passar mais algumas informações. Fiquei meio assim. ‘Nossa, Tribeca. Imagina…’ E você olha on line e a porcentagem de aceitação do Tribeca é, tipo, 1% de seis mil curtas inscritos. Esse ano, seis foram escolhidos. Para mim, esses números eram muito surreais. E aí o ‘Umbrella’ foi escolhido. E junto com ele estava o curta ‘To: Gerard’, da Dreamworks; estava o curta do Patrick Smith (N.E. ‘Beyond Noh’), que está no mercado há muito tempo. Outros curtas de pessoas que estão fazendo animações e curtas há muitos anos. Pessoas que fazem parte da Academia. Pessoas que eu nunca imaginei estar junto e o ‘Umbrella’ estava lá (risos). De paraquedas. De paraquedas, eu digo, porque foi muito genuinamente. Os programadores, de fato, assistem a todos os filmes que são enviados. Porque a função deles é, de fato, encontrar novos talentos. Encontrar esses curtas que têm uma mensagem bonita e que as pessoas não sabem quem são esses filmes. Por ter sido, também, um primeiro curta também co-escrito e co-dirigido por uma mulher e com uma mensagem tão bonita, acho que também foi muito positivo para o projeto como um todo. Não acho que foi o principal, porque eu acho que a mensagem, antes de qualquer coisa, foi algo muito importante. Mas acho que o estilo que a gente usou. O 3D é mais demorado, tem um custo mais alto. Às vezes, as pessoas com um projeto pronto de 3D procuram outras formas de visibilidade. Procuram distribuição, procuram outras maneiras de colocar o filme no mundo. E a nossa opção foi ir pelo tradicional circuito de festivais. Porque quando você tem um projeto finalizado, você faz o que? Coloca on line? Faz a distribuição? Qual o objetivo do seu projeto? Então, a gente está aí há quase 14 meses nessa pós produção. E eu estou aqui todos os dias tentando fechar o projeto, divulgando nas redes, e tentando trazer a atenção das pessoas. Mesmo sendo um curta. Depois dele pronto, como você mantém as pessoas interessadas em um projeto que elas não podem assistir?

Verdade. Ao menos, após a trajetória do “Umbrella” pelos festivais em 2019, em 2020 o filme pôde participar das exibições on line.
Isso. Em 2020, por causa da pandemia, graças a Deus, nenhum festival cancelou. Todos foram muito bacanas em se reinventar. Todos fizeram uma edição on line e, pela primeira vez, festivais grandes deram a oportunidade de comprar o ticket on line e assistir ao filme também on line pelo período do festival. Ano passado, isso não era possível. As pessoas tinham que estar fisicamente nos festivais para assistir. Algumas pessoas conseguiram assistir ao “Umbrella”, compraram os ingressos, apoiaram. Mas a maioria das pessoas perguntavam como que dava para assistir, onde estava disponível. E isso também é um desafio. Você continuar promovendo curtas sem poder mostrar. Porque, pelas regras de muitos festivais, você não pode publicar o curta on line em nenhum lugar. Você só pode publicar 10% da duração do filme. Isso é um outro desafio, também. Como manter as pessoas interessadas por um projeto que eles não podem ver. Então, a gente está muito feliz agora que, a partir desse 07/01/2021, poderemos deixá-lo disponível no YouTube on line por duas semanas, onde todo mundo vai poder assistir e realmente ter essa experiência que eu tanto falo. Eu espero que as pessoas sintam alguma coisa com o filme e levem essa mensagem de empatia, que a gente precisa cada vez mais e mais. Então, nós vamos divulgar nosso filme do modo mais singelo, no YouTube. Não temos nada “fancy” por trás. Não temos nenhum streaming apoiando ou que a gente vai estar na grade (risos). Vamos no modo mais singelo, mesmo. No YouTube, esperando que as pessoas compartilhem e possam, de fato, assistir e levar essa mensagem de que não podemos julgar as outras pessoas sem conhecer o que os outros estão passando. Principalmente nesse ano tão difícil de pandemia. Nesse ano tão difícil que bagunçou a vida de todo mundo. Tem tanta gente que perdeu entes queridos. Tanta gente que está passando por dificuldades. Temos que ter empatia. Temos que nos colocar no lugar do outro. Principalmente por esse momento que estamos vivendo. Temos que nos colocar no lugar do outro, e não pensar só na gente. É por isso que vemos tanta gente que está em casa, se cuidando, evitando sair de casa, mas por um bom motivo. Você está olhando para o próximo. Isso é muito importante. Acho que esse ano despertou muito isso nas pessoas. A gente pôde ver quem realmente pensa no próximo, pensa em um todo como sociedade. Quem se preocupa com o outro e quem não. Nós vimos o bom e o ruim das pessoas durante essa pandemia. Então, eu espero que o “Umbrella” possa florescer esse sentimento de empatia nas pessoas e esquente um pouco o coração delas. E que as pessoas possam pensar, mesmo, que a gente quer ajudar o próximo e não podemos julgar sem conhecer o que o outro está passando.

Fico feliz em ver um cinema de curta metragem tão prolífico. Tanto aqui no Brasil, quanto em produções feitas por brasileiros em outros lugares do mundo. E ver brasileiros com essa possibilidade de uma representação no Oscar e já passando por festivais do porte do Tribeca, realmente, orgulha.
Só uma correção, João, o projeto é 100% brasileiro. Foi feito em São Paulo, com toda equipe brasileira. A Stratostorm, que é a minha empresa e a do Mario, ela fica em São Paulo e, recentemente, a gente está tentando expandir aqui para Los Angeles. Eu fico mais tempo em São Paulo do que em Los Angeles. Com a pandemia, nós chegamos aos Estados Unidos em março para justamente participar do Tribeca, do Cinequest e do Cleeveland, que são festivais que qualificam para o Oscar e que a gente estava selecionado. Aconteceu a pandemia, e nós não conseguimos voltar para o Brasil. Porque não tem mais voo direto. Nós estamos trabalhando em homeoffice desde março. Então, é um projeto feito 100% no Brasil. Eu sou brasileira. Acho que os únicos estrangeiros que tem no projeto são os músicos da orquestra, porque gravamos aqui em Los Angeles, na Capitol Studios. E o colorista, que foi o mesmo que fez a cor do “Mandalorian”, o Charles (Bunnag), que fez também a cor do “Rei Leão”, dos “Vingadores”. O Charles é americano, e o Mário é italiano, mas é residente no Brasil. Ele é mais brasileiro do que eu (risos). Isso que foi a parte internacional. Isso é importante frisar. Por mais que eu esteja aqui, nos Estados Unidos, por casa da pandemia, o projeto é brasileiro. Inspirado em uma história que aconteceu no Brasil, claro que com outros elementos. Mas a equipe toda é daí do Brasil. E isso é que a gente quer tentar levar daqui até o anúncio oficial dos indicados. Queremos que os membros da Academia fiquem sabendo, porque tem membros da Academia brasileiros que votam na categoria de animação. Eu não os conheço, mas sei que tem brasileiros. São poucos que fazem parte dos comitês da Academia, mas tem alguns que votam na categoria de animação. Então, o meu desejo, também, é que as pessoas fiquem sabendo do “Umbrella”. Que considerem o nosso filme, também. Porque, de fato, se o “Umbrella” chegar lá, e ser indicado, será o primeiro curta brasileiro (empolgada) 100% brasileiro a chegar tão perto assim. Acho que isso é muito legal. Porque se a gente for indicado, é o primeiro curta brasileiro na história a ser indicado. Tivemos o longa “O Menino e o Mundo”. Tivemos ano passado o “Democracia em Vertigem”. Mas são todos longas. Não temos na categoria de curtas, que, às vezes, é uma categoria que as pessoas não olham muito. As pessoas que eu digo, a grande massa que assiste a cerimônia do Oscar. Mas nós, da indústria, estamos sempre de olho sabendo quais são os curtas. Que existem curtas. Que eles têm espaço na Academia. E o que é muito legal. São curtas metragens tão reconhecidos pelo trabalho, e que, possivelmente, ganham um Oscar, que é o maior reconhecimento do cinema mundial. E é muito legal que a Academia nunca tirou essa categoria dos prêmios, mantendo lá Melhor Curta de Documentário, de Live Action e o de Animação. Estamos em uma torcida, fazendo do jeito que a gente pode, agradecendo o espaço que todos os veículos estão dando. As pessoas têm sido tão generosas com a gente e aberto a porta para ouvir a história do “Umbrella” e para contar essa história. E o mais importante é de fato saber que as pessoas gostam do filme não só por uma notícia de que é um filme brasileiro, mas porque elas assistem e acham delicado, que acham bonito. Isso é o mais legal de tudo.

Você citou os membros votantes que são brasileiros, e o próprio Alê Abreu, diretor de “O Menino e o Mundo”, é um deles. Além dele, tem, também, o Otto Guerra.
Verdade. Eu não os conheço. Dá vontade de bater na porta e falar: “Olha, nosso Brasil pode ser representado” (risos). Mas eu não os conheço. Conheço o trabalho deles e os admiro muito. Acho o trabalho do Otto Guerra incrível. Ele ganhou dois prêmios com os curtas dele na Academia Brasileira de Cinema. É incrível o trabalho dele. Eu super respeito. Nessa nossa luta pela Cultura e por produzir projetos independentes, é muito legal. Esse ano me esquenta um pouco o coração, também, de poder trazer alguma boa notícia para o Brasil. A gente está com menos espaço na Cultura. Ela está tão defasada nesse ano por, enfim, várias coisas acontecendo politicamente no nosso país. E eu acho que, sendo um projeto independente, levando o nome do Brasil para tantos lugares do mundo, é bem especial. Esse é um momento bem especial para mim e para toda a nossa equipe.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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