Discografia comentada: Pin Ups

por Richard Cruz

Antes de virar autor/organizador de livros (o bem sacado “Discoteca Básica”, lançado no final de 2014, pela Edições Ideal) e ao mesmo tempo em que dirigia programas para a MTV Brasil, como o saudoso Lado B, Zé Antônio Algodoal dedicava-se a esmerilhar a guitarra no Pin Ups, uma das bandas pioneiras no País do chamado indie, guitar, shoegazer, ou simplesmente rock independente.

Zé Antônio foi o único a passar por todas as fases da banda, que formou em Santo André, nos idos de 88, com o vocalista Luiz Gustavo. A ideia inicial dos dois amigos era fazer um som ao estilo da banda inglesa Primitives, mas como não encontraram as meninas certas para os outros instrumentos, acabaram fixando-se como um trio (com o baterista Marcos) e gravando um primeiro disco (em 1990) embebido em noise (“Psychocandy” e “Sonic Flower Groove”, nas entrelinhas).

Após passar por uma fase acústica com “Gash: a Mellow Project” (1992), que marca a entrada da baixista Alê Briganti na banda, e lançar um terceiro álbum entre a explosão do grunge e a febre Green Day no País (época em que, segundo a baixista, “eram muito metal para os guitar e muito bichas para os hardcore”), o quarteto vive o que o que pra muitos é sua melhor fase: a sequência de álbuns “Jodie Foster” (1995), “Lee Marvin” (1998) e “Bruce Lee” (1999).

Os dois últimos álbuns (“Lee Marvin” e “Bruce Lee”), gravados depois da troca de Luiz Gustavo por Alê Briganti nos vocais e também lançados de forma independente, tem uma sonoridade bem mais pop e contam ainda com Eliane na segunda guitarra, além do excelente baterista Flavio, que depois também assumiu as baquetas no Forgotten Boys e em várias outras bandas do underground paulistano.

Considerados “à frente de seu tempo” por parte da crítica e “mera cópia de som de gringo” por outra parcela, a banda até hoje é referência de um tipo de som que, no Brasil, se convencionou chamar de rock alternativo. Nunca fizeram sucesso, mas são respeitados e hoje integram uma lista de boas bandas muito faladas e discutidas, mas pouco ouvidas. Para mudar sutilmente esse cenário, conheça todos os álbuns do Pin Ups abaixo:

“Time Will Burn” (1990, Stiletto)

O primeiro álbum da banda, que só foi lançado em vinil, é considerado até hoje como um dos marcos da cena alternativa nacional do final dos anos 80/começo dos 90. Lançado pelo selo londrino Stilleto, que havia chegado ao Brasil em 1987 (e feito parcerias de distribuição primeiro com a BMG/Ariola e depois Sony Music) e queria uma banda brasileira para figurar em seu catálogo de lançamentos ao lado de Joy Division, My Bloody Valentine, The Fall e A Certain Ratio (e, ok, Information Society), entre outros, o disco, produzido por Thomas Pappon (do Fellini, outra importantíssima banda independente brasileira), não tem uma sonoridade digna das músicas da banda. Apesar das dificuldades técnicas, o vocal enterrado na mixagem (de propósito), o baixão proeminente e a bateria “burra” do disco geraram pérolas sônicas (“So High”) e stoogeanas (“The Groove”). A influência do Jesus and Mary Chain é sentida principalmente nas faixas mais cadenciadas como “Thousand Times” e “Hard to Fall”, cujo bumbo remete diretamente a “Just Like Honey”. Mas é em “Kill Myself” que a banda já mostra estar antenada com o som garageiro americano e a temática que alguns anos depois conquistaria o mundo sob a alcunha de “grunge”. A capa do disco poderia ser confundida com qualquer lançamento da Creation na época.

Ouça: “So High”, “Kill Myself”, “Loose” e “Hard to Fall”.

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Gash: a Mellow Project by Pin Ups (1992, Zoyd Discos)

Então, em 1992, quando outras agremiações indie nacionais alcançaram o Pin Ups de dois anos antes e começaram a fazer barulho (culpa do tal “rock de Seattle”), a banda decidiu gravar um projeto (semi) acústico. Escancarando de vez o desejo de ser Jesus (and Mary Chain), o vocalista Luiz Gustavo soa, em grande parte das faixas, como um Lou Reed com sotaque de Santo André. Para a crítica, o Pin Ups deixou de ser o legítimo representante do rock independente paulista para ser só “mais um entre os múltiplos filhotes bastardos do Velvet Underground”, como castigou uma resenha da revista Bizz na época do lançamento. Mesmo sendo uma pérola menor na discografia da banda, as guitarras circulares de “Still Kiss” e “Most of the Time”, o tecladinho suave de “Life´s Gonna Hit” e a sonoridade slowdiveana de “Open Wide” merecem uma audição mais cuidadosa. O disco termina com um cover de “A Day in the Life”, dos Beatles, que tem o mérito de introduzir a baixista Alê Briganti no vocal principal. O problema é que existem músicas cujas regravações deveriam ser proibidas. E essa definitivamente é uma delas.

Ouça: “Life´s gonna hit”, “Open Wide” e “Candle”.

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Scrabby! ( 1993, Devil Discos)

No ano seguinte, já devidamente cheios de Nirvana, Sonic Youth e (ainda) Stooges na cabeça, o Pin Ups colocou João Gordo (ele mesmo, então namorado da baixista Alê) pra apertar e girar os botões na produção. Com um cara entendido de som pesado no comando, o resultado foi um disco, digamos, abrasivo. O baixo foi mixado mais alto que em todos os outros álbuns da banda e as guitarras soam mais estridentes. Mas a impressão é que tudo está em seu devido lugar e que a banda finalmente conseguiu colocar em vinil as ideias que tinha desde o primeiro disco. Uma pitada de Pixies aqui (“Let me Down”), outra de experimentalismo ali (“Way”), com direito até a hitzinho indie de MTV (“Going On” tocou muito no Lado B). Mesmo em meio a tanta barulheira, os backings de Alê ganharam destaque. Um bom exemplo é “You Hurt”, que ainda conta com um wah wah matador na guitarra. A banda continuou insistindo nos covers, nesse caso acelerando “Evisceration” da companheira de estrada Killing Chainsaw (de Piracicaba, interior de São Paulo). Só que (mais uma vez) soou aquém do original.

Ouça: “Going On”, “Crack”, “Let me Down”, “You Hurt”.

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Jodie Foster (1995, Devil Discos)

As microfonias da vinheta de abertura do disco não estão lá de enfeite (tanto que elas também o encerram), mas “Jodie Foster” pega fogo mesmo a partir da terceira faixa, “Feel Strange”. Com um dos melhores riffs da carreira da banda, as guitarras estão sobrepostas a um vocal que mostrava sinais de evolução e havia finalmente saído da sombra de Lou Reed. A sonoridade do disco está impregnada pela influência das guitar bands norte-americanas (“Confusion” soa como um Rocket from the Crypt sem os metais, “TV Set” lembra “Radio Friendly Unit Shifter” do Nirvana e “Stabbin” é um quase hardcore). “Witkin”, cantada de maneira suave pela baixista, ficou meio deslocada do resto do álbum, e talvez devesse ter sido guardada pro seguinte, “Lee Marvin”. Mas a faixa já mostrava qual seria o mote a partir dali: o vocalista Luiz Gustavo foi se dedicar à carreira de (talentoso) cartunista, deixando o microfone livre pra Alê Briganti levar o Pin Ups pra um direcionamento mais acessível. O disco ainda tem um cover dos onipresentes Jesus and Mary Chain (“In a Hole”), que retirou totalmente a atmosfera bubblegum do original e é um dos únicos deslizes do disco. Tanto que nem vale a pena fazer brincadeirinha com o nome da faixa (ops).

Ouça: “Witkin”, “Feel Strange”, “Confusion”, “Stabbin”, “Fifty one”.

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Lee Marvin (1998, Spicy Records)

As mudanças já são sentidas nos primeiros segundos de “Weather”, que abre o disco. No lugar da barulheira infernal e dos vocais gritados, os acordes dedilhados e a voz suave, quase sussurrada de Alê. A partir da segunda faixa, “It’s Your Turn”, o tom muda para um bubblegum (segundo a própria baixista, em entrevista na época) enérgico e redondinho, que predominaria no resto das músicas. Saem as referências noise e entram bandas como Weezer, Nada Surf, Foo Fighters e Elastica. O que já se antecipava em uma faixa do disco anterior se concretizou no single de “Guts”, que, antes de figurar aqui, havia sido lançado em um compacto de vinil amarelo pela Fishy Records, dois anos antes. O vocal, finalmente inteligível, permite ao ouvinte perceber que a letras largaram a deprê dos primeiros discos para mostrar um lado mais sensível e feminino (mas não feminista), ainda que por vezes sarcástico (caso de “It´s Your Turn”, que parece sacanear um ex-namorado). Em “Lee Marvin”, a “grande pequena banda do indie rock brasileiro” completava 10 anos, tornava-se queridinha da imprensa rocker mais descolada (Folhateen, Dynamite e Rock Press) e até da sisuda Bizz, que se rasgou em elogios ao disco. A produção ficou a cargo de Zé Antônio, titular do instrumento, que deixou as guitarras melodiosas e rascantes na medida certa. A bateria é um caso à parte, indo da suavidade de “Weather” à velocidade de “Putting things together” e passando pelas viradas certeiras de “You Shouldn’t Go Away”. A banda não erra nem no cover da vez: acelerou uma faixa desconhecida do Police (“It’s Alright For You”) e produziu uma faixa que “num mundo ideal estouraria nas rádios rock”, segundo a resenha do disco no Estadão – há ainda outro cover no disco, “Frontwards”, do Pavement. Um disco perfeito.

Ouça: o disco inteiro, de cabo a rabo.

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Bruce Lee (1999, Short Records)

Mesmo soando mais pop, o Pin Ups ainda mantinha firmes as raízes indie. E nada mais indie do que enfiar um show acústico inteiro numa faixa de 35 minutos, sem colocar nomes de músicas no encarte, e disfarça-lo dentro de uma “quase” EP, que ainda conta com duas inéditas e uma vinhetinha indiana (chata). As duas de estúdio estão entre as melhores coisas feitas pelo grupo. “To All Our Friends” tem guitarras a la Weezer e ganhou destaque no Lado B da MTV em uma versão ao vivo enquanto o título de “Growing Up” já entrega o que vai se ouvir: uma banda mais madura, melódica e cuidadosa com os arranjos. A dita maturidade se confirma na quarta faixa, grafada na contra capa como 12.12.98 (o dia em que foi gravada), que traz a tal apresentação desplugada. Músicas da primeira fase (como “Crack” e “Going On”, do noise “Scrabby?”) aparecem com melodias antes inexistentes e foram suavizadas pra não fazer feio ao lado das do disco anterior (“It’s Your Turn” e “Loneliness”, devidamente levadas no bongô). A banda ainda tratou de escancarar de vez o que estava ouvindo naquela época, por meio de covers de Rocket from The Crypt, Superchunk e Beatles, além de uma improvável versão de “The Model”, do Kraftwerk. O disco termina com “ You Shouldn’t go Away”, e a sensação que fica é que ele realmente não deveriam ter ido embora. Pelo menos, não sem antes gravar mais alguns disquinhos.

Ouça : o disco inteiro.

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