CDs: Kitsch Pop Cult, Felipe Cordeiro

por Elvis Rocha

Felipe Cordeiro é filho de Manoel Cordeiro, músico da velha guarda e um dos responsáveis por manter vivos, numa época de desdém e alheamento do alto escalão da música paraense, ritmos como a lambada, o merengue, a cumbia e a guitarrada. Cercado de músicos, frequentando estúdios e palcos desde cedo, o Cordeiro filho cresceu. Enfiou a cara na Filosofia no começo da vida adulta. Um Chimbinha aqui, um Adorno ali, eis o resultado: “Kitsch Pop Cult” (Ná Music, download gratuito aqui), seu álbum de estreia nacional, pode ser interpretado, licença poética concedida, como um merengue a ser bailado entre o cérebro e a pélvis.

Mas, antes, sejamos justos com a história. O bom momento vivido por Felipe Cordeiro (badalado em publicações especializadas e figurinha fácil na boca de descolados Brasil afora) não nasceu agora: é fruto direto do trabalho iniciado anos antes por figuras fundamentais no contexto atual da música do Pará, como Pio Lobato, o primeiro da nova leva de músicos da capital a enxergar o beco sem saída em que o anglicismo xerox das bandas locais havia se metido na virada dos 1980 para os 90 – há quem cite o Epadu como estalo inicial para esse processo, mas a produção da banda, de curta existência, é incipiente demais para garanti-la os créditos.

Lobato, cria da Universidade Federal do Pará, descobriu em vinis empoeirados de Mestre Vieira, músico de Barcarena e considerado pai das redescobertas guitarradas, o caminho para sua criatividade. Impressionado com a técnica do mestre barcarenense, abandonou as pedaleiras, reduziu seu kit ao mínimo e, à frente do Cravo Carbono, iniciou o resgate, nem sempre organizado, de uma música calcada mais na experiência de instrumentistas intuitivos e calejados pela rotina de bares, puteiros e casas noturnas do interior e da capital.

Ok, ninguém faz nada sozinho e um pouco de contexto vai bem quando o assunto é cultura popular. Com o auxílio das circunstâncias (a volta ao regionalismo na música pop nacional via Mangue Beat, a divulgação de novos artistas em rádios públicas e universitárias, o surgimento de produtoras investindo em bandas autorais e o p2p aliado à curiosidade de uma geração alheia à influência de antigos medalhões da música paraense), Pio e seus parceiros alcançaram um objetivo que então parecia improvável: fazer uma leva de garotos na casa dos 20 e pouco anos abrir a cabeça (e os bolsos) para gêneros produzidos em Belém e cercanias nas décadas anteriores. Aos poucos, o asfalto foi tomando conta da piçarra e hoje Gaby Amarantos e Gang do Eletro são celebrados como heróis nas crazy party´s que animam a noite da classe média belenense.

Convenhamos, um feito e tanto.

Acontece que Pio Lobato, um músico virtuoso e cerebral, é estudioso demais para relaxar. Como integrante do Cravo Carbono ou nos inúmeros projetos paralelos que faz parte, a marca do instrumentista que estudou anos a fio e põe em cada nota a ciência do que faz e de onde quer chegar termina por deixá-lo numa situação inusitada: sua produção, nascida da influência de ritmos e músicos populares, é estilizada demais para ser consumida de fato pelo povão – procure álbuns de Pio Lobato, Cravo Carbono, La Pupuña e similares em camelôs da Pedreira, Jurunas, Sacramenta, Guamá ou Terra Firme, filtros nervosos da subcultura que alimenta os ritmos que vivem à base da empatia com camadas menos favorecidas da população.

Voltamos então a Felipe Cordeiro. E a Filosofia. Como tal, esta cadeira tem uma tendência natural a elucubrações teóricas. Em entrevistas, Felipe faz uma defesa tão articulada e cheia de citações ao universo do tecnobrega e das aparelhagens que se coloca, ainda que veladamente, na condição de ponta-de-lança de movimento. O interlocutor mais atento vai imediatamente a outra figura do cenário nacional conhecida pela eloquência na defesa de seus pontos de vista: o ame-ou-odeie Caetano Veloso. A referência ao baiano não é tão disparatada quanto inicialmente possa parecer. Citando a Vanguarda Paulistana como inspiração-mor para seu trabalho, é em outro momento da música brasileira que residem as maiores semelhanças de Felipe Cordeiro e as ambições que o acompanham no boom recente de papa-chibés fora dos limites do estado.

No final dos anos 1960, Caetano Veloso (também ele um aspirante a teórico da cultura popular), juntou-se a Gilberto Gil, Tom Zé, Mutantes, Rogério Duprat e outros para viabilizar a Tropicália, movimento no qual todas as gerações seguintes de artistas brasileiros passariam a se basear, seja para enviar flores ou arremessar pedras, a partir de então. Os tropicalistas, que misturaram na mesma fornada Roberto Carlos e Tarsila Amaral, Glauber Rocha e Vicente Celestino, guitarra elétrica e viola caipira, foram para o Brasil o que Felipe Cordeiro e seus pares (guardadas, claro, as devidas proporções) anseiam ser para a nova música paraense: a interseção entre culturas de classe e o ponto definitivo de ruptura na segregação de estilos que sempre marcaram nosso playground sonoro. Esse bigodinho de Felipe é muito Gil-68, não?

É isso, amigos: no debate cultural, estamos 40 anos atrasados.

A classe média, essa entidade escorregadia, crivada de ressentimentos por todos os lados, não trepa sem amor. Vai à periferia dar umazinha em bailes de aparelhagem, mas volta pra casa com a desculpa esfarrapada na ponta da língua: “Fui, amor, mas não ouço no carro”. Felipe Cordeiro e suas referências – Nietzsche, Kitsch, outros isches – emolduradas em ritmos desde sempre afeitos mais à dança e à celebração são uma tentativa de apaziguar este velho conflito (Berry, Elvis, Dylan, Beatles. Já vimos o filme?). Se por um lado é preciso distanciamento, vá lá, acadêmico para alcançar os termos que traduzem sua obra, Cordeiro se apoia na genética (que o empresta a saliência que falta em Pio Lobato) para aliviar o estranhamento que seu lirismo-cabeça causaria em castelos do populacho como o Palmeiraço, A Pororoca ou o Açude Maguari.

Nada mais emblemático do que a assinatura tripla na produção do álbum. Cordeiro divide com o pai, Manoel, e o paulista André Abujamra a responsabilidade pela feitura de “Kitsch Pop Cult”. No CD, o resultado aponta fácil onde estão as digitais de cada um. Conhecido por seu trabalho à frente d’Os Mulheres Negras e do Karnak, Abujamra catou as gravações feitas pelos Cordeiro e burilou as muitas camadas de guitarras, integrando cordas a ritmos regionais, vinhetas bem sacadas a metais, além do apuro na mixagem final do álbum. Com seu prestígio, carimbou o passaporte necessário para reclamar a atenção de formadores de opinião do eixo Rio-São Paulo, ainda hoje, em tempos de trocas frenéticas de informação, fundamentais para quem quiser deixar seu quintal e ciscar em outras paragens – não à toa Gaby Amarantos foi atrás de Carlos Eduardo Miranda, um neófito em assuntos tecnobreguísticos, para a produção de seu aguardado álbum nacional, mas isso é outra conversa.

Abujamra, macaco velho dos estúdios, sabe o suficiente para ter consciência que Cordeiro, letrista, compositor e instrumentista de talento, tem um longo caminho a percorrer como cantor. Ao vivo, as limitações são maquiadas no rebolado matreiro das vocalistas de apoio e na performance dos músicos experientes que o ladeiam. No estúdio, a solução inteligente foi enterrar a voz de Felipe embaixo do que ele tem de melhor: músicas bem resolvidas e arranjos interessantes. Se a intenção com “Kitsch Pop Cult” era apresentar um disco conciso, com jeitão de manifesto (olha a Tropicália aí, gente), Cordeiro acertou a mão. Nas dez faixas, há belas emulações ao merengue, às guitarradas, à lambada, ao rock-pop, à surf music, ao tecnobrega e ao carimbó de Pinduca. Tudo embalado num pacote século XXI, pronto para o consumo de um público recém-informado de que há mais do que Jader Barbalho e minério de ferro neste lado do país.

No final de uma tarde chuvosa de dezembro passado, filho e mãe encaram uma carona do centro de Belém até Ananindeua. Uma hora certa de carro e engarrafamento. Cabocla nascida e criada nas brenhas de Cametá, dona Léo sempre foi termômetro para tudo que é ou aspira ser popular. “Kitsch Pop Cult” no player, sem muito aviso. Já no riff de abertura de “Legal e Ilegal”, percebe-se um ombrinho balançando, com uma expressão que dizia mais ou menos “conheço isso de algum lugar”. Pouco depois, a tentativa de cantarolar, sem muita convicção, a letra repleta de imagens que mal acabara de conhecer. “Essa eu não tolero… É dessa que eu gosto…” As faixas avançam no ritmo do álbum e, alguns outeiros, jam sessions, culturas sintéticas no drum´n´bass, lambadas com farinha, caspas do diabo, revistas de cinema e ervas do amor mais tarde, ela pergunta:

“Quem é, filho?”
”Felipe Cordeiro, mãe, um cara daqui”
“Ah, gostei disso. Grava um CD pra eu mostrar pro teu pai?”

Talvez seja esse o maior elogio a “Kitsch Pop Cult”. Na guerra entre o Walter Benjamin e o Alípio Martins que dividem Felipe Cordeiro, o segundo leva a melhor sobre o rival, por margem mínima de pontos, nesta primeira e disputada batalha.

Que venham as próximas.

– Elvis Rocha (siga @ElvisRocha) é jornalista em Belém e edita o Amazônia Jornal

4 thoughts on “CDs: Kitsch Pop Cult, Felipe Cordeiro

  1. “Passante”, de Iva Rothe é o exemplo mais bem acabado de música com influências de bregas e quetais, entre a geração pop do Pará, que realmente acerta no alvo.

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