A dialética Grant-DelRey

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por Bruno Federowski

Escrever sobre Lana Del Rey depois do tsunami digital que definiu o anti-delreyísmo como o gênero literário do novo milênio é um pouco desanimador. Mas o fato é que, por mais saturada que esteja a websfera, já faz pelo menos dois meses que se descobriu que o Bruce Wayne por trás da popstar era nada mais nada menos do que a girl-next-door franzina e cheia de sardas Lizzy Grant e a indignação coletiva não dá sinais de perder a força.

E é claro, os lábios. Parece que uma das maior ofensas a que seus admiradores frenéticos foram submetidos foi perceber que talvez Lana houvesse feito cirurgias plásticas para fazer com que seus lábios fossem tão carnudos quanto o necessário. Mesmo que isso não seja uma questão musical por si só, fica a impressão de que a angelinajoliezação dos lábios da popstar representa tudo aquilo que há de errado em sua música: ela foi construída, semicolcheia por semicolcheia, verso por verso, de maneira a parecer ser aquilo que não é – de maneira a parecer aquilo que pode ser vendido. E talvez a maior ofensa de todas tenha sido que, até alguém desenterrar Lizzy Grant do cemitério de bytes, a manobra deu certo.

É compreensível que isso aborreça apreciadores de música, principalmente os fãs ativos no cenário de crítica online, que têm (temos) a mania de colocar sua capacidade de apreciação estética acima da dos outros reles mortais. Insistir nesse ponto, entretanto, é birra. E claro, como se espera que ocorra, após a torrente de textos agressivos, pessoais e ofensivos sobre a pobre Del Rey, as resenhas mais ponderadas definiram seu álbum como o que ele é: um disco pop acima da média, não espetacular nem revolucionário, mas que faz o que se espera de um álbum pop.

Mas ainda é interessante se perguntar por que a reinvenção da cantora causou tanto furor. Num texto na revista online Slate, o crítico Jonah Weiner – que guarda sempre um espaço no coração para a polêmica, é bom deixar claro – já mostrou que um artista pop se transformar para o sucesso não é, de modo algum, uma novidade. Numa sketch em que a queen do buzz é entrevistada por Seth Meyers, no programa Saturday Night Live:

Seth Meyers – “Alguns críticos destacaram que você tentou estabelecer uma carreira como cantora há alguns anos sob seu verdadeiro nome, Lizzy Grant, e eu imagino que eles acham que seu novo nome, Lana Del Rey, soa como um trunfo de marketing.”

Lana del Rey/Lizzy Grant – “Sim, e eles estão absolutamente corretos. Nenhum músico sério mudaria seu próprio nome. Exceto talvez Sting, Cher, Elton John, Lady Gaga, Jay-Z, todo mundo que está no hip-hop e claro, Bob Dylan.”

Popstars não precisam ser verdadeiros. Eles precisam ter músicas que cumpram sua função – quer seja gerar choro o suficiente para hidratar o Saara (“Video Games”) ou funcionar como background de um nightclub de Blade Runner (“Diet Mountain Dew”). Se para o mundo do pop ela deve ser acusada de algo, é de atirar em direções demais. Destilando as camadas de ódio e rancor de sua plateia, Lana Del Rey está seguindo o manual do artista pop da etapa zero em diante.

E é nesse momento que qualquer ser humano que já teve um leve vestígio de pretensão artística ou usou música como uma forma de lidar com a própria vida (isto é, foi um adolescente) tem um enfarto. Manuais não têm a ver com arte. Arte é individual, subjetiva, e de modo alguma pode ser reduzida a um procedimento! Manuais e regras e padronizações são o que os adultos num filme de Steven Spielberg ou de John Hughes usariam para manter a juventude entretida e sem rebeldia. E claro, olhando para a o percurso da música pop até hoje, é evidente que o que se mantém relevante é aquilo que conseguiu escorregar pelos dedos desse grande mecanismo e mesmo assim encontrar seu lugar no mercado protegidos por um gigante dedo-do-meio voltado aos executivos que achavam que entendiam desse negócio de arte.

A mesma lógica fundou os arcabouços da crença de que a música independente, descentralizada e embasada por uma rede imensa de comunicação chamada Internet é mais expressiva e verdadeira do que qualquer coisa no Top 200 da Billboard. Com gravadoras menores, há menos interferência, há menos negócios, há menos indústria. Isso é evidente até antes do boom do Nirvana: gravações lo-fi soam autênticas e artísticas porque o artista se expressa com a mínima mediação da tecnologia. What you see is what you get. E no final, a expressão pessoal fica com a maior pureza imaginável num cenário tão monetário quanto o da música pop.

Tudo isso, é claro, se vivêssemos num filme de Steven Spielberg ou de John Hughes.

A verdade, como sempre, é muito mais complexa. “Nebraska”, de Bruce Springsteen, é um álbum extremamente confessional e honesto, mas isso não tira o poder de expressão de “The River” – talvez no último caso ele seja até mais marcante: há mais uma variável na equação, os clichês vendáveis, com os quais Springsteen joga, a cada música, e organiza de maneira a adequar-se a seu significado; o Guided By Voices chegou a gastar bastante dinheiro comprando equipamentos antigos em seus discos mais recentes para replicar o ambiente técnico de suas primeiras gravações; e mesmo o ambiente independente produziu bandas como Death Cab for Cutie, The Shins e Plain White Ts, que poderiam facilmente tocar em qualquer rádio de grande difusão (no caso do Plain White Ts, tocou). O que, por mais que soe como uma crítica ferrenha (será?), não é necessariamente ruim.

Quanto mais se olha de perto para o mercado da música independente, mais se é possível perceber que ele é exatamente isso: um mercado, assim como o mercado da música pop. Talvez com regras diferentes, mas no fundo os artistas que nele se encontram têm de achar um equilíbrio entre comercialização e expressão assim como teriam de fazer caso assinassem com a Warner ou com a EMI. Fazer música expressiva é difícil em qualquer lugar.

Lizzy Grant chegou aos holofotes por meio do Guardian, da Pitchfork e, no Brasil, do Popload – os mesmos caminhos que trilharam bandas como Strokes, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e todas os primeiros termômetros do indie dos anos 2000 - e um vídeo lo-fi no YouTube que legitimou uma aura da nova década. Seguir nesse caminho poderia, provavelmente, levar a dois destinos: sucesso entre o público alternativo, assinar um contrato com uma major e uma carreira em que metade de seus fãs chamariam a outra metade de sell-outs e seriam chamados de hipsters arrogantes; ou uma vida perpétua em gravadoras pequenas, alcançando o coração da crítica e de uma parcela pequena de ouvintes mas jamais o status de popstar.

Lana decidiu jogar com as regras das majors com um público que olha para esse jogo como um bando de regras e procedimentos que acabam com qualquer vestígio de autenticidade que resta na música pop. O grande público pode ser facilmente enganado por esse tipo de mecanismo (“você realmente acha que a Adele está sentindo isso que ela canta? Mesmo?”), mas eles sabem melhor do que cair em truques óbvios, descartáveis e padronizados. E a descoberta de que ela falseou boa parte de sua vida anterior vem como uma facada no intestino porque significa que, pelo menos a princípio, ela conseguiu enganar todo mundo.

Se Lana tivesse gravado as mesmas músicas, mas assumido a persona de Lizzy Grant, a polêmica não seria tão grande. Se ela tivesse virado Lana Del Rey, mas divulgado suas músicas na MTV, em rádios e na trilha sonora de Jersey Shore, também não. Ela decidiu escolher seu próprio caminho, o que teve resultados inesperados: apesar de ter alienado boa parte de seus fãs originais e da crítica especializada, seu álbum de estreia vendeu 117 mil cópias numa só semana e se tornou o disco vendido mais rápido em 2012 (ok, não chegamos nem metade de fevereiro, mas ainda significa algo). O futuro pode ser incerto, mas é claro que pelo menos como estratégia a curto-prazo (e excetuando-se a performance ao vivo no Saturday Night Live, que deixou claro que, se ela queria escolher uma nova personalidade, talvez devesse ter ensaiado um pouco mais em frente ao espelho), a dialética Grant-DelRey deu certo.

Lana pode não ser uma grande artista e pode ser que não nos lembremos dela em seis meses, mas a movimentação midiática ao seu redor expõe o quanto um cenário musical que, em meio ao lento declínio da indústria, se declara mais diverso, aberto e variado ainda é pautado por orgulhinhos, preconceitos e fatos mais-do-que-previsíveis por qualquer psicólogo de botequim que já tenha lidado com times de futebol, brincadeiras de criança ou qualquer dinâmica de grupo. Talvez seja o momento de abrirmos mão desse pique-bandeira sociológico e começarmos a olhar com mais profundidade para o que realmente importa, sob o risco de que, daqui a pouco, a música em si se torne o fator menos importante na decisão de o que é relevante e o que não é.

- Bruno Federowski (siga @federowski) estuda jornalismo e assina o blog Blues & Sentimental

This entry was posted on Domingo, Fevereiro 12th, 2012 and is filed under Música. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

5 Responses to “A dialética Grant-DelRey”

  1. Maicon Rodrigo

    Otimo texto, representou bem o momento da “persona non grata” do pop

  2. Mateus

    Muito, muito bom. Parabens, cara.

  3. Juliana

    finalmente um pouco de sensatez sobre o assunto!

  4. Tiago Ribeiro

    O melhor texto que li sobre a Lana de Rey e seu disco.Realmente o grande problema do disco é a falta de coesão e a pompa, toda a música tem uma orquestração e isso acaba sendo entediante.Quanto a ela mudar de nome, isso é uma bobagem, pois mudanças de nomes acontecem a muito tempo.

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