CD: A Banda Mais Bonita da Cidade

“A Banda Mais Bonita da Cidade”, A Banda Mais Bonita da Cidade (2011)
por Juliana Simon

“Oração” voltou e talvez não suma tão cedo. A música d’A Banda Mais Bonita da Cidade agora faz parte de um CD que promete fazer mais um Fla-Flu entre público e crítica. Às primeiras audições, o hype-hippie-fofinho ainda está lá, mas não vem sozinho e o CD surpreende.

O álbum começa com a bem-humorada “Mercadoramama”. A letra cotidiana e a linda voz de Uyara Torrente (como soa diferente da “música da penteadeira”…) agradam e o refrão, mesmo cantarolante, conquista. Em seguida, “Aos Garotos de Aluguel” (canção da conterrânea Poléxia, ex-banda do guitarrista Rodrigo Lemos). Irônica e de sonoridade forte, é um dos grandes destaques.

A primeira derrapada vem com “Boa Pessoa”, uma música que simplesmente não cresce. A partir daí, o CD parece estar dividido em dois blocos: um de músicas mais obscuras e interessantes e um outro com uma simplicidade sem graça em muitos momentos.

“Bailarina Torta” tem o charme de melodia irregular, com um piano dramático e desafinado no limite do dolorido. Depois, a esquizofrênica “Oxigênio”, que parece seguir a fórmula da anterior até assustar com um country, um coro e gritos. Fechando o bloco, “Ótima”. Uma ode à depressão – quem diria –, a faixa exagera na tinta, mas deixa claro que nem só de fofurice vive o grupo.

Passada a surpresa, o restante do álbum retoma as letras singelas e a sonoridade leve. “Canção Pra Não Voltar” e “Cantiga De Dar Tchau” têm melodias bem desenhadas e melancolia na medida certa. “Se Eu Corro” começa preguiçosa, mas ganha peso e agrada.

“Solitária” e “Nunca” são duas outras canções que não crescem. A primeira força a barra com uma estranhíssima parte falada e teatral. A segunda perde a oportunidade de ser grande por exagerar na simplicidade, apesar da bela interpretação.

Um capítulo a parte

“Oração” está lá como 11ª faixa e, mesmo com arranjo diferente, continua repetitiva e “pentelhamente” fofa e alegre. Mas, não há como negar, é o carro-chefe da banda e não vai ser apagada de sua biografia. O vídeo e seu sucesso deram uma força desproporcional à música, mas ela serviu ao que se destina: chamou a atenção e colocou o grupo, ao mesmo tempo, em evidência e no olho do furacão.

A história da banda se assemelha a de outros artistas desta geração, como Mallu (não mais Magalhães). A Banda surgiu e cresceu na internet. Fez um belíssimo plano-sequência para o lançamento de sua música que hoje, quase seis meses depois, tem mais de oito milhões de visualizações no YouTube. A novidade fica por conta do financiamento do primeiro CD, realizado com a ajuda de fãs por crowdfounding e disponibilizado de graça (link do site oficial no final do texto).

Já a discussão sobre a tal qualidade do hype não é nova – lembrai-vos de “Anna Julia”, do Los Hermanos, e dos primeiros trabalhos da própria Mallu – e não há previsão de consenso. O fato é que torcer o nariz para “Oração” e desistir de ouvir o resto do trabalho é um erro. A sonoridade deste primeiro CD é tão variada e competente que parece difícil não encontrar pelo menos uma coisa que agrade os ouvidos.

Produções bem-feitas e independentes como esta merecem uma audição mais atenta e desarmada. No caso d’A Banda Mais Bonita da Cidade, o hype provoca, mas infeliz de quem tomá-lo por repelente e deixar de conhecer as outras facetas do grupo.

Download: http://www.abandamaisbonitadacidade.art.br/odisco/

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– Juliana Simon (siga @jusimon) é jornalista apaixonada por seus fones e por São Paulo

Leia também:
– Entrevista: Mallu fala sobre seu terceiro disco, “Pitanga”, para Marcos Paulino (aqui)
– “A Força do Hábito”, Poléxia: o universo romântico e inocente, por Marcelo Costa (aqui)
– – Especial (2004): O novo rock de Curitiba em dez discos, por Marcelo Costa (aqui)

11 thoughts on “CD: A Banda Mais Bonita da Cidade

  1. Se o tempo não vencer o hype o disco deve funcionar; mas se o ranço prevalecer também teremos o problema da birra.Deixarei pra ouvir este disco em 2014 livre de preconceitos coxinhas e com a poeira assentada(se é que vai haver alguma poeira levantada).

  2. Concordo com o Leo, vou deixar pra ouvir mais tarde, quando a poeira baixar. E também, por questão de curiosidade ou algo que o valha (sei lá o que me deu), metade do disco eu já tinha ouvido em músicas avulsas que a banda tinha liberado nas redes sociais. Então, também vou deixar quando o enjoo dessas músicas passar – se é que vai passar.

  3. Baixei o disco, e achei muito bom. Me surpreendeu também, achei que a banda não iria muito além das musicas que estavam no youtube, apesar de serem promissoras e de nenhuma (!)delas estar no disco. Acho um pouco precipitado fazer julgamentos no momento, a não ser que não tenha condições de analisar uma musica ou um disco, tipo os quatro de cima. Ao contrário do que se sugere, é um disco melancolico, teatral, denso e muito tenso em algumas partes. Mal comparando seria o REM do Shinny Happy People com o Automatic for the People, é por ai que senti. E acho que a tendência é continuar assim (procurem por videos no Teatro Guaira, em Curitiba, e saberão do que falo). O disco é muito bom e assim que fica. Enquanto isso, vão perder tempo discutindo o sexo dos anjos. Devem ser melhores nisso.

  4. muito bom isso:’ O fato é que torcer o nariz para “Oração” e desistir de ouvir o resto do trabalho é um erro. A sonoridade deste primeiro CD é tão variada e competente que parece difícil não encontrar pelo menos uma coisa que agrade os ouvidos.

    Produções bem-feitas e independentes como esta merecem uma audição mais atenta e desarmada. No caso d’A Banda Mais Bonita da Cidade, o hype provoca, mas infeliz de quem tomá-lo por repelente e deixar de conhecer as outras facetas do grupo’

    acho incrivel como encontro aqui nesse espaço um numero grande do ‘não ouvi e não gostei’ ou ‘se todos falam bem é porque não presta’…

    é muita gente ‘muderna’ pra minha cabeça. então quando leio o que a juliana escreveu suspiro aliviado…há bom senso ainda. que bom.

  5. Juliana, acabei de ouvir o disco. varias vezes na verdade. não concordo com algumas coisas…’boa pessoa’ está longe de ser uma derrapada. solitária e nunca são muito legais…
    e se eu corro é foda.

  6. Pra musica ser boa ela tem que em algum momento crescer? Essa banda veio com um basta à população, basta de escala harmônica e perfis padrão para se fazer sucesso. A Banda Mais Bonita da Cidade criou seu próprio estilo em um álbum musical cheio de alternancia e capricho, com músicas estrahas aos ouvidos daqueles que não querem a mudança. “Solitária”, “Nunca” e “Boa Pessoa” são musicas excelentes e farão tanto sucesso como “Oração”, e no caso, “Solitária” já vem conquistando mais e mais fãs com o belíssimo texto de Luiz Felipe Leprevost servindo de adorno. Um álbum excelente, e concordo com Juliana Simon quando diz que é preciso uma audição desarmada para escuta-los com um olhar crítico um tanto justo.

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