Entrevista com Giancarlo Rufatto

por Bruno Capelas

Se Rob Fleming, o herói do livro/filme “Alta Fidelidade”, escrevesse canções, muito provavelmente elas soariam como o trabalho de Giancarlo Rufatto. “Machismo”, lançado virtualmente no ano passado, está repleto de histórias sobre esse novo tipo de personagem contemporâneo – o homem sensível, com um pé na adolescência e outro na imaginação, fã de cultura pop e um tanto quanto imaturo. “O álbum era uma ode a falta de jeito do homem para com os relacionamentos”, explica o cantor e compositor.

Natural de Coronel Vivida, uma pequena cidade do sudoeste do Paraná com cerca de 22 mil habitantes, Rufatto atualmente mora em Curitiba. Entretanto, ele não nega que sua origem influencia sua música e ser cita Leandro e Leonardo ao lado de Legião Urbana e Jeff Buckley como referências para sua formação. Tal como Ryan Adams, um de seus heróis, ele também é um compositor prolífico – de 2006 para cá, ele lançou nada menos que dez trabalhos, entre singles e discos inteiros, além da carreira com a Hotel Avenida, banda na qual dividia os vocais com Ivan Santos, do OAEOZ, e que encerrou suas atividades no último mês de maio.

Foi durante a vinda da Hotel Avenida a São Paulo, para dividir um show com o Lestics na Livraria da Esquina, que Rufatto concedeu essa entrevista ao Scream & Yell. Nela, além de falar sobre sua obra e suas influências, o artista também comentou sobre a cena de música independente, o revival dos anos 90 que começa a pipocar aqui e lá fora e também sobre como a Internet muda o seu modo de produzir música: ”É bom porque é plug-and-play: tu grava, e não demora muito tempo pra lançar. O tipo de música que eu quero fazer se encaixa direitinho nessa proposta”.

Seus discos estão liberados gratuitamente em seu blog (http://giancarlorufatto.blogspot.com/) com destaque para os dois singles recentes: “2” traz “Tão Distante”, – que segundo Rufatto conta, “era uma daquelas (canções) que ficavam num caderninho, no armário velho na casa da minha mãe” – e uma versão de “Ando Só”, dos Engenheiros do Hawaii, elogiada por Humberto Gessinger. “1” foi um single de Dia dos Namorados e compila as faixas “Dramalhão”, “Última Valsa (ou Valsinha)” e “33”, cover do Smashing Pumpkins. Ainda estão lá os álbum “Machismo” (2010) e “14 Canções” (2008), entre outros. Com vocês, Giancarlo Rufatto.

Como é para você tocar em São Paulo?
Estou morrendo de medo, na verdade. Porque em Curitiba a gente meio que sabe fazer divulgação, sabe levar a galera, faz promoção, sabe encher um local. Aqui (em São Paulo) tem muita coisa acontecendo. Para sair no jornal… tem que ser amigo dos caras, e lá em Curitiba, não. Você tem contato com todo mundo de jornal. Eu trabalho no SESC, e então quando mando algo que vai rolar lá também mando o meu. Aqui eu não conheço nada, cara. Sem falar que é uma grana que vai pra tocar, sendo que música pra gente é mais uma diversão que outra coisa. Estou com medo mesmo, e o fato de estar resfriado hoje é bem por causa disso.

É engraçado, porque tem certas coisas no teu trabalho que ouço e falo: “Isso é Curitiba”.
Cara, não acho que é Curitiba. Lá mesmo não tem nenhuma banda que faz um som naquele esquema. Antigamente as bandas tinham aquele apreço de fazer algo diferente, hoje em dia nem tanto. Aquele vício do indie: “Ah, nós somos assim mesmo e ponto, então fazemos o que nós queremos”. Em todo lugar tem disso – aqui em São Paulo mesmo tem bastante. E é complicado: cada puta banda legal aqui, que o pessoal elogia e fala horrores, vai num show e toca para 30, 40 pessoas, e isso é normal.

Outro dia mesmo houve um show do Nevilton no SESC Vila Mariana e saí correndo para comprar, achando que iria acabar. Cheguei lá e num espaço para cem pessoas tinha trinta…
O Nevilton sofreu do mesmo mal lá em Curitiba tocando no John Bull, que é um lugar pra 400 pessoas. Tem que tocar… (mas) não é porque a pessoa está na MTV que ela tem público. A MTV não significa mais nada hoje. Já não significa há muito tempo. Dizer que o nosso som parece Curitiba? Hoje a banda que acho que mais parece Curitiba é a Sabonetes, a Gentileza. Mas essas bandas, ao mesmo tempo, também parecem bandas de São Paulo ou do Rio. Tem o Charme Chulo também. Não será (que você acha que é Curitiba) pelas músicas que faço terem alguma referência à cidade?

É mais por essas referências…
Entendo, mas acho que, como canção, tento fazer alguma coisa o mais universal possível, sabe? Faço isso direto, e tipo, é legal, mas acho que não se resuma só à cidade (de Curitiba). É uma referência à cidade (de Curitiba), mas poderia ser qualquer cidade. A música que você está falando, “Curitiba, se você sorrir, te dou um doce”, é o caminho de casa para o trabalho. Sei lá, eu achava que tinha que colocar um nome e acabei colocando, mas é a única. A gente tem muito mais um sotaque do que um som da região. O sotaque acaba aparecendo mais quando a gente fala. O Sabonetes teve um pouco isso: eles meio que cortaram o sotaque. Acho que o sotaque é a grande diferença em Curitiba.

Uma coisa muito bacana no teu disco é você ter gravado em lo-fi, não se importando com a sujeira, ou a baixa qualidade. Por que isso?
Acho que o tipo de música que quero fazer se encaixa direitinho nessa proposta. É diferente gravar ao vivo, com som bonitinho, ou em casa, comigo gravando tudo. Em casa é gravar, gravar, gravar, de um jeito legal. Se puder tocar tudo e gravar também, legal. Agora comprei um microfone caro – antes gravava com um microfone de R$ 10. Eu me orgulhava de ter gasto R$ 20 para gravar o “Machismo”. Gastei o quê? Energia elétrica e internet. E comprei papel reciclado, para capinha ficar com cara de velha. Deu R$ 20 reais no total. Agora não. Também comprei um violão de doze cordas, um acordeom… para brincar de ser o Jeneci…

Aquele texto que você escreveu sobre ele no teu blog é sensacional…
A gente trouxe o Jeneci para fazer um show, e eu estava empolgado, minha chefe também – ela já conhecia ele há muito tempo, quando ele ainda era músico de apoio. E então comprei um acordeonzinho de brinquedo, tem oito baixos para fazer três notas, assim, sabe? E sei lá, gravo na sala de casa, ou no quarto, e às vezes, se tu aumentar o som das minhas gravações, dá para ouvir as velhinhas lá fora, porque moro num prédio que tem muitas velhinhas, e dá para ouvir elas falando do outro lado da parede. É porque o microfone é muito bom.

Mas isso é questão de estética, ou é pressa de colocar as músicas na internet…
As duas coisas. Tem uma necessidade de lançar, porque se não toco assim não sai. E tem a opção do som mesmo. Gosto muito do som de antigamente, analógico. Comprei um iPad agora para brincar, mas não é muito a minha praia. É digital, muito tecnológico. E gosto de som assim mesmo. Se der para gravar bem, com estúdio… mas em casa crio um arranjo na hora, e se ficar legal, beleza. Tem umas coisas que dá pra você fazer em casa que é muito difícil fazer em estúdio, pelo menos Curitiba não tem isso: alguém que tope fazer isso aqui (estala os dedos) durante uma música inteira. Ou que pegue uma madeira e fique batendo no chão, feito um bumbo. Não tem ninguém que tenha essa proposta. E consigo fazer em casa: tenho vergonha de fazer na frente dos outros porque é feio, e em casa faço muito bem. Só que com banda não tem que fazer isso. Banda é banda e acabou. Não tem que ficar fazendo um surdo durante cinco minutos. O [Thiago] Pethit, num show em Curitiba, convidou uma percussionista e ela passou o show inteiro tocando bumbo, batendo palminha e tocando um tonzinho. Acho muito foda fazer isso. Não é fácil, sabe? Mas quem é que vai fazer? Imagino que em São Paulo, ou no Rio, os produtores consigam achar pessoas que façam isso, mas em Curitiba não tem. É plug-and-play: tu grava, e demora muito tempo pra lançar. Minha vida é tocar na rua, nas praças de Curitiba, no metrô.

A Apanhador Só está fazendo uma coisa assim…
Poxa, isso é legal pra caramba! E o disco deles é muito acessível, as letras são bem populares, então isso funciona para qualquer pessoa. Eu mesmo tento fazer música que a minha mãe goste…

E ela gosta?
Hoje ela gosta. Antes odiava. Eu tinha um projeto chamado Lo-Fi Dreams, indiezão, cheio de guitarras shoegaze, e ela odiava. Não dava para entender nada. Agora não: ela ouve, diz que não gosta das músicas porque fico zombando de Deus, mas é isso que é legal. O lo-fi permite essas coisas. Trabalho no SESC, então segunda-feira não tem expediente. Faço o quê? Fico em casa, plugo o microfone novo e faço alguma coisa. Nas duas últimas semanas gravei um cover do Smashing Pumpkins de tarde, e coloquei à noite no Soundcloud. No outro dia gravei uma música nova, demo. Comecei a ouvir umas coisas diferentes, hardcore, a cena de São Francisco, meio barulhenta. Adoro o Gaslight Anthem, de Nova Jersey: eles pegaram a veia do Bruce Springsteen e a veia do hardcore e juntaram numa só, e ficou muito bom.

A ideia é ficar em Curitiba e de fez em quando sair pra algum lugar?
É por aí mesmo. Não tenho mais a pira do Nevilton de sair no Fiat Uno deles e ir tocar no Brasil inteiro. Hoje em dia, por ter muita banda tocando, todo mundo tem um apreço… as pessoas tentam fazer as coisas bonitinhas, para chamar a atenção. Trabalhar com cultura é foda, né. Então tu recebe um monte de release por semana, de banda que não sabe escrever sobre si mesma, ou descrever o que toca, ou que sabe tocar e gravar, mas não sabe dar uma entrevista, falar sobre influências ou sobre outras bandas.

O nome do teu disco é “Machismo”, mas várias canções mostram personagens sentimentais, românticos e tal. Como tu vê a figura do macho hoje em dia?
“Machismo” é uma piada sobre sentimentalismo masculino, sobre a mulher ter ficado durona e os caras ficarem sentimentais. O Brasil, por exemplo, fabrica um Jeneci para cada dez Maria Gadú. O álbum era uma ode a falta de jeito do homem para com os relacionamentos. “Machismo” não se resume a mim. Existem muitos (outros) homens da minha vida: meu pai de criação, meu pai de sangue, meu avô, etc. São musicas sobre eles e sobre a forma antiga de ver as coisas, “saudando os tempos áureos da heterossexualidade” – como dizia uma comunidade do Orkut.

Algumas pessoas começaram a tocar música que todo mundo fala que é brega. A Tiê gravou Calcinha Preta, o Letuce tocando Só Pra Contrariar e Raça Negra…
Ah, mas o Letuce faz isso há um tempão, cara! A Letícia, ela faz isso desde 2008, 2009. A gente começou agora…

E então você regrava Leandro e Leonardo, “Não Aprendi Dizer Adeus”…
A Hotel também fez (fazia) “Nuvem de Lágrimas”, e eu tinha gravado antes uma versão indie. Há um monte de versões assim: “Chico Mineiro”, “Longa Estrada da Vida”… Na minha cabeça, a ideia é tocar coisas que marcaram a minha infância. Guns’n Roses, por exemplo. Ou Bon Jovi, essas versões diferentes. A gente andou ensaiando uma versão do Roxette esses dias. Fazer cover qualquer um faz, mas precisa ter uma cara – até para poder “estragar” a música dos outros…

Não ser só um cover…
É referência, sabe? Que as pessoas entendam que é uma ironia. Mais ou menos o que a Letícia (do Letuce) fez com Só Pra Contrariar e Raça Negra. É legal pra caramba aquilo. No show, a galera não canta: grita a letra. E é um showzão. A mulher tem 1,90m, e essa música é muito foda. Daí ela faz uns gestos, cria um clima com o namorado dela, que é o guitarrista. Ela mostra exatamente isso que quero passar. O Jeneci também tem isso. Ele toca umas coisas meio bregas, que foram referência pra ele. Nem acho que é uma tendência. É só uma geração que está na casa dos 25 aos 35 anos e cresceu ouvindo FM, pegou o final dos anos 80 já ouvindo sertanejo, grunge, misturando tudo. É meio assim: nos anos 90, o pessoal gravava coisas dos anos 70. Nos anos 2000 veio essa onda de tocar coisas da new wave…

Tem uma frase do Scandurra que é mais ou menos assim: a cada dez anos a gente percebe que aconteceu uma coisa muito legal a cada vinte anos.
E é legal isso, cara! Estou pensando seriamente em comprar uma guitarra para voltar a tocar grunge. As camisas xadrez já voltaram à moda…

Uma amiga foi ao show do Teenage Fanclub e falou que o lugar estava cheio de hipsters, mas as pessoas que estavam lá são as que usavam xadrez desde os anos 90…
E é engraçado… o (André) Barcinski escreveu um texto legal sobre as bandas que nunca acabaram, e justamente são ícones, no caso do Teenage e do Mudhoney. Ele falou que elas emblemam a Inglaterra e os Estados Unidos daquela época. O Brasil mesmo não tem nenhuma banda que seria símbolo dessa época… mas quem poderia ser? Mundo Livre S/A? Pato Fu?

Ah, mas nenhuma delas fez tanto sucesso assim para representar…
Nação Zumbi? Não sei… acho que Capital Inicial (risos). Não consigo lembrar de nenhuma, mesmo. Sei lá, é difícil fazer sucesso. Acho que até conseguiria viver de música tocando para 100 pessoas todos os dias. Seria lindo. No resto do mundo você tem como fazer isso, mas aqui no Brasil não dá.

Você estava falando de quando era criança… isso conta bastante também no que você faz?
Acho que conta. Passei 2008 inteiro morando na casa da minha mãe – eu morava em Curitiba, surgiram uns problemas e voltei para o interior, Coronel Vivida. E foi o período que mais compus. Até hoje tem coisa saindo que é daquela época. Tem música sobre a minha mãe, o meu avô, a minha avó, mas não exatamente sobre eles. Não são sobre mim, mas sobre um monte de gente. É como fazer as pazes com as coisas que você renega. A cada tempo você é obrigado a olhar pra frente, e pra conseguir ouvir uma coisa precisa renegar outra. Eu tive uma época que era só indie, indiezão, e você se esquece de tudo, acha tudo uma merda. Você renega tudo que tem, depois você volta. É como encontrar uma namorada antiga – tu não precisa voltar com a namorada, na verdade, só dar um oi, tomar um café, dizer que está tudo bem.

Uma coisa assim meio “Alta Fidelidade”… aproveitando o mote, para encerrar: cinco discos e cinco músicas que te fizeram tocar, ou que foram importantes para você, ou simplesmente que tu considera as melhores do mundo.
Discos? “Use Your Illusion 1” e “2”; “Crossroads”, do Bon Jovi, “No Code”, do Pearl Jam, “Grace”, do Jeff Buckley e qualquer um da Legião, acho que “O Descobrimento do Brasil”. Daria para citar Leandro e Leonardo, mas não consigo lembrar qual disco. Músicas não saberia dizer. Gosto muito de “Long as I Can See The Light”, do Creedence, coisa da minha mãe. “Don’t Cry”, “I’ll Be There For You”, “Growing Up”, do Bruce Springsteen – a versão acústica foi umas das primeiras que ouvi, é importante, mas não mais que “Os Barcos”, da Legião, ou “Pinhal”, do Cidadão Quem. Acho que não sei fazer listas sobre o passado.

Download: baixe os álbuns “Machismo”, “14 Canções” e “Cancioneiro 3” clicando nas capas:

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– Bruno Capelas é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop

Leia também:
– Ao vivo: Letuce e Marcelo Jeneci no CCBB-SP, por Marcelo Costa (aqui)
– Entrevista: Nevilton e Heitor Humberto, por Marcelo Costa e Tiago Agostini (aqui)
– CDs: Tired Pony, Gaslight Anthem e The Transatlantics, por Adriano Costa (aqui)

7 thoughts on “Entrevista com Giancarlo Rufatto

  1. Boa entrevista! O Rufatto é mais lúcido que a maioria dos artistas, é uma pena que ainda seja subestimado. Pra mim é das poucas coisas boas da música nacional.

    E concordo muito com as influências. No code é clássico, Legião e Cidadão Quem não podem ser negados, e Leandro e Leonardo têm seu valor.

    Só o Jeneci que eu acho uma bosta, hehe.

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