Cinema: Vejo Você no Próximo Verão

por Marcelo Costa

Jack trabalha para seu tio como motorista de limusines. Ele mora em um porão, gosta das vibrações positivas do reggae, e é meio calado. Não sabe nadar. Não sabe cozinhar. Está tentando uma vaga para trabalhar no metrô de Nova York. Aparentemente já passou dos 40 anos, mas não tem experiência em relacionamentos, algo que seu melhor amigo – o também motorista de limusines Clyde – quer ajudá-lo a resolver apresentando-lhe uma amiga de sua mulher, Lucy.

Connie, a amiga, também parece ter passado dos 40 anos, e não tem nenhum tato para primeiros encontros. No primeiro jantar em que conhece Jack (na casa de Clyde e Lucy), ela entretém a mesa contando as agruras de seu pai em coma em um hospital – e como foi cantada por um dos enfermeiros enquanto o pai dormia profundamente. “Ele acordou depois de seis meses”, ela diz. “Isso é um milagre”, alguém comenta. “E ao sair do quarto quando recebeu alta, tropeçou, bateu a cabeça e morreu”. Silêncio.

A primeira meia hora de “Vejo Você no Próximo Verão” (“Jack Goes Boating”, 2010) é enternecedora. Jack tenta falar, expressar de alguma forma o que está sentindo, mas apenas balbucia palavras timidamente sob a neve. O que se vê na tela é uma luta constante entre sua timidez e a vontade de ir adiante. Connie também não parece nada à vontade, mas ela está tentando, quer também ir adiante. A possibilidade os move em direção ao futuro (ao verão). Esse é o lado cômico romântico da trama.

Do outro lado da mesa há um casamento em crise silenciosa. Clyde aceitou Lucy após ela traí-lo (e não foi só uma vez), mas (apesar de aceitar) não consegue esquecer isso. “Isso me acompanha sempre”, desabafa. Lucy também diz que foi traída. Embora nitidamente infelizes, o casal trabalha duro para que Jack e Connie dêem certo, talvez buscando algo que para eles se perdeu. “Vejo Você no Próximo Verão” é como uma balança: de um lado, um relacionamento em alta; do outro, um casamento em baixa.

Em sua estreia como diretor, Philip Seymour Hoffman (que interpreta Jack) aposta na simplicidade – e convence. “Jack Goes Boating” (baseado na peça teatral de mesmo nome – que tinha Hoffman no mesmo papel – com roteiro assinado pelo autor, Robert Glaudin) contrapõe a fórmula “garoto-conhece-garota” (não tão “garotos” aqui) com a traição do casal amigo para valorizar um sentimento (talvez fora de moda e um pouco piegas) de fidelidade. “Não quero ser como eles”, diz Connie – mas nem precisava.

“Vejo Você no Próximo Verão”, no entanto, dribla a pieguice com um roteiro bem cuidado e com atuações pontuais de um ótimo elenco – Hoffman (Jack), Amy Ryan (Connie), John Ortiz (Clyde) e Daphne Rubin-Vega (Lucy) – resultando em um bom filme, que exibe os erros de um principiante (como o didatismo ingênuo de algumas passagens, vide o abrir os olhos de Jack na aula de natação, metáfora que busca mostrar o personagem abrindo os olhos para uma nova vida), mas convence no saldo final.

Como diretor, Philip Seymour Hoffman parece ter buscado realizar um filme honesto sobre um homem (virgem?) de 40 anos que conhece uma mulher. Os cacoetes do gênero estão presentes, mas há uma delicadeza (e até certa falta de vaidade) no olhar do ator/cineasta que transforma o filme em algo… especial. Mesmo assim, não espere o melhor filme do ano: “Vejo Você no Próximo Verão” é apenas uma história comum filmada com simplicidade. Às vezes não é preciso mais do que isso.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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