Criolo fala do Festival Black na Cena

por Marcelo Costa

Você já experimentou contar quantos festivais de música vamos ter neste segundo semestre de 2011? Provavelmente vamos esquecer vários nesta lista rápida, mas teremos pela frente os gigantes SWU Music and Arts Festival e Rock in Rio, o grande Planeta Terra e alguns festivais interessantes como o Popload Gig, o Fourfest e o Back2Black (para ficar apenas em seis, mas tem muito mais). Dólar baixo e o poder aquisitivo maior do povo brasileiro animaram produtores que saíram atrás de artistas lotando o calendário de grandes shows.

Responsável por um dos line-ups mais interessantes de festival em Terra Brasílis neste período, o Black Na Cena baixa na Arena Anhembi, em São Paulo, no fim de semana de 22 e 24 de julho, abarrotado de atrações imperdíveis. “Nossa escolha foi feita pela representatividade dos artistas de acordo com o conceito de cada dia. O artista tinha de ter conteúdo e reconhecimento dentro da agenda que está dividida em: clássico, popular e rap”, explicou ao Scream & Yell – via email – Ricardo de Paula, diretor da Entre Produções, idealizadora e realizadora do festival.

O cuidado com a escalação pode ser percebido pela variedade e amplitude do elenco: George Clinton, fundador do Parliament-Funkadelic, Seu Jorge, Sandra de Sá, O Baile do Simonal, Tony Tornado, Public Enemy, Lee Scratch Perry encontra Mad Professor e Roto Roots, Marcelo Yuka, Jorge Ben Jor, Black Rio convida Slim Rimografia, Criolo e Negra Li, Method Man, Racionais MC’s, Thaíde com Funk Como Le Gusta e Sandrão, majestade da RZO (entre outros – veja a lista completa aqui) tem tudo para fazer um festival divisor de águas.

“Começamos a idealizar o Black na Cena há um ano e meio”, conta o produtor Ricardo de Paula. “A ideia surgiu do fato de não haver um festival de música black no Brasil, como já havia de rock, de reggae, de música eletrônica, etc. Os artistas até fazem shows por aqui, mas não existia um festival que desse o peso necessário aos vários ritmos da influência afro na música”, avalia Ricardo, que percebeu um filão não explorado no cenário de shows e festivais nacional, e colocou mãos a obra. Nasceu o Black na Cena.

A produção espera 60 mil pessoas em três dias de festival. ““Nosso objetivo é integrar artistas consagrados no Brasil e no mundo”, avisa o produtor. “O público certamente pode esperar um festival vibrante, organizado e com shows de ótima qualidade. Tenho certeza de que todos irão se surpreender!”, garante Ricardo, que despista (mas não desmente) a possível realização do festival novamente em 2012: “Estamos focados na realização da primeira edição do evento. Assim que finalizarmos, contaremos o que estamos planejando para o próximo ano”.

Para saber um pouco sobre a expectativa da primeira edição do Black na Cena para quem irá subir no palco, Bruno Capelas bateu um papo por telefone com Criolo, cantor responsável por um dos grandes discos de 2011 (o obrigatório “Nó Na Orelha” – baixe gratuitamente aqui). Criolo cantará no Anhembi ao lado da mítica Banda Black Rio. “É uma proposta que quer falar das nossas raízes, de cultura, de mostrar um pouquinho mais da história dessa cultura. A música serve para isso”, afirma Criolo. Abaixo, o bate papo com o cantor. Na sexta, sábado, e domingo, o festival promete.

por Bruno Capelas

Kleber Gomes tem mais de duas décadas de bons serviços prestados ao rap nacional. Conhecido por Criolo – uma redução do antigo nome artístico MC Criolo Doido, ele vive um momento especial da carreira devido ao reconhecimento de seu segundo disco, “Nó Na Orelha”, produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

“Nó Na Orelha” é um trabalho que vai além dos limites do rap e traz à tona incursões de Criolo por outros ritmos e estilos, como o samba, o afrobeat – e traz em si pelo menos um petardo imediato, “Não Existe Amor em SP”. No dia 23 de julho, ele canta como convidado da Banda Black Rio no Festival Black na Cena, que terá lugar na Arena Anhembi, em São Paulo. O Scream & Yell conversou com o cantor para saber suas expectativas sobre o primeiro Black na Cena. Confira:

O Black na Cena se propõe como um festival de artistas que tem alguma influência de música negra. Como você vê isso? Dá pra juntar todo mundo nesse “balaio”?
Nós estamos juntos, né. Só de buscarmos a música que gostamos, acredito que já estamos juntos. O festival tem seu valor já por celebrar essa união.

Mas ser um festival de música negra não delimitaria a música? O rótulo não faz com que a música perca sua universalidade?
Concordo com o que você falou, totalmente. Música é universal. Mas quando a gente fala em música negra, acredito que seja uma situação das origens de determinado segmento. Pra não ter dúvida, a música negra é algo grandioso. É algo lindo e especial porque suas origens registram a beleza dos tambores, os porquês de compor as letras, os porquês de cantar de tal forma. E isso é algo que vem de séculos. Acredito que é uma estética que vem para agregar valor com todas as outras artes que existem no planeta. Do mesmo jeito, acredito que pessoas que vem de outras esferas, em suas artes – seja ela qual for -, falam de suas origens.

Então nesse caso, não se trata de um rótulo…
Não! Eu não consigo ver de outra forma. Pra mim não está nesse âmbito enxergar algo que não seja simpático. Algo que diga: “Isso não é para você”. É uma proposta que quer falar das nossas raízes, de cultura, de mostrar um pouquinho mais da história dessa cultura, e a música serve para isso. A música serve no sentido de difundir. É algo espiritual. É algo que vem para somar e agregar, e que emociona tantas pessoas em tantos lugares do mundo. O festival tem que unir forças. Isso é importante. Particularmente acho que tem que ter mais desses porque a gente tem que estar unido, unido, unido… porque isso é algo que abre portas para o nosso povo, para os nossos meninos, para os irmãos que estão cantando nessa corrente do bem. Acredito nisso.

Como é que vai ser o show com a Black Rio? De onde saiu essa parceria?
Pra mim é uma grande honra tocar com a Black Rio. Vou encontra-los para ensaiar e a primeira coisa que vou fazer é agradecer, agradecer muito, porque eles tem uma página na história da música brasileira que é muito bonita. É uma honra muito grande (tocar com eles). Na verdade, vou tentar não atrapalhar o que eles estão fazendo, e fazer valer o convite.

Falando um pouco sobre o teu disco agora… Uma coisa muito interessante: há uma mudança de sonoridade comparando com o primeiro. O primeiro disco é um disco mais de rap. O “Nó na Orelha” mescla mais coisas. Você trouxe samba, afrobeat, dub… por quê isso?
Quando entrei no estúdio pra fazer o “Nó na Orelha”, a gente não sabia o que ia acontecer no final. É um disco em que o porquê da gente ter ido para o estúdio responde tudo. Eu já vinha de vinte anos no rap nacional, e sempre me questionei: “Até que ponto estou contribuindo de verdade? Até que ponto o que estou fazendo, com essa forma de cantar, com esses temas, eu estou na cena ali contribuindo?”. Depois de duas décadas, considerei que tinha contribuído um pouquinho e pensei que tinha tanta gente maravilhosa chegando, e que estava arrebentando. Percebi que era verdade esse meu movimento de estar junto dessas pessoas, mas que era hora de sair um pouco do palco. Lógico que continuaria escrevendo minhas canções, continuaria cantando, mas não com aquela necessidade de estar no palco. Então fui por achar que era hora de dar espaço para esse pessoal. Mas o que pouca gente sabe é que sempre compus meus sambas, sempre fiz minhas canções. O meu pai e a minha mãe são cearenses. Através deles escutei todo tipo de música nordestina. Sou nascido e criado na favela do Grajaú, na época, ali também Jardim das Imbuias, e estou sempre junto do meu povo, escutando vários tipos de som. Então acabou que foi desaguando vários outros ritmos. Um rapaz da Matilha Cultural, que é meu amigo, chegou e falou: “Vamos registrar isso aí que você está fazendo e que pouquíssima gente sabe?”. Eu estava fazendo vários sambas naquela época – e eu sou aquele tipo de cara que, se a gente se encontrar, e eu já estiver escrevendo a letra, eu vou virar e falar: “Rapaz, olha essa letra aqui…”. Gosto da pluralidade. (Por exemplo) o afrobeat – que eu nem sabia que era afrobeat. Cheguei no estúdio para cantar “Bogotá” com a maior cara deslavada, e não sabia que era afrobeat. Foi uma coisa muito natural. Jamais imaginei que fosse rolar isso que rolou. Eu estava quase pendurando as chuteiras, agradecendo essas duas décadas e às pessoas que me acompanharam na cena do rap – até porque não é fácil aguentar uma pessoa por vinte anos, e foi isso: um presente de Deus, de um conjunto de pessoas queridas, e de todo mundo estar em prol de me incentivar. “Cara, faz esse teu disco aí. Canta teu samba, canta o que tu quiser, porque é bom”. E foi isso que aconteceu, cara.

E é engraçado que muita gente que está falando de você hoje fala como um artista novo, não um cara que tá aí há duas décadas...
Se a gente entra num restaurante e vê um senhor de sessenta anos de idade… ele é novo pra gente. É a primeira vez que a gente o vê, né? E aí, a gente tendo respeito por aquele idoso, quando ele conta algum causo a gente vai lá, fica quietinho e acaba conhecendo ele e vê que ele viveu sessenta anos, né, meu? Do mesmo jeito que tem um monte de cara que já tá velhão, mas tem um monte de coisa pra falar. É isso, e eu só agradeço. Pessoal fala pra mim: “Pô, então, você é um cara novo e tal”. Eu falo: “Muito obrigado por estar ouvindo minha música – gostando ou não gostando”. Pra mim é uma honra. Você não imagina como é que está meu coração: cantar com a Banda Black Rio no dia que o Public Enemy também vai tocar. Os caras que estão ali há tempos, são ativistas do rap, operários do rap mesmo. Estar no meio de todas essas pessoas que fazem música. Artista independente é aquele que leva a responsa, sabe? Eu já ralei, ralei, e ralo até hoje. Isso tudo pra mim é muito bom. As pessoas estão me dando oportunidades. O Emicida me convidou para o videoclipe dele, me deu uma oportunidade. O Instituto me convidou pra fazer outra coisa, me deu uma oportunidade. Só tenho a agradecer mesmo. A história desse disco é essa aí mesmo: um pouquinho de várias coisas. Não tem muito o que inventar não, ou querer criar mística. É uma história simples de gente que está na luta.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Bruno Capelas (@noacapelas) é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop
– Fotos do Criolo por Liliane Callegari (@licallegari), arquiteta e fotógrafa. Veja mais fotos aqui

Leia também:
-“Nó na Orelha”, de Criolo, por Bruno Capelas. Assista também a três vídeos ao vivo (aqui)

Links:
– Festival Black na Cena: infos de ingressos, horários e mais: http://www.blacknacena.com.br/
– Baixe gratuitamente o disco de Criolo aqui: http://criolo.art.br/criolononaorelhahotsite/

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