CD: Hardcore Will Never Die, Mogwai

por Bruno Faleiro

O bom humor e a melancolia sempre estiveram presentes nos trabalhos do Mogwai. Normalmente, a primeira faceta está ligada aos irreverentes títulos dos discos e canções, como em “Happy Songs for Happy People”, “Ex-Cowboy” e “Mogwai Fear Satan”, enquanto a segunda é percebida pela densidade e sutileza utilizadas nas composições do apoteótico pós-rock do grupo escocês.

Contudo, em “Hardcore Will Never Die But You Will”, estas concepções são parcialmente invertidas. Enquanto o genial título invoca a nostalgia e o desalento de toda uma geração, o som é, curiosamente, a mais ensolarada produção do Mogwai nos últimos anos.

A mudança na sonoridade do grupo já era esperada quando Paul Savage foi anunciado como produtor responsável pelo projeto. Ao lado de Andy Miller, Savage foi um dos produtores do aclamado “Young Team’, de 1997, o primeiro disco cheio composto pelo Mogwai (“Ten Rapid”, do mesmo ano, é uma compilação dos singles lançados anteriormente pelo grupo), que ganhou reedição dupla caprichada em 2008 e turnê comemorativa com o álbum sendo tocando na integra no mesmo ano.

Porém, para a surpresa de todos, apesar do carinho da banda e do produtor por “Young Team”, “Hardcore Will Never Die But You Will” não representa uma volta à sonoridade dos primórdios e sim um novo direcionamento de timbres, dinâmicas e paisagens.

Um dos métodos mais eficazes para a assimilação de uma música instrumental é relacionar os sons com lugares e climas. Nesta viagem, “Hardcore Will Never Die But You Will” passa por rotas de atmosferas gélidas e subterrâneas (“Letters to the Metro”), e também por quentes estradas (“San Pedro”).

O primeiro destino é “White Noise”, com grande abertura em clima épico que atinge seu clímax nos minutos finais. Na sequência sruge “Mexican Gran Prix”, a primeira faixa destoante da obra. Além da pegada mais objetiva, a canção possui melodia vocal e conta com vozes robóticas intermitentes.

Toda tentativa de fuga da zona de conforto está sujeita ao erro. E foi o que aconteceu quando o Mogwai passeou pelo uso de vocais. Assim como “Mexican Gran Prix”, “George Square Tratchter Death Party “também aposta nessa fórmula e destoa da qualidade do resto do material.

Em contraponto, quando os escoceses se destinam ao retorno do uso de distorções saturadas, o resultado é inquestionável. Um dos momentos mais belos do disco é a introdução de “Rano Pano” (que ganhou um clipe divertido). Gradativamente surgem três guitarras sujas se sobrepondo até a entrada do baixo, também distorcido, e, por fim, uma bateria comportada, até que os instrumentos isolados se transformem em uma massa sonora compacta.

Aliás, a simples e eficiente bateria também é um traço marcante do novo álbum do Mogwai. O baterista Martin Bulloch sofre há anos de um problema cardíaco, que já ocasionou cancelamentos de turnês inteiras do grupo. Desde então, Bulloch se direcionou para um estilo com levadas mais contidas e menos rápidas, o que, felizmente, funciona perfeitamente no novo disco.

Encerrando o primeiro grande álbum de 2011, o Mogwai evoca a idéia explicitada no primeiro parágrafo. O bem humorado título “You’re Lionel Richie” (uma resposta a “I’m Jim Morison, I´m Dead”?) é contraposto pelo clima cinzento e andamento arrastado da mais longa música do disco, com mais de 8 minutos. No destino final, quando o olhar se volta ao caminho percorrido, mesmo com os pequenos percalços, o saldo da viagem é amplamente positivo, a ponto de instigar o regresso a determinadas paisagens.

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Bruno Faleiro (@faleirofaleiro) é jornalista, edita a Revista do Cruzeiro e assina o Faleirolandia.

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Leia também
– Perdido em Firenze e o inferno do Mogwai na Itália, 2009, por Marcelo Costa (aqui)
– 500 Toques: As sinfonias de guitarra de “Young Team – Special Edition”, por Mac (aqui)
– Mogwai em São Paulo em 2002, duas noites de barulho e risos, por Marcelo Finateli (aqui)
– “Rock Action”, do Mogwai, é o som de demônios sendo moídos, por Diego Fernandes (aqui)

5 thoughts on “CD: Hardcore Will Never Die, Mogwai

  1. Discordo, as músicas com vocal são tão boas quanto as outras. Através do uso de vários efeitos na voz, ela se transforma em outro instrumento, em mais uma linha melódica, sem deixar de existirem as palavras, o que pra mim só soma na composição final. Além disso, gosto dos timbres usados, não só no vocal como em todos os instrumentos.

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